Se você é fã do Sepultura, nem pense duas vezes para comprar Sepultura
- Toda A História (Editora 34), primeira biografia do grupo mineiro. Escrito pelo
jornalista André Barcinski (autor dos livros Barulho e Maldito) e do amigo de infância
do grupo Sílvio "Bibica" Gomes, o livro traz a visão por dentro de todos os
detalhes que você já deve conhecer, com páginas e mais páginas de fotos inéditas. Mas
mesmo se você não gosta do grupo mineiro, Toda A História vale a leitura. Com um texto
rápido e fácil de ler, os autores acompanham a trajetória do grupo desde os tempos da
garagem em Belo Horizonte até o disco gravado com o novo vocalista, Derrick Green.
As melhores partes do livro são as que contam o surgimento do grupo e seu
esfacelamento em 1996, quando o vocalista Max Cavalera deixou a banda. A primeira parte
conta, sem sutilezas, o árduo esforço que foi montar um grupo de heavy metal no Brasil
(com instrumentos vagabundos e pouquíssimas referências). Como quase toda banda no
começo, o Sepultura queria mais fazer pose de mau e barulho no palco do que sonhar com
profissionalismo. Mesmo que isso causasse dores de cabeça nos pais do grupo
(principalmente Vânia Cavalera, que deveria entrar para o panteão do metal brasileiro
como heroína), que, contrariando a regra, sempre apoiaram a carreira da banda, até
quando estes resolveram abandonar a escola. O livro conta como os irmãos Cavalera (Max e
Igor) conheceram o heavy metal e, daí, o death metal - vertente satanista do metal que
deu o tom dos primeiros discos do grupo.
Ao descrever o primeiro contato do Sepultura com outras cidades do Brasil,
o livro dá uma idéia do que era a cena metal no país antes do grupo acontecer. Em um
show em Caruaru, Pernambuco, são recepcionados pelo promotor do show (um moleque de 12
anos!) que lhes pergunta o que é P.A. (sistema de som). Em Manaus, um radialista pergunta
se as letras do grupo falam de "esperança e paz". O grupo vai se distanciando
do demo à medida que entra em contato com o punk (é o começo da amizade com os Ratos de
Porão) e passam a fazer músicas com temas estranhos ao heavy metal, sempre em tom de
protesto social. À medida que o Sepultura vai ganhando reputação no Brasil aos poucos
vai sendo tratado como segredo no exterior, seus discos e fitas passando de mão em mão
pela Europa. O livro também desmistifica o fato de Max ser o principal inovador do grupo,
dando crédito a Andreas Kisser, que substituiu Jairo Guedes (o primeiro guitarrista),
pela evolução do som do Sepultura. O baixista Paulo Júnior também é finalmente
revelado: um sujeito sensível demais para ser metaleiro que não conseguia tocar o
próprio baixo nas gravações dos primeiros discos.
A escalada ao sucesso internacional é conhecida pelas páginas de jornais
e revistas da época, que só começaram a valorizar o grupo após seu reconhecimento no
exterior (no Brasil sempre é assim né?). Daí em diante, o livro funciona como
retrospectiva daquela cobertura e como diário de bordo das turnês. Não dá pra não
torcer pelo grupo quando eles resolvem declarar guerra aos alemães do Sodom (companheiros
de excursão e amigos da onça) ficando sem tomar banho por dez dias. As noitadas (Max só
precisava acenar para as groupies entrarem no ônibus) só são comparáveis ao sucesso
sempre crescente do grupo.
O grande cisma no grupo acontece quando Max casa com a empresária do
grupo, Gloria Bujnowsky. Os outros integrantes da banda não gostaram, mas acharam melhor
não se intrometer. Até que nasce o filho dos dois, Zyon, e Gloria passa a empresariar o
grupo usando mais a imagem de Max. A gota dágua acontece no lançamento do disco
Roots, que acaba implodindo o grupo por dentro. Em menos de um ano após o lançamento do
disco - no final de 96 -, a banda decide procurar um novo empresário, o que detona o
racha do grupo. Em fevereiro do ano seguinte o Sepultura parecia chegar ao fim - para a
imprensa. O livro conta as dificuldades que o grupo, sem Max, atravessou: ter que provar
que ainda era um conjunto e procurar uma alternativa para o vocal.
