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| 01.02.0 0- t u d o c o m e ç a a q u i - a n o z e r o @ y a h o o . c o m |
FLUCAYMMI HI-TECH Alexandre Matias Conheci o trabalho do Flu num dia do começo do ano passado, perambulando pelas páginas do MP3.com. Qual a minha surpresa ao se deparar com um artista brasileiro chamado "flu": não pensei duas vezes e fui entrando. Ao chegar na tal página lá está uma foto de um figura de bermuda e jaqueta, ajeitando os óculos e esticando o beiço para ficar com aquele bico do Rick Moranis, sentado na beira de alguma estrada, com o maior ar de "nhé". E aí?, pensei. As músicas não ajudavam muito, seus títulos eram de uma simplicidade explícita, assim como a pequena descrição que o site pede que coloque de cada uma das canções. Suellen, uma "bossa nova" foi composta "numa tarde de sol com meu amigo Nequete e Fred, nada mais que isso!". Visita de Carla, "experimental" é "Carla rindo e se divertindo". Bruxa é "música pra comê mulher"; Bagazzo, "viajando e dançando"; Jet, "amigos cantando e brincando". Na ficha técnica que o site também pede para preencher, ele se descreve como uma "one man band" que toca "tecno bossa nova", citando o mítico louco de rua Damião Experiença como influências e citando o japonês Cornelius como artista similar. O som é música eletrônica vianjandona, às vezes flutuando no ritmo (drumnbass farofa, bossa nova no Casiotone), outras na melodia (canções quase infantis). Pra coroar o estranhamento - e, de quebra, a aceitação -, o cara ainda lembrava que passou doze anos tocando baixo numa banda chamada DeFalla. Sim, Flávio Santos agora atende por Flu e abandonou por cansaço sua antiga banda. Não quebrou o pau com ninguém, queria só um pouco de sossego e, enquanto não fazia nada, foi montando seu pequeno estúdio particular ao redor do computador. O resultado foi parar tanto no MP3.com quanto nos ouvidos de Carlos Eduardo Miranda que, no seu conhecido ímpeto momentâneo, se dispôs a lançá-lo. Por isso, o som estratosférico de Flu pode ser conferido agora em vias tradicionais, em seu primeiro CD, ...E a Alegria Continua (Trama). No encarte, um pequeno manifesto: "A vida é séria? Claro que não. Problemas? Sempre são fáceis de resolver. Barbada! Dinheiro? Felicidade traz dinheiro. Seja tranqüilo, sem medo. Seja alegre e passe alegria. Tudo é simples. Fácil!". Fácil, né? O cara descobriu a fórmula da felicidade (ser feliz, ora bolas) e quer transmitir esse espírito com suas musiquinhas de brinquedo. É fácil - ainda mais vendo as fotos no encarte - ver Flu se divertindo enquanto compõe esses minutos de blocos de música que se encaixam uns nos outros. A caricatura que o desenhista Allan Sieber fez do autor não lembra o Dexter do desenho animado à toa: Flu entra em seu laboratório pessoal e, munido de suas engenhocas e idéias, tenta fazer do mundo um lugar melhor de se viver. Só que a ciência de Flu é a música, a tecnologia é o estúdio pessoal e o astral é o mesmo do texto que anuncia suas intenções. Flu faz parte de uma geração de brasileiros que aos poucos está se formando. Com apenas um gravador portátil e programas de computador, artistas em diferentes lugares do Brasil descobriram as maravilhas dos quatro canais e passaram a exorcizar seus demônios em cima destes. Tocando com guitarras, violões ou baterias eletrônicas, esses trovadores solitários (às vezes em dupla) ainda agem separados uns dos outros, mas é questão de tempo para que o diálogo entre eles comece e algo novo comece a se formar. Nomes? Grenade, de Londrina; Varnan, de Maceió; Headache, Ultrasom e Charllotes Suit, de São Paulo; Moonrise e Postal Blue, de Brasília - todos travam um diálogo com o estúdio portátil que funciona melhor que terapia, elegendo a música - logo, a arte -, como o melhor método de eliminar as tensões do dia-a-dia. Dodô, ex-baterista da banda carioca PELVs, também está com outro trabalho neste mesmo sentido. Dois nomes de conhecidas bandas do sul do país também ensaiam suas incursões no reino do eu-sozinho. Flu é o mais velho desta turma e certamente o que soa mais eletrônico. Suas pequenas composições exalam ares diferentes, casando sons sintéticos com instrumentos acústicos com muita propriedade. Na maior parte do disco (em faixas como Tchururu, os sambanbass de Cantando e Brincando e de Mama, Jet, Quero Praia - que escorrega pro ritmo, mas não esconde sua tranqüilidade) Flu é um Dorival Caymmi hi-tech, sentado sob uma árvore numa tarde de sol, munido de fones de ouvido e laptop. É a techno bossa nova que ele mesmo usou para descrever seu som: Towa Tei ficaria lisonjeado. Mas ele render mais quando sai da sombra e encara o céu de possibilidades que é a combinação cérebro humano + estúdio portátil. Atrelado ao groove (ao "gruvi", como ele aportuguesa), Flu rende mais e melhor. Alien Brasil é o antigo tema do Globo Esporte se esse fosse composto por Booker T & the MGs. Cuca Dança tenta imaginar alguma dança folclórica para o próximo milênio. Visita de Carla vem com as risadas da Carla do título ponteando o ritmo e soa como se o Sean OHagan - dos High Llamas - tentasse fazer big beat. Gruvi veio para este planeta na mesma espaçonave que nos deu Cornelius e o Air. Uma nave em forma de vitrola, que Flu teima em entrar de penetra. Deixem-no entrar, ele quer e promete.
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