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01.02.0 0-   t  u d o     c o m e ç  a     a q u i   -  a  n  o  z  e  r  o  @  y  a  h  o  o  .  c  o  m

RESENHAS

WOODSTOCK 99 - Vários (Epic/Sony)
Abonico R. Smith
A terceira edição do festival mais famoso do mundo foi bárbara - no sentido mais literal do termo. O que era para ser uma confraternização de trinta anos da celebração mundial de paz, amor e rock'n'roll foi grotescamente distorcido. A paz foi substituída pela selvageria dos distúrbios do último dia, quando a gigantesca base aérea que servia de sede para o Woodstock virou campo de batalha com incêndios e quebra-quebra sem controle. O amor sucumbiu à falta de respeito, sobretudo em relação às mulheres. Topless eram violentados por inúmeras mãos-bobas e foi registrada a ocorrência de alguns estupros.
Restou apenas o rock'n'roll? Teoricamente sim. Afinal, alguns dos principais nomes do mercado americano da atualidade estiveram presentes nos vários palcos e tendas. Contudo, é completamente discutível a qualidade e a validade deste mesmo rock'n'roll que está em evidência. O primeiro dos dois CDs que formam este registro fonográfico é a prova cabal de que os americanos vão mal, obrigado. Tudo bem, aqui nunca haveria espaço para coisas horrendas como o pop de Five, N'Sync, Britney Spears e, sobretudo, Backstreet Boys. Mas também esperar o quê de Korn, Rage Against The Machine, Limp Bizkit, Offspring, Live, Creed, Bush, Lit, Godsmack e Kid Rock?
Antes que algum leitor mais exaltado resolva passar um dia de fúria mandando e-mails para cá, vamos às explicações. Estas bandas estão no topo porque são boas no que fazem. O problema está na descerebração geral dos ouvintes americanos de rock (lógico que o que sobressai lá é mandado imediatamente para o Terceiro Mundo). São eles que não esperam mais nada do que cópias descaradas (REM, Nirvana e Pearl Jam são as principais vítimas) e aberrações inúteis de muita testosterona. Seja caindo para o lado do metal, do rap, do alternativo ou do punk (muitas vezes misturando estes ingredientes), tais artistas são os ícones máximos do som raivoso e bastante machinho.
Agora pergunto: demonstração de macheza explícita para quem? Rebeldia contra o quê? Seria por acaso contra as gordas contas bancárias provenientes dos shows, direitos autorais e vendagens de discos? É, o rock americano anda muito chato, institucionalizado ao avesso. Como diria o Tim Maia, está tudo tão 446 (termo usado para aquele que nem consegue ser cinco) que gente melhor e mais importante como Red Hot Chili Peppers, Metallica e Megadeth acabam tendo seu brilho apagado pelos novos-ricos em ascensão, as veras loyolas do segmento roqueiro mercado fonográfico do Tio Sam.
O segundo disco consegue ser um pouco mais digestivo? Ligeiramente, mas consegue. Descontados a chatice e a pretensão extrema de muitos (como Jamiroquai, Jewel, Alanis Morissette, Bruce Hornby, Sheryl Crow, Busted Root, Our Lady Peace e Dave Matthews Band), dá para ouvir sossegado alguma coisa. Brian Setzer traçando paralelos entre o swing das big bands com o rockabilly, Everlast fundindo folk e rap, o rap acústico do The Roots, o big beat irresistível dos Chemical Brothers e a singela verve baladeira de Elvis Costello, é isso que salva. Como não dá para a nota ser 446, vai quatro mesmo...

