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SECOND COME
Vindo de novo
Marcus Marçal

O Second Come, banda indie cultuada dos 90, voltou informalmente à ativa no final de 99. O grupo se reuniu apenas pelo prazer de levar um som, mas as feridas que levaram à dissolução do quarteto não foram cicatrizadas, já que a banda voltou desfalcada de Fábio Leopoldino - ex-frontman do Second. "Isso aqui é realidade virtual", ironiza o guitarrista Fernando Kamache, agora dividindo os vocais com o baixista Francisco Kraus. Aliados ao novo guitarrista Marcelo Pires (ex-Terrible Head Cream) e a Kadu El Diablo - baterista da banda na época do primeiro álbum, You (93), os dois vêm fazendo algumas apresentações pelo circuito alternativo carioca.

Apesar de não confirmar retorno definitivo, o Second Come preparou algum material novo para as apresentações. Mas o pretexto da reunião é a divulgação da compilação das três demos da banda pelo Midsummer Madness e a possibilidade do lançamento de uma coletânea com o melhor dos dois álbuns pela Rock It!. Em razão da imparcialidade jornalística, o AnoZero falou com os músicos remanescentes, Francisco e Fernando, e também com Fábio Leopoldino - tido como o pivô da separação.

A Volta - Os músicos não confirmam nem desmentem a volta do grupo em definitivo. Mas o quarteto vêm ensaiando para shows e nessas sessões algum material novo foi preparado. O responsável pela reunião é Rodrigo Lariú, que vem fazendo a intermediação entre a Rock It! e a banda para o lançamento de uma coletânea com o melhor dos dois discos lançados pela gravadora carioca. Lariú também pretende compilar em CD as três demotapes do Second Come, assumindo uma posição de empresário informal.

Francisco confirma: "Para mim, a banda já havia acabado. Essa volta só rolou porque o Rodrigo organizou um festival pra comemorar o aniversário do Midsummer Madness. Ele me perguntou o que eu achava de um show do Second Come e eu falei que não tocava mais, só se fosse por diversão. Então eu disse que só tocaria se o Fábio não participasse", declarou.

Segundo os remanescentes, agora impera um clima de amizade. Kamache ressalta essa necessidade: "Mesmo com o fim do grupo, eu e o Francisco continuamos amigos. E pra você fazer parte de uma banda, você tem que ser amigo das pessoas", disse. Francisco complementa o raciocínio do amigo: "O Kadu saiu antes do segundo disco porque já não agüentava mais. Tanto é verdade, que ele voltou a tocar com a gente. Eu nunca vou ganhar dinheiro com o tipo de música que eu faço, então tem que rolar um clima legal", conclui.

Fábio Leopoldino chegou a chamar atenção no circuito alternativo com outros projetos, mas não faz objeção quando indagado ao relançamento do material do Second e a um improvável convite para participar de algum show: "Eu só espero que o ECAD pague a minha grana (rindo). Eu não tenho mais ligação nenhuma com o grupo, mas não vejo problema se eles quiserem levar a coisa à frente. Se eles me chamassem, eu até poderia ir. Para mim, funcionaria como um trabalho. Eu não sou de ficar relembrando coisas, prefiro deixar isso para a velhice", alfineta. Foi em razão de divergências entre os integrantes que o Second Come encerrou prematuramente as atividades, em 94. O fim da banda foi pouco abordado pela imprensa e se confunde com antigas diferenças entre os músicos. Leia abaixo um pouco da trajetória do quarteto.

Culto Alternativo - Voltando ao passado: o início do Second Come coincide com o fim de outra banda. Formada em 89, das cinzas do Eterno Grito - grupo que chegou a lançar um LP independente pela Toc Discos, o Second foi rapidamente angariando um público fiel e o respeito da imprensa musical. Fábio lembra: "A mudança de direcionamento foi um salto. O Eterno Grito era infantil musicalmente. Era como se eu fizesse música sem o escutar o que estava fazendo", define. O grupo anterior seguia a cartilha do BRock vigente na época e havia explorado suas possibilidades musicais antes do término oficial e o nascimento de um novo projeto: o Second Come.

Três demos lançadas e várias apresentações concorridas transformaram o grupo numa unamidade underground, o que chamou a atenção de Dado Villa Lobos e André Müeller - que viabilizavam transformar sua loja de discos em gravadora. Quando o projeto dos "brasilienses" ganhou forma, o Second Come marcou a estréia do selo.

O primeiro álbum, You, tinha uma capa horrenda e foi gravado "nas coxas", como informa o próprio site da Rock It!. O Second Come era contemporâneo à explosão da cena grunge - uma conjunção de fatores que foi positiva, em virtude das referências sonoras semelhantes às daquela turma. O lançamento de You coincidiu com a vinda do Nirvana ao Brasil, em janeiro de 93. Na ocasião, os integrantes do trio de Seattle demonstraram apreço pelo som do quarteto, principalmente o baterista Dave Grohl. Tempos depois, ele citaria numa entrevista o nome duas bandas indies cariocas da época como boas lembranças de sua estadia tupiniquim: o Second Come e a co-irmã Dash.

