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CARNAVAL SALVADOR 2000
Ricardo Tacioli

Salvador grifou o ano 2000 com muita expectativa e propaganda. Não era para menos. Com tantas datas para se comemorar - 500 anos de Descobrimento do Brasil, 50 de Trio Elétrico e 15 de axé music -, um dos carnavais mais pop do país não poderia perder a chance de reafirmar publicamente que é a Canaã brasileira, a terra da alegria. Mas Salvador não é nada disso. Apesar de símbolo da diversidade cultural-musical, a terra de Jorge Amado tornou-se o quartel general da axé music e de uma parcela do ‘pagode’. Com o rombo aberto pelo excesso de exposição e pela reprodução em série de sua célula musical - temas, arranjos, grupos, figurinos -, a cena pós-samba-reggae assiste seu momento mais crítico.

Consolidados nacionalmente pelas micaretas e pela extensa exposição nos meios de comunicação, os protagonistas da nova música baiana redefiniram conceitos do carnaval e da própria música soteropolitana. Apesar desta iminente falência do "produto" axé e embalados pelos quinze anos do gênero, seus artistas souberam espremer até a última gota as possibilidades que o atual formato do Carnaval baiano e a música produzida no Brasil oferecem. Reagregando elementos estéticos do pop rock, digerindo ingredientes do techno, e alimentando uma nova "unanimidade" artística, a música que fotografou a Bahia dos anos 90 encontrou fôlego para ultrapassar a linha de chegada de mais um carnaval. Mas pode ter sido o último em que este ‘império’ ainda dite as regras de uma forma tão stalinista, e, pior, reproduzindo uma cultura assistencialista, de bençãos, falsas alegrias e liberdades. Ou o primeiro de um novo carnaval, mais diverso e realmente popular.

Um carnaval como outro
Fora as datas comemorativas e a atenção da mídia para a performance da axé com seu casamento com o pop, o carnaval de Salvador deste ano pode ser comparado a qualquer outro da última década. Isto porque, em sua concepção, nada mudou, apenas acentuou-se seu caráter industrial. E a axé music é uma das principais agentes deste processo, já que tornou o carnaval seu maior veículo de comunicação. Pior do que isso, reduziu a noção carnavalesca a uma expectativa de mercado, elaborando em torno dos produtos axé um novo marketing de Salvador, alegre e descompromissado.

Fiéis a estética que os consolidou, os grandes nomes do gênero - que possuem um trabalho realmente consistente - continuam mostrando que ainda tem muita lenha para queimar e que, provavelmente, passarão por esta malha fina que se abre sobre o gênero.

Figuraças como o Asa de Águia que, sob o comando de Durval Lélis, emplacou um dos momentos mais coerentes ao espírito do Carnaval - com o trio travestido como caravela e Durval como Cabralino, anunciando "Folia à vista!" - confirmam esta tese. O mesmo vale para os veteranos do Chiclete com Banana (que emplacaram "Cabelo Raspadinho"); para o bandeirante da axé Ricardo Chaves (que cravou a animada "O Couro Come"); para o Ara Ketu, que neste ano comemorou seu vigésimo aniversário; e até o ex-banda Beijo Netinho, que apesar de seu visual misto de Ricky Martin com Schwarzenegger, da limitação vocal e do disco Clareou totalmente mercado (regravações, influências latinas, música em italiano) ainda consegue estar sintonizado com a proposta inicial da axé.

Mas o vendaval que carregou o pioneiro Luiz Caldas (mesmo tendo reaparecido no recém-lançamento de 15 Anos de Axé, Luiz Caldas e Convidados, produzido por Ricardo Chaves), Sarajane, Márcia Freire e Carla Perez, poderá dar carona a "heróis" da nova geração como Raça Pura, Jheremmias Não Bate Corner, Braga Boys, Tonho Matéria, e ao ícone maior, Ivete Sangalo, apesar da expectativa que existe em torno de sua imagem e voz.