O livro termina com a entrada de Derrick Green no vocal e traçando um
panorama da inegável importância do Sepultura na história do heavy metal e da música
brasileira. Se você tem interesse em algumas destas áreas, Toda a História é leitura
obrigatória.
AnoZero- E como o trabalho foi se desenvolvendo? Como surgiu a idéia de
fazer o livro?
André Barcinski - Na verdade eu tive essa idéia em 92, quando eu cheguei a ter uma
reunião com o Max e o Igor pra conversar sobre o livro. Só que eu me mudei pros Estados
Unidos, fui pra Nova York, eles tavam em Phoenix e a distância entre as cidades era
grande, ia ficar complicado fazer o livro. Aí em 97, o Sílvio veio com a idéia de fazer
esse livro pra editora 34, que foi a mesma editora que eu havia conversado em 92 e eles me
botaram em contato com o Sílvio.
AnoZero- Qual foi o papel do Sílvio no livro? Ele ajudou a escrever?
Barcinski - O Sílvio ajudou nas entrevistas. Eu fiquei pesquisando e ele ia
entrevistando.
AnoZero- E como o trabalho foi se desenvolvendo?
Barcinski - A nossa idéia era fazer um livro que fosse atraente pro público do
Sepultura. Não adianta fazer um livro de 450 páginas prum moleque de 18 anos, fiz isso
quando eu fiz o livro do Zé do Caixão, que era pra outro público. Eu podia fazer um
livro de 800 páginas, sem fotos, mas ia ser contraproducente, ia vender dois números.
Não é um livro sobre o Cole Porter.
AnoZero- Como foi o trabalho de pesquisa? Foi difícil?
Barcinski - Fomos pesquisando em ordem cronológica, que é um jeito que eu sempre faço.
O que eu fiz foi separar um ano só pra isso, aí no primeiro mês e meio, a gente só fez
infância e o Sílvio ia lá e entrevistava todo mundo. Eu acompanhei a carreira do
Sepultura praticamente desde o início, de 87. E eles são caras públicos, sempre
apareceram na imprensa. Por isso a parte que eu mais gosto é do início. Os caras
inauguraram o metal no Brasil, que explodiu depois do Rock in Rio. Eles são responsáveis
pela profissionalização do metal no Brasil. Eu sou familiarizado com a história do
metal brasileiro, mas as matérias são muito ruins.
AnoZero- Esta pesquisa de material impresso foi difícil?
Barcinski - Cara, a dona Hildete, a mãe do Paulo, tem todos os recortes do Sepultura. É
um arquivo impressionante, ela tem tudo. Tudo mesmo, sabe? O recibo do primeiro baixo que
o Paulo comprou, crachás de todos os shows... Uma das idéias que a gente tinha era não
colocar no livro fotos que já são conhecidas, porque os fãs do Sepultura são realmente
fanáticos. Então a gente juntou um monte de foto caseira, polaróide e mostrou pros
caras do fã-clube - a maioria das coisas os caras nunca tinham visto.
AnoZero- O fã-clube oficial foi um termômetro?
Barcinski - Foi mais ou menos, a gente mostrou algumas coisas do livro pra algumas
pessoas. Livro é um produto, antes de tudo.
AnoZero- Você não entrevistou o Max.
Barcinski - Eu conversei com o Max, não pro livro, no Ozzfest de 97 e expliquei pra ele,
contei o que eu queria... Eu conheço o Max há quatorze anos, a primeira entrevista que
ele deu quando saiu do Sepultura foi pra mim, ele mandou aquela carta pro Jornal da Tarde
pra mim. Eu tenho uma relação muito boa com o Max e com a Gloria e fiquei três meses
tentando uma entrevista. Mas eu tenho um arquivo organizado e tenho doze ou treze
entrevistas que eu fiz com o Max desde 86. A última entrevista que eu fiz com o Max foi
em janeiro de 96, depois disso ele sai da banda e não tem mais a ver com o livro. O livro
é sobre o Sepultura, eu não quero falar sobre o Soulfly. Mas uma coisa legal que eu acho
que o livro tem é essa contraposição ao que Max disse. Ninguém da imprensa na época
se preocupou em colocar as coisas lado a lado, a pesquisar mesmo. Então publicavam que
"ninguém do Sepultura foi no funeral do filho da Glória", que é cascata, deu
até no Melody Maker, com foto e tudo. Então o livro tem isso, de mostrar os dois lados
da história, senão ia chover no molhado. Lógico que eu queria falar com o Max, mas
mesmo não falando, não ficou tendencioso, não falei mal de ninguém. Só me preocupei
com os fatos.
