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01.02.0 0-   t  u d o     c o m e ç  a     a q u i   -  a  n  o  z  e  r  o  @  y  a  h  o  o  .  c  o  m

SIMPSONS
DIVERTIDOS POR NATUREZA
Abonico R. Smith

Nem Warner Bros, nem Hanna-Barbera, muito menos Disney. Qualquer mortal que sintonizou a televisão durante os anos 90 sabe muito bem que veio do azarão canal Fox a produção que virou o sinônimo de desenho animado da década. Com justiça. Ao longo de dez anos de exibição, a série conquistou fãs em todo o planeta, ganhou inúmeros e sucessivos prêmios de público e da exigente crítica norte-americana, mudou a cara das produções de animação para a televisão, tornou-se o mais longo programa da história do gênero (já foram feitos mais de duzentos episódios inéditos, ultrapassando a marca de 166 dos antes imbatíveis Flintstones) e o primeiro deste a ocupar um horário de destaque no concorridíssimo horário nobre na tevê do Tio Sam.

Reza a lenda, ainda, que ainda fora sua responsabilidade derrubar a reeleição antes tida como certa do popular presidente americano George Bush - que ousou discursar combatendo o desenho e recebeu em um episódio o troco que teria feito descer pelas tabelas a sua imagem perante o público eleitor. Os Simpsons merece toda esta babação de ovo - dá até para descontar a breguice da família ter ganho há duas semanas uma estrela na decadente Calçada da Fama de Hollywood. A série, capitaneada pelo quadrinista e animador Matt Groening, soube aliar excelentes roteiros (não há um único episódio que não cause empolgação e gargalhadas), torrentes de piadas a cada segundo e um fator decisivo: sagacidade para contar revelar melhor do que ninguém a verdadeira e decadente cara da sociedade americana - o exemplo ainda pode ser refletido para quem mais servir a carapuça.

Ao contrário de quase todos os sitcoms de sucesso por lá, o clã Simpson está longe de protagonizar o lar ideal. Seus integrantes põem à prova a fragilidade da família deste fim de século. O pai Homer é bonachão, barrigudo, careca, preguiçoso, beberrão e ídolo de muitos por ser capaz de soltar pérolas atrás de pérolas. A mãe, Marge, esconde sua omissão por trás da fachada de protetora. O filho Bart, o anti-herói capaz de aprontar e perverter toda e qualquer ordem. A filha Lisa, CDF e politicamente correta, personifica a atitude correta que quase nunca vence nas histórias. Além da bebê Maggie (ninguém conhece sua voz até hoje; ela só aparece de chupeta na boca) e do avô Abraham (disfuncional e inútil como o filho de poucos cabelos), há um sem-número de personagens secundários tão engraçados quanto, cada qual com suas particularidades, defeitos e problemas.

Ninguém tem dúvida de que se não fosse Os Simpsons, outras séries cultuadas como Beavis & Butt-Head e South Park provavelmente não teriam existido. O potencial do desenho sempre esteve claro para seus criadores, Matt Groening e os colaboradores/produtores James L. Brooks e Sam Simon. Groening, que vinha de uma bem-sucedida experiência com a tira de quadrinhos de humor negro Life In Hell em 1986, foi convidado pela Fox, no ano seguinte, para fazer pequenas vinhetas de animação para o programa The Tracey Ullman Show.

À medida em que o projeto foi se desenvolvendo, as criações de Groening foram tomando formas arrojadas linhas construtivas (o desenho possui cabeças circulares ou ovais, olhos incrivelmente esbugalhados, corpos cilíndricos, membros tubulares e pés que mais parecem calços). Até que trinca convenceu a emissora a bancar histórias mais longas. Dos noventa segundos iniciais, a série pulou para meia hora de duração e ganhou os treze primeiros episódios.