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NEVERMIND THE BOSSA NOVA - HERE’S PUNK SAMBA - Bloco Vomit
Alexandre Matias
Tranque dez escoceses num quarto cheio de instrumentos de percussão brasileiros e dê-lhes apenas caipirinha para beber. Depois de um dia, deixe o único músico do grupo pegar seu instrumento - uma guitarra elétrica. Se o único ponto em comum do gosto musical do grupo for o início do punk rock, não estranhe se o disco sair igualzinho ao do Bloco Vomit.
Porque o grupo escocês é só isso. Como raios o grupo descobriu o Brasil e o samba é desses mistérios que nem a globalização explica. Reza a lenda que eles eram velhos punks que se conheceram no Escola de Samba do Centro Comunitário de Tollcross, cidade-natal deles, na Escócia. Difícil acreditar numa escola de samba escocesa, mas vai saber. Através da escola, visitaram o Brasil na época em que Chico Science morreu e tiveram a certeza que estavam fazendo algo certo quando ouviram o som da Nação Zumbi. Agendando sua Caipirinha Overdose Tour no Brasil para a época do Abril Pro Rock, o grupo pode ser conhecido no disco Nevermind the Bossa Nova Here’s Samba Punk, lançado por eles mesmos.
O disco é composto apenas por clássicos do punk rock, mas Do They Owe Us a Living, do Crass, não é a melhor das boas vindas. Completamente bêbada, ela nos recepciona com bafo de cachaça e a percussão mais sem vergonha do planeta (até um panelaço na rua tem mais ritmo que essa versão). Critérios etílicos à parte, o disco prossegue com um pouco mais de suíngue em Jilted John (dos próprios), que tropeça enquanto tenta sambar, e Teenage Kicks (dos Undertones), que lembra uma escola de samba descendo uma ladeira sem freios e na banguela.
Police and Thieves, eternizada pelo Clash, é uma das poucas vezes que a banda se encontra - e não por acaso não tocam samba. Mas mais ou menos por aqui o grupo começa a se entender e Pretty Vacant, dos Sex Pistols, acaba entrando sem querer numa sessão de umbanda, num afoxé pesado. Metal Postcard, do Siouxsie and the Banshees, é talvez a coisa mais bizarra do CD e, por incrível que pareça, o casamento samba-reggae com pós-punk teatral funciona. Só não dá pra saber se é pra rir ou pra chorar.
Como todo o resto do disco. Oh! Bondage Up Yours!, dos X-Ray Specs, é idêntica à original, sax desafinado, vocal esganiçado e tudo mais. Love Lies Limp, dos obscuros Alternative TV, é uma bela balada (com direito a solo de trompete) que não soaria estranha no repertório de Daniela Mercury. Uma canção tradicional (Gavinda Nova) é transformada em onomatopéia e Should I Stay or Should I Go balança o corpo feito uma axé music. Roadrunner, dos Modern Lovers, tenta fazer rap com punk com samba. Os caras viajam o tempo todo e espanta o descaramento e ingenuidade em fazer algumas coisas.
Não é um disco de samba, nem um disco de punk - é uma banda bem esquisita, com cheiro de picaretagem com falta do que fazer. Mas funciona, mesmo que tirando uma com a cara deles mesmos - imagine um disco de brasileiros bêbados tentando tocar gaitas de fole. Não, nem cogite a idéia: o filme brasileiro já é queimado demais no resto do planeta. Pra conseguir seu disco, peça para a banda pelo endereço X Creature Productions - P.O.Box 23109 Endinburgh EH6 4ZN Scotland ou pelo email bloco_vomit@pobox.com.

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RESIST CONTROL - Resist Control
Adriane Perin
Mais um disco local e a reafirmação de que boa produção não é garantia de bom resultado. Os instrumentistas são eficientes, mas o ponto mais fraco são as letras, que soam um tanto patéticas em sua tentativa de fazer uma obra política e socialmente engajada, com pretenso discurso libertário. Nos shows eles seguram, pois o público da banda não está mesmo interessado em palavras - quer é bater a cabeça do começo ao fim para sair exausto e saciado de estresse físico. Para isso, o barulho que o Resist produz é eficiente. Só que na hora de colocar um disco para tocar em casa, gostaria de saber quantos dos fãs conseguem ouvi-lo. Sem a presença física do palco, a massa sonora que promove a catarse nos shows não existe, o disco não segura a onda e o resultado e que passa em brancas nuvens. A faixa "Sorria, Você Está Sendo Vigiado", que une rock e rap (com participação do Blackout),  é a mais interessante. Guitarra estridente e solitária acompanha a voz até a entrada do scratch (em segundo plano) e da guitarra mais nervosa. E o resto do trabalho pode agradar aos fãs, que só esperam encher a cabeça de barulho.