AnoZero- É uma biografia oficial?
Barcinski - Eles autorizaram, mas ninguém leu antes do livro ficar pronto. O Andreas, por
exemplo, não gostou de ver que ele tomava ácido. Mas eu não fui contratado pelo
Sepultura, eu não tenho obrigação se o biografado não gostar.
AnoZero- O livro tem muitas passagens pesadas, principalmente no que se
refere à escatologia...
Barcinski - Muita escatologia...
AnoZero-...Que é uma coisa normal entre fãs de heavy metal. Mas não
existem passagens envolvendo drogas ou sexo. Por que as deixou de fora?
Barcinski - Os caras são casados e o Brasil é um país que não tem uma tradição nesse
tipo de livro. O livro do Mojica fez muita gente ficar revoltada e enojada, com a
histórias dele com as mulheres dele. Eu ouvi muitas histórias de sexo e drogas, mas tudo
em off, com o gravador desligado. E o Sepultura não viveu mais histórias que qualquer
outra banda de rock, não acrescentaria nada à história.
AnoZero- Este é o seu terceiro livro. O que você acha do mercado
editorial de música no Brasil?
Barcinski - É uma merda e nunca esteve pior. Eu passei numa loja outro dia e meu livro
tá exposto do lado da biografia do Mozart. A molecada não entra em livraria pra comprar
livro. Mas a idéia era fazer o livro pro exterior. Porque aqui no Brasil é assim: ou
você faz algo por diletantismo ou pra ver se descola algo no exterior.
AnoZero- E a crítica musical? A quantas anda? Onde você está escrevendo
agora?
Barcinski - Eu tô escrevendo na Folha, mas nunca me considerei crítico. Nos anos 70 até
existia uma crítica no Brasil, mas hoje são jornalistas que casam de escrever sobre
música. De uma maneira geral, a crítica é muito fraca - em jornal nem se fala: gente
que começou a escrever ontem, pessoas mal preparadas, uns carinhas que têm todos os
discos do Ween mas nunca ouviram um disco dos Ramones. Isso é inadmissível. É uma
herança de fanzine, ficar fazendo só o que você curte. E as pessoas são muito
preconceituosas e limitadas. Outro dia tava lendo o livro do Lester Bangs, não dá nem
pra chegar perto do cara porque ele tem uma visão de mundo, ele te contextualiza dentro
da vida dele. Não é uma coisa isolada, não é um monte de nerd em casa pegando MP3...
AnoZero- Fale um pouco sobre seu programa de rádio, o Garagem.
Barcinski - Aquilo é pra se divertir. É o quinto programa de rádio que eu faço, eu
adoro rádio, nunca ganhei um centavo por isso. Eu faço só porque gosto, a gente gasta a
nossa grana. Outro dia a gente trouxe a Rita Cadillac, eu paguei o táxi e o jantar pra
ela, mas eu curto rádio, é divertido fazer. Quando eu estava nos Estados Unidos eu me
senti muito mal por não estar fazendo rádio... O programa não tem nada de proposta, de
manifesto - eu tenho um pé atrás com esse tipo de coisa, porque quando você atingiu a
sua meta, o que vai fazer depois? Mesmo porque tem muito mala se achando porta-voz de
alguma coisa. As pessoas são muito acomodadas e pensam que fazer um programa de rádio é
a coisa mais difícil do mundo.
AnoZero- E quais são seus próximos projetos?
Barcinski - Eu queria fazer a biografia do Tim Maia, mas tô tendo uns problemas por causa
da família dele, uns problemas de litígio, então vou deixar pra depois. Agora eu tô
fazendo umas coisas pro UOL. No exterior, ao contrário do Brasil, se você tem um produto
interessante, as pessoas querem saber, páram pra ouvir. Não é que nem essa merda que a
gente tem 30 segundos pra convencer os caras. Então tamos traduzindo umas partes do livro
do Sepultura e vou mandar pra umas vinte editoras e vou esperar. Quero ver se até o final
deste mês acontece alguma coisa. Estou com contato na França, na Alemanha, na Bélgica -
junta uns dez, doze países pra ganhar uma grana decente, porque se ganha grana com
adiantamento. Uma vez que você vende o livro, não tem mais noção. Sei lá quantos
livros podem ser vendidos no Japão, não dá pra ter esse controle...