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DADO VILLA-LOBOS E MARCELO BONFÁ
Religião Urbana
Marcus Marçal

Três anos após a morte do amigo Renato Russo e por ocasião do lançamento do álbum acústico gravado para programa da MTV, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá falam sobre vários assuntos, entre eles: a aura mítica que se consolidou em torno da banda com o passar do tempo, outtakes da Legião para um possível lançamento futuro, projetos particulares, trabalhos solos, homenagens ao falecido vocalista, as lendas decorrentes dos incidentes ocorridos no estádio Mané Garrincha, MTV Unplugged e até de um controverso suposto caderno de Renato da época de escola. Confira!

AnoZero - A Legião é uma banda importante na vida de muita gente, ao ponto de algumas pessoas se referirem à banda como "Religião Urbana" (risos). Em algum momento, vocês perceberam que o trabalho de vocês ganharia essa proporção mítica?
Marcelo Bonfá - Que o nosso trabalho iria ganhar essa proporção, não. Mas em alguns momentos a gente percebia: "Pô, esse pessoal é fã mesmo!". É lógico, isso é porque eles se identificam com as letras. Realmente é uma coisa forte, as músicas são bonitas. E eu estou vendo o meu lado: "Ah, legal. Realmente essa bateria está forte, tá passando a maior energia" ou "essa guitarra tem uma melodia linda" ou "essa letra é bacana, olha só o que ele está falando" - esse tipo de coisa, que são bonitas pra caramba. E juntando isso tudo, sai uma química. Você soma e vê o que deu - e o que deu é isso. Não adianta falar "Religião Urbana - nós somos assim". Sempre quando a gente fazia alguma coisa, nós pensávamos em fazer o melhor e continuar com isso, porque a gente sentia que era uma coisa positiva e legal para um monte de gente. Não era pra todo mundo, mas pra bastante gente. Quem gostava, era porque gostava mesmo.
Então quando a gente começava a fazer alguma coisa, nós dizíamos: "Primeiro a gente tem que gostar". E sempre deu certo, a gente sempre fez o quisemos e isso era feito com o coração. Aí tinha um resultado legal. Nós nunca falamos: "Ah, ficou legal. Agora sim, nós vamos ser a "Religião Urbana (maquiavélico)!". E quanto essa coisa de Religião Urbana, ah, sei lá... A gente sempre foi uma banda de rock’n’roll.
Dado Villa-Lobos - Esse tipo de coisa não rolava. Mas lá pelo meio do caminho, lá pelo 3º disco disco... Até então nós éramos uma banda de rock normal e tudo, apesar de já estar com um público enorme e tal. Mas eu não sei, veio do público.
Um dia eu comecei a ver pessoas na platéia vestidas igual a mim. Eu tinha um colarzinho africano lá da Guiné Bissau que a minha mãe me deu pra proteger, como um patuázinho. E eu fiz a capa do disco com ele. Quando eu vi que tinha milhares de pessoas com aquele negócio, eu falei: "Não está certo isso (rindo). Tem algo estranho e não tá". E também fomos nos acostumando e tal.
Mas a gente sempre viveu muito à parte disso também porque sempre nos preservavámos muito. Começamos a fazer muito menos televisão, essas coisas todas - a não ter contato direto com o público: simplesmente fazer os discos, jogá-los e o público recebendo e digerindo aquilo enquanto estamos em casa tranqüilos.
Tudo bem, você liga o rádio, a música toca e você: "Olha só, está tocando. Bacana". E os discos estão vendendo. Mas é claro que aconteceu no "Quatro Estações", o Herbert falou numa revista quando o cara perguntou sobre a Legião: "A Legião não conta. Eles não são músicos, é outra coisa". Eu fiquei até chateado: "Mas como? Nós somos músicos, nós fazemos música".
E o Herbert sempre foi um ídolo pra mim, eu tocava guitarra vendo ele tocar. Bom isso aí aconteceu. E com a morte do Renato cristaliza-se todo o processo de mitificação. Isso se resolve ali: Mito-Lenda. Aí não tem que ser.

