NME PREMIER SHOWS
Astoria (Londres)
Luciano Vianna
Sete dias de shows, 25 bandas e nenhum grupo
americano. Sinal dos tempos? O NME Premier Shows, que aconteceu no Astoria, em Londres,
entre os dias 25 e 31 de janeiro, mostrou o porquê da cena roqueira londrina estar mais
efervescente do que nunca, em uma autêntica tentativa de retomada inglesa do trono de
maior nação de rock do mundo.
Alguns dos maiores expoentes do britpower
(estilo que mistura a energia adolescente e caótica do grunge, o hardcore melodioso do
Hüsker Dü, os solos de guitarra lentos do pós-rock e toda a intensidade do Radiohead -
e que, segundo os analistas ingleses, vai se transformar em uma febre ao estilo o que o
grunge foi no começo da última década) estiveram tocando neste festival, como o Muse (o
Nirvana da vez, que, com um disco lançado pela independente Mushroom na Inglaterra, tocou
no festival de Woodstock, foi contratado pelo selo da Madonna nos Estados Unidos e parte
agora para sua primeira turnê mundial), My Vitriol, Angelica, Doves, entre outros.
Confira agora os dez melhores momentos dos sete dias de festival.
10. Mo-Ho-Bish-O-Pi
Misture Flaming Lips, Sebadoh, Mercury Rev, Built To Spill e Sonic Youth. Acrescente a
isso três jovens integrantes que trocam de instrumentos no palco em quase todas as
músicas, uma alta dose de palhaçadas e pronto, você tem o Mo-Ho-Bish-O-Pi. O grupo
galês, que entrou na última hora para substituir o Gorkys Zygotic Mynci (o guitarrista
da banda estava viajando e não conseguiu chegar a tempo para o show) abriu o festival com
seu rock americano tocado em ritmo de punk rock inglês. Para eles o que importa é a
diversão e neste quesito eles se deram muito bem, divertindo o pequeno público que
começava a chegar ao Astoria. Semana passada lançaram seu primeiro EP e são uma das
novas bandas para se ficar de olho esse ano.
9. Ash
Diz o ditado no underground inglês que quem já viu um show do Ash já viu todos os
outros. Os ingleses realmente acreditam nisso, porque nunca o bar Keith Moon (o bar
interno do segundo andar do Astoria) esteve tão lotado durante o NME Premier quanto no
show do Ash. Mas a banda bem que se esforçou, mesclando algumas músicas do novo disco
(que será lançado em março) com os sucessos de sempre como "Goldfinger",
"Kung Fu", "Girl From Mars" (o melhor momento do show) e "Oh
Yeah", sem deixar a multidão de adolescentes fãs da banda sem parar de pular um
segundo qualquer.
8. Asian Dub Foundation
Com sua mistura de punk/funk/reggae/dub/bhangra, o Asian Dub Foundation centrou o seu show
nas músicas de seu novo álbum, Community Music, previsto para sair em março. Talvez por
isso a banda não tenha empolgado tanto como o grande número de fãs presentes no Astoria
estavam esperando. Ainda pouco à vontade com o novo repertório, o grupo só se encontrou
realmente nos velhos hits, como "Free Satpal Ram", o grande momento do set.
7. Elastica
Se em disco o Elastica ainda não conseguiu soar tão possante como deveria, ao vivo a
banda prega um autêntico punk rock riot grrrl. Desde a abertura, com "How He Wrote
Elastica Man" até o final com "Generator", a banda transformou o palco do
Astoria em uma autêntica festa particular, com direito a músicas inéditas, alguns
sucessos do primeiro disco e uma grande atuação de Justine Frischmann, mostrando que se
Courtney Love realmente abdicar de seu cetro de rainha do rock para brincar de fazer
cinema, a princesinha Justine já tem tarimba mais do que suficiente para assumir esse
fardo.
6. My Vitriol
O My Vitriol segue a linha Sonic Youth/Dinosaur Jr./Sebadoh (das antigas), mesclando tudo
e fazendo um britpower da melhor qualidade. Ao vivo eles poderiam muito bem passar por uma
banda de Seattle em 91, o que para um grupo novo já é mais do que elogio. Com seu
noisepop da melhor qualidade e um potente vocalista, o My Vitriol é uma banda para anotar
no seu caderninhos de promessas.
