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JORGE MAUTNER
O SER DA TEMPESTADE
Adriane Perin

Trata-se de um autêntico disco de resgate. Pouco conhecido das gerações mais novas, Jorge Mautner é um dos malditos da música popular brasileira que, com outros trabalhos na área literária e cinematográfica, é influência reconhecida na produção de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Se para os mais velhos, O Ser da Tempestade  pode ter gosto de lembrança, para os teens é mais uma peça importante para aqueles que procuram conhecer um pouco mais da MPB, em suas mais elaboradas produções.

O álbum duplo é a comemoração de 40 anos de carreira do músico e compositor e, segundo Mautner, as músicas foram escolhidas de acordo com o que as gravadoras originais disponibilizaram. Assim, algumas canções ficaram fora - só porque, segundo as próprias majors , elas querem relançar mais tarde.

Com dois CDs, o projeto proposto pela gravadora ao músico tem 28 canções. O primeiro tem os originais de 17 músicas na voz de Mautner. O segundo traz outros intérpretes em 11 faixas. O disco possui também um esmerado encarte, algo que merece destaque - pois as gravadoras insistem em desrespeitar os fãs com encartes mal feitos e pouco informativos. Este veio com todas as letras, fotos e textos de Mautner, Caetano e Gil. Só ficaram faltando mais informações sobre as gravações, já que estamos falando de passagens importantes de nossa história musical.

No meio de um disco limpo e bem produzido, destoa do conjunto a crua "Não, Não, Não", primeira gravação de Mautner, que saiu em um compacto cujo show de lançamento contou com a participação do então desconhecido grupo Os Mutantes. O valor histórico desta música tem a ver também com a história da repressão militar, já que a faixa - juntamente com o lançamento do livro Vigarista Jovem - levou o autor ao exílio.

A primeiro metade é toda permeada pelo bom humor de Mautner em canções como "Rock Comendo Cereja", "Samba dos Animais". Mas deixa a brincadeira um pouco de lado em letras como a de "Pedra Bruta" ou "Não, Não, Não". O outro disco abre com a versão de Gilberto Gil para "Maracatu Atômico" e termina com a gravação que Chico Science & Nação Zumbi fizeram da mesma música.

Ouvir as duas interpretações só reafirma a força da leitura feita por Chico, como um bom exemplo de influência benévola - o artista não se deixa engolir pela genialidade do criador, consegue criar outra obra com a mesma intensidade e sem dever nada ao original. Este disco tem ainda a bela interpretação de "Lenda do Pégaso" (Moraes Moreira) e "Lágrimas Negras" (Gal Costa), além da força do sotaque de Zé Ramalho em "Orquídea Negra".

AnoZero - Foi você quem escolheu o repertório?
Jorge Mautner - Com a colaboração de outras pessoas. A escolha obedece a padrões estéticos, mas algumas músicas ficaram fora porque as gravadoras têm interesse em lançar.

AnoZero - Entre as gravações está o primeiro fonograma que você gravou "Não, não, não", que acabou contribuindo para o exílio...
Mautner - Foi minha primeira gravação, não composição, porque comecei na década de 50. O golpe militar já havia acontecido e foi esta gravação e o meu livro Vigarista Jovem que ocasionaram minha incursão na Lei de Segurança Nacional. É uma música de protesto na qual sou acompanhada por um grupo que não existe mais, The Vikins, gravado pela RCA Victor. O curioso é que no dia do lançamento deste disco eu apresentei um grupo chamado Os Mutantes...

AnoZero - Qual o seu balanço desses 40 anos de carreira,? Você está satisfeito?
Mautner - Muito, muito satisfeito. Em todo lugar que vou no Brasil muita gente me ama, me conhece, me recebe. Eu faço uma arte na qual invento o que quero e tenho ressonância e respaldo. Podem comentar "mas ele não está rico, é maldito". Tudo é exclusivamente responsabilidade minha, não há nenhuma trama conspiradora contra mim. Não tem imperialismo americano, não tem patrão malvado, não tem roubo de direito autoral, não tem nada. Tem apenas, única e exclusivamente minha responsabilidade.

AnoZero - E outros projetos?
Mautner - Tenho vários livros inéditos. Na metade deste ano vai sair um novo de ensaios, provavelmente um de poesias e pinturas também. Vou ser o presidente vitalício do júri de um programa da televisão Cultura, chamado MusiKaos. Além disso, estou também em um programa de ler e escrever, que é minha tese desde sempre - a de que vamos afundar se não soubermos ler e escrever. Vamos chamar gente famosa para ir nas escolas e dizer que a gente é sucesso porque lê e escreve.

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