AnoZero - O que vocês acham dessa exaltação ao passado? Tem gente que não concorda e acha que temos que tocar a vida pra frente, sem olhar para trás. Vocês concordam com esse ponto-de-vista ou acham que isso pode ser útil?
Dado - É claro que você tem que viver olhando pra frente, mas eu acho que você não tem como evitar o passado. Essa coisa de tempo é esquisita, mas você tem uma bagagem e o tempo, na verdade, vai acumulando coisas na sua cabeça das quais você não vai se livrar e você vai continuar pensando sobre aquilo e vivendo aquilo - tentando continuar vivendo com todas essas referências que você tem.
Eu não posso viver sem o tipo de informação que eu tive: eu sou isso que eu sou hoje, por quê? Desde o berço, eu tive certo tipo de informação que me foi passada e impregnada: coisas boas, coisas ruins... e você vai tendo que lidar com isso e digerir isso dentro de você, mas sempre indo pra frente, é claro. Mas às vezes é chato você perceber que as coisas pararam de certa maneira.
Em relação à essa coisa da Legião, eu procuro tentar ver aquilo da seguinte forma: Ok, aquilo existiu e ainda existe, mas eu sozinho sou outra coisa e tento até me envolver o menos possível com essas coisas. Então, o Jerry Adriani gravou um disco com as músicas da Legião em italiano. Nós ouvimos e é incrível, lindo. Deu até vontade de chorar (rindo).
O cara tem um vozeirão e o timbre dele é realmente parecido com o do Renato, ou vice-versa. Mas ficou lindo o disco porque foi o Trilha e o Fred que fizeram. Vamos abrir uma franquia da Legião daqui há pouco e com o Jerry cantando e tal. Mas eu não posso me envolver com isso. Ok, é legal - mas eu estou pensando em outras coisas. Eu tenho o meu selo, a minha gravadora e musicalmente eu estou pensando de outra forma também.
Bonfá - Eu acho que você tem que tocar a vida da maneira que você achar melhor pra você. Olhando um pouco pra trás, um pouco pra frente e também olhando um pouco pro chão pra você não tropeçar e cair (rindo).

AnoZero - Recentemente foi inaugurado um museu em Brasília em homenagem ao Renato. E desde o incidente no Mané Garrincha, vocês não tocaram mais lá. Caso houvesse a possibilidade de algum show lá em Brasília, algum evento de celebração à figura do Renato, vocês participariam?
Dado - Não sei, vai depender de como for, de que tipo de aproximação as pessoas iriam dar pro lance. Poderia até ser, eu acho sempre bom as pessoas lembrarem de que foi. Tem muita gente que até hoje não dá o devido respeito e o devido valor a quem foi o Renato e o que ele fez. Mas vai depender.
Bonfá - Nós tocamos em todas as capitais do Brasil no máximo umas duas vezes e não tem nada a ver com essa história de Mané Garrincha, isso é uma lenda besta. Nunca aconteceu p* nenhuma assim. Foi muito mais uma coisa interna de cada um e é lógico, que a banda tendo uma química, levando em consideração os lados de todo mundo, isso pode ter transparecido na Legião Urbana, que era como todo mundo via cada um dos integrantes.
Mas o que aconteceu em Brasília foi uma fatalidade boba que aconteceu e poderia ter acontecido em qualquer lugar. E por ter sido num show que tinha muita gente, tomou o vulto que teve. O que aconteceu a mais? Uns carros bateram na entrada por falta de organização do trânsito, algumas pessoas porque a polícia é violenta. E ficamos nos perguntando: "O que está acontecendo? Subiu alguém no palco e agarrou o Renato pra dar um beijo nele? Foi isso o que aconteceu?". C*, não teve p* nenhuma a ver! E aí cada um viu da maneira que queria.
Uns picharam na frente da casa do Renato e outro falou: "Vocês não podiam fazer isso!". Fazer o quê? Ninguém viu o que aconteceu porque estavam há dez mil metros de distância. Na semana seguinte, nós tocamos em Belo Horizonte e foi um p* show. Eu acho engraçado porque todo mundo fala desse episódio de Brasília (rindo). Era uma fase em que tínhamos um show pesado. E não é fácil tocar um som pesado para um monte de gente... sei lá, 40 mil pessoas...
Dado - Na verdade, o Renato estava cada vez mais... (pausa) querendo se distanciar dessa coisa de palco, de show, histeria, viagens e tal. Por algum motivo, aquilo fazia mal a ele. Ele não suportava muita adrenalina, muita... (interrompe).
Aquilo mexia com ele, que ficava dias sem dormir. E aí tinha as drogas e tudo... que acabou sendo (interrompe). Então fomos fazendo cada vez menos apresentações, mas quando tocávamos era pra muita gente. Então se fazíamos um show em São Paulo, vinha gente do interior, gente de tudo quanto é lugar.
Mas voltamos com tudo no "Quatro Estações" porque a Zélia Cardoso de Mello tirou o dinheiro de todo mundo, precisavámos fazer dinheiro pra viver e começamos a fazer a turnê daquele disco. Eu me lembro que depois daquilo o que contribuiu pra gente parar um pouco foi justamente a descoberta de que o Renato era HIV positivo.
Então, a gente teve que fazer as coisas com mais calma e tal: evitar os excessos, apesar de trabalhar e tudo mais... Aí ele tinha recaídas de alcoolismo, então a gente tinha que parar tudo de novo. Era muito desgastante e triste passar por aquilo tudo. Então, a gente sempre se recolhia.

