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CORES D FLORES Dar nome a uma banda é tarefa ingrata. A história do rock sempre foi permeada por esta curiosidade. São trocadilhos infames, combinações entre substantivo e adjetivo (clichê básico, por sinal) e incontáveis idéias esdrúxulas de uma palavra. Só raramente acontece o casamento perfeito entre batismo e sonoridade. O nome do grupo quase nunca condiz perfeitamente com a sua sonoridade ou vice-versa. Como para toda regra há exceção, em Curitiba vingou uma idéia bastante singela. São dois substantivos unidos (ambos do mesmo tamanho e com o mesmo peso) por uma única letra (uma consoante cuja pronúncia dá idéia de preposição). Genial sacada. Cores D Flores. A idéia é justamente a de abstração. Fonemas iguais a texturas, as mesmas que evadem das guitarras e teclados para dar a base necessária aos versos carregados de emoção e sentimento. "Nossa proposta é de um nome extremamente leve, brincar com as palavras", explica a vocalista Marielle Loyolla. "O bom é que não é algo concreto, é mais aberto e etéreo, dá margem a várias interpretações", acrescenta o guitarrista Marco McCoy, co-fundador da banda. "E cor é vida, é esperança. Esperança são como flores, morrem e nascem de novo. Com esperança pode se chegar ao ideal que a gente quer..." A história do Cores D Flores não é muito comum à maioria das bandas curitibanas. Em um tempo relativamente curto (no final do ano passado o quinteto comemorou seu primeiro aniversário), o grupo não só cresceu como também se tornou um dos principais nomes do rock local. Um fator que muito contribuiu para tal foi a grande acessibilidade sonora, que abriu as portas para apresentações nos mais diversos lugares, desde festivais e templos dedicados ao underground a casas noturnas mais conservadoras, freqüentadas por maurícios e patrícias que só saem de casa para ouvir covers. "Somos despretensiosos", explica Marielle. "Sabemos que tocar sempre em lugares diferentes dá para captar mais público". Essa atitude desbravadora ainda levou o Cores a ser um dos líderes naturais do movimento Arromba, que reúne bandas locais dos mais diferentes estilos e propostas para que a força do rock da cidade sempre cresça. Quem presenciou o show de aniversário no Circus pôde notar a amplitude - no time de convidados especiais. Subiram ao palco para cantar e tocar com o Cores músicos de bandas pop, rock, metal, guitar bands e MPB. Toda a larga trajetória profissional de Marielle e McCoy contribuiu para este fenomenal crescimento. Ele é professor de música e já passou por várias pequenas bandas paulistas. Ela está na estrada desde a décad de 80, quando ainda curtia sua adolescência em Brasília. Amiga de Renato Russo e integrantes do Capital Inicial, Marielle liderou o grupo cult Escola de Escândalos (que gravou o hit local "Complexos" na coletânea independente Rumores, até hoje só existente em vinil) e chegou a alçar vôos maiores com as sonoridades dark do Arte no Escuro (grupo que acabou logo após ter seu primeiro disco lançado por uma gravadora multinacional). Depois de fixar residência em São Paulo e passar a integrar a turma do metal, a vocalista fez história no começo dos anos 90 com o grupo feminino thrash Volkana e ainda tentou emplacar, apenas como guitarrista, outra banda de mulheres, a High Low - que não chegou a andar muito por causa da trágica e repentina morte da vocalista. Casados há alguns anos, os dois resolveram se mudar de mala e cuia para Curitiba. Chegaram à capital paranaense há três anos já dispostos a armar o projeto. Depois de se dedicarem um pouco à filha recém-nascida, partiram para a ofensiva sonora chamando alguns velhos conhecidos da cena local. "Nossa vinda para cá foi um choque", revela a vocalista. "O mercado daqui é complicado. O público é interessante, gosta de música mas não está muito acostumado a respeitar o trabalho local. Também, com razão. O que vinha sendo feito até então não tratava as pessoas de maneira respeitosa". O baixista Douglas acrescenta: "É inegável que o nível musical da cidade melhorou muito. Foi bonito o boom do alternativo por volta de 1993, mas a galera nunca se preocupou em fazer algo que não fosse restrito ao circuito..." Para o casal, o maior empecilho em Curitiba é o grande desinteresse pelo desconhecido. "É só aqui que acontece uma coisa dessas", reclama Marielle. "Em Brasília, as pessoas pagam dez reais para assistir a uma banda que não conhecem. Aqui, com o ingresso a três, não vão ou então ficam pedindo convite", alfineta. "Não se troca o certo pelo duvidoso, mas às vezes o duvidoso pode ser maravilhoso", acrescenta o baterista Deiwerson. Embora o Cores sempre tenha gravitado em torno de Marielle e McCoy, o casal não se preocupa muito com o fato de "ter a propriedade da banda". "Somos o núcleo central porque estamos juntos há mais tempo", reflete McCoy. "Nossa concepção, porém, é sempre dar liberdade para os outros. Se estão ocupando o espaço, é porque ele foi dado para fazer justamente o que estiver com vontade". Vários músicos já passarm pela formação, hoje estabilizada com Douglas e Deiwerson, ambos oriundos do amalucado Iguana Dead, mantido há alguns anos em estado de animação suspensa. O mais recente agregado é o tecladista e DJ Sander, que com seus samples e programações, trouxe à banda maior proximidade com o presente da electronica - o músico aimda possui o projeto paralelo Sub Mix, mais voltado às pistas de dança. Atualmente a banda está em fase de mixagem de seu primeiro disco, um EP com seis faixas. Embora o trabalho se encontre perto da conclusão, ele não deverá ser lançado de imediato. "Estamos com um empresário de Brasília que já está marcando shows por várias capitais. Ele também irá percorrer as gravadoras no primeiro semestre com essas músicas. Caso nenhum selo se interesse em lançar, nós mesmos vamos bancar o disco. Mas isso só será por volta de junho ou julho." Se o ano passado foi excepcional para o Cores D Flores, 2000 já chega com muitos planos e alguns frutos sendo plantados. O rock de Curitiba agradece. |
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