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01.02.0 0-   t  u d o     c o m e ç  a     a q u i   -  a  n  o  z  e  r  o  @  y  a  h  o  o  .  c  o  m

JUPITER APPLE
PSICODELIA & SOFISTICAÇÃO

Alexandre Matias

japple01.jpg (22635 bytes)Mudar é um risco que todo artista deveria correr. Afinal, arte nada mais é que a expressão individual de quem a faz - e não é possível que alguém seja a mesmíssima pessoa durante vários anos ou entre uma obra e outra. Mas ao contrário disso, a maioria dos artistas acabam encarando seu trabalho como um emprego como outro qualquer - transformando ímpeto em fórmula, espontaneidade em estagnação, soando previsíveis e monótonos. Deste grupo, apenas uma pequena parcela descobre um mecanismo artística e decide destrinchá-lo até o fim, mudando pequenos aspectos de sua arte no decorrer da carreira, fazendo esta tornar-se sua grande obra de arte.

A maioria dos artistas que importam, aqueles que estremecem os alicerces do status quo e fazem a arte tomar novos rumos, só o fazem porque estão em constante movimento. Por isso a mudança é fundamental na arte. É ela quem move-a, fazendo com que atinja novas formas de expressão, sempre evoluindo. A repulsa ou o choque podem ser reações típicas desta atitude, mas são reações naturais e devem ser cutucadas para que antigos preconceitos, tabus e proibições caiam.

Flávio Basso optou pela mudança. Desde que iniciou-se na vida artística, passou por diferentes faces e fases, começando, aos quinze anos, pelo rock pueril que contagiou toda nação com o advento Você Não Soube Me Amar. Fundador do TNT, saiu antes que o grupo gravasse seu primeiro disco, assinando grande maioria das canções lançados no primeiríssimo disco do conjunto, no histórico pau-de-sebo chamado Plug. Fora do TNT (que, sem ele, ficou mais pop ainda, cruzando o Capital Inicial com o Ultraje a Rigor - em todos os sentidos), Basso figurou um dos maiores fenômenos do rock gaúcho: os Cascavelettes.

Com Frank Jorge (depois Graforréia Xilarmônica) e Nei Van Sória (dono de uma sofisticada carreira solo), montou um máquina de fazer rock’n’roll à moda antiga - só que sem um pingo do pudor de outras eras. Pornógrafos por opção, os Cascavelettes tomaram Porto Alegre de assalto com suas primeiras fitas, cuspindo com força esporros em forma de canção que se tornaram clássicos malditos do rock brasileiro: Minissaia Sem Calcinha, Banana Split, O Dotadão Deve Morrer, Eu Quero Estudar, Homossexual, A Última Virgem, Morte Por Tesão, Menstruada, Eu Quero Te Estuprar, entre outras. Foram abduzidos por uma grande gravadora e foram até tema de novela global (não lembra de Nega Bombom - "Bom, bom, bom/ Faz aquela nêga do outro lado daquela rua" - em Top Model?), mas já tinham perdido a vontade, estavam cansados uns dos outros e não suportaram a possibilidade do sucesso. Uma banda cuja importância ainda vai ser cristalizada no futuro.

Findo os Cascavelettes, Basso entrou fundo num paraíso hippie, redescobrindo o folk rock e o rock clássico à medida que se afundada em substâncias alucinógenas. Com um violão, se nomeou Wood Apple e saiu pelos bares do Rio Grande do Sul numa trip de trovador solitário. O Wood não durou muito tempo e um apelido de seu avô logo o substituiu. Bastou traduzir o nome da gravadora dos Beatles e um novo personagem surgiria. Júpiter Maçã era uma versão dinâmica e roqueira do hippie bucólico que visitava pastos após as chuvas.

Em seu primeiro disco, A Sétima Efervescência, elegeu o trio Mutantes, Beatles e Kinks como sua santíssima trindade (e Roberto Carlos como uma espécie de mentor marginal), mergulhou num universo de psicodelia tradicional. Impulsionado por pérolas da lisergia tupiniquim como As Tortas e As Cucas, Eu e Minha Ex, As Outras Que Me Querem, O Novo Namorado, Querida Superhist e Mr. Frog, Sociedades Humanóides Fantásticas, Miss Lexotan 6 Mg Garota e a utópica Lugar do Caralho, o disco aos poucos foi sendo reconhecido como um dos principais discos brasileiros dos anos 90 ao mesmo tempo em que Júpiter arrebanhava fãs com um show hipnótico e surpreendente. Misto de Pink Floyd no começo e The Who no fim dos anos 60, Júpiter Maçã ao vivo era apenas um trio (Júpiter e os irmãos Caruzo, Émerson no baixo e Glauco na bateria) e uma avalanche de rock clássico, um show memorável que atingiu o status de lendário ao sedar cinco mil pernambucanos no melhor show do Abril Pro Rock de 1998.

