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SMASHING PUMPKINS "Você sabe que eu não estou morto", vocifera Billy Corgan com sua voz esganiçada à abertura do novo disco dos Smashing Pumpkins, MACHINA/The Machines of God (Virgin). O ameaçador riff que abre The Everlasting Gaze anuncia o trator sonoro que os Pumpkins se tornaram. Abandonaram toda a melancolia eletrônica que atravessaram em Adore para retornar ao rock barroco e setentista de Mellon Collie & the Infinite Sadness. Mas nunca havíamos pensado que Corgan estivesse morto - a não ser que ele tenha pensado que a morte tenha sido o disco passado. Adore nasceu sob o signo da morte. Após a overdose de heroína do tecladista Johnattan Melvoin, assistida pelo baterista Jimmy Chamberlin durante a turnê de Mellon Collie, a trajetória ascendente dos Pumpkins sofreria um leve, mas fundamental, desvio. Mais uma vez a heroína interrompia de forma trágica uma boa fase de uma banda fadada a terminar clássica. Foi assim com os Rolling Stones, com os Derek & the Dominos de Eric Clapton, com os Doors, com o Nirvana. Nos Pumpkins, a morte em si foi só o ponto de partida: Melvoin era apenas um músico contratado, mas Corgan expulsou o baterista - integrante fundador do grupo - como punição por sua "cumplicidade" na morte do tecladista. O desfalque foi o primeiro na formação clássica da banda e oficializava o papel de Billy como dono dos Smashing Pumpkins, o próprio rei abóbora. Caiu em sua própria armadilha. Estrela maior do chamado rock alternativo (que existiu enquanto gênero entre 1994 e 1997, uma espécie de pós-punk do grunge), Corgan enfrentava o desafio de ser uma banda mainstream e underground ao mesmo tempo. Agradar às rádios e aos antigos devotos, à MTV e à crítica. Buscou o equilíbrio entre as duas partes no superproduzido Mellon Collie & the Infinite Sadness, o disco duplo mais vendido da história, um épico rocknroll em que Corgan se fingia um popstar à moda antiga - egoísta, mau, exagerado, infantil e arrogante. Musicalmente o grupo havia chegado à maturidade. Depois de começar como uma espécie de cruzamento entre o Cult e o Cure (ou Janes Addiction com Bauhaus, registrado no primeiro álbum, Gish), teve uma doce lua-de-mel com o sucesso e com Butch Vig nas gravações de Siamese Dream, um dos discos mais importantes da década. Ali, os Pumpkins eram autênticos e frágeis, cantando canções sobre rock e amor com garra e sentimento. Havia o peso e a melodia, equilibrados com perfeição. Mas Mellon Collie exigiria um desafio, um esforço que se tornaria um beco sem saída para o vocalista e compositor, Billy Corgan. Raspou a cabeça e encarnou o personagem Zero, uma encarnação do lado ruim do rock. Mas não esperava que ao criar uma caricatura estaria fingindo revelar os podres de outra pessoa além de si mesmo. Mellon Collie foi um mergulho no próprio ego e a sensação de estar fingindo deu-lhe forças para ir fundo nos piores estereótipos. A máscara caiu e a carapuça serviu no mesmíssimo momento. A morte de Melvoin transformava a maior banda de rock daquele tempo pré-OK Computer em vítima do mau da década: a heroína. O fato mostrou a Corgan que ele não tinha o controle da banda como pensava e ao assumir este papel transformou os Pumpkins em sua obra pessoal, definitivamente. Adore era o antídoto de Mellon Collie, um disco que procurava desesperado o conforto do lar, entre violões e beats eletrônicos. Billy se perguntava quem era à medida que percebia que o mundo não estava à sua disposição como pensava. Depressivo e delirante, o último disco era uma descida ao inferno, uma realidade que Corgan não queria ver. Depois de Adore, demitiu a baixista DArcy, deixando apenas o japonês James Iha da formação original. Fez as pazes com Chamberlin, que voltou à bateria depois que o posto fora ocupado por Matt Cameron (Soundgarden), Joey Waronker (da banda de Beck) e Matt Walker (Filter). Chamou Melissa Auf Der