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FIGHT CLUB - Dust Brothers
Alexandre Matias
A trilha sonora foi o caça-níqueis da década passada. Mais do que nunca, os produtores de Hollywood e da indústria fonográfica perceberam o quanto um filme poderia ajudar os artistas da trilha sonora e vice-versa, num jogo de distribuição e marketing direcionado que fez com que todo mundo sorrisse. Bastava compilar canções novas e velhas, regravações e parcerias insólitas, faixas inéditas e trechos de diálogos e a trilha estava pronta.
Filmes tão diferentes quanto Boogie Nights, Pulp Fiction, Armageddon, Dazed and Confused, Arquivo X, Goodfellas, Trainspotting, Spawn, Velvet Goldmine, Amateur, Vamos Nessa, os Batmans, Godzilla, Judgement Night, Perdidos no Espaço, Singles, O Chacal, That Thing You Do, Por um Sentido na Vida e Cidade dos Anjos (todos sucessos - ou de crítica, ou de público - com elogios - escritos ou pagos - às trilhas sonoras) se beneficiaram usando variações desta fórmula para garantir o sucesso da parceria com seus colegas da indústria do disco. Subprodutos de todas os níveis surgiram como fungos - mas, como a internet, a fórmula parecia dar certo para quem se dispusesse a experimentá-la.
Quem saiu perdendo foi a própria trilha sonora, que passou de música feita para compor ambientações em filmes para coleções de sucessos de ontem e de hoje - ou sucessos de ontem cantados por artistas de hoje. Quem esperava que um filme tocasse a própria música teve que se contentar com vozes familiares cantando músicas conhecidas. Os velhos trilheiros persistiram nos filmes tradicionais, mas quando o assunto era ganhar crédito no mercado, diretores com velhas coleções de discos de vinil, como Paul Thomas Anderson e Quentin Tarantino.
Mas aos poucos os novos músicos percebem que compor para um filme pode ser mais interessante do que se limitar aos poucos minutos de uma canção. Como um diretor musical, o músico tem a chance de pintar um quadro sonoro sobre o filme, usando o tempo que quiser, editando o filme ao seu modo. Um dos primeiros a fazer isso foi o DJ David Holmes, dando uma alma urbana e moderno a Out of Sight (Irresistível Paixão, em português). O Air acabou de compor a trilha para The Virgin Suicides, mas o assunto deste texto é maior do que uma trilha sonora composta por um nome de peso.
Porque a trilha sonora do filme Clube da Luta - Fight Club (Restless, importado) é o primeiro disco solo dos Dust Brothers. John King e Mike Simpson construíram uma respeitável reputação no meio ao colaborar com grandes nomes em discos clássicos - principalmente quando nos referimos a Paul’s Boutique, dos Beastie Boys, e Odelay, do Beck. Nomes tão diferentes quanto U.N.K.L.E., Hanson, Rolling Stones, Sukia, Wu-Tang Clan, Jon Spencer Blues Explosion, Cornershop, Chemical Brothers e White Zombie têm sua parcela de dívida para com os dois produtores californianos, que começaram dando som em festas de faculdade.
Mas em Fight Club, o casamento funk, rap e mitologia rock’n’roll de seus dois discos mais clássicos é deixado de lado. Abraçando a melhor tecnologia de estúdio, os dois passaram a criar seus próprios samples, em vez de usar trechos de artistas alheios. Entre scratches, riffs, loops, beats, solos e grooves, os irmãos do estúdio resolveram transformar seu primeiro trabalho autoral numa coleção de ecos da modernidade sonora do planeta. Encarando o estúdio como o instrumento definitivo, eles criaram uma trilha sonora que funciona como um verniz de credibilidade de rua, sensibilidade pop e vigor moderno para o filme de David Fincher.
Como toda trilha que se preze, as composições são conduzidas de acordo para o andamento das cenas em que são requeridas. Assim, todo o disco atravessa faixas que são composta por três ou quatro temas diferentes, que criam sensações específicas pelo contraste. Quase todas as faixas contrapõem o lado orgânico (contrabaixos, teclados, ritmo sinuoso, groove) e o mecânico (guitarras, sintetizadores, efeitos, beats marciais, ruídos) da música moderna, sempre terminando num clima pacífico e calmo - uma calma tão ensurdecedora quanto o silêncio.
