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01.02.0 0-   t  u d o     c o m e ç  a     a q u i   -  a  n  o  z  e  r  o  @  y  a  h  o  o  .  c  o  m

STELLAR
FUSÃO A FRIO
Alexandre Matias

O Stellar quis voltar atrás, mas já era tarde. Em seu último trabalho, a fita Transmigration, o grupo carioca deixou-se levar pelo improviso em estúdio, afundando aos poucos nas turvas ondas do oceano magnético do pós-rock em dez horas ininterruptas de estúdio. Foi o suficiente para alterar seu ponto de vista sobre a música. Já não dava para voltar à primeira etapa da fita Thrumming  Soothingly sem os aditivos de desconstrução sonora propostos pela segunda fita. Era tarde demais.

O grupo foi formado por Bia e Cadu (ex-Drivellers), Fábio (ex-Second Come), Leandro (ex-Stellarblast) e Sol (também do Kinetkit Ravecamp) como uma espécie de terapia coletiva em forma de banda. Tocando apenas para gravar o próprio som, o Stellar conseguiu se impor na cena independente brasileira com mais do que farpas e agressividade - seu som foi suficiente para garantir a própria moral. Desde 1997 entram e saem do estúdio, prometendo um primeiro CD que parecia não sair nunca, até agora.

Ultramar (Midsummer Madness) não é o disco que os fãs poderiam estar esperando. Ao contrário do pós-rock ortodoxo (engraçado dizer isso) de bandas como Trans Am, Jessamine ou Tortoise, o primeiro disco da banda volta à melodia perdida, sem se perder na selva da experimentação que é o novo gênero com que a banda flertou. Contrapondo opostos, tem tudo para agradar diferentes tribos: fãs do pop noise que dominou a cena inglesa no começo dos anos 90 e os seguidos das avalanches sonoras milimetricamente retocadas em estúdio.

O disco começa com Connect, lenta, melódica e receptiva, nos tentando convencer a entrar através da hipnose a ir em direção ao disco. Quase os vocais se misturam e dizem "please connect" (conecte-se, por favor), parecem implorar pela nossa atenção. Mas a canção não mendiga, pela contrário. Nos convida para entrar no universo particular do grupo, querendo generosamente repartir sua viagem com o ouvinte. Emulsion corre em uma direção oposta: conduzida por um baixo grooveseiro, ela se entrega aos prazeres da microfonia lo-fi, deixando as guitarras se amontoarem num emaranhado de ecos ao fundo, enquanto uma tímida guitarra faz as vezes de primeira voz neste número instrumental.

A bela voz de Bia na faixa-título parece suspensa pela energia da microfonia, casando os dois pólos que o grupo une no disco. De um lado, detalhes milimétricos de som se perdem em enxurradas de distorção; do outro, canções intactas e etéreas, filha tanto dos Cocteau Twins quanto do My Bloody Valentine. Fundindo microfonia e melodia, experimentalismo e canção, o Stellar parece apenas seguir a cartilha dos anos 90. Mas o resultado ultrapassa os clichês da década passada e aponta, senão ao futuro, pelo menos a um gueto particular onde a tal fusão ocorre é feita como um experimento científico.

É assim que o Stellar encara o som, como cientistas. Trancafiados no laboratório chamado Estúdio Freezer, os cinco se reuniam como se estivessem participando do desenvolvimento de um projeto científico. Mas em vez de ter um objetivo definido nesta procura sônica, preferem continuar experimentando, testando, burilando nos próprios arquivos como se a procura fosse o alvo desta pesquisa. No meio das gravações, Fábio Leopoldino decidiu abandonar o barco e dedicar-se a seu projeto solo Poly Stirene, mas Ultramar tem suas impressões digitais por toda sua duração.

Em alguns momentos, parecem seriamente compenetrados. Arjoona superpõe três guitarras com o mesmo tipo de som e tocando melodias semelhantes, criando uma paisagem desolada de um planeta desconhecido com o mesmo tipo de sentimento que Ry Cooder descreve o deserto na trilha de Paris Texas. Full Flavor leva o Cure do meio dos anos 80 (a quem já haviam homenageado na última fita, com uma versão para The Top) para uma gruta hi-tech, deixando as reverberações metalzóicas encherem os espaços que Robert Smith preenchia com indagações e melancolia. 40% Vol. e Waves são formadas por escombros de som ruindo em câmera lenta. A exuberante Stars fecha o disco em um clima tenso, como se o céu congelasse sobre nossas cabeças e ameaçasse cair a qualquer minuto. O céu, no caso, é composto de ondas elétricas, eletrônicas e magnéticas.

Em outros, estão bem mais à vontade. Plasticine é ao mesmo tempo suave e anestésica, moldando-se à medida que vocais sussurrados caminham ao lado de uma guitarra que se desdobra como um fractal dentro de um pedal wah-wah. A sedativa Flux, que abria Transmigration, ganha backing vocals e vigor com a entrada de mais uma guitarra. A multifacetada Hyperwave Decoder ganha cores diferentes em cada passagem, num pequeno épico guiado por três guitarras. Soda e Transmigration encaram o Velvet Underground no terceiro disco e arrasta-o à força para os anos 90, cobrindo-o com um camada de microfonia e dois solos de guitarra em fios.

Ultramar é uma jam session numa câmara acústica em que qualquer ruído pode ser manipulado a favor da música. Cirurgicamente desfibrando a microfonia, o grupo a transforma num moldura perfeita para as canções principais. Alternando experimentalismo e instinto (às vezes fundindo-os), o grupo lança um primeiro disco que faz jus à reputação da banda. Bom trabalho. Para ouvir, peça para o Midsummer Madness, via correio (Rua Lauro Muller, 26/805. Botafogo. Rio de Janeiro-RJ. CEP 22290-160) ou via internet (http://www.mmrecords.com.br). E ouça alto. Bem alto.