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01.02.0 0-   t  u d o     c o m e ç  a     a q u i   -  a  n  o  z  e  r  o  @  y  a  h  o  o  .  c  o  m

WOYZECK
DE VOLTA AO PONTO DE PARTIDA

Abonico R. Smith
Fotos: Iáskara Souza

woyzeck02.jpg (24820 bytes)Dez anos é tempo demais no rock'n'roll. Bandas vêm e vão, tendências chegam e somem, novos artistas revolucionam a mesma chatice no qual acabam inseridos posteriormente. No nosso país, a dificuldade é maior, já que para insistir no gênero é preciso ser engolido pelo mainstream emepebezão ou ter que engolir a velha pecha de que roqueiro ou é doido varrido ou tem cara de bandido. No cenário independente, a falta de grana e uma pequena infra-estrutura que seja multiplica as adversidades.

O Woyzeck entra em 2000 comemorando um grande feito: resistir com bravura a dez suados anos de rock'n'roll. No Paraná, estado que ainda está começando a aprender a valorizar seus próprios artistas, as bandas que alcançaram tanta longevidade formam uma seleta panela. Dá para contar em apenas uma mão - Blindagem, Metralhas, Beijo Aa Força e, mais recentemente, Relespública. E nada melhor que soprar as velinhas de uma década fazendo o que todo artista necessita: se reinventar.

Não poderia ter havido decisão melhor. Década, século e milênio novos, vida nova, ciclo novo. Com formação reduzida e estabilizada em quinteto (saiu o tecladista Guto Geavard, o guitarrista Leo Hishida mudou-se para a Espanha e todos aqueles músicos flutuantes que preenchiam os palcos de outrora hoje não têm mais espaço), o Woyzeck optou por mudar os rumos e dar um giro de 180 graus na carreira. As brasilidades que marcaram o grupo nos últimos cinco anos foram para o espaço. Não há mais fusão com ritmos regionais, muito menos espaço para versos de repente ou letras bem-humoradas que mais parecem obras da literatura brasileira. Tudo em nome da sinceridade.

Depois de passar alguns meses se exercitando em um show de repertório especial, só de covers escolhidas a dedo, o Woyzeck percebeu que deveria escutar o próprio coração. Os integrantes decidiram enfrentar de cara suas verdadeiras influências e dar vez e voz a elas. O set agora é completamente diferente. Nos versos, o reencontro com o inglês, desta vez sem humor e qualquer intenção de interromper a sangria poética. No território musical, belas seqüências de acordes (alternando-se entre maiores, menores, dissonantes e com baixos invertidos) mais ecos de David Bowie, Pulp, Radiohead, Leonard Cohen, Yo La Tengo, Smiths, Nick Cave, Guided By Voices, Wilco, R.E.M., Tom Petty, Tom Jones, Blur, They Might Be Giants... A lista dos bons sons é enorme e a cada audição se revela uma nova referência.

Coisa de quem sabe tocar e, sobretudo, sabe muito bem o que escuta. "Estávamos carentes de tocar um certo tipo de música. Nosso projeto de covers foi proposto para que tocássemos o que realmenta tínhamos prazer em tocar. Serviu ainda para ver o quanto estávamos distante daquilo", constata o guitarrista Rodrigo Stradiotto. "Caiu no lugar-comum este negócio de referenciais brasileiros, de querer descobrir o que existe na nossa cultura. Isso esgotou", acrescenta o vocalista e letrista Luís Henrique Pellanda. Dalton Sakamoto, responsável pelos backings e segunda guitarra, complementa: "O Quebra-Queixo é a nossa contribuição para os ritmos nacionais. A vontade de fazer música brasileira foi canalizada por mim e pelo Luís para o Gente Boa da Melhor Qualidade, que, aliás, veio de um show acústico do Woyzeck."

Dois fatores contribuíram bastante para a mudança radical. O primeiro foi a readmissão do baterista, J.C. Branco, um pouco antes da gravação do primeiro álbum. Branco não só se identifica com o gosto por uma batida mais reta, como também é amigo de longa data dos músicos. "A gente sabe exatamente o que cada um vai fazer", constata o baixista Denis Nunes, também responsável por montar toda a muralha sonora pré-gravada no computador. "As notas são mais bem colocadas", sustenta Rodrigo. O que ainda facilitou a reviravolta foi a enxugada no número de integrantes. Para uma banda que nunca sabia quantos membros tinha ao certo, estabilizar-se como quinteto foi fundamental. "Antes não podíamos viajar muito porque não havia muita infra-estrutura para receber tantos músicos", comenta Rodrigo. "Facilita até o diálogo entre a gente", dispara Denis.

Talvez até por causa disso o Woyzeck não tenha visto a saída de tantos músicos como algo traumático. "Foi tudo tão natural quanto a própria entrada dessas pessoas depois. Tanta gente passou pelo Woyzeck em vários momentos que até fica difícil dizer quem é da formação original", adiciona o baixista.

O novo Woyzeck não surpreende apenas pelas alterações sonoras. No pacote veio junto uma grande mudança de atitude. Depois de desistir de vez de arrumar contato com gravadoras, veio o estalo de que o negócio é apostar no mercado independente. E radicalmente. Isso explica a opção por voltar a tocar em lugares minúsculos, sem divulgação, muitas vezes para amigos e conhecidos "Por incrível que pareça, depois de dez anos a banda ainda se contenta com pouco", explica o vocalista. "Estávamos nervosos antes de apresentar pela primeira vez este novo repertório no James Bar, para pessoas que nos conhecem há tempos". Rodigo complementa: "Queremos é ficar felizes, mesmo com algo pequeno."

A nova cara refinada, conceitual e do Woyzeck apresenta ainda uma grande consciência do quanto será penosa a divulgação do trabalho. Contudo, a banda não parece estar dando muita bola para isso. "O maior problema é que hoje é difícil ouvir rock no rádio. Ninguém mais escuta rock como na década passada. O gênero ficou estigmatizado como um segmento para adolescentes, quando na verdade é bem maior do que isso", protesta Luís. "A década de 90 no Brasil é isso, é a bunda da Tiazinha e da Feiticeira."

Rodrigo, por sua vez, vai mais fundo nas alfinetadas. "O material produzido atualmente no rock nacional é pobre, cheio de clichês, um lixo. Beira a barbárie", exclama o guitarrista. "O pior é que a maioria que consome isso não tem o mínimo domínio da linguagem. É gente que sai do cursinho sem nunca ter aberto um livro na vida. Você quer falar sobre o sexo da maneira mais porca, tudo bem. O negócio é saber como colocar as coisas, o que quase ninguém sabe". Denis tenta amenizar: "A indústria cultural também não oferece opções às pessoas". E Luís completa: "O vilão é o mercado todo. Se você passa 50 anos recebendo lixo, vai ficar reproduzindo lixo."

Por enquanto o reformulado Woyzeck só pode ser degustado ao vivo. A gravação de uma demo está prevista para breve e o grupo cogita ainda tentar gravar um novo disco com o apoio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura. Enquanto novas gravações não vêm, a banda se sente feliz e confiante por não ter medo de recomeçar do zero aos dez anos de idade.