Lentinus edodis (Berk.) Pegler,
o cogumelo Shiitake.

 

 

A classificação sistemática deste fungo, segundo SANT’ANNA (1998) e EIRA et al. (1996), pode ser assim especificada:

      1. Reino: Fungi
      2. Divisão: Eumycota
      3. Sub-divisão: Basidiomycota
      4. Classe: Hymenomycetes
      5. Sub-classe: Holobasidiomycetidae
      6. Ordem: Agaricales
      7. Família: Tricolomataceae
      8. Gênero: Lentinula
      9. Espécie: edodis

O L. edodis, devido ao seu elevado potencial de biodegradação, é descrito como fungo da madeira e produtor da "podridão branca", responsáveis pela decomposição da lignina. É conhecido desde a antigüidade, na Ásia, principalmente na China e no Japão (SINGER, 1961). Atualmente, seu cultivo e consumo difundem-se por muitos outros países da Ásia, Europa e Américas (BONONI & TRUFEN, 1986, BONONI et al, 1995).

No Brasil, o desenvolvimento desta cultura iniciou-se na década de 1980, empregando-se como substrato a madeira de Eucalyptus. Dentre as centenas de espécies desta planta, três são cultivadas extensamente para produção de celulose e prestam-se igualmente bem para o cultivo de shiitake: Eucalyptus urophila, E. saligna e E. grandis (ANGELIS et al, 1998).

BIOLOGIA

L. edodis é um fungo filamentoso, sua multiplicação pode ser conduzida através de hifas ou esporos. Seu ciclo reprodutivo é relativamente simples quando comparado com o de outros fungos. Os esporos, ou conídios, formam-se nos basídios das lamelas da parte inferior dos carpóforos (chapéus) e, ao caírem em substrato adequado, desenvolvem as hifas que formam o micélio primário. Estas últimas podem ser ou não compatíveis entre si. No primeiro caso, fundem-se, formando os micélios secundários, que, em situações especiais, enovelam-se e direcionam novas hifas que vão, por sua vez, formar um novo carpóforo. No carpóforo, as hifas sofrem divisão mitótica e meiose e, nas lamelas, formam os basídios que liberam os esporos, completando o ciclo de vida do fungo (PRZYBYLOWICZ & DONOGHUE, 1990).

PRODUÇÃO

Comercialmente, o shiitake pode ser produzido em compostos cujo ingrediente principal é a serragem de madeira ou em troncos de madeira. No Estado de São Paulo, o Eucalyptus sp é o substrato mais utilizado. Recomendam-se condições que facilitem o manuseio: diâmetro de 12 a 15 cm e comprimento de 1,10 a 1,30 m. Nos troncos higienizados e recém colhidos, inocula-se em perfurações da madeira, porções de "semente" desenvolvidas em condições assépticas nos laboratórios de profissionais autônomos ou institucionais (UNESP – Botucatu, C.A. UFSCar – Araras, ESALQ-USP). O inóculo é protegido com parafina e a madeira é colocada na forma de pilha "igueta" (TATEZUWA, 1992) com cerca de 80 toras. Nesta etapa as madeiras são umedecidas continuamente e mantidas a 25-30oC. Nestas condições o fungo desenvolve-se tanto ao longo das fibras como radialmente. Após cerca de 40-50 dias pode-se, mediante compressão da madeira, verificar o desenvolvimento do fungo. Após 6 a 8 meses a madeira está leve e amolecida e é o momento de indução da frutificação. Para isto mergulham-se as toras em água fria, com diferença de no mínimo 10oC de temperatura ambiente, e nesta condição permanecem de 10 a 15 horas. A seguir, são transferidas para as câmaras de frutificação, com umidade ao redor de 85% e temperatura de 22 a 25oC, luminosidade de 500 a 2000 lux (STAMETS, 1993).

Após 3 a 5 dias surgem os primórdios que irão gerar os cogumelos num período de 6 a 10 dias, permitindo a colheita.

As madeiras, após a primeira colheita, voltam a ser incubadas e a cada 90-120 dias podem receber novos choques térmicos para as colheitas subseqüentes. É evidente que as madeiras vão se empobrecendo de nutrientes e as colheitas finais produzem menores rendimentos. Por esta razão, recomenda-se 3 a 4 reciclos. Eventualmente, se as madeiras permanecerem em bom estado, pode-se considerar mais choques.

SANT’ÁNNA (1998) elaborou estudos comparativos de shiitake em blocos de serragem colocados em sacos plásticos e toras. O autor considera que, para fins de exploração comercial, a serragem apresenta maior eficiência biológica de conversão EB%=

.

MONTINI (1997) verificou a produtividade de shiitake em Eucalyptus saligna em função do diâmetro da tora e do tempo de incubação. O autor constatou, entre outras observações, que a produtividade no primeiro choque é inversamente proporcional ao diâmetro da tora.

A produção média mensal de shiitake da COPCO está descrita na Tabela 1.

Tabela 1
Média mensal da produção de Lentinus edodis pela
COPCO (Cooperativa dos Produtores de Cogumelos)

ano

1996

1997

1998

kg/mês

580

1037

1182 *

* média dos primeiros 4 meses.