Mas logo começaram os efeitos colaterais. E Júpiter aos poucos foi se distanciando do rock’n’roll, abrindo seus ouvidos para as novidades musicais dos anos 90, atualizando as referências e pensando em novas possibilidades. Encarou o estúdio sozinho e bancou seu novo disco, Plastic Soda (Trama). Cantando em inglês e abraçando jazz e bossa nova como novos companheiros de viagem, Júpiter trocou mais uma vez de pseudônimo - agora assina Jupiter Apple - e dribla a síndrome do segundo disco ao lançar um novo primeiro álbum.

Plastic Soda prevê descartabilidade no título, mas o material aqui é de outra natureza. "Seqüelas à parte, o café foi o principal companheiro", explica o autor ao ser perguntado sobre o combustível criativo das gravações do novo disco. Procede: ainda estamos no final dos anos 60, só que em vez de apenas passar pelas repúblicas hippies e casas noturnas de rock de A Sétima Efervescência, visitamos jazz clubs, rodas de samba em salas de classe média e elegantes afterhours em mansões invisíveis ao olho público. Ficar aquecido e acordado não é suficiente, é o mínimo. Uma xícara de café tem a discrição e a simplicidade que fazem as melhores relações; uma companheira perfeita para esta noite sem fim.

Ao traduzir o nome para o inglês, Jupiter aproveitou para mudar outros ângulos. Descoloriu o cabelo, mudou o visual e o ponto de vista de suas canções. Onde era personagem e agente, agora é apenas observador. "Eu gosto de olhar", cantarola em Please Don’t Disturb, "por favor não interrompa de qualquer forma". Mas se parece ausente das histórias centrais do disco, é porque provavelmente observa a si próprio à distância. "Talvez seja apenas seu espelho o tempo todo", explica na primeira faixa do álbum, A Lad & A Maid in the Bloom. "É um exorcismo", exclama a mesma faixa ao final, confessando a ausência autoral do disco.

Esta fica por conta da fusão de gêneros, arranjos e instrumentos promovidas pelo artista, responsável por quase todos os instrumentos do disco. Da mesma forma que tratava a psicodelia, confrontando - à moda Mutantes - faces diversas do gênero; Jupiter agora se dispõe a condensar toda a década de 60, chamando os caretas e os velhos para a festa - mas só os mais legais. Se antes a entrada dos pais era proibida por motivos óbvios, a carreira de Flávio Basso finalmente abraça a maturidade, deixando a espontaneidade do disco anterior na manga, uma arma para ser usada quando preciso. Falando manso e cantando baixinho, o novo Jupiter prefere o novo e a aventura que é sua procura.

A Lad & A Maid... abre o disco e não deixa dúvidas do tom. Uma introdução correta ao novo universo do autor, a faixa é formada por nove minutos de psicodelia lenta e latina, sotaque dado pela presença da percussão e da bateria a la Milton Banana. Esta seção rítmica parece disposta a percorrer todo o disco, aumentando intensidade e velocidade sempre que preciso. Um robusto baixo acústico, um velho piano elétrico e uma insistente rabeca esperam a entrada do vocal, que entra dobrado e acompanhado por um tecladão Jovem Guarda. O conforto bossa nova é interrompido por surtos rock’n’roll, mas o clima da primeira faixa espreguiça-se em alguma almofada no chão.

Collectors Inside Collection tem o astral de uma vernissage perfeita (como se isso fosse possível), cheia de gente bonita, interessante e inteligente. A psicodelia tem um apelo poético: "Química é pouco para traduzir as formas no sonho de ser/ Telepatia sincronizada, harmonia molecular, magnética/ Karma dharma zunindo em fusão criando ilusões e visões". O verniz lounge dado à canção é tratado com carinho, como se Sérgio Mendes se dispusesse a produzir o Sala Especial. Novamente dobrada, a voz de Jupiter sussurra docemente, explorando os caminhos da canção francesa e da bossa nova for export. O apaixonado solo ao final da canção é apenas a primeira das encarnações de um dos Mutantes, neste caso Sérgio Dias. Os teclados embaralhados ao fundo não fariam feio para um ácido Arnaldo Baptista.