Who is Tyler Durden? abre o disco como se recepcionasse uma versão gangsta rap do Nine Inch Nails. Entre ruídos diversos, o beat caminha lentamente em timbres unicamente sintéticos. À metade da música, entramos num tema de 007 trabalhado pelo Orbital, que encaixa-se perfeitamente sobre a base inicial. Scratches e uma guitarra pesada comprimida compõem o caminho à frente, até chegar a um oásis de despreocupação intermediado por um teclado Hammond. O tema inicial volta mais uma vez para morrer, finalmente, em acordes etéreos ao final da faixa. Ao perguntar quem é o personagem de Brad Pitt no filme, a primeira música do disco apenas confunde o ouvinte.
Homework engata-se perfeitamente e após uma entrada hindu caímos num technofunk que cogita uma colaboração instrumental do Prodigy com os Beastie Boys que reduz a marcha drasticamente, caindo num groove chill out que lembra os melhores momentos do hip hop instrumental do ano passado (sem abandonar o parâmetro Prodigy/ Beastie Boys, só que desta vez com metais latinos e contrabaixo acústico, que conduz um emocionante diálogo com um teclado apaixonado). Sedando o final da música, cânticos gregorianos surgem como ecos de ressacas passadas.
What is the Fight Club? é um trip hop com graves estourados que vão sendo deixados de lado aos poucos, deixando apenas o esqueleto do ritmo, a bateria seca, no meio da canção. O ritmo inicial volta com ecos dub e some com a chegada fria e metálica de microfonia congelada. Esta dá espaço para o big beat lo-fi de Single Serving Jack, com um baixo malemolente e bateria funky. Mas no meio da faixa, o ritmo torna-se inverso, uma espécie de trip hop pós-punk (algo como se o Robert Smith fosse o cérebro instrumental do Portishead), que termina ao som de tambores ecoando no nada. A última parte da faixa é uma música à parte: conduzida pelo contrabaixo punk sobre uma bateria firme, ela permite scratches e um teclado darem seus pareceres no breve minuto de sua existência.
O metalounge da primeira parte Corporate World funde todos os tipos de referências clichês do easy-listening numa breve introdução ao gênero. Entre baterias de Casiotone, contrabaixos acústicos, teclados de churrascaria, flautinhas e outras bobagens, esta alegre vinheta é apenas a superfície externa do mundo corporativo que ela se dispõe a descrever. Por dentro dela, tablas e cítaras dão o tom para uma lenta bateria caminhar pesadamente, impondo sua marcha como ritmo. Psycho Boy Jack começa exatamente quando o ritmo da faixa anterior pára, primeiro climatizando com pedaços de ruídos elétricos e teclados e depois cedendo ao peso de uma guitarra thrash de fazer Al Jourgonsen, do Ministry, sorrir. Por cima, alheio à tudo, um Moog passeia despreocupadamente. Novamente o ritmo muda no meio da faixa para outro momento escondido de prazer sonoro: sobre um beat old-skool com os graves novamente estourados, os Dust Brothers rodam fitas com pianos tocados de trás pra frente, mesclando a hipnose psicodélica concebida pelos Beatles com os beats de rua de uma década depois. É exatamente o que os Chemical Brothers estão fazendo em tese, só que de um jeito completamente diferente.
Hessel, Raymond K. começa dando ritmo ao som da rua, latas sendo tocadas à procura de um ritmo, ecoando noite adentro. O ritmo vem caribenho e logo é acompanhado de um desleixado teclado soul, ocasionalmente bombardeado por flashes de máquinas fotográficas. Medula Oblongata é um dos superpredadores imaginados pelo Massive Attack em Mezzanine, um trip hop com uma tensão heavy metal, que vai se desfazendo aos poucos, deixando o groove dominar - ao lado de um teclado fantasmagórico.
O disco continua cogitando hipóteses diversas: um dueto entre o Air e o DJ Shadow acontece em Jack’s Smirking Revenge, Stealing Fat colide Aphex Twin com o Atari Teenage Riot, Marla poderia ser um outtake de The In Sound from Way Out, dos Beastie Boys, Space Monkeys reúne pequenas amostras de electro jazz e Fiding the Bomb desequilibra a balança do rap metal pro lado do rap. A trilha, no entanto, não conta com Where’s My Mind, dos Pixies, que encerra o filme perfeitamente ("use isso como desculpa pra comprar o Surfer Rosa se você ainda não o tiver", sugeriu um amigo meu). Big beat, música latina, lounge, drum’n’bass, house, ambient, hip hop, R&B, metal, hardcore, funk, soul, old-skool, trip hop. Se algum tipo de música se destacou do resto de alguma forma na década passada, ela é boa o suficiente para entrar na centrífuga dos Dust Brothers. Resumindo os anos 90 em pouco mais de uma hora, eles já sabem o que vai acontecer. Eles mesmos - é só esperar.