AnoZero - Muitas pessoas ressaltam a incapacidade de surgir uma figura de frente que caracterizasse uma geração, como o Renato era nos anos 80? Digo isso, até por essa coisa das músicas de temáticas universais, que podem chamar tanto a atenção dos roqueiros como a de outras pessoas. O que vocês acham disso?
Dado - Isso agora talvez não seja tão universal. Talvez a linguagem tenha se restringido mais ao segmento, àquela fatia de público, àquela faixa etária. Mas eu não vejo isso como a falta de uma figura central que represente isso tudo. Eu não vejo isso com maus-olhos.
É bom que não exista apenas um ícone, e sim vários - várias pessoas falando ao mesmo tempo nesse sentido. Agora é isso, o discurso, a linguagem e a temática ficaram meio restritas a um determinado público - uma coisa que, de repente, pro Legião, Paralamas, Barão, Titãs... não era tão restrito. Abria um pouquinho mais.
Um cara que hoje tem 40 anos pode gostar de Legião, Titãs... mas, de repente, ele pode não conseguir assimilar o que os Raimundos ou o Planet falam. É isso.
Bonfá - Ah cara, eu acho que um Renato Russo só aparece de cem em cem anos (rindo). Principalmente pra quem o conheceu. Não é todo dia que vai ter. E nem Renato Russo ou a Legião eram só anos 80. Tem e-mails que eu recebo, hoje em dia, de crianças de 12, 13, 14 anos que adoram a gente.
Não é só um reflexo da geração dos anos 80, não é por aí que eu vejo esse aspecto. Só por que começamos nos anos 80? Talvez deva ser por causa do estilo musical, mas existem músicas da Legião que você ouve e que não são necessariamente... (interrompe). É lógico que quem viveu aquilo, sabe que foi gravado nos anos 80. Da sonoridade aos efeitos, tudo é data. É impossível, mas eu não consigo ver por esse ponto de vista. A melodia me marca, o ritmo me marca. Na verdade, a vida dá voltas.

AnoZero - Estão sendo feitos dois livros que tratam sobre a Turma da Colina, ainda que com enfoques diferentes. Vocês acham que com o lançamento desses dois livros obre a Colina - o do Paulo Marchetti e o do Dinho - a história de vocês pode vir a influenciar as bandas novas ao ponto de ocorrer uma nova eclosão de um movimento de rock como fenômeno pop?
Dado - Não sei, eu acho que isso já acontece. Em Brasília, existe uma cena. As pessoas estão fazendo, teve agora esse "Porão do Rock" e tal. Eu não fui, mas... No Rio Grande do Sul também tem, você vai pra Salvador, Recife... e é a mesma coisa - só que num cenário diferente, com um sotaque diferente e com idéias atualizadas sobre o que é vida nesse país.
Mas eu acho que a história vai se repetir sempre. Não tem jeito, sai de onde a garotada está: ou é no colégio ou é na rua. E vem, mas é claro que os meios de comunicação mudaram muito e a circulação circula muito mais facilmente, mais rapidamente do que naquela época - que parece o Paleozóico, em relação a hoje (rindo).
É uma outra era, mas é legal as pessoas lerem como bom entretenimento e, se a história estiver contada de uma maneira bacana, isso com certeza vai levar as pessoas a pensarem sobre isso. Na verdade, você está ali falando de amizade. Da amizade num grupo, amizade em construção, e não em egoísmo e destruição, que é justamente o contrário.
Bonfá - Existe, é claro. Mas só se você estiver esperando que todo mundo leia os livros (rindo). Na verdade, eu não posso dizer porque eu ainda não li os livros porque eles ainda não estão prontos. Então eu não sei qual é a deles. Pode até ser que eles tenham coisas interessantes e algum cara se toque.
É lógico que isso vai influenciar alguém, a gente sempre lê e se influencia por alguma coisa. Mas essa história já foi contada milhões de vezes em vários lugares, inclusive em jornal. Eu acho que no Brasil as pessoas lêem muito mais jornal do que livro. Agora, se você espera que um monte de gente leia e se baseie nisso pra fazer alguma coisa... sei lá, pode ser.

