anozero04.jpg (31486 bytes)

2 2 . 0 3 . 0 0  - t   u  d  o       c  o  m  e  ç   a       a  q  u  i

ASIAN UNDERGROUND
Abonico R. Smith

Apesar dos guetos negros americanos terem sido bem-sucedidos ao exportar para o mundo sua música de protesto e conscientização, as terras britânicas nunca ficaram atrás em matéria de reclamação. O único diferencial foi a restrição do grito de guerra contra a opressão, que pode ser creditada ao fator imigração. Se o rap mexe fundo com o orgulho da raça negra espalhada ao redor do planeta, os ingleses descendentes de imigrantes procuram lutar por um mundo mais justo dentro do próprio país, reivindicando - e com toda a razão - a igualdade de direitos, a exterminação de mazelas sociais e a não discriminação pela origem racial.

Durante os anos 70 e 80 foi a vez dos caribenhos levantarem a voz (ajudados por expoentes musicais como o punk rock do Clash e os irmãos regueiros do UB40), na última década um outro segmento começou a se destacar no cenário musical do país. O asian underground vem encabeçado por artistas nascidos no Reino Unido mas pertencentes a famílias de imigrantes do subcontinente indiano, que chegaram às terras da rainha depois da Segunda Guerra Mundial.

Regados a infintas audições caseiras de clássicos e sonoridades de seus ascendentes, estes nomes souberam unir com naturalidade o background sangüíneo com a incorporação das novas e contemporâneas tendências como o pop, o dub, o techno, o drum'n'bass e o funk. Deste segmento surgiu o selo independente Nation, que tem lançada agora no país sua primeira compilação, Global Nation... And Still No Hits, pelo também indie Subsolo (contato pelo fone 11-288-1214 ou e-mail subsolo@sternsmusic.com.

Com doze faixas escolhidas a dedo para o mercado brasileiro, a coletânea prova que o reconhecimento de gente como Cornershop, Asian Dub Foundation e o DJ Talvin Singh (que em 1999 superou nomes consagrados como Blur e Chemical Brothers na categoria artista do ano no prêmio Mercury, concedido pela indústria fonográfica britânica). Não espere, contudo, encontrar aqui faixas que combinam com as paradas. Desfilam no disco faixas genuinamente criativas, mais voltadas para o estabelecimento de uma nova ordem musical oriunda de certos bairros e regiões londrinas.

Também não se deve confundir esta nova linguagem com uma palavrinha hoje tão em voga (e erroneamente utilizada) chamada experimentalismo. Estes ingleses-asiáticos sabem muito bem o que querem provocar. Desejam a união entre passado e futuro com a quebra de barreiras sociais e raciais. Provam que tablas podem dialogar com samplers e fazer disto um novo galho na árvore genealógica da evolução musical.

Um dos cabeças desta nova revolução que começa agora a ultrapassar os limites geográficos da ilha chama-se Aki Nawaz, co-fundador do grupo pós-punk The Southern Death Cult (embrião do The Cult) ao lado do vocalista Ian Astbury. Líder do projeto Fun<Da>Mental, Aki vive aparecendo nas páginas das Melody Makers da vida dando bombásticas e por vezes cruéis declarações políticas a respeito da situação de seus semelhantes. Ao contrário de certos confetes e serpentinas caetânicos, Aki não hesita em cutucar a ferida aberta pelo racismo e pela postura de superioridade adotada pelos países do primeiro mundo. "Estou muito mais preocupado com a possibilidade de ser morto pelo Combat 18 do que com nossa posição nas paradas de sucesso", chegou a dizer certa vez, referindo-se à atuação de uma sociedade racista britânica. O Fun<Da>Mental aparece neste Global Nation... em dois instantes: no ambient trance "Mother Índia" e assinando um poderoso remix para "Muthaland", faixa dos rappers sulafricanos do Prophets Of Da City.

Outro expoente das pistas alternativas britânicas chama-se Transglobal Underground, uma mini-sociedade multicultural que ferve no mesmo caldeirão influências musicais captadas em diversas partes do planeta. Em "International Times", rap e big beat (quem assina a remixagem é o conceituado produtor Justin Robertson, também conhecido como Lionrock) se fundem a sonoridades estranhas aos ouvidos do primeiro mundo e que costumam ser pejorativamente classificadas como world music. Já em "Temple Head", quem assume o comando é uma revitalizada acid house.

