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MUSIKAOS
A volta do novo
Angela Halat

Músicos, pintores, poetas e estudantes universitários enlouquecidos prometem anarquizar a televisão nas noites de sábado. Comandado por Gastão Moreira (VJ que fez história na MTV), estréia amanhã às 19 horas, na TV Cultura, o Musikaos, proposta de muito bom tom que traz alguma esperança à programação dos canais abertos nos finais de semana.

Com direção de Pedro Vieira, que na década de 80 comandou a Fábrica do Som (programa nos mesmos moldes que lançou gente como Paralamas, Titãs, Ultraje, Legião, Ira! e Capital) e produção de Clemente (fundador e guitarrista do Inocentes), o Musikaos prima pela diversidade. A cada programa se revezarão no palco artistas circenses, bandas iniciantes e grupos já com alguma estrada - além de escritores, pintores e alunos de duas faculdades, envolvidos em uma gincana cultural.

A primeira edição conta com a presença dos cantores Tom Zé e Lobão, que faz uma jam com os sambistas Germano Mathias e Oswaldinho da Cuíca e depois divide o palco com malabaristas e cuspidores de fogo do grupo Fratelli. O programa de estréia traz ainda os pernambucanos do Sheik Tosado, o pintor Achilles Luciano e o poeta Glauco Mattoso, que intercala seus sonetos com a palavra da ONG Keep Da Ocean Clean. Nos sábados seguintes, o público poderá assistir ainda às apresentações do Ira! e Pato Fu.

"A idéia é criar um canal alternativo, cedendo espaço a valores tidos como marginais", explica um entusiasmado Gastão. "No início de cada gravação eu brinco com a platéia: aqui a gente não tem jabá, não tem playback". Mesmo as bandas mais conhecidas, conta, apresentarão músicas diferentes daquela que vem sendo tocada no rádio.

As faculdades que participam da gincana também darão seu recado musical, trazendo para a disputa uma banda e um orador, submetidos aos comentários polêmicos e irreverentes dos "jurados" Jorge Mautner e Dudu Marote. "O espaço do orador é uma das coisas mais importantes", diz Gastão. "Queremos mostrar para o público a opinião do universitário. E os estudantes sabem que têm de estar preparados, se não leva vaia mesmo."

Ao recorrer à participação dos universitários, o Musikaos tenta resgatar a efervescência que havia no início dos anos 60 entre os estudantes de nível superior. "Vejo alguns programas de auditório e acho a platéia muito fraca, engole qualquer coisa, não faz perguntas bacanas", critica o apresentador.

"Procuramos resgatar o pensamento do universitário mesmo, ver o que pensa o cara que estuda, que está pagando uma faculdade." Para se ter uma idéia da movimentação no auditório, Gastão distribuirá à platéia, entre a apresentação de uma banda e outra, marmitas culturais - kits com livro, CD, ingresso para shows e cinema. Ganha a "marmita" quem responder corretamente a uma pergunta ou der o melhor recado sobre uma questão polêmica no momento.

P&R
Gastão Moreira

AnoZero - De onde vem o nome Musikaos?
Gastão Moreira - Quando nós estávamos discutindo o programa, eu levantei a lebre. Bom, é um musical de fim de século, de virada de século; um musicaos. Aí todo mundo gostou.

AnoZero - E por que a opção pelo horário das 19 horas no sábado?
Gastão - É um horário em que aqueles que saíram à tarde já estão voltando e quem vai sair à noite ainda não saiu. É um horário meio crucial. E se você ligar a televisão hoje em dia neste horário, no sábado, não tem grandes opções.

