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2 2 . 0 3 . 0 0 - t u d o c o m e ç a a q u i |
NELSON MOTTA Nelson Motta tinha treze anos quando o compacto que lançou João Gilberto - o hoje histórico Chega de Saudade - saiu. Instantaneamente infectado pela musicalidade simples e sofisticada de João, não foi difícil envolver-se com aquela música e a cena que gravitava em sua órbita. Morava no Rio de Janeiro em plena era JK, último suspiro de um Rio paradisíaco, intacto, turístico, que assistiu em seu próprio colo o nascimento da bossa nova. Seus pais eram abertos o suficiente para permitir que o filho assistisse aos primeiros shows do gênero, muitas vezes em sua companhia. E por intermédio de um primo, passou a freqüentar a mesma turma que contemplava o samba e Copacabana do apartamento de Nara Leão às tardes e atravessava as noites na casa de Vinícius de Morais, em Petrópolis. Sorte, pura sorte. Mas Nelson não deixou escapar. Uma vez dentro de uma facção do universo musical brasileiro, assistiu o nascimento de toda uma geração de artistas que mudaria a cara da cultura de nosso país. Para trás ficariam a rádio Nacional e seus cantores de dicção perfeita e vozeirões, a dramaticidade quadrada de pequenas árias operísticas transformadas em canção. O Brasil percebia sua brasilidade quando João Gilberto determinava o novo cânone da música brasileira: entre o baiano Dorival Caymmi e o flamenguista Ary Barroso, um só ritmo - o samba. Ao assumir o samba como fator de identidade nacional, a bossa nova criava um novo estágio na música brasileira e coroava uma nova hierarquia, um novo panteão de divindades. Bom de meio-campo, o baixinho Nelson Motta conseguiu estar em vários lugares ao mesmo tempo - como jornalista, produtor, empresário, diretor artístico, apresentador de TV, crítico de música e compositor. Aos 55 anos, ele resolve dividir seu testemunho com os leitores de seu novo livro, Noites Tropicais (Objetiva), em que nos conta a sua versão da história da MPB. Texto afiado, Nelson escreve como conversa. É o mesmo Nelson Motta do Sábado Som, do Jornal Hoje, das transmissões do Rock in Rio ou do Manhattan Connection. Sem firulas nem meias-palavras, ele conta seu papel de agente na história da música com a empolgação de um pescador em mesa de bar. Não importa se as histórias aconteceram exatamente como ele conta, pois é justamente a forma como ele conta que as tornam tão divertidas. Qualquer um com pouco menos de humor que o autor assistiria aquele monte de artistas como uma turma de ególatras insatisfeitos com a pouca bajulação. Mas Nelson não esquenta a cabeça fácil e sempre dá um jeito de estar no lugar certo na hora certa. Ele sabe que é preciso jogo de cintura para se manter de pé e seu texto tem a mesma energia com que busca a novidade. Disposto a revelar o lado humano dos artistas, ele invade a privacidade dos envolvidos tirando-lhes apenas a aura mística que o tempo e a mídia puseram sobre todos eles, mostrando como esta é fruto da própria personalidade do artista. Vemos então Raul Seixas consciente de sua própria picaretagem, Roberto Carlos ouvindo os problemas de fãs como se fosse um santo, a fama de casanova tanto de Jorge Ben quanto de Jerry Adriani, João Gilberto brincando com a expectativa dos outros, Tim Maia esbaforido de medo de entrar no bondinho, Elis Regina atirando objetos nos outros, as Frenéticas quando ainda eram garçonetes e Sérgio Mendes conquistando os americanos. No meio de sua aula de história, Nelson desfila seu invejável currículo junto à música brasileira, muitas vezes subestimado. Foi jurado de Flávio Cavalcanti, onde defendia a música nova que surgia com a bossa nova e a Jovem Guarda. Com uma coluna diária na Última Hora, de Samuel Weiner, e depois no Globo, esta mesma música ganhava um ávido divulgador. Compositor, chegou a tocar violão num grupo que não decolou, o Depois das Seis (o único referido no livro entre aspas). Criou o Sábado Som na TV Globo, onde passou a divulgar clipes das bandas de rock dos anos 70. Inventou a trilha sonora de novela com André Midani. Tinha uma coluna diária sobre música no Jornal Nacional e fazia matérias sobre o tema para o Fantástico. Sua equipe contava com Scarlet Moon e o futuro Gang 90 Júlio Barroso. Escreveu a música de fim de ano da Globo com Ivan Lins. Produziu discos de Elis Regina e espetáculos de Marília Pêra e criou a primeira discoteca do Brasil, o lendário Dancing Days no Rio de Janeiro (uma das melhores partes do livro), e a primeira danceteria do país, a Paulicéia Desvairada em São Paulo. Assistiu o nascimento do rock dos anos 80 como um dos sócios da famosa Noites Cariocas, no morro da Urca. Escrevia letras para Lulu Santos e produziu o seriado Armação Ilimitada. Lançou Marisa Monte e hoje é colunista - eletrônico e impresso - das organizações Globo em Nova York. O livro é recheado com as histórias que Nelson viu no meio do caminho, todas dignas de serem contadas. Poucas fofocas, no entanto: no livro ele finalmente assume seu caso com Elis Regina enquanto ela estava casada com Ronaldo Bôscoli e corajosamente conta sua relação artística e afetiva com Marisa Monte. Mas o que interessam são os causos: Rita Lee perdendo a voz no Rock in Rio, Tim Maia discutindo com Raul Seixas sobre qual melhor droga (Raul defendia a cocaína e Tim, na fase Racional, a maconha), Lulu Santos tocando em circos no subúrbio do Rio, Erasmo Carlos fugindo do juizado de menores, a irresistível aventura do Dancing Days, seu primeiro encontro com Ângela Rorô, Carlos Imperial de sandálias disputando A Palavra É na televisão com Chico Buarque e Caetano Veloso na televisão, Tim Maia distribuindo LSD pela gravadora como se fossem hóstias, o menor de idade Lobão assustando Nelson com um termo de responsabilidade assinado pelo autor, que quase foi preso por fumar um baseado à saída do primeiro Rock in Rio. Além disso, há esclarecimentos sobre a fama de dedo-duro de Wilson Simonal, o monopólio da TV Record e da gravadora Phillips nos anos 60 e 70, o surgimento e a consagração da Rede Globo e da Som Livre e depoimentos emocionados sobre as mortes de Elis Regina, Gláuber Rocha e Júlio Barroso. E há as passagens históricas, como um show de João Gilberto no alto do Rockfeller Center em Nova York, uma jam session em que Hermeto Paschoal participou do lado de fora do bar, a invenção do tropicalismo, o Opinião de Nara Leão, os festivais, Jorge Ben no Beco das Garrafas, os shows de Lennie Dale, Apesar de Você passando pela censura e a invenção de Julinho de Adelaide, o primeiro Hollywood Rock (em 1975, com Rita Lee & Tutti-Frutti, Mutantes, Veludo, Vímana, O Peso, Erasmo, Celly Campelo e Raul Seixas), a criação das Frenéticas e da grife Dancing Days, os primeiros shows do rock brasileiro dos anos 80. Escolha seus motivos e seus ídolos, mas não deixe de ler Noites Tropicais. Leitura obrigatória para quem quer conhecer um pouco mais sobre os bastidores - e, por isso mesmo, a história - da música brasileira. AnoZero - Como surgiu a idéia de fazer um
livro de memórias? AnoZero - Não é cedo para fazer um livro desta natureza? AnoZero - Qual a dificuldade de se fazer um livro de memórias que ao
mesmo tempo é um livro sobre a música brasileira? Como discernir lembranças pessoais de
fatos históricos? AnoZero - Sua carreira é marcada por suas mudanças de papel na história
da música brasileira. Em algum momento estas mudanças lhe causaram algum conflito? AnoZero - Você respeita a privacidade dos envolvidos, mas revela alguns
podres. Qual o critério adotado? AnoZero - Quase a fase de sua carreira mais te satisfez e por quê? AnoZero - O distanciamento geográfico (uma vez que você está em Nova
York) ajudou ou atrapalhou na hora de escrever? Fale sobre isso... AnoZero - Por que se distanciar da polêmica num cenário musical que
parece privilegiar tal atitude? AnoZero - Do mesmo jeito que a bossa nova suplantou a música brasileira
tradicional, invertendo valores e criando um novo cânone na música atual (criando a
MPB), um outro gênero pode surgir e fazer o mesmo com a MPB. Qual sua posição frente a
à mudança neste sentido? AnoZero - Letristas, compositores, personalidades, agitadores culturais,
produtores, críticos, músicos... O que falta no cenário da música brasileira atual? AnoZero - Você tem alguma frustração na carreira? O que você gostaria
de fazer, se pudesse ter controle total? AnoZero - Mesmo fora do Brasil, você tem acompanhado a música
brasileira. Na sua opinião, qual é a lição que aprendemos nos anos 90 dominados pelo
trio axé-sertanejo-pagode? AnoZero - O rock está voltando de novo ao mercado, mesmo que ainda
lentamente. Você diz no livro que as gravadoras optaram pelo rock nos anos 80 pelo
barateamento da produção. E hoje, qual é o motivo? AnoZero - Arriscando uma bola de cristal, quem é o futuro da música
brasileira na sua opinião? |
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