I Feel Like (I Don't Know What I'm Doing) - A boa repercussão do disco catalisou um processo que culminaria no fim do grupo. Além de Grohl, o jornalista britânico Everett True também teceria elogios ao grupo. Segundo os os remanescentes, a bem-aventurança do álbum criou uma situação na qual o ego do vocalista Fábio foi inflado. Fernando comenta a situação: "Eu me lembro da época em que eu cheguei a ensaiar uma vez para um show do Eterno Grito. Na época, o Fábio só tocava guitarra e a postura dele como pessoa era diferente. Acho que essa coisa ganhou uma proporção maior do que devia porque o Second Come começou a fazer um certo burburinho. As pessoas gostaram da banda e o Fábio achou que era por ele ser maravilhoso", alfineta.

Francisco complementa: "O Fábio era outra pessoa, totalmente diferente. Ele até tinha umas babaquices, mas isso era coisa da personalidade dele. Só que a coisa foi aumentando e eu acho que era até por outras questões, problemas pessoais dele. O dia em que o Fábio se resolver, ele vai ficar numa boa", disse.

Fábio discorda da posição dos ex-companheiros e dá sua versão da história: "Eu acho esse papo engraçado porque se fala isso de todo mundo. Mas a questão é que a banda estava aparecendo bem e eu não sabia o que estava fazendo. Era apenas uma experiência e eu acho que as pessoas fazem muito barulho por nada", completa.

E foram as divergências entre os integrantes que tornaram memorável a passagem do Second Come pelo circuito alternativo. You era uma cruza entre a sonoridade cáustica que se convencionou como grunge e o melhor do rock inglês safra-80. Para muitos apreciadores, a essência do grupo está ali.

Superfriends & Enemies - As diferenças pessoais e musicais ocasionariam o fim do Second Come pouco após o lançamento do segundo álbum, Superkids, Superdrugs, Supergod and Strangers, um disco subestimado até pelo público indie. A banda faria menos de dez shows para promovê-lo - na verdade, muito pouco em se tratando de um grupo com aura cult no circuito alternativo.

Apesar dos remanescentes ressaltarem que as relações pessoais já estavam há muito desgastadas, hoje, mais de cinco anos depois, pessoas próximas ao grupo acham bobagem eleger um judas nessa jogada e se mantêm imparciais quanto à questão. Fábio concorda e chama atenção para o aspecto musical: "O primeiro disco tinha mais a ver com a banda toda, mas no segundo eu tentei fugir do grunge e dirigir as coisas um pouco mais. Mas pra agradar o pessoal, eu concordei com a entrada de algumas músicas que não gostava e isso acabou fugindo do conceito que havia delineado para o álbum. Por isso, eu digo que o grupo acabou por questões musicais", enfatiza.

Apesar disso, o baixista Francisco se mantém intransigente quanto à figura do ex-frontman do Second: "A banda não prosseguiu porque as relações pessoais estavam num ponto em que não dava mais pra continuar e o motivo dessa desandada em âmbito pessoal tem nome: Fábio Leopoldino. Eu o conheço desde 85 e não tinha mais culhão para aturá-lo", continua. Fernando chega ao ponto de se culpar por ter colaborado com a situação: "Parte da culpa nessa história é minha. Eu nunca falei pro cara: 'Cai na real'. Eu nunca podei o Fábio porque o achava maduro o suficiente para lidar com isso", resigna-se.

Ainda assim, o ex-vocalista reitera sua posição, não concordando com a alcunha de ególatra: "Se fosse por ego, eu teria saído antes. Tinha a minha turma e eles escutavam outras coisas. O que nos uniu foi o grunge, que acabou sendo o eixo da banda", conclui.

Fever Trip - Ambas as partes são divergentes até no que se refere ao último show da banda: "O nosso último show foi no Columbia, em São Paulo. A gente tocou e na volta ficamos quatro horas e meia sentados no carro, sem que nenhum abrisse a boca pra falar com o outro. Deixamos o Fábio em casa e ninguém mais se falou. Assim acabou a banda", lembra Fernando. Para enfatizar ainda mais os desentendimentos que rondavam o quarteto naquele período, Fábio diz não saber desse fatídico show: "Não lembro de ter tocado no Columbia. A gente tava armando um show lá, mas eu sai antes", disse. Entretanto, um consenso geral entre pessoas próximas data que o fim do grupo se deu quando Fábio declarou em entrevista à MTV que o Second Come havia acabado. Paralelamente, Francisco também já havia decidido deixar a banda. "Foi basicamente tudo ao mesmo tempo", lembrou Fernando.

Projetos - Aos fãs resta esperar os relançamentos ou então curtir os novos trabalhos dos integrantes do Second. Fernando Kamache atualmente toca com o Lunik 9, banda de rock básico cantado em português que possui CD-demo na praça. Com o nascimento de seu filho, o baixista Francisco Kraus deu uma parada com o Terrible Head Cream, mas promete retomar com os trabalhos em breve. Vale ressaltar a participação de Marcelo, o novo integrante do Second Come, neste projeto.

Por sua vez, Fábio Leopoldino concatena suas aspirações musicais em três projetos desde que saiu do Stellar, por razões pessoais. O principal é o Polystyrene, no qual toca todos os instrumentos - exceção feita às programações de bateria a cargo de Johann Heyss. Um CD intitulado Fair City está programado e deve contar com algumas participações especiais. Ele ainda tem fôlego para concentrar esforços no Eldorado - com participação de Dodô (PELVs) - e no Gone, grupo bissexto em que divide os vocais com Simone (ex-Dash e atualmente no Autoramas) e Johann Heyss.

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