A Figura 1 mostra o fluxo de produção da COPCO, tendo como referência a produção mensal em função dos meses.

Figura 1 – Registro da produção de Lentinus edodis na COPCO durante 23 meses.

COMPOSIÇÃO

O shiitake desidratado contém em média: 25,9% de proteína, 0,45-0,72% de lipídios, 67% de carboidratos, sais minerais, vitaminas B2 e C , ainda ergosterol .

Deste fungo estão sendo intensamente estudados a lentiniana e o LEM (extrato do micélio de L. edodis).

A lentiniana é um polissacarídeo de alta massa molecular, solúvel em água, resistente à temperatura elevada e a ácidos e sensível a álcalis. A lentiniana tem encontrado muitas possibilidades de aplicações farmacológicas.

A fração LEM contém como maior constituinte um heteroglicano conjugado com proteína, vários derivados de ácidos nucleicos, componentes vitamínicos e eritadenina. Muitos pesquisadores têm trabalhado no sentido de esclarecer as potencialidades medicinais das frações do shiitake. HOBBS (1995), JONE & BIRMINGHAM (1993), ISHIKAWA et al, (1997), JONES (1995). A medicina popular indica que, em humanos, o shiitake é um alimento com funções de fortificar e restaurar os organismos. Atualmente é recomendado para todas as doenças que envolvam diminuição das funções imunológicas.

O shiitake, desidratado e triturado, comercializado pela COPCO (Cooperativa dos Produtores de Cogumelos)  tem em média as seguintes características:

  • contagem microbiana em placa Unidades Formadoras de colônias/g - UFC/g: 1,2 x 102 UFC/g em meio TSI (Difco)R
  • contagem total em UFC/g de bolores e leveduras: 1,6 x 102 UFC/g (meio sabouraud)
  • coliformes totais e fecais ausentes
  • Staphylococcus aureus e Salmonella sp ausentes
  • umidade: 70oC durante 6 horas = 6,37%
  • cor: âmbar, com bordas escuras, com áreas claras de micélio, indicando características do shiitake desidratado, a partir de basidiocarpos sadios – não oxidadas e deterioradas.
  • sabor: característico suave
  • odor: agradável típico
  • A qualidade proteica do shiitake produzido pela COPCO está indicada na tabela 2.

    Tabela 2:
    Composição em micromoles de aminoácidos por mg de biomassa desidratada e desengordurada

    Aminoácidos

    Cogumelo 1

    Cogumelo 2

    Triptofano

    0,0132

    0,0143

    Lisina

    0,0448

    0,0435

    Histidina

    0,0167

    0,0176

    Arginina

    0,0380

    0,0391

    Ácido aspártico

    0,0906

    0,0941

    Treonina

    0,0571

    0,0592

    Serina

    0,0568

    0,0596

    Ácido glutâmico

    0,1921

    0,1905

    Prolina

    0,0443

    0,0483

    Glicina

    0,0855

    0,0884

    Alanina

    0,0804

    0,0836

    ½ cistina

    0,0141

    0,0149

    Valina

    0,0549

    0,0569

    Metionina

    0,0157

    0,0186

    Isoleucina

    0,0395

    0,0368

    Leucina

    0,0698

    0,0661

    Tirosina

    0,0175

    0,0189

    Fenilalanina

    0,0303

    0,0313

    Qtd. Hidr. (mg)

    6,88

    6,59

    Tipo de hidrólise: com LiOH 4N para o Triptofano por 24 horas à 110oC ± 1oC e com HCl  6N para os demais à mesma temperatura, por 22 h.; Análise efetuada no Centro de Química de Proteínas – Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – USP (Greene & Rosa) – 1998.

    REAÇÕES

    Embora o shiitake venha sendo consumido desde a antiguidade, não se tem registro de problemas quanto ao seu consumo. Entretanto, dada a existência de cultivos extensivos têm surgido pessoas com sensibilidade ao seu manuseio.

    NAKAMURA (1992), descreveu a incidência de dermatite em 51 pessoas que tiveram contacto com L. edodis. A dermatite foi mais freqüente nas extremidades, tórax, pescoço e face, tanto em homens como em mulheres. Os pacientes não manifestaram sintomas digestivos, no sistema nervoso ou em mucosas. A incidência da dermatite ocorreu principalmente nos meses de março, abril e maio.Outros sintomas foram descritos por VAN LOON et al (1992) em pessoas atingidas no aparelho respiratório, após 6 a 8 horas de contacto com o shiitake.

    GOES (1998) comunicou a incidência de 8 pessoas com problemas de alergia respiratória quando entravam em áreas de cultivo e de embalagens de shiitake.


    Profa. Dra.Dejanira de Franceschi de Angelis - Departamento de Bioquímica e Microbiologia - Instituto de Biociências - UNESP – Rio Claro
    Arnaldo Cipriano Luchesi de Goes - Cooperativa dos Produtores de Cogumelos de Rio Claro
    Prof. Dr. Antônio Carlos Simões Pião - Departamento de Estatística e Matemática Computacional - Instituto de Geociências e Ciências Exatas - UNESP – Rio Claro

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