Maur, baixista do Hole, para o lugar de DArcy e mais uma vez partiu rumo ao estúdio. "Eu não estou morto/ Só vivendo dentro da minha cabeça/ Esperando pra sempre", continua na primeira faixa do disco. A sensação de ter estado morto, de ver que o outro lado existe e o excesso é o caminho para lá, funcionou como uma forma de repeli-lo da máscara que estava usando. "Você acreditaria no paraíso/ Se o paraíso é tudo que você tem?", desafia em With Every Light. Em uma das faixas centrais do novo disco (Heavy Metal Machine), ele trava um diálogo consigo mesmo e não consegue ouvir o outro lado. "Se eu estivesse vivo/ Se eu fosse real/ Você sobreviveria?/ Como se sentiria?", "Se eu estivesse morto/ Meus discos venderiam?", para chegar à conclusão que está farto deste meio: "Deixe-me morrer pelo rocknroll/ Deixe-me morrer e salvar minha alma/ Deixe-me ir, rocknroll". "Ainda estamos vivos/ Tente agüentar", pede em Try, Try, Try, revelando que sua atual motivação é seguir em frente. "Eu quero viver, não quero morrer/ Eu quero viver, eu quero tentar", a ansiedade de Glass + the Ghost Children vem à tona com a confissão sampleada no meio da canção: "Eu comecei a pensar que tudo que faço é baseado no fato que eu acredito que deus estava me dizendo o que fazer. Deus estava me dizendo o que fazer. Deus poderia ser minha intuição ou qualquer outra coisa, mas eu sempre supus que a voz que eu ouço é a voz de deus. Então comecei a pensar que se eu sou louco, então ajo na premissa de ouvir a voz de deus ou o que eu acho que seja deus falando para mim e por mim, talvez eu esteja completamente em...". O estado de confusão que Corgan se encontra é perceptível em todo o disco, por todas as letras ele procura uma certeza, se apega a algum novo alicerce que não seja seu próprio ego. Para isso, ele usa a mesma armadura que vestiu em Mellon Collie. Um som pesado, metálico, turbo. Os Smashing Pumpkins transformam o rock clássico em uma fornalha disposta a forjar novos formatos para o heavy metal atual, venha ele do Rage Against the Machine, de Marilyn Manson ou de Aphex Twin. O timbre férreo que a produção da já clássica dobradinha Flood e Alan Moulder dá ao novo disco dos Pumpkins é o responsável pelo título e pela atmosfera do álbum. Juntos, baixo, guitarra, teclados e bateria erguem um totem mecânico ao rocknroll, voltando ao mesmo início do século 20 que visitaram em Mellon Collie, só que interessado na tecnologia e a estética mecânica no lugar do surrealismo infantil e a ficção-científica de sonho do disco duplo de 95. Voltando-se apenas para o som, MACHINA é uma locomotiva a todo vapor. Mas seu maquinista não está seguro de si. Ele olha para os sorridentes passageiros e tenta disfarçar o desespero, pois sabe que ao menor deslize emocional pode detonar o caos. Mas esqueceu-se dos tempos em que era apenas uma jovem criança descobrindo as carícias do amor em Siamese Dream. Sua estrela brilhou justamente no momento mais confessional de sua carreira, deixando transparecer toda fragilidade e doçura que seu irritante vocal conseguia atingir. A partir de então, passou a viver uma vida falsa, usando o rocknroll como escudo e deixou seus verdadeiros sentimentos trancafiados das canções. Com o novo disco, ele percebe o quanto estava fingindo. Chama de "morte" este período de insanidade temporária e abre espaço para seu coração cantar. Em alguns momentos, o sentimento é esmagado pela sonoridade fria e metálica, destruindo o que poderiam ser perfeitas canções. Em outros, o lirismo juvenil de Siamese Dream ultrapassa o metal barroco que ressoa durante o disco (atente ao motor afônico cantando o refrão de Heavy Metal Machine e ouça o próprio disco cantando sobre ele mesmo). Fingindo-se imponente em sua carruagem de ferro, Corgan está visivelmente abalado e suas lágrimas escorrem pela armadura, entregando sua indisfarçável nudez. |
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