Antes de estourar com o álbum Rafi's Revenge, o Asian Dub Foundation também pertenceu ao catálogo da Nation. Sua poderosa mistura de punk, drum'n'bass e música indiana vem representada nesta coletânea também em dois momentos: o torpedo "Change A Gonna Come" e uma versão dub para "Jericho". Na categoria artistas-de-uma-faixa-só, TJ Rehmi apresenta "The Fusionist", obra-prima do tabla'n'bass. O Ambisonic opta pelas texturas do dub em "Helicopter Kinda Girl". O Bluebommer, por sua vez, prefere juntar o melhor dos dois e faz d&b viajandão em "Blue Bommer Dub". Nas outras músicas, a Nation ainda prova não ser restrita à veia asiática. O Xangbetos atualiza batidas e dialetos africanos em "Clicksong" e a cantora belga Natacha Atlas, também colaboradora do TGU, mescla house, flamenco e suas origens árabes em "Timbal" (gravada pelo projeto !Loca!). E o já citado Prophets Of Da City encerra a seleção comparecendo em mais uma dobradinha ("Planet Capetown" tem cinco minutos compostos por um atordoante show de scratches). Como apresentação aos brasileiros, este Global Nation é mais do que válido. Resta agora esperar pelos álbuns de seus grandes baluartes.

ENTREVISTA: FUN<DA>MENTAL
Jennifer Koppe

AnoZero - Como foi a entrada de 2000 no Paquistão e como está a situação política atual do país?

Aki Nawaz (Fun<Da>Mental) - O Ano Novo foi ótimo. Claro que, politicamente, todos estavam um pouco preocupados já que os militares estavam nas ruas. Mas percebi que as pessoas estão muito mais calmas e muito mais felizes. Além do mais, o governo atual não é comandado pelos Estados Unidos. Então, acredito que as pessoas estejam relamente mais tranquilas.

AnoZero - Quais são os princípios políticos do grupo?

Aki Nawaz - Nós acreditamos no que as pessoas normais acreditam. Lutamos contra as injustiças, contra o racismo e a discriminação, o terrorismo econômico e a exploração em um nível global. Somos contra o abuso patético dos direitos humanos principalmente pelos governos. Os governantes têm o poder de serem bons ou não e geralmente optam pelo caminho do egoísmo e dos seus próprios interesses.

AnoZero - É esta a situação dos imigrantes na Inglaterra?
Aki Nawaz - É. O padrão de vida na Inglaterra é muito elevado, as pessoas vivem cheias de luxo. O que acontece é que existe tanta riqueza e ao mesmo tempo muita injustiça. Na Índia ou no Paquistão é claro que não é possível desculpar a injustiça, mas é possível entender o porquê dela existir. Na Inglaterra não há absolutamente nenhum motivo para haver tantas injustiças. Infelizmente, é esta a situação em todo lugar. Sei que no Brasil, existe muita injustiça social. Então eu me pergunto: quando é que a raça humana atingirá o senso comum e quando é que vão parar de jogar com a vida das pessoas? Estes joguinhos políticos são doentios... O racismo na inglaterra está se tornanado um assunto um pouco mais aberto. As pessoas estão conversando mais a respeito, mas a situação está se tornando um pouco mais perigosa. Os imigrantes de outras etnias deram passos iniciais para aprender a enfrentar o racismo e muitos ingleses, no caso os "racistas passivos", estão começando a se incomodar. Sempre acreditaram no estereótipo de que os africanos, os sulamericanos e os asiáticos eram submissos e que se calavam quando eram mandados. A situação
está mudando...

AnoZero - Você acredita que o movimento musical asiático seja um dos responsáveis por isso?
Aki Nawaz - Acho muito interessante esta evolução dos asiáticos em relação à arte. Os jovens estão se interessando mais pela arte e pela sua cultura e isso está acontecendo por dois motivos. Primeiro porque existem maiores oportunidades para entrar em contato com a sua cultura. Depois, estes jovens estão conseguindo provar aos seus pais que é possível construir uma carreira com o entretenimento. A arte está fornecendo a estas pessoas mais identidade, mais sabedoria e mais conhecimento sobre a sua herança e sobre o que é realmente importante para eles. Óbvio, esta transformação está acontecendo porque a cultura britânica ou que quer que isso seja, não está alimentando estes jovens com o que realmente precisam como seres humanos.