AnoZero - Como vai ser a participação do público?
Gastão - A idéia é fazer um programa interativo. O público é participação mais que essencial para o programa. Uma das coisas que a gente distribui são as marmitas culturais, que contêm um livro, um CD, uma revista, um ingresso para o cinema. Entre uma banda e outra, a gente movimenta o público, faz uma pergunta. "Eu quero que alguém me dê uma solução para o Brasil, quem falar melhor vai ganhar a marmita". Ou, então, "quem mandar a melhor poesia". Ontem, na gravação, subiu um cara e mandou Cecília Meirelles, todo mundo aplaudiu. Esse tipo de coisa. Falar o nome de cinco pintores brasileiros. É sempre bem variado, com um fundo cultural mesmo.

AnoZero - Qual é a proposta da gincana entre as universidades?
Gastão - É um evento paralelo ao programa. Além de vasculhar a cultura marginal, que é o principal objetivo do Musikaos, também queremos confraternizar as universidades e tentar revelar o pensamento universitário brasileiro. A gente pede algumas coisas para as universidades, tem algumas provas gravadas à tarde, algumas foram criados pelo artista plástico Guto Lacaz. São provas de brincadeira. No final delas, temos o dado caótico e às vezes quem ganha perde os pontos. É mais pra confraternizar mesmo. As faculdades têm a missão de levar também uma banda e um orador, as coisas mais sérias que elas têm que fazer. O resto é tudo joguinho de brincadeira.

AnoZero - E de onde vem a idéia de mexer com esse meio universitário?
Gastão - A intenção é resgatar a efervescência que havia nos anos 60. Eu vejo alguns programas de auditório e acho a platéia muito fraca, engole qualquer coisa, não participa, não faz perguntas bacanas. A gente procurou resgatar os universitários mesmo, ver o que o cara que estuda, que está pagando uma faculdade, pensa. Já que as pessoas não se mobilizam, vamos então tentar causar um pólo cultural. A intenção do Musikaos é ser um pequeno pólo cultural, que passe a poesia, que passe o universitário, uma troca muito grande.

AnoZero - Há um esforço em correr atrás dos profissionais que não têm um espaço na mídia...
Gastão - É essa idéia. A gente quer reverter o caos nesse sentido, quer ceder espaço a esses valores tidos como marginais. A gente levou o Glauco Mattoso no primeiro programa, que é um poeta mais do que marginal. Ontem foi o Boccatto, o trombonista, o cara que é um dos principais músicos do jazz do Brasil e mora na Suíça. Apareceu ontem no programa, invadiu o palco, tocou. O cara é um talento ultrarespeitado lá fora e ninguém convida para fazer programa aqui, pô.

AnoZero - O Musikaos vai trazer sempre cinco bandas: três iniciantes e duas consagradas?
Gastão - Cada faculdade vai levar uma banda (elas estão fazendo festivais internos pra isso). E as outras não são exatamente consagradas. Nós estamos levando, por exemplo, Tom Zé e Lobão. O Lobão vende CD em banca e a distribuição do Tom Zé é ultraunderground também. O Pato Fu tem uma gravadora por trás, mas é uma banda superexperimental. O Ira!, mesmo com nove discos, ainda tem um espaço pequeno, eles ainda não são convidados para todos os programas. Uma quinta banda, iniciante, é escolhida pela equipe do programa.

AnoZero - A Fábrica do Som, programa com o qual o Musikaos mais se assemelha, teve o papel de botar muita gente boa no mercado, a exemplo de Ira! e Legião Urbana. Vocês têm uma intenção parecida?
Gastão - A gente não tem missão nenhuma, estamos tentando é anarquizar mesmo. Se acontecer de aparecer uma banda, melhor. Mas a gente não tem essa obrigatoriedade de revelar bandas. Estamos querendo ceder espaço pra quem a gente acha bacana. É um programa sem muita pretensão, tem o seu diferencial que é essa caótica na ordem artística. A gente leva cinco bandas, tudo ao vivo. A gente quer ser uma casa bacana para os músicos tocarem. É essa a pretensão: que os músicos gostem de ir lá, que as pessoas que vão ao teatro vejam um bom programa e, principalmente, quem veja na televisão tenha alguma reflexão. Que a gente consiga cutucar de alguma maneira o telespectador.

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