AnoZero - Eu cheguei a escutar uma história de que o Renato tinha um caderno de escola em que ele contava a história de um roqueiro e que isso acabou sendo mais ou menos a história da Legião. O que vocês acham dessa história?
Bonfá - Eu não conheço isso. O Renato tinha um monte de cadernos, milhões de histórias, milhões de nomes de bandas, capas de discos... E eu não conheço nenhuma que tenha o Bonfá lá dentro (rindo).
Dado - (rindo) O Renato sempre foi um fã de música, sempre fã de rock’n’roll. Ele sabia tudo, era uma enciclopédia ambulante. Quando ele e o Jello Biaphra se encontraram foi impressionante. Mas ele tinha essa banda imaginária e ele escrevia tudo. Ele tinha a biografia de todos os integrantes. Era uma banda, sei lá, com um quinteto. O baixista era ele e tinha um nome - se chamava Eric Russel, daí o Russo.
Então ele tinha a discografia da banda. O primeiro disco se chamava não sei tal, o lado A tinha seis músicas e o lado B tinha sete músicas. A primeira música era assim e falava sobre isso, isso e isso... A segunda era tal, tal, tal... No lado B era a mesma coisa. Aí, o nome da editora era Sun Flower Editions - alguma coisa assim.
É isso. Você tinha muita informação do que era o rock, desde o comecinho dos anos 60 pra cá e ele romantizou e escreveu. É praticamente um livro sobre uma banda. É tipo o "Spinal Tap", sabe? "This is Spinal Tap". O cara fez aquele documentário, inventou aquela banda imaginária e está tudo ali. É mais ou menos a mesma coisa.
Claro, nesse documentário existe humor à beça e tem coisas incríveis sobre rock e tal. O Renato não, ele ia mais no terreno da psicologia, na psiquê de cada membro. Ele conseguiu ficar horas num ônibus falando sobre essa banda, no que era uma viagem tipo Vitória-Guarujá. Isso estava no imaginário dele. Não sei se é a história da Legião, mas podia muito bem ser. Ele romantizou e tal.
Bonfá - Ah, não sei. Eu não me lembro disso, não (rindo).

AnoZero - Chegou a ser dito por aí que seria lançada futuramente uma caixa com outtakes da Legião, até porque existe bastante material. Queria que você falasse sobre isso.
Dado - É, a gente pensa em fazer. Na verdade, a gente tem que recuperar as fitas que estão na EMI, que devem estar danificadas - úmidas, colando e saindo "aquele negócio". E você tem que colocá-la num forno e transcrevê-la para uma fita nova ou digitalizá-la - além de ouvir esse material.
Na verdade, a gente falou pro Reginaldo (roadie, mas que futuramente se tornaria secretário do RR) fazer isso, pra ele fazer esse catálogo. Ele conhece muito a Legião e vai saber ouvir aquelas fitas todas, identificar e rotular aquelas coisas todas.
Aí então, a gente ouviria e separaríamos o material. Tem bastante coisa, tipo essa antologia dos Beatles: versão de "She’s a Woman" só com pandeirinho e não sei mais o quê. Além de "O Grande Inverno na Rússia", uma música instrumental, que também está lá, entre outras como "Juízo Final". São coisas que eu nem me lembro que possam existir, mas estão lá.
Bonfá - A gente deve ter algumas coisas, mas não é nada muito sério. A gente sempre compunha todos os discos no estúdio. Por isso, nós temos um monte de coisas gravadas. Pouca coisa é ao vivo, mas tem alguma coisa.
É claro que dá pra fazer um disco e tudo, mas é diferente. Não sei, talvez um dia a gente faça - por brincadeira ou por diversão. Eu me amarro, mas no momento, eu estou trabalhando no meu disco, que estarei finalizando até o final do ano.