AnoZero - Como aconteceu a fusão da cultura asiática com a música eletrônica?
Aki Nawaz - A música asiática é muito mais delicada, muito mais progressista e muito mais bela do que o que tentamos produzir; existe uma atmosfera com a qual não temos contato. Quando começamos este projeto, não tínhamos músicos especializados para trabalharem conosco. Pensamos que o melhor a fazer seria juntar o espírito da música tradicional com a tecnologia e descobrimos que o hip hop é é brilhante para trabalhar com música indiana, africana ou qualquer outro estilo étnico. De repente surgiu uma música com um propósito espiritual e não apenas uma música dançante e sem conteúdo. Dá para oferecer muito mais do que isso.

AnoZero - Qual é a dimensão deste movimento de bandas asiáticas na Europa?
Aki Nawaz - É um movimento muito grande, mas ao mesmo tempo de uma forma muito especializada. Ainda existe uma interação muito forte das pessoas que participam do movimento, apesar dela estar se espalhando muito. Antes existiam apenas os festivais de world music que eram apenas bonitas. Hoje em dia, a cada festival estamos incorporando algo novo, porque est se tornando algo muito importante. Ainda estamos esperando os selos das gravadoras, a indústria fonogrfica e as estações de rdio para popularizar mais a nossa música. Hoje existem muitos grupos como transglobal, Asian Dub Foundation, Joy, Lup Gurus, TJ Remi e outros que não pram de tocar pelas ruas, mas a música ainda est em sua essência, não est atingindo o grande público, ainda é Underground. por isso acredito que , apesar de o Brasil estar entrando em contato com o movimento com alguns anos de atraso, não ser problemas nenhum por que apesar do tempo ainda estamos começando, ainda estamos na essência de úma criação que certamente ser bem recebida pelos brasileiros.

AnoZero - Quais são as influências musicais do Fun<Da>Mental?
Aki Nawaz - São inúmeras... Absorvemos tudo. Não existe nenhuma lei de imigração ou nenhuma barreira contra qualquer tipo de música cultural, pois senão estaríamos nos contradizendo e seríamos todos hipócritas. Absorvemos ritmos e sons do mundo todo e não apenas da Ásia, pois a diversidade cultural é imensa. Nós andamos roubando as culturas de todos os lugares do mundo. Queremos que os jovens se interessem pela música étnica. Estamos ultrapassando todas as fronteiras, nem reconhecemos as chamadas fronteiras musicais e políticas. Se o dinheiro pode circular livremente pelo mundo, os homens também podem, bem como as suas influências.

AnoZero - Por que foi escolhido este nome para o projeto?
Aki Nawaz - É um bom nome, 100% político. Na Europa, costumam chamar os descendentes e imigrantes de outras etnias de fundamentalistas e isso soa como algo pejorativo. Por outro lado, no Oriente este termo é muito positivo. Por isso o adotamos, é uma expressão usada de diferentes formas em todo o mundo...

AnoZero - Você tem planos de vir ao Brasil?
Aki Nawaz - Só estamos esperando pelo convite... Então, por favor, alguém nos dê uma mão. Adoraríamos ir ao Brasil. Já conhecemos o resto do mundo, menos a América Latina. Então, nos convidem antes de eu ficar velho demais e com idéias de lançar o The Death Cult novamente!

AnoZero - Por falar nisso, como foi a sua participação no The Cult?
Aki Nawaz - Ah... Sei que no Brasil a banda foi realmente grande! Bem, começamos como The Death Cult, no norte da Inglaterra. Eu era o baterista, os dois anos que passei tocando e as experiências que vivi foram maravilhosas. Depois resolvemos nos separar e o Ian continuou com o The Cult e vocês já sabem o resto. Nós estamos sempre nos encontrando. A última vez foi num show que estávamos fazendo em Nova York. Ian subiu no palco e começou a cantar ao som de uma das faixas do Fun<Da>Mental...

lthe gilbertos, captain beefheart and his magic band, breakbeat era, 4-track valsa,
vibrosensores, wander wildner, pólen, lunik 9, atari teenage riot e beastie boys

nick hornby, jorge mautner, musikaos, second come, nme premier shows, cure,
cores d flores, dado villa lobos e marcelo bonfá, vulgue tostói

lobão, woyzeck, stellar, jupiter apple, flu, sepultura, oasis, érika palomino, jason e simpsons