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HERE'S THE SILVER TAPE - Vários (Barulho)
Antonio Florenzano
O Pinheads fazia os shows mais assustadores de Curitiba entre 1993 e 1995. A platéia ficava ensandecida, movida a sangue, moshes incontroláveis e stage dives mortais. O culto ao trio cresceu bastante, até acabar junto com o grupo, que se foi há três anos sem ter gravado um único álbum (a discografia inclui dois cassetes, um compacto 7" e um disco dividido com outras bandas nacionaisde punk e hardcore).
Hoje resta a nostalgia, a mesma que levou bandas independentes do mesmo gênero a regravarem as suas músicas. O disco, porém, padece dos mesmos dois defeitos de qualquer tributo. Covers, por melhores que sejam as tentativas, nunca superam as versões originais. E há uma grande desuniformidade sonora. São bandas atirando para diferentes lados. Tem gente apostando na melodia ou na pancadaria. Tem até guitar disfarçado e skacore.
O Againe surpreende misturando dissonâncias com o idioma pátrio. Nervoso (ex-Autoramas) lapida a verve melódica ao ousar gravar apenas com violão e guitarra. Outros destaques, maioria veterana, são Jason, Mozzarellas, Anões de Jardim, No Milk Today, Hateen e Holly Tree.

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I’LL TAKE CARE OF YOU - Mark Lanegan (Sub Pop)
Alexandre Matias
Quando os ingleses chegaram no bar do blues era metade dos anos 60. Depois de passar a adolescência ouvindo a música que saía daquele ambiente por uma fresta por trás do piano, toda uma geração de músicos britânicos entregou-se às tentações que aquele mundo marginal e romântico do outro lado do Atlântico parecia prometer. Jagger, Clapton, Page, Beck, Rod, Burdon e outros contemporâneos se enfiaram na música negra americana como os DJs de hoje fuçam em discos de funk.
Mas a chegada daqueles moleques branquelos havia tirado todo o aconchego original do boteco. Os velhos fregueses se entreolhavam e não precisavam dizer uma palavra para se comunicarem. Alguns ganharam uma grana em cima daqueles moleques, gastando dinheiro como se isso fosse um trunfo. Mas enquanto eles instalavam o neon na entrada, colocavam luzes fluorescentes e uma placa com uma marca de cigarros qualquer, todo a atmosfera original havia ido embora. Nem o uísque parecia surtir efeito.
Foi quando alguns outros moleques abriram uma sucursal improvável daquele boteco. Nos fundos da pensão punk rock, Nick Cave e Tom Waits trocavam talagadas de bebida por canções e logo chamaram a atenção dos moradores do sobrado à frente. PJ Harvey, Jon Spencer, Exene Cervenka e John Doe, Make Up, logo arrumaram lugares nas mesas do novo boteco e sem querer recriaram o mesmo ambiente do bar invadido pelos ingleses.
Com a cara no balcão, Mark Lanegan deixa o uísque que acabou de engolir pingar em forma de baba, depois de enfiar o rosto na madeira da bancada. Botas de caubói, calça jeans surrada, jaqueta de couro, cabelos compridos, ele parece um adolescente fingindo-se de roqueiro clássico, mas as rugas no seu rosto entregam a idade. Abre os olhos, engole a saliva e levanta-se novamente. Apóia as mãos sobre o balcão e antes que consiga focalizar a pequena poça que acabou de fazer, uma mão coloca um copo de uísque sobre a mancha de cuspe.
Ele olha pra frente e vê Kurt Cobain em meio a um sorriso: "Mais um, amigo?", ironiza, de gravata borboleta, camisa de manga comprida e avental. Esfrega os olhos e ele não está mais lá. Onde estavam seus olhos, Lanegan enxerga apenas o velho retrato de Leadbelly que enfeita a parede. Não há ninguém à sua frente. Ele olha para a esquerda e Tom Waits enxuga copos no outro extremo do balcão, resmungando sozinho. Ele olha para a direita e Nick Cave bolina com PJ Harvey ao piano. O copo de uísque, no entanto, está ali, no balcão. Um sujeito senta-se ao seu lado e sussurra-lhe: "Lembra dos espíritos que falei?". Ele olha e o sujeito é Bob Dylan. Olha de novo para o copo de uísque e, ao voltar-se para Dylan, este sai batendo a porta, com o paletó nos ombros. Toma o uísque e tudo torna-se claro.
E começa a cantar. Acompanhado de um violonista imaginário, o vocalista da banda mais subestimada de Seattle (os Screaming Trees, que tem pelo menos um clássico nas costas - a lisergia desolada de Dust, de 96), passa a cantar músicas de velhos espíritos. Ele canta e vê os fantasmas dos autores das canções, alguns ajudando-lhe com um teclado, um backing vocal, uma bateria. Sem distinção, a lenda country Buck Owens senta-se ao lado do caubói pós-punk Jeffrey Lee Pierce (do Gun Club), o folk sessentista de Fred Neil e Tim Hardin são entoados ao lado de uma canção dos roqueiros esquecidos Leaving Trains e até o soul de Eddie Floyd é visitado ao lado de canções tradicionais de blues e gospel. I’ll Take Care of You assiste esta reunião de espíritos num balcão de bar, misto de revelação religiosa, paliativo e delirium tremens. Tome-o como um uísque caubói - se o problema for o frio, ele aquece; se for a dor; alivia.

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AS THE WORLD BURNS - The Arsonists (Matador/Trama)
Abonico R. Smith
Teria o conceitualíssimo selo independente Matador se rendido ao comercialismo e embarcado na onda do estouro megamilionário do hip hop americano? Nada disso. O Arsonists inaugura, sim, uma nova cara na gravadora, mas seu rap não é por aí.
Quem espera as obviedades ou obscenidades que diariamente encharcam as paradas dos Estados Unidos pode cair fora. "Nós não somos underground, tampouco comerciais", avisa o encarte. Sim, o Arsonists de fato é hip hop. Dos bons, dos antigos. Traz de volta a coroa e o cetro roubados pelo gangsta made in Los Angeles. Aqui Nova York volta a reinar soberana, com seus grafites ultracoloridos e um certo clima de  festa, tanto nas mensagens quanto nas bases.
O que difere o Arsonists do rap clássico nova-iorquino é a não-acessibilidade imediata. Os arranjos são complexos e quase todas as faixas estão longe de serem hits por carecerem de melodias e refrões pegajosos (as únicas exceções são "Halloween" e a racha-assoalho  "Rhyme Time Travel") Com o tempo, porém, você vai assimilando melhor o disco. E por isso o grupo se  encaixa perfeitamente no conceito Matador.

