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Gil Vicente

Gil Vicente é considerado o criador do teatro português pela apresentação, em 1502, de seu monologo de um vaqueiro (também conhecido como Auto da Visitação). Entretanto seria errôneo afirmar que não houve representações anteriores a Gil Vicente em Portugal. O que existia, de fato, eram representações cênicas e não textos elaborados para representação, que é o que se caracteriza atividade literária. Durante a idade media podemos distinguir 2 tipos de encenações: religiosas e profanas.
  • Religiosas: eram representadas no interior das igrejas e dividiam-se em:
    • Mistério: representação da passagem da vida de Cristo, realizado normalmente no natal, páscoa e ano novo;
    • Milagre: representação de um milagre efetuado por um santo;
    • Moralidade: representação com intuito de moralizar costumes.
  • Profanas (chamadas assim por serem realizadas fora da igreja):
    • Arremedilho: imitação cômica de pessoas ou fatos;
    • Momos: encenações carnavalescas de temática variada, apresentando personagens variados.
Ambos tinham como objetivo o efeito moral, buscando a educação do crente. Fugindo em muito dessas formas de teatro, Gil Vicente criou um estilo próprio, onde suas peças tomavam a função de criticar a tão corrompida sociedade de sua época. Para ser mais exato, podemos afirmar que o objetivo inicial de Gil Vicente era criticar a sociedade daquela época, mas os reais resultados foram críticas que se tornaram imortais e que servem para qualquer sociedade, em qualquer época. É correto, portanto, dizer que Gil Vicente é atemporal, pois em suas críticas transmitia uma mensagem que pode, mais que adequadamente, ser empregada nos dias de hoje, pois o conceito social mantém-se o mesmo. Os primeiros textos em português elaborados para serem representados foram os de Gil Vicente. Sobre sua vida pouco se sabe, teria nascido por volta de 1465 (século XV). A primeira data ligada seguramente ao poeta é de 1502 (século XVI), quando na noite de 7 para 8 de Junho recitou "Monólogo de um Vaqueiro", no quarto de D. Maria, esposa de D. Manuel, que acabara de dar a luz ao futuro rei D. João III. Durante 34 anos produziu textos teatrais e algumas poesias, sendo que a última peça: "Floresta de Enganos", data de 1536. Supõe-se que Gil Vicente tenha morrido por volta de 1537. Nada se sabe a respeito de sua origem, porém podemos afirmar que viveu a vida palaciana como funcionário da corte com grandes privilégios e que possuía bons conhecimentos da língua portuguesa, bem como castelhano, latim e assuntos teológicos. A produção completa de Gil Vicente constitui-se em 44 peças, seja 17 escritas em português, 11 em castelhano e 16 bilingües, além de ter sido colaborador de Garcia de Resende no Cancioneiro Geral. A influência castelhana também é sentida na estrutura e na temática de suas peças: Os Autos Pastoris denotam influência de Juan del Encina, e as farsas de Torres de Naharro. O teatro vicentino é basicamente caracterizado pela sátira, criticando-se o comportamento de todas as classes sociais: a nobreza, o clero e o povo. Utilizando-se desses inúmeros personagens e ainda da comicidade, Gil Vicente criticava sua sociedade, que havia perdido os antigos valores e que agora era gananciosa devido às idéias de enriquecer de forma rápida e fácil, originárias da expansão marítima e comercial portuguesa. Apesar de sua profunda religiosidade, o tipo mais comumente satirizado por Gil Vicente é o frade, que se entrega aos amores proibidos (chegando a enlouquecer de amor), a ganância na venda de indulgencias, ao exagerado misticismo, ao mundanismo e à depravaçao dos costumes. Criticou desde o frade de aldeia até o alto clero dos bispos, os cardeais e até mesmo o papa. Criticou também aqueles que rezavam mecanicamente; os que, invocando Deus, solicitavam favores pessoas; e os que assistiam a missa por obrigações sociais. Nobres, burgueses, o povo e alguns membros da sociedade religiosa eram questionados durante as peças vicentinas. E foram dessas peças que criticavam a religião que surgiram as mais fantásticas obras do dramaturgo. Seus autos (em particular o Auto da Barca do Inferno) são considerados suas obras máximas e podem ser utilizados como tema para reflexão até hoje. Riquíssima é a galeria de tipos humanos que formam o teatro vicentino: o velho apaixonado que se deixa roubar; a alcoviteira; a velha beata; o sapateiro que rouba o povo; o escudeiro fanfarrão; o médico incompetente; o judeu ganancioso; o fidalgo decadente; a mulher adultera; o padre corrupto. Gil Vicente não tem preocupação de fixar tipos psicológicos e sim de fixar tipos sociais, tendo em vista que a maior parte dos personagens do teatro vicentino não tem nome de batismo, sendo designados pela profissão ou tipo humano que representam. Quanto à forma, da utilização de cenários e montagens, o teatro de Gil Vicente é extremamente simples. Nem mesmo obedece às três unidades do teatro: ação, lugar e tempo. Seu texto apresenta uma estrutura poética, com predomínio da redondilha maior, havendo várias cantigas no corpo de suas peças. Outro aspecto a salientar no teatro vicentino aparece como consequência natural de seu movimento histórico: ao lado de algumas características tipicamente medievais (religiosidade, uso de alegorias, de redondilhas, não obediência às três unidades do teatro clássico), percebe-se características humanistas tais como a presença de figuras mitológicas, a condenação a perseguição aos judeus e cristãos novos e à crítica social. E aí caímos novamente no fato de Gil Vicente ser atemporal. Analisando suas críticas e em particular os fatos que a elas deram origem, podemos notar semelhanças com os tempos de hoje. A única diferença, talvez, reside no fato de que no tempo de Gil Vicente aqueles atos eram mais mascarados, ou seja, as pessoas escondiam seus males de forma cínica, mesmo que muitos soubessem da existência desses deslizes de conduta. Havia uma tentativa de manter a imagem. Tomando como exemplo os nobres, que cometiam vários pecados mas que mesmo assim não os confessavam inteiramente para os padres, que, muitas vezes, também estavam agindo com más intenções, roubos e má índole. E os padres ao mesmo tempo que se diziam servos de Deus e que eram justos, mas que cobravam pelos pecados dos fiéis. Isso tudo deve ainda ser somado ao detalhe que, embora houvesse fingimento, muitos sabiam da existência de tal comportamento, apesar de não haver a crítica (Gil Vicente tornou-se essa crítica). Hoje em dia esses comportamentos ainda são existentes. Afinal, sabemos da existência de prostitutas, caloteiros, preguiçosos e muitas vezes sabemos quem são eles. A diferencá está aí. Hoje em dia a sociedade se preocupa ainda menos com estes valores (tanto em possuí-los como em cobrá-los). Portanto, ler e estudar Gil Vicente é o mesmo que entrar em contato com críticas aos nossos tempos, aos nossos próximos e até a nós mesmos. Quando lemos e estudamos Gil Vicente temos a oportunidade de "vestir" aquelas críticas às nossas situações e refletir. E dessa forma fica a certeza da importância do trabalho desse dramaturgo português.
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