Naturalmente que este nivelamento mercadológico acaba se refletindo no Carnaval. Afinal, são artistas que carregam blocos de trio e que precisam vender abadás para que estes mesmos blocos continuem existindo. Pela própria organização da Prefeitura, a cada ano novos blocos são aceitos em um dos dois circuitos (Campo Grande ou Barra). Há um inchaço e, consequentemente, um esgotamento do formato bloco, já que eles repetem o mesmo repertório de trios mais famosos e atropelam outras instituições carnavalescas tradicionais e menores.

Mas até este ano, conduzir um bloco foi uma das melhores oportunidades para mostrar publicamente um determinado ‘talento’. Assim foi com o grupo Nossa Juventude que esganou-se em animação. Conduzindo o bloco Frenesi, arrepiou a massa que corria à frente, atrás e dos lados do trio elétrico. O vocalista até mandou um beijo na boca do Caetano Veloso, que assistia a perfomance do ‘calouro’. Infelizmente, toda acrobacia e hipnotismo confirmou-se como mera repetição de outros grupos.

Sorte maior teve o Harmonia do Samba, a nova unanimidade baiana. Com apenas um disco na praça, os defensores do pagode aeróbico (também chamado de pagode baiano, misto da batida do samba com instrumentos percussivos da axé music), a trupe comandada pelo elástico Xandy ("Carla Perez com pinto", como disseram por lá) conquistou não só os corações das menininhas e a admiração encabulada dos marmanjões, como a benção do onipresente Caetano Veloso ("Xandy, você é a coisa mais linda deste Carnaval!").

Mas um dos momentos mais esperados foi a participação direta do Jota Quest, que diferentemente da maioria dos artistas fora do universo carnavalesco, não deu canja, mas conduziu um trio elétrico. Desfilando no mesmo trio de Cátia Guimma (uma das apostas baianas e da Sony, gravadora do JQ), o grupo mineiro tocou a "fina flor" de seu repertório, superando todas as expectativas que envolviam tão misteriosa e contundente apresentação. Chegaram mesmo a convencer os foliões que aquilo ali não era carnaval.

Mas quem centralizou todas as atenções foi a rainha da axé, Daniela Mercury. Uma das mais fiéis representantes do samba-reggae (que ela faz questão de diferenciar da pasteurizada axé music) ousou em levar para o Circuito Barra/Ondina seu trio eletrônico (agregando a música eletrônica moderna e seu próprio samba-reggae), com os DJs Mau Mau, Jon Carter (Monkey Mafia) e Dudu Marote (produtor do trio e de grupos como Pato Fu, Skank e Jota Quest). Mas a ‘inovação’ foi recebida com certo distanciamento e algumas vaias. "A música baiana não vai mudar por causa do techno, mas se mostra capaz de se relacionar com ritmos e identidades musicais diversas. Nossa identidade é muito sólida e rica, mas a nossa abertura ao diferente ou ao estrangeiro é uma conquista histórica, que mostra o quanto o nosso povo valoriza a mistura de raças e a convivência das diferenças", afirmou Mercury em entrevista recente. Ironicamente, o público do carnaval baiano não estava preparado para suas novidades consistentes. Mercury, que não possui nenhuma música na programação da Rádio Itapoan FM (uma das principais emissoras baianas), mostrou nos demais dias do Carnaval (momentaneamente divorciada do techno) que ainda é uma das referências mais importantes da moderna música baiana.

Um dos bons destaques foi o trio de Margareth Menezes. Com a companhia da desinibida Cássia Eller e de Zélia Duncan, Menezes carregou uma multidão no circuito Barra/Ondina. Com repertório variando de antológicas marchinhas a Zé Ramalho, as três cantoras provaram que o trio elétrico sem bloco é uma das maiores graças do Carnaval de Salvador. Só perderam um ponto ao encerrar a terça-feira com a presença de Guilherme Arantes, que entoou "Amanhã". Arantes poderia não ter aparecido, mas teve gente que gostou. É carnaval!