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POSTAL BLUE (Slag)
Alexandre Matias
A introdução de Fotoromanza não poderia ser um aperitivo melhor para o primeiro EP do Postal Blue (Slag). Atravessando lentamente os acordes pelo violão, entramos numa praia bossanovista. A bateria de André desenha, com a baqueta no aro da caixa, uma nostálgica tarde ensolarada, onde os acordes ao violão quebram tão vagarosamente quanto as ondas no mar (ou as ondas de Ocean, do Velvet Underground).
Quando o vocal tristonho e pensativo de Adriano Ribeiro, o cérebro da banda, entra cantando que "Você acha que um amor pode durar pra sempre...", o clima de melancolia toma conta do ambiente, apesar do sol ainda estar claro. Mas o sol está lá fora e olhar as pessoas passeando felizes sob ele parece aumentar a autopiedade que o disco parece buscar.
Por todo disco, o clima é triste, mas sempre existe um violão que pode me animar um pouco. Pois o Postal Blue, de Taguatinga (no Distrito Federal), faz exatamente isso: se consola ao violão. Mas em vez de ficar apenas com o foco fechado no principal compositor, Adriano, a banda transforma cada composição numa pequena sinfonia pop, usando microfonia, violoncelos, violões, flautas e efeitos de estúdio como ingredientes desta terapia em forma de produção musical. Por que raios lembrei de Brian Wilson?
Apesar de Pet Sounds ser uma referência óbvia ao disco, é bom lembrar que o norte da banda está apontado para os anos 80 na Inglaterra, terra do Jesus & Mary Chain e dos Smiths. Por isso, elementos como vocais chorosos, rios de microfonia, guitarras dedilhadas, bateria mecânica espalham-se pelo disco, que tem seus melhores momentos na já citada Fotoromanza, na morriseyana Fader e na folk Summer Is What You Call It.
Asleep, Maybe I’m Dreaming e I Know Where Your Dreams Go não comprometem o disco, mas são os momentos em que o único defeito do disco - um horroroso tecladão de dupla sertaneja ou de videokê - aparece mais evidente. Nos lembra aquelas camas de teclados que o Renato Russo adorava no Legião, mas que soavam bregas como a banda do Kenny G. O defeito não é o suficiente para arranhar a beleza do grupo, que mostra-se em ponto de bala. Consiga o seu com a gravadora Slag (Av. Francisco Válio, 405. Centro. Itapetininga-SP. CEP 18200-000. Email:slag@sekure.org) ou com a própria banda (Postal Blue A/C Adriano. CBS 09, lote 03 ap. 603. Ed. Olinda. Taguatinga-DF. CEP 72015-595. Email: pblue21@nettur.com.br).