AnoZero - Eu me lembro de ter gravado do rádio uma música da Legião que tem um verso mais ou menos assim: "...Daria tudo pra ver a maldade desaparecer...". Que música é essa?
Dado - É "Juízo Final", do Nelson Cavaquinho: "(cantarola) O Sol há de brilhar mais uma vez.../ É a história do bem e do mal / Quero ter olhos pra ver a maldade desaparecer....".

AnoZero - E aí entra uma parte tribal, com a guitarras em delay.
Dado - É, meio The Cure, alguma coisa assim.
Bonfá - Cara, tudo o que foi registrado pela Legião os fãs já tem. É só catar (rindo). Não é só você que tem isso: você e mais 100 mil fãs (rindo). Mas eu tenho uma fita ou outra. É legal pra caramba ouvir esse tipo de coisa. Agora todo mundo está envolvido com seus próprios projetos, mas quem sabe se no futuro a gente se reúna, eu e o Dado, e façamos um disco tecno-dance da Legião (rindo).

AnoZero - A Fluminense FM tinha um material bem legal da Legião. Eu lembro de ter escutado uma versão da "Canção do Senhor da Guerra" mais elétrica ainda do que a versão que está no disco "Música para Acampamentos". Sem teclados e mais rocker.
Dado - Ah, eu sei qual é. Foi a que foi pro disco do cometa Halley: "A Família Halley". Porque aquilo era uma demo que o Renato tinha feito e a gente foi fazer esse programa. O cometa Halley ia passar e a Globo fez esse programa meio infantil sobre a "família Halley". Nós éramos os guerreiros (rindo). Nós representavámos a guerra, o ódio ou sei mais o quê, naquilo tudo. Daí o "Senhor da Guerra": "O Senhor da Guerra não gosta de crianças (cantando e rindo)". Era um programa infantil. O Renato tinha feito primeiro aquela demo e nós fomos gravar na Som Livre a versão pro disco do programa. Eu não tenho isso e é uma pena.

AnoZero - Pouco antes do lançamento do CD A Tempestade, você chegou a falar numa entrevista sobre a possibilidade dos álbuns do Legião posteriores ao Tempestade serem lançados pela Rock It!...
Dado - Não, isso não tem a menor chance. Eu acho que não falei isso, não pela Rock It. Imagina... alguém deve ter escrito errado.

AnoZero - Mas você sabe qual é essa matéria. Ela tem até uma foto em que você está com uma camisa estampada com dinheiro e tal. Você também estava de óculos escuros e fumando um cigarro. Te pergunto isso porque naquela época vocês estavam em final de contrato.
Dado - Ah, isso foi na Showbizz. Isso foi um absurdo que escreveram, fiquei puto com aquilo. Não existe essa possibilidade. Aquilo foi de brincadeira do Renato (rindo). Estávamos renegociando contrato e pode ter rolado: "Ah, então vamos lançar pela Rock It!". Aí eles se desesperaram (rindo).

AnoZero - Dado, como é que está a sua participação na turnê dos Paralamas?
Dado - Eu devo fazer na medida do possível. Eles estão fazendo o trabalho de divulgação e eu toquei com eles no VMB, a gente também fez Faustão e foi muito bacana (rindo). Há quanto tempo! O Faustão é um cara legal e foi muito bacana. Teve uma espécie de homenagem e ele foi muito simpático. Ele lembrou essas coisas todas, do Renato.
E aí o que eu penso é o seguinte: os Paralamas funcionam de um jeito diferente. Eles não param: "Ok, agora vamos fazer esse disco. Pára tudo pra trabalhar o disco e depois fazer a excursão do álbum". Eles vão emendando uma coisa na outra. Há 15 anos é uma bola-de-neve que vai crescendo e vai emendando uma coisa na outra, com projetos e tal. No momento, eles estão fazendo essa coisa com os Titãs - ainda com o show elétrico deles, tem o Acústico e eles ainda estão montando projetos deles só com o trio.
Eu acho que, se o lance do Acústico realmente der certo e se tiver uma demanda do público, com certeza eles vão dar uma atenção maior ao Acústico e é claro que eu vou estar, sempre que eu puder, nos lugares mais importantes: capital e tudo. Mas eu quero viajar, eu quero ir pra Argentina, América do Sul e por aí vai (rindo).