Em Welcome to the Shade ele nos convida à introspecção. "Bem vindo à sombra/ Ouço o vento levemente/ Feche os olhos, relaxe o corpo/ Na sombra um jovem pode pensar". A atmosfera nos surpreende num domingo de sol, sob uma árvore, com o Zimbo Trio e Roberto Menescal tocando embaixo daquela sombra quente. "Sentado sob estas árvores/ Escrevendo e cantando melodias/ Eu espero encontrar sinfonias/ Amo minhas harmonias/ Encobertas em mim mesmo". Plastic Soda toma o mesmo espírito da canção anterior e o coloca em uma varanda à noite, olhando para as estrelas. O violão e a percussão criam rapidamente uma cápsula de intimidade que o vocal canta preguiçoso: "Amor e bossa nova/ Soda plástica/ Desculpe-me mas vou recusar suas bebidas/ Mas ficarei com seus sonhos".

A melhor transição do disco anterior para o novo surge The True Love of the Spider, que começa com o clima de garagem que a melhor psicodelia tem de ter. Vocais distorcidos e berrados são perseguidos por cravos, guitarras, um Hammond e uma firme mas discreta cozinha. No meio da canção, ela quebra para a bossa nova, mas logo se recupera e continua. Começa então um diálogo entre as duas faces de Basso: de um lado o gritalhão Júpiter Maçã, do outro o estiloso Jupiter Apple. O encontro mostra que o novo disco não discorda do anterior, apenas dedica-se a outro aspecto.

Over the Universe, cantada com todas as consoantes pronunciadas britanicamente, provoca o improvável encontro dos Mutantes com o Blur para gravar uma bossa nova de Sean Lennon, com direito a nostálgicos solos de violão e de flauta. Os quase onze minutos da epopéia instrumental Wasn’t It? nos guia por uma viagem pelo atual astral sonoro que faz a cabeça de Jupiter: de jam sessions jazz desembestadas entre fumaça de cigarro e calor humano, passamos para o sonho de algum personagem coadjuvante de Laranja Mecânica para um boogie-woogie tocado num cravo. A sensação é de estar ouvindo Arnaldo Baptista em seus descarregos mentais ao piano, misturando instinto e técnica ao sabor da paixão de estar tocando.

A quietude volta a ditar a atmosfera em Bridges of Redemption Park, que canta o oásis que um parque dentro da cidade pode se tornar (no caso o Parque Redenção em Porto Alegre), procurando no coração do ouvinte um lugar conhecido. É a versão deste disco para Lugar do Caralho: sensível, delicada, sofisticada e igualmente satisfatória - talvez para outros sentidos. Morning Intuition Man é um vaudeville tímido, doo-wop de branco (cantados por grupos conhecidos como "barbershop quartets") gravado como se fosse bossa nova.

Head-Head é uma das melhores passagens do disco e volta à psicodelia tradicional. Agora estamos no meio de um petardo lisérgico dos Beatles (ou dos Kinks). Em meio à cacofonia instrumental que invade a canção à altura de sua metade, Jupiter berra que a "cabeça não é o lugar da mente". O momento Nina Simone vem na voyeur Please Don’t Disturb, onde a voz do cantor assume a maciez necessária. Disputando com Head-Head, vem o outro ápice do disco, 24 Hours Nude. Ela começa ameaçadora como uma canção do Velvet Underground (como se Hitler cantasse All Tomorrow’s Parties), invadida pelas cores imaginárias de um sorridente John Lennon à época de Magical Mystery Tour. Coisa de gente grande, não é brincadeira não. Canta a nudez como solução para os problemas: "Devemos mostrar ou esconder/ Deixando toda escuridão dentro/ Ela e eu achamos o que fazer/ Então fique nu 24 horas/ (...) Eu sei que soa ingênuo/ Sim, não poderia ser mais óbvio/ Eu não quero ter uma atitude profética". Fechando o disco entra a irreverente Samba-Groovy Theme, algo que podia muito bem ter saído da cabeça de Rita Lee nos bons tempos.

