VERSIONES 13


Año del buey - Abril/Mayo de 1997


Renato de Caldevilla:
O Manequim

Encostado à mesa de corte, António não deixava de fixar a elegante e perturbadora Sandra, os seios muito erectos e lascivos, as medidas de manequim profissional -86-60-86, a cabeleira fulva a cair-lhe pelas costas, um braço acima da pequena cabeça, numa pose a perspectivar um convite para um agradável fim de tarde. Entusiasmado com a beleza da sua companheira de estúdio, cingida num magnífico vestido por si desenhado, já por diversas ocasiões, vencendo uma inata timidez, a convidara para sair, sem nunca ter conseguido uma resposta positiva, facto enervante a provocar-lhe uma incontrolável excitação. Também nunca se lhe recusara, nem se mostrara arisca ao ponto de abandonar a sala. Muda recebera o convite, muda ficara.

Quando as aprendizes de modista enchiam o atelier, durante as horas de trabalho, ajudando a confecção dos vestidos das suas clientes, o estilista quase não tinha coragem de olhar mais insistentemente para Sandra, temendo ver-se denunciado por qualquer uma delas que, decerto, não deixariam de propalar até ao fecho do salão de modas, ocasião em que ele ficava a sós com o seu manequim, falando-lhe mansamente, com medo de lhe tocar, enfim, dando-lhe as últimas instruções sobre a sua futura apresentação na passagem de modelos, misturando tudo isso com as palavras de desejo, muito discretas mas cheias de paixão.

Sentia-se quase como César, o gato siamês, morrinhento no ninho, junto ao aquecedor, impotente e desinteressado dos convites que as gatas lhe faziam naquele mês de Fevereiro, por ser castrado desde os cinco meses de idade, conforme decisão da mulher que não o quereria ver com o pelo esfarrapado, sujo e feio, depois das habituais lutas entre machos, no cio, sobre os telhados ou nos quintais das moradias, exercendo o natural instinto procriador nas suas companheiras da vizinhan�a.

O medo e a discrição eram formas de expressar o sentimento de timidez que o afligia, sempre que olhava meigamente para Sandra, porquanto a sua virilidade incontestada, não só pelo avantajado número de filhos, como pelas numerosas aventuras que tivera, jamais poderia ser posta em causa ou assemelhar-se com a triste condição do gato! Quantas vezes se desculpara junto da mulher por se atrasar na hora das refeiçóes, ao ficar um pouco mais com a Sandra, enganando-se num ou noutro corte, misturando confecção com insinuação de compromisso, acabando por fechar a porta do estúdio irritado e descer as escadas que o levavam ao primeiro andar do mesmo prédio onde habitava, para almoçar ou jantar.

António era calmo e criativo. Considerado como um dos melhores estilistas do seu país, dos seus esguios e nervosos dedos saíam os desenhos mais originais e audazes da moda feminina, sendo o seu real valor apreciado no estrangeiro, onde lhe encomendavam vestidos para serem exibidos pelas maiores top-models do mundo, nas grandes capitais da moda internacional. Em todos estes modelos, nunca nenhum competira ou se assemelhara à sua insinuante e inspiradora Sandra, verdadeira fonte criadora dos novos fatos apresentados, onde a força do amor se mostrava presente, indelével e inimitável. O estilista não gostava de estar muito tempo ausente do seu país e do local onde namoraria a inspiradora das suas obras, o manequim que mais amava, essa excêntrica e solícita companhia indispensável à sua arte sentimental.

O medo da mulher descobrir este relacionamento extraconjugal e o escândalo que daí poderia advir para toda a família, preocupavam António, deixando-lhe um travo de melancolia ao sentir-se um belo dia descoberto na sua adoração por Sandra. Até que ponto poderia aquela situa�‹o continuar?

Já ouvira muitas afirmações da possibilidade cruel de um homem poder amar simultaneamente duas mulheres, oferecendo o seu melhor a qualquer uma delas. Tal facto era repudiado pelo conservadorismo cristão, pelas obsessivas e ciumentas esposas, pela sociedade tradicional, vizinhos, família e quase toda a gente conhecida que declaravam a impossibilidade de divisão de algo considerado indivisível - o amor! Confuso, queria acreditar na novidade de uma criatura mais nova, uma mulher elegante e bela, para certas horas do dia em que o ser humano mais necessitava de se distrair, de um devaneio que o libertasse do habitual stress da sua conturbada vida. Paralelamente, a esposa tradicional, em princípio a jurada eterna e única companheira, como factor de segurança e reconhecimento pela juventude já concedida, os filhos gerados e responsáveis pela continuidade do nome. No se aceitar uma destas situações, quem teria razão?

Jamais confidenciara o seu segredo a quem quer que fosse.

Naquele fim da tarde, desinspirado por duas ou três palavras menos afectuosas que julgou ter ouvido da sua amada, resolveu descer mais cedo a sua casa, jantar e enfiar-se na poltrona da sala, para ver o jogo de futebol que lhe seria transmitido na televisão. Começou a comer sem ligar grande importãncia à mulher, o cenho carregado, o pensamento invadido por mil e uma contradições, amalgamadas em raivas e ideias de vingança, a resvalarem por insultos mal-contidos.

A mulher, ciente há muito tempo das depressões por que passava o marido, achava por bem não lhe dirigir a palavra, pois sabia melhor do que ninguém, poder ele aproveitar-se de qualquer frase que proferisse, para levantar uma discussão, utilizando um qualquer pertexto para começar a invectivá-la, aos berros.

No fim do jantar serviu-lhe o café com um aguardente, quebrando-lhe a rotina da dieta a que o obrigava, pela sua situação de hipertenso.

Enquanto António, sem comentar, bebia o café, aproveitou para lhe perguntar quando é que ele fazia uma reforma no seu salão de moda.

Com efeito, uma das suas clientes tinha-lhe referido o desleixo daquele local de trabalho, nomeadamente quanto aos manequins, pois eram bonecos já muito velhos e desajustados, num atelier com a categoria e o renome daquele.

Por um segundo, António pensou em Sandra. Desfazer-se do seu manequim, como se a morte o tivesse vindo buscar? A mulher devia estar doida ou fora da realidade. Ou seriam os ciúmes a tomar conta dela?

António levantou-se precipitado da mesa, abandonou a sala e subiu até o salão de corte para se desculpar junto de Sandra e lhe dizer que não seria tão cedo que dela se separaria. Na sua excitação não acendeu de imediato a luz, tropeçando no tapete e esbarrando em Sandra que, ao cair, acabou por partir em mil bocados a sua cabeça de massa que se espalhou pelo chão. V


(*)Renato de Caldevilla, poeta e escritor português. Mora no Porto.



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