O programa piloto foi ao ar no dia 17 de dezembro de 1989, como um inesperado presente natalino. Menos de um mês depois, em 14 de janeiro, teve início a primeira temporada. Apesar dos poucos episódios, não foi muito difícil para que a família tresloucada conquistasse um imenso séqüito de fãs. Afinal, era sátira e gozação para todos os lados. Nada escapava da iconoclastia insana e paranóica dos personagens: familia, igreja, política, polícia, governo, educação, sistema trabalhista, showbiz... A Bartmania, que podia ser medida pela enorme quantidade de camisetas com o garoto em posições não muito familiares que circulavam pelas ruas, gerou vários produtos licenciados, entre eles um bem-sucedido álbum com faixas cantadas pelos dubladores originais - volta e meia o rap "Do The Bartman" continua tendo seu clipe programado pela MTV.

O segredo do sucesso dos Simpsons não é difícil de ser desvendado. A série ganhou tal projeção por ser totalmente baseada no humor verbal. A criação dos episódios é decidida em conjunto pelos produtores, animadores e dubladores (no elenco destaca-se a versatilidade de Dan Castellaneta, responsável pelas falas de Homer e exímio imitador de vozes). Todos os profissionais se reúnem e o andamento de cada história é traçada de acordo com improvisações e piadas que vão surgindo no estúdio. O fato dos diálogos comandarem o roteiro sempre fez com que houvesse a obrigação de que as histórias fossem bastante fundamentadas no humor corrosivo, peça fundamental para captar a atenção do telespectador e faze-lo seguidor fiel da série. Fórmula fácil de ser analisada porém bastante difícil de ser reproduzida.

O culto aos Simpsons cresceu de forma tão absurda que fez da série um imenso misto de paraíso e perdição aos fanáticos. Cada episódio é recheado de referências explícitas. Personalidades de todo o tipo e meio mundo artístico já apareceram de alguma forma nos episódios, seja em citações, caricaturizações ou emprestando as vozes (de Michael Jackson a Elizabeth Taylor, mais de duzentos atores e cantores já levaram seus nomes aos créditos de dublagem. Um dos episódios mais comentados de todos os tempos contou com a participação dos atores Gillian Anderson e David Duchovny, protagonistas de outra série de sucesso da Fox. Nem precisa dizer que Springfield Files (Arquivos Springfield, em português) fez uma grande brincadeira com os mistérios e as tensões de Arquivo X. A história bateu o recorde de audiência de um desenho animado: foi assistida por mais de 20 milhões de americanos e ficou na décima primeira colocação no ranking dos programas mais vistos daquela semana.

O rock também sempre foi muito bem-vindo. Nomes como Aerosmith, Ramones, Smashing Pumpkins e Red Hot Chili Peppers (semipeladões, somente de cuecas, meias e tênis) aparecem tocando. Às vezes, a música-tema também recebe novo trato - já pode ser encontrado nas importadoras o disco Go Simpsonic With The Simpsons, lançado pelo selo Rhino, que reúne alguns diálogos entre os personagens e as diversas versões já produzidas, entre elas a barulheira do Sonic Youth e a neopsicodelia do Yo La Tengo. Além do novo disco e da estrela em Hollywood reservada aos maiores nomes do cinema de todos os tempos, os Simpsons estarão comemorando uma década com outros artefatos como novas séries de histórias em quadrinhos, videogames e uma caixa composta apenas por episódios que envolvam a sétima arte. A família ainda deve fazer parte de um projeto ambicioso revelado nesta semana pelo grupo canadense Imax. Os Simpsons estrelarão um dos episódios do média-metragem Cyberworld, que reunirá vários desenhos animados feitos em terceira dimensão.

Passados dez anos, a devoção ao desenho continua firme e forte. Nos Estados Unidos, Os Simpsons vai ao ar duas vezes por dia de segunda a sábado e uma vez no domingo. No Brasil, ele é exibido em duas emissoras. No canal por assinatura Fox, Bart e sua família também podem ser vistos diariamente, às 20h30 - aos domingos é reservada a estréia da semana. No SBT, as criações de Groening conseguiram um feito inédito para uma produção de animação no país: entrar na grade noturna, por volta das 23h (o que significa uma gigantesca parcela adulta entre os telespectadores). Depois de tanto tempo de sucesso, Os Simpsons encontra-se em um grande beco com apenas duas saídas. Ou começa a cansar e se reptir, frustrando todos os fãs e marcando o primeiro passo rumo à decadência e ao inevitável final. Ou, o mais provável, aponta para mais uma década de muito riso, piada e sátiras a tudo e a todos. De qualquer modo, os resultados serão irreversíveis.