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THE SINGLES COLLECTION - Kinks (Castle/Abril)
Abonico R. Smith
Quando se fala em Invasão Britânica, logo vem à cabeça o triunvirato Beatles-Rolling Stones-Who. Um quarto nome, porém, acaba sendo esquecido, o do Kinks.
Dois fatores contribuíram para isso. Logo no início de carreira o grupo optou por deixar de lado o pop para se concentrar em álbuns conceituais, justamente quando seus contemporâneos invadiam as rádios com uma série de compactos memoráveis. Mais: bagunçou seus critérios de limites geográficos. O Kinks preferiu conquistar apenas os próprios britânicos logo no início, deixando de lado uma América virgem para a beatlemania. Logo em seguida, acabou solenemente ignorado por seu povo, emplacando apenas nos Estados Unidos álbuns satíricos e repletos de críticas sociais.
Nesta corda-bamba, o grupo liderado pelo guitarrista e vocalista Ray Davies acabou não ganhando a importância devida com o passar dos anos. Reparando a injustiça - sobretudo no mercado brasileiro, que há tempos não vê sair um disco da banda - a Abril lança por aqui uma coletânea arrasadora. A coleção de singles cobre com perfeição o período áureo do Kinks (entre 1964 e 1970), quando ainda pertencia ao elenco do pequeno selo Pye.
Sangrando singles nos dois primeiros anos da carreira, Ray, seu irmão Dave (que cumpria as mesmas funções), Pete Quaife (baixo, depois substituído por John Dalton) e Mick Avory (bateria), exerceram influência sobre meio mundo. Who e Doors chuparam descaradamente o Kinks (o que são "I Can't Explain" e "Hello I Love You?" senão cópias abusrdas das construções de riffs e melodia de "All Day And All Of The Night?). Velvet Underground construiu seu épico kinkyano, "Sister Ray", com base em dois acordes. Punks sempre prestaram reverência - sobretudo Chrissie Hynde, a força-motriz dos Pretenders. Provocou estragos até na turma da eightie Manchester (Morrissey sempre venerou a banda, a regravação de "Victoria" tornou-se o maior sucesso do hoje desprezado Fall).
Depois de estrear com um single fraquinho com a cover de "Long Tall Sally" (clássico de Little Richard), o Kinks logo acertou a mão. Na época em que os Beatles galgavam as paradas com versos ingênuos, as bem-humoradas letras de Ray faziam jus a nome do grupo (algo como sacanas, em português) e passavam a falar abertamente sobre sexo e fantasias libidinosas.
Davies ainda tinha à disposição um arsenal rifeiro de primeira, algo que contrastava com a falta de ousadia que imperava até então nos arranjos do pop britânico. "You Really Got me", seu maior hit, traz um dos dez maiores riffs de guitarra de todos os tempos. Até o ano seguinte, 1965, mais outras faixas reciclavam a mesma fórmula, como "All Day...", "Till The End Of The Day" e a lentinha "Tired Of Waiting For You".
O Kinks também trazia um peso descomunal para a época. Embora os vocais de Ray e Dave fossem bastante melódicos, primavam pelos berros desesperados dos irmãos. As guitarras eram altas e bem distorcidas, o que suscita a dúvida de que o heavy metal seria mesmo descendente do Kinks (reza a lenda, ainda, de que Jimmy Page, então um requisitado músico de estúdio, teria gravado o endiabrado solo de fuzz em "All Day..." E com a facilidade comercial veio também a guinada de estilo. O piadista Davies tornou-se um afiado cronista do british way of life e compôs várias peças complexas sobre o submundo, o poder do sistema econômico, homens-gorila e o outono desprezado durante o verão hippie Apenas "Lola", canção sobre um travesti, levou de volta o grupo à parada de sucessos. O resto são pequenas pérolas ainda a serem descobertas pela massa.

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EARLY DAYS - Led Zeppelin (Atlantic)
Rudney Flores

No final de 1968, o guitarrista Jimmy Page, que já havia gravado com grandes do rock da época como Rolling Stones e The Who, formou um novo grupo para continuar cumprindo algumas obrigações contratuais de sua banda, Yardbirds, que havia acabado.
Page, que entrara no Yardbirds substituindo nada mais que Eric Clapton (que saiu para formar o Cream), recrutou então o amigo Robert Plant, vocalista da pequena Band Of Joy, de onde também veio o baterista John Bonham. Para completar o grupo, inicialmente chamado New Yardbirds, foi chamado o músico de estúdio John Paul Jones (que também já havia gravado com os Rolling Stones). Estava criada a banda que iria dominar o cenário mundial do rock durante a década seguinte, o Led Zeppelin.
Apresentando um estilo musical diferente, uma espécie daquele heavy blues que misturava batidas pesadas com momentos de extrema leveza (o que seria leve e ao mesmo tempo mais pesado que o ar? Um zeppelin de chumbo, é claro!), o grupo foi um dos precurssores do hard rock e do heavy metal. Early Days - The Best of Led Zeppelin Volume One é uma nova coletânea do grupo inglês, lançada quase dez anos depois da última compilação (Remasters, na realidade um versão reduzida em dois CDs do excelente boxed-set Led Zeppelin, que contém quatro CDs com raridades e inéditas do grupo, todas remasterizadas). O disco reúne as músicas dos quatro primeiros discos do Led Zeppelin, gravados entre os anos de 1969 e 1971. Nas treze faixas, pode-se acompanhar os momentos de maior criatividade da banda, aperfeiçoando o som que é influência para muitas bandas até hoje.
Os quatro primeiros registros vem do álbum Led Zeppelin, lançado em 1969. "Good Times, Bad Times" e "Communication Breakdown" são curtas e de ritmo rápido, marcadas pela guitarra Gibson de Page e a batida inconfundível do mestre Bonhan. "Baby I'm Gonna Leave You" é mais próxima do blues (influência de boa parte do disco, como em "You Shook Me", que não está presente na coletânea). "Dazed e Confused" ficou muito conhecida pelos intermináveis solos de bateria realizadas por Bonham nas apresetações ao vivo, que chegavam a durar algumas vezes mais de 40 minutos.
De Led Zeppelin II, outro registro de 1969, foram selecionadas apenas duas músicas: "Whole Lotta Love", o primeiro grande sucesso da banda, e "What Is And What Should Never Be". DeLed Zeppelin III, gravado no ano seguinte, também foram extraídas apenas duas músicas: "Imigrant Song" e "Since I've Been Loving You". Estes dois álbuns consolidaram o grupo como o mais importante de sua época, apesar do terceiro não ter ido tão bem nas vendas quanto os outros.
O restante é quase o disco inteiro de 1971, o mais famoso, que não tem título original e é mais conhecido por Led Zeppelin IV. "Black Dog", "Rock And Roll", "The Battle Of Evermore", "When The Leeve Breaks" e, é claro, "Stairway to Heaven", uma das músicas de rock mais conhecida e executada em todos os tempos.
Essa canção suscitou a suspeita de que o Led Zeppelin estaria ligado ao satanismo (é bastante famosa a estória de grupos religiosos que afirmavam que se a faixa fosse tocada de trás para frente poderia se ouvir mensagens satânicas como "Here's my sweet Satan" e "The one will be path who make me sad whose power is Satan"?). Para completar o mito, Jimmy Page sempre foi colecionador de livros de ocultismo e, na época, chegou a comprar o castelo que havia pertencido ao bruxo inglês Aleister Crowley, de quem era admirador.
Early Days retrata bem a esta primeira fase do Led Zeppelin, embora pudesse ter algumas faixas a mais, contemplando principalmente o segundo e terceiro discos. "Thank You", "Heartbreaker" ou "Ramble On" (de Led Zeppelin II) e Celebration Day ou Bron-Y-Aur-Stomp (de Led Zeppelin III) poderiam ter sido incluídas tranqüilamente na coletânea.
O CD ainda traz como presente especial para os fãs uma faixa interativa com um vídeo inédito da música "Communication Breakdown". Os outros discos da banda serão representados em Latter Days - The Best of Led Zeppelin Volume Two, a ser lançado ainda este ano.
Vale a pena? É aquela velha história: quem é mesmo fã de carteirinha já deve ter todos os discos mesmo, servindo este apenas como mais um item de colecionador. Para os não iniciados na banda, é um bom começo, apesar de Remasters ter algumas músicas mais representativas. Mas as faixas deste Early Days também foram selecionadas por Jimmy Page. E, no fim das contas, é mais um lançamento do Led Zeppelin, aquela que é considerada, por sua influência, a segunda maior banda de todos os tempos.