Acentuando a crise pela qual passa a axé music, uma das músicas mais tocadas neste reinado momino (apesar do ‘impeachment’ sofrido pelo Rei Momo Édicles Calmon, afastado por problemas judiciais/criminais) foi "Anna Júlia", sucesso absoluto dos cariocas Los Hermanos. E ao seu lado, "Mulher de Fases", dos Raimundos, ambas em questionáveis versões axé. E para salgar o sofrimento do gênero, o pagode baiano (com o titular Harmonia do Samba calibrando sucessos como "Vem Neném", "Desafio" e "Agachadinho", todas com coreografias personalizadas) é o estilo mais requisitado nas rádios.

Enfim, Salvador prova que está mais para um festival pop do que para Carnaval. Aí está a grande vitória da axé.

Casa Grande & Senzala
As lentes das grandes emissoras de televisão estavam nos pontos mais privilegiados dos circuitos Campo Grande e Barra. Dois milhões de foliões protagonizavam, entre sorrisos e bebedeira, um outro carnaval. Sob o forte fedor de urina das ruas e praças, enfrentavam os poderosos trios elétricos, minúsculas caixas de som que ousavam cantar reggaes e forrós, com um público à parte da grande folia. À margem dos blocos de trios mais famosos, a massa negra e mulata espremia-se, num universo não presenciado pelos fidalgos que desfilavam sob a proteção de ‘cordeiros’ (o pessoal que segura as cordas que separam o bloco dos outros foliões-pipoca). Apesar da Prefeitura afirmar que a violência neste Carnaval foi sensivelmente menor que no ano passado (policiais das cidades vizinhas são convocados), carteiras sumiam nos instantâneos arrastões e brigas pontuavam as avenidas. Pelo menos duas pessoas morreram: uma assassinada e outra atropelada por um trio elétrico (!).

Mas a avenida dos camarotes em Campo Grande é uma aula de história. Com acesso restrito, está lá toda a impressa (principalmente a televisionada), como a grã-finagem baiana e celebridades nacionais. Entre um bloco e outro, um batalhão de garis entravam na avenida para retirar todo o lixo deixado pelo bloco anterior e desinfetar a ‘passarela’ para o trio vindouro. Tudo perfumado!

Cada bloco que passava pela avenida, parava em frente ao camarote oficial, de onde assistiam o desfile o prefeito Antonio Imbassahy, o governador César Borges e o senador Antonio Carlos Magalhães, depois de dois anos de luto pela morte de seu filho, o deputado federal Luiz Eduardo. Ali, grande parte dos músicos baianos e de seus foliões provavam que em cultura/política eles são imbatíveis. Em manifestações escancaradas de admiração e veneração, os mais importantes artistas baianos ‘pediam’ a benção ao ‘maior defensor do povo’, ACM. "Mais importante do que os cinqüenta anos do Trio Elétrico, é sua presença aqui, de volta ao Carnaval da Bahia. Tava fazendo falta! E como comemoração do jubileu de ouro do trio elétrico, preparamos este troféu que faço questão de levar até você", declarou Aroldo, guitarrista e irmão de Armandinho, que embalou um dos mais animados trios, aliás, em forma da fobica (Ford 29, carro em que Dodô e Osmar criaram o primeiro trio elétrico) Ou ainda, Bell Marques, vocalista do Chiclete com Banana que confessou: "Sentimos sua falta e estamos com saudades! Faz dois anos que o senhor não está aqui para cantarmos para você".

Porém, não eram só os políticos os contemplados com este fanatismo disfarçado de reconhecimento público. O tropicalista Caetano Veloso foi intensamente adulado por figuras como Xandy, do Harmonia do Samba, Netinho e Tonho Matéria ("Caetano, você é o mestre dos mestres").

Figura ímpar nesta história toda foi Moraes Moreira – o primeiro cantor de trio elétrico - que, sobre o trio Chame Gente, apenas mencionou a presença dos governantes. Nada mais! E nem falou ou passou o microfone para Caetano. Aliás, Chame Gente, que reviveu com lucrativa atualidade o trio de décadas atrás, foi um dos pontos altos da festa.

Mas esta mesma avenida, horas depois, ainda em noite de carnaval, recepcionava com silêncio o afoxé Filhas de Oxum. Com um jipe puxando as quatro destaques, as cem componentes do afoxé desfilavam com relativa animação para camarotes vazios. Mesmo assim, o presidente do bloco não perdeu a pose e ‘discursou’ agradecendo a cobertura da imprensa e ao prefeito, governador e claro, ao amigo ACM.