Os dez mais

Recentemente, a pedido do semanário americano Entertaint Weekly, Matt Groening selecionou seus dez episódios favoritos, em comemoração ao aniversário de uma década dos Simpsons. Veja abaixo quais são as preferências do criador da série.

10) Não Há Desgraça Maior do que a nossa Casa (1990): "Apesar da animação estar ainda um pouco grosseira, este episódio possui uma das seqüências mais engraçadas de toda a série. No Centro de Terapia Familiar do Dr. Marvin Monroe, os Simpsons acabam dando terapia de choque uns nos outros. Editar esta seqüência foi muito difícil porque eu e a equipe estávamos rindo sem parar dos berros da família".

9) Krusty se Ferra (1990): "Tivemos que fazer várias tomadas de voz do enfarte que Krusty sofre durante as filmagens de um comercial de produtos suínos de sua marca porque Dan Castellaneta, dublador do personagem, nos fez chorar de rir. Quem consegue ficar sério assistindo a um palhaço olhando um pedaço de bacon frito enquanto murmura "Crocante, saltitante..." antes de cair em agonia?"

8) Beijoqueiros Por Natureza (1998): "Os censores da emissora não acreditaram no que estavam vendo. Nem eu. Uma vaca espiando Homer e Marge fazendo sexo em um palheiro. Vizinhos surpreendendo Homer e Marge nus dentro de um moinho de um campo de minigolfe. Homer dependurado nu em um balão de ar quente, enquanto o seu traseiro se vai batendo nos vitrais de uma catedral."

7) A Casa de Árvore do Terror - Parte VII (1996): "Este episódio especial do Dia das Bruxas é a minha história favorita sobre Kang e Kodos, os dois alienígenas. Aqui eles se transformam em Bob Dole e Bill Clinton [nota: senador e presidente dos Estados Unidos]. Um dos momentos inesquecíveis é quando Homer, capturado por Kang e Kodos, pergunta aos dois se vão investigá-lo. Kang, apressadamente responde: 'Pára! Já aprendemos tudo o que a pesquisa anal poderia nos ensinar!'"

6) O Inimigo de Homer (1997): "Neste episódio, exploramos o que seria realmente trabalhar ao lado de Homer Simpson. Hank Azaria está ótimo como o personagem Frank Grimes, o estressado colega de trabalho de Homer. Já aconteceram muitos funerais engraçados no seriado, mas o de Grimes (no qual Homer pega no sono) seja talvez o mais tocante e o mais hilário."

5) Nós Acreditamos em Marge (1997): "Até mesmo para os padrões dos Simpsons, este episódio é um tanto peculiar. Homer se apavora ao achar, retratado em uma caixa de sabão, um japonês muito parecido com ele, o Sr. Brilhante (na caixa constava o slogan: 'Para melhor lavar as suas roupas, use Sr. Brilhante'). Não consigo me lembrar do desenrolar da história, só sei que o programa termina com o reverendo Lovejoy salvando Ned Flanders de um grupo de babuínos enlouquecidos e fugidos do zoológico."

4) Um Bonde Chamado Marge (1992): "Foi o primeiro episódio musical da série. Marge estrela Oh Bonde!, versão da peça teatral Um Bonde Chamado Desejo, dirigido pelo escorregadio Llewellyn Sinclair. Também neste episódio, a pequena Maggie protagoniza um de seus melhores momentos, quando planeja fugir do internato."

