ATARI TEENAGE RIOT
Luciano Vianna e Valéria Rossi
Quem assistiu a passagem
do Atari Teenage Riot pelo Brasil, em 1997, ainda não esqueceu a energia e a vibração
hipnótica dos quatro integrantes do grupo alemão, que, ao vivo, fazem um dos
espetáculos música eletrônica mais barulhentos e instigantes do mundo. Formado por Alec
Empire (o cérebro da banda e dono do selo Digital Hardcore, o mais famoso label de
música eletrônica hardcore do mundo), Nic Endo (programação), Hanin Elias e MC Carl
Crack (vocais), o ATR se tem a sua marca registrada em idéias anarquistas levadas às
máximas consequências, como na letras do "Revoluction Action" (pregando uma
revolução para mudar o mundo) e "U.S Fade Out" (contra o domínio americano),
entre outras hinos radicais de esquerda.
O AnoZero esteve
conversando com Alec Empire no camarim da lendária casa de shows Astoria, no coração de
Londres, um pouco antes de o Atari Teenage Riot subir ao palco e levar ao delírio o
público que lotava a casa e em pouco mais de uma hora de muita barulheira e vibração,
mostrando porque a banda é considerada, no mundo da música eletrônica, uma das poucas a
conservar a originalidade.
AnoZero - Na nossa
opinião, o último álbum do Atari Teenage Riot é o menos comercial, e certamente o mais
barulhento. Mesmo depois centenas de shows pelo mundo você ainda considera a sua banda
underground?
Alec Empire - É difícil dizer. Eu não definiria a banda como underground, porque muita
gente nos conhece, compra os nossos discos e gosta do nosso som, por isso depende como
você define underground. Com o aspecto comercial, o que posso afirmar é que nós não
fazemos nenhuma concessão para vender mais discos. A música é feita como nós pensamos
que deve ser e se o nosso público gosta, é ótimo, mas jamais mudaríamos uma vírgula
para vender mais. Não me importa se sou underground ou não. O que me interessa é passar
as minhas idéias para um número cada vez maior de pessoas. Hoje em dia, muita gente do
underground quer manter o seu círculo bem pequeno, mas não é o nosso caso.
AnoZero - Mas você
concorda que o último álbum é o menos comercial da carreira do Atari Teenage Riot?
Empire - Eu tenho dificuldade em definir o que é comercial ou não. Como disse, este
álbum não foi feito para vender, mas para passar idéias. De qualquer jeito, se
transformou no álbum mais comercial da nossa carreira, porque é o que vendeu mais até
agora (risos). Mas a gente não planejou nada disso.
AnoZero - Depois de
tantos anos na mesma banda, você ainda considera o seu som original?
Empire - Do que eu tenho certeza é que ninguém mais soa como o Atari Teenage Riot. Há
outras bandas influenciadas por nós, e algumas gravadoras também, mas o que a gente faz
é único. Mesmo quem nos copia soa diferente de nós.
AnoZero - Quem mais faz
um som original e criativo hoje em dia, na tua opinião?
Empire - Todo mundo da Digital Hardcore (gravadora do próprio Alec Empire)! Basicamente
todo mundo que eu gosto, eu tento trazer para o selo. Mas muita coisa do que rola hoje em
dia é uma interpretação sobre o passado. Os anos 90 têm essa característica
saudosista que eu não gosto.
AnoZero - Como você
escolhe os artistas que vão fazer parte do teu selo?
Empire - Eles têm que ter uma energia anarquista nos seus projetos, e também é
fundamental que tenham um direcionamento digital em seu som. É isso que todas as bandas
têm em comum. Normalmente a gente encontra as pessoas por aí, escuta o som e faz o
convite. Não dá tempo de ficar escutando fitas e fazer as coisas de maneira tradicional.
AnoZero - Como você vê
a força que alguns movimentos neo-nazistas estão readquirindo em alguns pontos da
Europa?
Empire - As organizações neo-nazistas são uma minoria, mas elas são realmente
perigosas junto ao poder vigente. O que acontece é que, por exemplo, uma organização
fascista declara bem claramente que é racista enquanto os políticos no poder não
expressam as suas opiniões tão abertamente, mas agem motivados pelo mesmo racismo. É
aí que está o verdadeiro perigo. Os nazistas estão se fortalecendo há anos, por isso
uma das idéias do Atari Teenage Riot é formar uma oposição de peso, de gente que tem
idéias de esquerda, para barrar aqueles ideais. O problema é que a esquerda é muito
fragmentada, enquanto a direita congrega todas as vertentes sem tanto separatismo.
AnoZero - Recentemente,
em shows do Atari Teenage Riot em Berlim e em Londres, houve confusão na platéia. Você
acha que isso é uma indicação de que pelo menos parte da seu público pode estar mais
interessado na batida intensa da música e na violência de palavras de ordem do que no
conteúdo político das suas letras?
Empire - Acho que não. Eu nunca vi violência entre as pessoas da platéia. Tem gente que
acha que pogar é violento, mas isso é uma questão de opinião pessoal. O que já vi é
confusão entre a segurança e o público, ou entre a polícia e o público. Mas a
primeira pancada sempre vinha do outro lado. Mas é errado culpar a gente por esse tipo de
conflito, porque confusão acontece em todo tipo de evento, basta ir num show heavy metal
para ver o que estou dizendo.
AnoZero - O que você
lembra da sua turnê brasileira, há uns dois anos?
Empire - Eu gostei muito de tocar no Brasil. Acho que o show de Belo Horizonte foi
provavelmente um dos melhores que já fizemos até hoje. Foi muito intenso. Eu fiquei
muito surpreso de ver que tanta gente conhecia o Atari Teenage Riot e que cantava junto
todas as letras. No Rio é que tivemos um problema, porque parece que o segurança tentou
colocar a mão entre as pernas da Helias quando ela se jogou na platéia, aí ela rebateu
e deu uma microfonada na cabeça dele. O microfone ficou cheio de sangue o resto do show,
o que foi bem desagradável.
AnoZero - Quais são os
seus próximos planos?
Empire - A gente tem que terminar as músicas que começamos com Tom Morello, do Rage
Against The Machine. Depois vamos finalmente gravar um EP que vem sendo planejado há
muito tempo para o Alternative Tentacles (selo americano fundado por Jello Biafra,
ex-vocalista do Dead Kennedys) . Esses são os planos principais para o Atari. A gente
deve começar a gravar um novo álbum depois do verão, mas não tem nada certo, porque
isso sempre acontece de forma muito espontânea.
AnoZero - O álbum
"Burn Baby Burn" vendeu muito bem no Brasil. Você poderia comentar um pouco
sobre como foi o processo de criação?
Empire - Foi uma combinação entre The Future of War e Delete Yourself. Estes dois discos
fazem sentido juntos. A gente tinha uma idéia de fazer uma colagem. A gente quis dar um
tratamento artístico ao sampler, como na poesia de colagem. A tecnologia nos deu essa
possibilidade que o punk nunca teve. Neste último álbum, por oposição, quisemos nos
impor o desafio de não samplear absolutamente nada. |