Com dimensões gigantescas, o Carnaval de Salvador ainda conserva uma certa diversidade (que um de seus maiores atrativos), mas é evidente o duelo entre a manifestação popular e a industrializada, o paternalismo e coronelismo com a ingenuidade política.

O futuro do Carnaval baiano e da axé music
Pelo observado nestes dois últimos anos, Salvador ainda apresenta uma das manifestações carnavalescas com maior participação popular do Brasil, apesar de toda a uniformização verificada nas décadas de 80/90. Não há como negar que a axé music testemunha e se relaciona diretamente com todo este cenário, tanto do positivo como do negativo. E sua conseqüente crise de identidade questiona o formato do atual carnaval, baseado em grande parte em blocos de trios, um dos elementos chaves do sucesso da axé music (as micaretas exemplificam bem a ‘nacionalização’ do estilo).

Como contraponto, afirmou o polêmico jornalista e pesquisador José Ramos Tinhorão em entrevista recente: "O que era um desfile carnavalesco? Um momento em que as pessoas iam para a rua se divertir. Hoje elas vão para representar um papel dentro de um enredo bolado pelo carnavalesco. Embora a cara das pessoas seja mostrada na televisão sorrindo, há um fiscal de ala que mantém a formação e que não deixa a escola se atrasar. O povo se torna figurante. Ainda que ele se divirta, mudou o sentido da diversão, o que é uma traição ao espírito do Carnaval, que tem uma origem religiosa de desforra da severidade com que você era obrigado a enfrentar sua rotina. O Carnaval era a inversão da rotina, hoje a indústria dominou e disciplinou essa inversão. No fim das contas, não há mais inversão".

A uniformização proposta pelos abadás e pelas danças do pagode e da axé tornam o ato carnavalesco uma verdadeira ‘ordem unida’. Independente da música reinante, a estrutura atual do carnaval tem alimentado a aniquilação da ‘espontaneidade’ e da ‘subversão’, peças chaves para a existência de qualquer carnaval. Em Salvador, com exceção do circuito Batatinha (no Pelourinho), onde prevalecem os blocos tradicionais e as bandas de sopros com marchas e antigos sambas carnavalescos, é raro você ver um sujeito fantasiado. Bombardeado a todo momento (até pelas barracas de alimentação) pelos hits do pagode e da axé, o folião do ano 2000 com certeza reagiu com estranheza frente a qualquer manifestação diferente daquela apresentada pelas TVs e rádios. Não é à toa que existem vários blocos do Pelourinho que se chamam "Blocos da Saudade". Saudade do carnaval...

Com os estilos predominantes nos últimos carnavais baianos que legitimam o status quo, beatificam as autoridades e primam pela mesma fórmula de sucesso (temas, arranjos, coreografias, músicas, etc.), não só a instituição carnavalesca está condenada como todos os seus grandes envolvidos. Todos se esgotam. E contando com a ganância das gravadoras e dos meios de comunicação, com a ingenuidade dos artistas e com a conseqüente superexposição, a axé avista um ano de vacas magras. Não é à toa que este carnaval não apresentou nenhum grande sensação como outros carnavais. A opção foi abrir as portas para o pop e para outras experiências, como foi o caso da Daniela Mercury que namorou com o techno. A axé vai continuar, mais filtrada talvez, mas ela está a caminho de um psicólogo para se conhecer e avaliar quais seus verdadeiros pecados e virtudes. Ou como disse Tinhorão há décadas: "As escolas de samba caminham para a morte com enterro de gala da arte erudita". Se continuar neste ritmo, a axé music estará promovendo ano que vem um dos mais ostentosos velórios do planeta. E este peneirão poderá ser a salvação para os verdadeiros artistas da axé e do pagode. Mas, principalmente, a salvação do Carnaval, que poderá, mais uma vez, ser produzido e protagonizado pelo povo, e não mais ditado por ‘deuses’ da música.

Ricardo Tacioli é editor-assistente da Som Livre Loja Virtual

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