Com seu novo disco, Jupiter expande sua consciência musical e nos leva a um universo de sons e sonhos tão confortável quanto agressivo. Cheio de trechos instrumentais e efeitos sonoros entre algumas faixas, o disco ;e uma floresta de gêneros musicais - escura e sempre pronta a nos assustar. Plastic Soda é daqueles discos que requerem várias audições para alcançar-se o clima exato, mas que fisga à primeira vez. Opta pelo choque musical para mostrar as dimensões do meio, como faz o Olivia Tremor Control. É como se entrasse numa sala de máquinas e mexesse em todos os botões e alavancas. Mas Jupiter não o faz com a displicência e afobação de um Demônio da Tasmânia, prefere mexer delicadamente, mais preocupado com o jeito que está fazendo do que com o que pode estar causando, como um Pepe Le Gambá. Ao lado do engenheiro de som Thomas Dreher, conhecido por sua fama de professor Pardal no estúdio, Plastic Soda deve ter tido gravações memoráveis e soluções sonoras merecedoras de futuras apreciações.

AnoZero - Antes de falar do disco novo, eu queria que você falasse um pouco da fase pós-A Sétima Efervescência. Você esperava que este disco tivesse a recepção que teve? As pessoas entenderam este disco direito?
Jupiter Apple - Bem, eu estava lidando com diretrizes que não eram tão familiares. Felizmente houve sintonia.

AnoZero - Ao mesmo tempo, você tornou-se uma personalidade que atualizava e traduzia a psicodelia clássica para os anos 90 brasileiros. Isso te incomodou?
Jupiter - Não, foi meio sem querer. Era o resultado ao mesmo tempo intuitivo e perceptivo de uma série de sonoridades e de influências poéticas que me levavam a colocar de um jeito ou de outro esse resultado em um disco, e este era o 'Sétima Efervescência.

AnoZero - No novo disco, você praticamente elimina as referências musicais psicodélicas propriamente ditas (deixando apenas elementos dos Beatles e dos Mutantes) para cair na bossa nova, no experimentalismo sonoro dos anos 60 e no jazz. Fale sobre essa transição. É uma continuação ou uma ruptura?
Jupiter - É uma continuação. Ray Davies, Lennon & McCartney, os Mutantes, sempre me influenciaram. E de certa forma fazem parte de minha essência. Logo, não teria como romper com isso. Logo, Plastic Soda é uma continuidade e um aprimoramento em cima das coisas com as quais já lidava. Ele definitivamente é mais jazzy, mais bossy. Tem coisas de Nina Simone 66/68, e até mesmo dos sambinhas dos Zombies. Em termos poéticos, ainda que em inglês, acredito que em vários pontos me superei. Adoro coisas como Welcome To The Shade, The True Love Of The Spider, sem que deixasse de considerar o resto acima da média. Caso contrário jamais teria lançado este disco.

AnoZero - Por que reciclar arte para uma nova geração?
Jupiter - Não creio que esta reciclagem se dê assim de maneira tão racional. Acaba sendo meio por acaso. Você faz uma mistura com coisas que o influenciaram , com as quais você se envolve e as quais você ama. A síntese pode funcionar. Acho que rolou com o Plastic Soda.

AnoZero - Como foram as gravações do disco? Tocar todos os instrumentos não lhe pesou como responsabilidade?
Jupiter - Tocar todos os intrumentos é sempre uma responsabilidade. Mas como, à medida que eu ia escrevendo as canções, ia também pensando nos arranjos, rolou meio naturalmente. Além disso, o engenheiro de som em questão estava bastante perceptivo às minhas idéias. Thomas Dreher. Acabei tocando todos os instrumentos que sabia e ainda experimentei outros tantos, como a rabeca desértica e a máquina de calcular.

AnoZero - Qual foi o papel das drogas na gravação deste disco?
Jupiter - Seqüelas à parte, o café foi o principal companheiro.

AnoZero - Plastic Soda é um disco voltado para o mercado internacional. Fale sobre isso.
Jupiter - Queria fazer um disco mais expansivo, mundial. Não falamos em esperanto, portanto acabei usando o inglês. Plasticamente as formas combinaram. Me vi seduzido pela estética.

AnoZero - Qual seu próximo passo? Você consegue visualizar seu terceiro disco?
Jupiter - Sinceramente, não. Mas Françoise Hardy e Brigitte Bardot sopram em meus ouvidos. Talvez algo entre a chanson , a bossa e o rock.

AnoZero - Jupiter Apple é definitivo ou outras personas podem surgir?
Jupiter - Não. Jupiter Maçã passeia por outros idiomas.

AnoZero - Quem são os melhores artistas do Brasil hoje?
Jupiter - Cineastas, artistas plásticos, e é claro muitos compositores, mas não consigo me lembrar dos nomes.