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2 2 . 0 3 . 0 0 - t u d o c o m e ç a a q u i |
DODÔ Eu não acordo muito cedo, eu não ganho meu dinheiro (...)/ Eu não tenho medo de perder o meu emprego porque eu não tenho nenhum/ (...) Eu não vejo motivo pra me sustentar/ E eu não posso r eclamar/ Eu não tenho raiva de nada/ (...) Me formei em economia onde aprendi a poupar minha energia/ Não atendo telefone e às vezes converso com o teto/ Eu não fico doente/ Eu não fico contente/ Não preciso de muito pra me sustentar". Quem conhece Dodô sabe que ele é assim mesmo. Quieto em seu canto, o ex-baterista da PELVs e um dos donos do estúdio Freezer é um dos principais nomes do clã Midsummer Madness, no Rio de Janeiro. Desde o começo da década vem se metendo em diferentes projetos, tocando com os amigos e produzindo bandas. Mas, sem ser perguntado, começou a fazer seu próprio trabalho. Alguma Coisinha Para Dar de Presente aos Amigos é o nome de seu surpreendente projeto solo. Tocando todos os instrumentos (guitarra, baixo, bateria, teclado, violões, teremin, moog, sampler, sintetizadores, marimba, viola de pau, pandeiro e percussões em geral) e surrupiando trechos de alheios com samplers de MPB, Dodô criou um painel sonoro moderno e espantosamente brasileiro para explicar - sem se gabar ou lamentar-se - seu ponto de vista em relação à vida através da música. Depois de uma intro sincopada com baixo eletrônico, Elis Regina e ruídos stereolábicos, Alguma Coisinha (citada no começo do texto) abre o disco espreguiçando-se, enquanto a frágil voz cansada do autor explica-se sobre um loop de percussão de capoeira, um eletrocardiograma e sopros de teclado. Versus tem duas partes: a primeira constrói um groove que faria Beck sorrir enquanto Dodô afoga o próprio embaixo d'água (distorcendo outro em segundo plano) e a segunda parte para um forró safado, enquanto a letra contrapõe novos opostos (Hora x Agora, Ontem x Moda, Solidão x Campainha, Tiro x Beijo, Lar x Lá) para confrontar uma conclusão antitética: "Tomara que cada um esteja escolhendo a vida certa/ Você não tem certeza do caminho". Tudo Dorme Um Pouco em Você cutuca a memória emocional ao anunciar que coisas tão diferentes quanto "as notas, os preços, as festas, as letras, as birras, os vírus, os medos, os dedos, os queijos, as chaves, as modas" estão presas em nós, em tom de canção de ninar. A excelente Toda Glória do Mundo celebra a derrota ("mais valiosa que mil triunfos") com guitarras wah-wah e cavaquinho. A Chuva Morna Antes do Meio-Dia Propriamente Dita embala um xaxado cibernético em ondulações magnéticas com vocais etéreos. "Não tenho necessidade de luz elétrica porque tenho o mesmo sono toda noite", resume, em uma frase, seu modo de vida antitecnológico. Fax novamente acena para o Stereolab em um texto musicado que canta uma insegurança tecnofóbica que é um dos temas centrais do disco. Docinha mostra lenta e pesadamente o quanto é inútil dividir as coisas entre bem e mal (ou certo e errado), ao separar as coisas entre doce e salgado. Na mistura, John Coltrane, Orquestra Românticos de Cuba, Carmen Miranda, Tim Maia, João Gilberto e Genival Lacerda. Uma salada - mas faz sentido. Rotina sorri para o Air enquanto ele descreve, apenas com objetos, verbos e frases curtas, seu trajeto rotineiro. A longa Minha Cara é samba moderno e não soaria estranha num disco do Mundo Livre S/A. Fim quase encerra o disco dizendo que "subir é bem melhor que sumir", "sumir é bem melhor que sentir", "sentir é quase igual a dormir" e "sorrir é quase igual a sumir". Cesorriago é a única a trazer as influências de pop inglês que passam pelas bandas por onde Dodô passou. Gravado em 1998, o disco ainda é novidade por um pequeno detalhe: Dodô não o lançou comercialmente. Mas o disco é muito bom para não ser notado (só peca pelo excesso de cordas sintetizadas), por isso, insista com ele uma forma de conseguir o disco através do email freezer@domain.com.br . Não ligue se ele não responder. Insista. |
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