AnoZero - Você está produzindo um CD do Tony Platão, me disseram que você tocou todas as guitarras e baixos do disco.
Dado - Não, na verdade começou assim: eu e ele. Eu toquei várias coisas, programei, fiz baixos, guitarras. Mas aí o repertório foi abrindo e nós fomos chamando mais gente pra participar do lance. Então tem João Barone, Bacalhau, o Domênico, o Kassim - a gente gravou duas músicas dele. Tem o pessoal da banda do Tony, o P.A. , o Sérgio, o Thiago, o baterista dele: o Lourenço. Então ficou mais bacana. Senão ficaria muito a minha cara.

AnoZero - Como estão os novos projetos da Rock It!?
Dado - Estamos lançando o Comunidade Nin-Jitsu, vamos continuar o trabalho com o Ultramen e aí a vamos entrar no estúdio pra fazer um disco bem low profile, mais experimental, com o Triplex - que é uma banda daqui do Rio. É mais assim eletrônico, mas com banda, bateria e tal. Tem também os Devotos que gravaram aqui. Eu não sei se vai sair pela Rock It!, na verdade, estou dando uma força pra eles gravarem o disco e aí vamos ver em que situação eles ficam.

AnoZero - Como dono de um selo, você vê possibilidade do material das bandas de Brasília do início dos 80 vir à tona em um CD futuramente?
Dado - Eu acho difícil porque a qualidade é muito ruim do que se tem em registro. É aquela fita Basf laranja ferro-chromo. Mas tenho um amigo que tem muita coisa, vai começar a digitalizar e você vai ver o que acontece. Mas não sei... como registro está lá, tem coisas incríveis. É barulho, distorção e pura energia (rindo).

AnoZero - Bonfá, você está finalizando seu álbum solo. Queria que você falasse um pouco sobre ele.
Bonfá - Tá bem legal, é um trabalho pop e o nome do projeto é Bonfá. As composições e os arranjos são todos meus, mas a produção é minha e do Trilha. Eu canto, toco teclado, bateria e as letras são minhas e do Gian Fabra (ex-baixista do Tantra, Buana 4 e da banda que acompanhava a Legião ao vivo). Eu o chamei pra tocar os baixos e o Fred Nascimento pra tocar as guitarras. E é isso, nós já temos dez músicas prontas e devemos mixá-las lá para outubro.

AnoZero - Você já tem alguma previsão de lançamento? Vai ser um projeto informal ou você vai trabalhá-lo como uma nova carreira?
Bonfá - Eu não sei se é uma nova carreira, mas é o meu trabalho. As músicas estão bem legais, eu banquei todo o projeto, que foi composto inicialmente num sequencer. Então todos os arranjos estavam já lá... as melodias, a estrutura... as melodias de voz são todas minhas.
Uma letra é da Fernandinha Takai (Pato Fu) e outra é uma parceria dela com o marido dela, o John. Uma letra é do Fausto Fawcett e as outras sete são minhas e do Gian. É um trabalho solo, é a mensagem da minha vida. Faz uns dois anos que estou nesse projeto, eu fiz um estúdio e gravei tudo aqui em casa, bateria e baixo. Eu tenho um equipamento e montei um estúdio pra isso. Quer dizer,eu montei um estúdio pra mim.
O sonho da Legião sempre foi ter um estúdio e só agora eu consegui realizar - pra você ver como as coisas demoram. A Legião nunca teve estúdio. E eu fiz um estúdio, gravei as músicas, estou cantando e está sendo muito legal fazer isso. Eu vou terminar esse disco agora e não sei. Mas tenho uma idéia, eu penso inicialmente em fazer independente e vender na minha homepage www.mbonfa.com/.
Aliás, é na minha página onde vai ter as primeiras informações a respeito. Eu inicialmente gravei um single com 4 músicas e estou mostrando pra algumas pessoas através do meu empresário, Rafael Borges, e vamos ver no que dá. Na verdade ainda não terminei o disco, então só quando eu terminar, vou saber o que vou fazer.
Eu não sei se vai sair por alguma gravadora ou se vou continuar o trabalho assim. Eu tenho que parar um pouco, dar uma respirada porque é foda fazer a produção toda. É por isso que estou demorando tanto, mas não tenho pressa porque está saindo exatamente do jeito que quero e está ficando bem legal.

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