Lawrence H. Summers
Os anos 90 na América Latina foram uma década marcada por crises financeiras e desastres naturais, além de eleições muito disputadas. Mas, acima de tudo, foram dez anos de continuidade para a "revolução silenciosa" mencionada pelo presidente Bill Clinton, na qual aproximamos os dois hemisférios "em torno de valores comuns de democracia, mercado livre, respeito mútuo e cooperação".
O principal desafio para a América Latina e para as instituições de desenvolvimento oficiais hoje é propiciar uma prosperidade mais integradora e sustentada. A história recente nos ensinou quais são os ingredientes fundamentais para se chegar lá.
Em primeiro lugar, o crescimento é necessário e importante para a redução da pobreza. Na última década, a ausência de inflação alta e de hiperinflação beneficiou mais a população pobre do que qualquer outro grupo. O número de famílias latino-americanas vivendo na pobreza caiu em mais de 40%.
O crescimento e uma melhor administração do orçamento nacional geraram mais recursos para projetos sociais e ajudaram a melhorar indicadores importantes, como a taxa de mortalidade infantil, reduzida em cerca de 25% desde 1990.
O motivo predominante para se trabalhar com a prevenção de crises financeiras é garantir esse tipo de crescimento. Assim como o progresso econômico é a maior força para o desenvolvimento humano, o retrocesso é seu pior inimigo.
Considerando o que se alcançou com as reformas sociais na América Latina, um único ano de recessão na década de 90 foi o bastante para comprometer cerca de 50 a 100 por cento dos avanços na redução da pobreza conquistados durante quatro ou cinco anos de crescimento.
A segunda lição é que o desenvolvimento econômico nacional depende, acima de tudo, da existência de mercados abertos e de instituições e políticas necessárias ao seu bom funcionamento.
Devemos trabalhar para aprofundar e acelerar a integração regional recentemente atingida, bem como desenvolver a infra-estrutura invisível necessária ao bom funcionamento dos mercados, como a criação de normas consistentes de transparência e integridade e o cumprimento de contratos. Devemos também empreender um grande esforço para combater a corrupção e implementar um estado de direito duradouro, no qual as leis sejam equitativas na teoria e na prática.
A terceira lição é que o investimento de recursos públicos na área social é crucial ao sucesso econômico. Estabelecer uma prosperidade mais abrangente é uma necessidade moral e imperiosa numa região que possui a mais injusta distribuição de renda e de oportunidades no mundo: um terço da população latino-americana sobrevive com menos de dois dólares ao dia.
Em uma época em que o mercado valoriza mais o conhecimento do que a força física, nenhuma região poderá ser uma potência econômica quando pouco mais da metade dos jovens em idade escolar frequenta o segundo grau, como aconteceu em 1997.
Essas lições podem ajudar os governos a definir as prioridades para a região. Devem também orientar as agências internacionais de desenvolvimento em um mundo no qual o setor privado é a fonte mais expressiva de capital para o crescimento. Tudo isso sugere cinco prioridades ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID):
o Novo enfoque aos empréstimos direcionados aos principais setores sociais. O BID deve analisar a conveniência de usar parte de seus empréstimos na promoção de saúde, educação e outros investimentos sociais. Além disso, deve adotar novos mecanismos para assegurar que esses recursos sejam bem empregados, como o incentivo à participação e ao controle populares na implementação dos programas que financia.
o Maior ênfase no apoio ao setor privado, sem suplantá-lo. Isso pode significar o uso de novas técnicas de mercado para ajudar os países a se defender dos abalos frequentes que afligem a região, como flutuações drásticas nos preços das commodities, desastres naturais ou mudanças súbitas nas condições dos negócios globais.
o Maior ajuda emergencial. Os bancos de desenvolvimento podem desempenhar um papel vital em épocas de crise, como foi demonstrado pelo BID no ano passado por meio de seus programas de empréstimo para o Brasil e outros países. O Banco deve ter a capacidade de responder com ainda maior rapidez e eficiência a crises futuras.
o Novas taxas. O BID deve cobrar taxas para seus empréstimos que reflitam a variedade de opções à disposição dos devedores, inclusive bancos privados.
o Oferecer financiamento aos Países Pobres Altamente Endividados (PPAE). Essa é a questão mais urgente e moralmente mais relevante na agenda financeira da região. Em recentes encontros do BID na cidade de Nova Orleans, os acionistas se comprometeram a apoiar a participação total da entidade na PPAE. É vital que façamos progressos rapidamente para que a Bolívia e outros países que deram importantes passos nos últimos anos possam obter o apoio adicional de que tanto precisam.
Finalizarei enfatizando a enorme participação dos Estados Unidos nesses esforços. Como o presidente Bill Clinton observou repetidas vezes, uma prosperidade global mais abrangente atende aos interesses básicos dos Estados Unidos. Ela promove a paz e a liberdade e ajuda a criar melhores parceiros comerciais para os norte-americanos.
Por todas essas razões, esforços bem-sucedidos para promover o desenvolvimento ao redor do mundo são os investimentos mais rentáveis que podem ser feitos. E em nenhum outro lugar isso é tão evidente quanto na América Latina.
Larry Summers é Secretário do Tesouro dos Estados Unidos
Retirado da CNNBrasil.com