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GET SKINTIGHT - The Donnas (Lookout)
Antonio Florenzano
Donna A, Donna C, Donna F e Donn R são quatro adolescentes que cresceram ouvindo muito punk rock. Hoje, na faixa dos 18 anos, se propõem a colocar toda em prática toda a saudável cartilha inicial do gênero: barulho, dois ou três acordes, refrões grudentos, bons riffs, muita diversão - e o acréscimo de maquiagens e boa dose de feminilidade.
Tendo o velhose bom Ramones como ícone-mor, as quatro Donnas são afiadíssimas na simplicidade. Fotos do encarte mostram cartas apaixonadas de fãs e fotos descontraídas na Disnaylândia. Versos das curtíssimas faixas (apenas três das catorze ultrapassam o terceiro minuto) falam do dia-a-dia das garotas californianas. Giram em torno de coisas como a hiperatividade típica da adolescência ("Hyperactive"), desilusões amorosas ("You Don't Wanna Call", "I Didn't Like You Anyway"), incontroláveis desejos sexuais ("Party Action", "Well Done", "Get You Alone") e o mundo inteiro que é o nosso quarto ("Get Outta my Room") Para quem não passa longe de maiores pretensões e quer apenas bater cabeça com um punhado de músicas urgentes, Donnas é a solução.

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DEVIL WITHOUT A CAUSE - Kid Rock (Lava)
Abonico R. Smith
O hip hop morreu, viva o hip hop! O estado de diluição trazido pelo grande estouro comercial de vários papais e mamães fofinhos da vida também chamou a atenção da garotada branquela. Beastie Boys, apesar de competentes, são fósseis que optaram por trocar conceitualismo por uma avantajada carreira profi$$ional. Os guetos hoje aceitam pigmentações claras que finjam ser negões como Eminem e Kid Rock.
O último protagonizou um dos maiores booms musicais do mercado americano no ano passado. Misturando veia roqueira (leia-se sanguinolentas guitarras, altamente distorcidas) com pose, verborragia e turma de rapper, Kid Rock encarnou a postura de clown tresloucado do showbiz - a mesma que um dia fez a fama de Davbid Lee Roth - e conquistou os americanos com versos sexistas e descaradamente boca-suja.
O disco é correto e Kid Rock pode insistir em querer chocar a conservadora sociedade americana, mas não há nada de realmente inovador em Devil Without A Cause. Talvez o melhor e mais bizarro de suas apresentações esteja mesmo no seu rapper de apoio, um simpático anãozinho de moicano colorido.

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