3) Muito Apu Por Nada (1998): "Este episódio satiriza o movimento anti-imigrante de meados dos anos 90. O balconista da Loja de conveniências Kwik-E-Mart, Apu, e o chefe de polícia Wiggum protagonizam tiradas
hilariantes sobre o assunto."

2) Vida na Pista Rápida (1990): "Marge quase tem um caso com o seu instrutor de boliche, o francês Jacques. Originalmente, o instrutor seria sueco, mas o ator Albert Brooke sabiamente o tornou francês e improvisou um um engraçadíssimo diálogo, cheio de sedução com a dubladora de Marge, Julie Kavner. Boa parte do diálogo teve que ser cortada porque restava pouco tempo."

1) Bart, o Endemoniado (1990): "A cena em que Homer tropeça e é acidentalmente levado de skate pelo desfiladeiro de Springfield é bem engraçada. Mas o momento mais engraçado da série é quando Simpson, após o desastre, é carregado para dentro de uma ambulância. O veículo, por sua vez, bate em uma árvore e o joga novamente de maca para cima do morro."

Você sabia que Bart nasceu em 1979 e Maggie em 1985? (Na verdade, o tempo não passa na série, então Bart continua com 10 anos e Maggie ainda não comemorou o segundo aniversário ano de idade.) * Existem 121 cidades americanas com o nome de Springfield? * Mr. Burns tem 81 anos em um episódio e em outro aparece com 104? * Os nomes Homer e Maggie são os nomes dos pais de Matt Groening? * A maioria dos personagens são canhotos e Matt Groening também? * São feitos mais de 24 mil desenhos para cada temporada da série? * Os Simpsons já foram indicados para 33 Emmys e ganharam 15? * A casa dos Simpsons foi contruída em tamanho natural na cidade de Henderson, em Las Vegas? Uma mulher de 63 anos ganhou a casa de 120 mil dólares em um sorteio e a transformou em atração turística. * Já participaram da série mais de duzentos convidados especiais, alguns emprestando a sua voz à outros personagens, outros interpretando a si mesmos. Entre eles estão o ex-baterista dos Beatles, Ringo Starr * O ex-jogador da NBA, Magic Johnson * A banda Aerosmith, cantando Walk This Way com o personagem Moe * Elizabeth Taylor, como ela mesma * Christina Ricci, como Erin, uma amiga de Lisa * Gillian Anderson e David Duchovny, como os seus personagens de Arquivo X * Leonard Nimoy, o Dr. Spock fo Jornada Nas Estrelas, como Dr. Spock * Mel Gibson * U2, ajudando Homer a vencer a campanha para chefe de limpeza pública * Cyndi Lauper, cantando o hino americano. * Diversos estudos acadêmicos foram realizados em grandes universidades americanas sobre o fenômeno Simpsons. São eles Homer Peso-Pesado (relação da série com a obesidade) * Homer Simpson, um Clássico Palhaço (estudo do papel social dos personagens) * Deus e os Simpsons (como a religião é tratada pela série) * Uma análise dos cuidados médicos em Os Simpsons * Os Simpsons é TV de qualidade. * Comida sempre foi um dos assuntos mais tratados pelos personagens da série, principalmente por Homer. Fãs fizeram uma lista com os alimentos mais ingeridos e mais citados durante os episódios. Saem na frente os hambúrgueres (50 vezes). Depois vêm cachorro-quente (40), pizza (38), milho (29), pipoca (22), pepinos (18) e ração para cachorro (8). * Nem o nosso país fica de fora das sátiras da série. O avião da seleção brasileira de futebol cai no quintal da casa de Mr. Burns e os jogadores aparecem trabalhando como escravos. Homer diz ser a primeira pessoa não-brasileira a viajar no tempo. Xuxa aparece como Xoxtchila, uma estrela de tevê tupiniquim, no Especial de Natal de Krusty. Pelé aparece recebendo dinheiro em um jogo de futebol. * Discografia: The Simpsons Sing The Blues (1990); The Yellow Album (1992) * Songs In The Key Of Springfield (1997) * Go Simpsonic With The Simpsons (1999)