5. Shack
Noel Gallagher assistiu a todo o show do Shack sem sair do lugar, com uma cara de quem
não estava acreditando no que estava vendo. E não é para menos. Se em disco o Shack
impressiona, ao vivo a banda liderada pelos irmãos Mick e John Head chega à beira da
perfeição em lindas canções como "Streets Of Kenny" e "Pull
Together". Como para lembrar da época que eram a banda suporte do lendário Arthur
Lee [Nota do Editor: líder do não menos lendário Love], eles ainda deliciaram a
platéia com uma cover de A House Is Not A Motel", do Love, antes de acabar o show
com o sucesso "Comedy". Um show feliz, daqueles em que você vai para casa com a
alma lavada.
4. Terris
Por falar em promessas, o Terris é a maior promessa britânica que apareceu nos últimos
anos. Pelo menos esta é a opinião do pessoal da New Musical Express, que com apenas um
EP de tiragem limitada lançado pela independente Rough Trade, colocou o vocalista do
grupo na capa do semanário, com o título de "A primeira nova estrela do ano
2000". Ao vivo o grupo mostra que é tudo isso e ainda tem fôlego para ser mais. O
cantor Galvin Goodwin é endiabrado no palco, na melhor tradição Iggy Pop e Ian Curtis,
e o instrumental da banda passeia por ecos do Funkadelic (se George Clinton fosse punk
iria soar assim), Living Colour e Jesus and Mary Chain. Show apocalíptico e neurótico
como há muito tempo eu não via uma banda nova fazer.
3. Beta Band
A Beta Band é uma daquelas bandas que você ama ou odeia. E o público que lotava a
primeira noite do festival com certeza amou o show da banda. Quem conhece o som deles dos
dois discos pode notar como o quarteto é metódico em suas músicas, sempre cheias de
detalhes. Ao vivo os integrantes se revezam entre mil e um aparelhinhos e instrumentos
estrategicamente colocados no palco, em uma sinfonia caótica e uma releitura empolgante
de suas músicas, feito remix orgânico produzido ao vivo na frente de milhares de
pessoas. Contando em algumas músicas com a participação do rapper americano Sean
Reveron, a Beta Band fez o que em um festival normal seria chamado do melhor show do
evento. Mas o NME Premier não é um festival normal...
2. Sigur Ros
Os islandeses do Sigur Ros, que na humilde opinião do crítico que vos escreve é a
melhor coisa surgida na música mundial nos últimos cinco anos, fizeram sua estréia na
Inglaterra encarando um Astoria lotado. E os quatro rapazes fizeram bonito, com suas
enormes canções melodiosas e com ecos de pós-rock parecendo preencher todos os espaços
do Astoria. Com texturas magníficas e um vocal de arrepiar, o Sigur Ros é a banda
preferida dos islandeses de plantão na mídia (como Björk e o povo do Gus Gus) e terá
seu primeiro disco lançado na Inglaterra (eles têm outros três, todos lançados apenas
na Islandia) ainda neste primeiro semestre pela independente Fat Cat. Talvez venha aí o
único disco capaz de desbancar XTRMNTR ,do Primal Scream, do título de disco do ano
2000.
1. Muse
Se da cena britpower inglesa sair um novo Nirvana, o nome com certeza será o Muse. O trio
do interior da Inglaterra fez um show irretocável de quase uma hora no último dia do
festival. Com a casa lotadíssima e recheada de artistas e jornalistas, esse foi o
primeiro grande show do Muse em Londres e eles não poderiam ter se saído melhor. Com a
segurança de quem parecia ter anos e anos de estrada, o vocalista/guitarrista Chris
Wolstenholme faz a síntese perfeita entre o seu emocionante timbre de voz e a energia com
que pulava com a sua guitarra endiabrada pelo palco, numa intensidade e violência
incríveis. Além dos sucessos do álbum Showbizz, como "Muscle Museum" e
"Sunburn", eles ainda brindaram o público com uma música inédita que estará
no segundo álbum do grupo (com previsão de lançamento para o verão europeu). |