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QUAL É O FUTURO DO ROCK
BRASILEIRO? Ressaca de pagode, axé, sertanejo e congêneres são os sintomas que têm acometido vários brasileiros há pelo menos meia década. Aproveitando o término da folia carnavalesca, o AnoZero compilou depoimentos de vários artistas consagrados e nomes emergentes do cenário musical nacional para saber da possibilidade de uma nova explosão do rock como fenômeno pop. Do bate-rebate de idéias, saiu uma unanimidade: todos apontam para a perspectiva de que o rock possa tomar as rádios novamente de assalto, em razão da saturação no mercado de gêneros como o axé, a música sertaneja e o pagode. Vale, porém, ressaltar: todos demonstram um certo ceticismo quanto à suposta moda vindoura. Confira! Retomada rocker Longe dos olhos do grande público desde o início dos 90, o rock brasileiro foi pavimentando durante a década passada um caminho alternativo para que novos artistas expusessem seus trabalhos foi notável o fortalecimento do circuito underground. E foi justamente nesse ínterim que o rock foi preterido na grande mídia por outros gêneros de maior apelo popular. Apesar de reconhecer a possibilidade de uma nova explosão do gênero na mídia, o artesão pop Lulu Santos acredita que é inútil esperar que o rock retome o lugar que ocupava nos meios de massa nos anos 80. "A história não se repete. As coisas andam para frente e a tendência é que elas mudem mesmo de cara", afirmou o cantor e compositor. Assim como seu ex-companheiro de Vímana [nota do editor: grupo progressivo dos anos 70 que entrou para a história pela carreira posterior de alguns de seus integrantes], Lobão é sobrevivente de outras eras e reconhece a iminência da retomada do rock. Ainda que mantenha ressalvas quanto ao gênero no qual se notabilizou, Lobão se mostra otimista em relação ao cenário, salientando a existência da cultura underground. "Estamos no momento em que há a saturação de alguns gêneros. Acredito, nem que isso aconteça em um universo meio que paralelo, na escala um pouco off-the-road", constatou. Ironicamente, a opinião de Lobão é compartilhada por seu maior desafeto, Herbert Vianna. O líder dos Paralamas do Sucesso endossa o argumento. "Fala-se muito nisso agora. Acho que existe um bode meio generalizado com o que acabou se tornando o status quo nas rádios", avalia o guitarrista. Sintonia entre gerações Para contrabalançar as opiniões dos veteranos, entramos em contato com figuras de outras gerações do rock brasileiro. Estes complementam os comentários de seus colegas mais experientes. Rodrigo Brandão, integrante do Polen (ex-Polux e uma das maiores promessas do rock para 2000), é um deles. O guitarrista ressalta a mesmice que assola os meios de comunicação como fator de pasteurização das manifestações musicais produzidas no país. "Espero que o rock conquiste um espaço maior. O problema é que o Brasil é o país da monocultura. Seria legal que o rock viesse, mas ele não pode ter o mainstream na mão. É saudável que se mantenha uma certa aura underground", destaca. Justamente a questão da monocultura em um país pródigo em manifestações culturais também é destacada por Érika Nande, baixista da Penélope, outro expoente do novo rock brasileiro. "Me incomoda a tendência de só ser vendida uma coisa. Vivemos em um país extremamente fértil, com muita diversidade cultural. Por isso não pode existir tanta segmentação. Me incomoda as pessoas não falarem disso. Pelo contrário, elas até apóiam", avalia. Lulu reitera o que é proposto por Érika. "Parece que a idéia de segmentação está cada vez mais pertinente para as coisas no Brasil. E sob este prisma, os segmentos começam a manifestar a sua verdade com mais ênfase", ratifica. Já Fred Zero Quatro, líder do pernambucano mundo livre s/a, atenta para mazelas que corrompem a indústria cultural no país, ressaltando a influência da economia nesse contexto. "No Brasil todo, uma série de bandas que fazem um som fora do pensamento único não atingem uma determinada vendagem porque são sacaneadas pela máfia do jabá e pelo pacto de mediocridade das rádios. Da mesma forma, também são prejudicadas por uma recessão brutal", sentencia o vocalista. Vale lembrar que o boom de vendagens dos discos do rock se deu em plena euforia do Plano Cruzado e no ilusório ano de 1986, durante o governo do presidente José Sarney. Gabriel Thomaz é um sobrevivente dos anos 90, época em que atacava com o Little Quail. Há pouco tempo, o guitarrista retornou com os Autoramas que, juntamente com o também carioca Los Hermanos, faz parte da ponta-de-lança do rock brasileiro na década que se inicia. Gabriel se mostra bastante cético quanto à retomada do rock na grande mídia, ressaltando uma certa manipulação. "Isso quem vai decidir são os caras da Associação Brasileira dos Produtores de Discos", destilou com ironia e risos. Na opinião de Formigão, baixista do Planet Hemp, a falta de originalidade atrapalha a ascensão do rock, já que a clonagem se torna um meio mais fácil de se capitalizar um caminho já desbravado por outros. "Sempre rola períodos de entressafra porque aparecem três ou quatro bandas e aí vêm vários grupos seguindo o mesmo caminho", lamenta. Lobão também ressalta o perigo da "clonagem". "Acho que será uma coisa relevante. Só não sei se isso pode vir a ser uma febre ou se vai ter aquele lance da matriz da coisa com os subprodutos degenerescentes que vão decaindo e puxando assim, também, todo o cenário." Moda, a próxima parada Modismo ou não, uma conjunção de fatores políticos, econômicos e sociais fizeram do rock um must na mídia nos anos 80. Nos 90, o gênero ameaçou vir à tona em alguns momentos, mas acabou ficando só na promessa. Dado Villa-Lobos, ex-guitarrista da Legião Urbana (a maior banda brasileira do gênero, para muitos) dá seu parecer com relação às desventuras do gênero. "A questão do rock veio nos anos 80 e chegou nos 90 meio fragmentada dentro dos meios de comunicação. Lá pelo final dos 80, algo desandou e o pessoal dos 90 pegou uma coisa mais diluída de você poder se expressar nos meios de comunicação", avalia. Desta discussão saíram alguns comentários que expõem certas mazelas que assolam tudo o que é relacionado ao mercado fonográfico, como a manipulação indébita do gosto popular. "Acho que o axé, o pagode e o sertanejo são produtos de um sistema fraudulento de se manipular o gosto público através de relações meio que corrompidas entre gravadoras e redes de rádio e TV", acusa Zero Quatro. Para Herbert Vianna, a questão é puramente mercadológica. "As coisas não deixam de existir. Não se vende mais ou menos discos de rock e sim o proporcional ao mercado. Mas, volta e meia, a luz da moda dá uma rodada e pára em algum gênero. Eu sinto que ela está voltando na direção do rock." Futuro modismo ou não, novos caminhos para o rock estão sendo pavimentados, e juntamente com as facilidades propostas pela Internet e a tecnologia, existem boas chances do rock sair do gueto rumo ao seu lugar de direito. |
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