Rizoma Autonomia
ano 1 #0
outubro de 2001

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AÇÃO DIRETA OU MILITANTISMO?

Ao longo de sua história, o proletariado sempre contrapôs a ação direta às manobras da social-democracia, instituição burguesa de contenção e enquadramento da luta de classes, cuja estratégia se baseia na representação e na mediação, por meio dos sindicatos e partidos. Ação direta, ou seja, sem intermediários, nem representantes, e protagonizada por todos: nas greves e manifestações, ocupando as ruas, na violência das insurreições etc. Ação direta, também, porque recusando mediações e delegações, combate sem tréguas a impostura democrática, representativa e cidadã.

Em Davos, Seattle, Praga, Bolonha... grupelhos militantes vociferavam, mastigando o cadáver da ação direta, que confundem (?) com a violência das manifestações. Mas a violência, por necessária que seja, não é suficiente para caracterizar a ação direta. O proletariado contrapõe sua ação direta ao parlamento, aos sindicatos, às eleições..., lutando autonomamente, de modo reproduzível e generalizável em todos os lugares. Esta ação direta - além de ser violenta e rechaç;ar qualquer tipo de mediação ou representação - é realizável pelos proletários onde quer que estejam, desde que lutem enquanto classe autônoma. Portanto, o que acontece nesses eventos, por mais sincera e corajosa que seja a atitude dos manifestantes, nada tem a ver com ação direta.

Certamente, o que acontece nesses eventos é parte da ação (heterônoma, segmentada e espetacular) do proletariado. Além disso, as organizações presentes não impulsionam as lutas cotidianas, o aqui-agora da resistência proletária em todos os lugares (pois o capital está em todos os lugares), mas enaltecem o próprio ativismo, essa caricatura frenética da ação direta que apresentam como a mais válida de todas.

O cúmulo da mistificação ocorre quando tentam atribuir a tais eventos um caráter pré-insurrecional que eles não têm. O que poderia haver de efetivamente anticapitalista nessas manifestações que ocorrem em lugares determinados pelo calendário dos encontros da burguesia mundial? Pois é isso que chamam de ação direta contra o capitalismo mundial.

Quem defende a realização desses eventos antiglobalização ignora ou esquece que, com exceção dos proletários que lá vivem e que saem (?) às ruas para se manifestar, somente um punhado de militantes, pretensos representantes e dirigentes do proletariado de diferentes países, comparecem. O fato de que sejam abnegados e combativos, lancem pedras ou coquetéis molotov contra o aparato repressivo da burguesia etc., em nada muda seu caráter de representantes de um proletariado cuja maioria os ignora.

Muito diferente seria se os proletários de cada país onde se realizam essas farras capitalistas ocupassem as ruas e tentassem impedir sua realização, e que proletários de outros países atuassem na coordenação e centralização dessas lutas em outros locais.

O que afirmamos é que a maioria dos proletários simplesmente não pode - se é que lhe interessa... - ir aos lugares em que tais eventos ocorrem. Quem comparece é uma pequena minoria, que tem condições de trabalho privilegiadas em termos de remuneração e de tempo livre para se deslocar. Em alguns casos, grupos de revolucionários fazem um imenso esforço para enviar uns poucos militantes a esses eventos. Mas é óbvio que, em geral, só os dirigentes dos sindicatos e dos partidos, que funcionam por representação e são fundamentais para a dominação democrática do proletariado, têm recursos para se deslocar permanentemente. Nada menos estranho, portanto, do que a predominância, nessas manifestações, dos mandarins políticos e sindicais, dos serviços secretos de vários países e a indefectível polícia.

A ação direta proletária é a de todos os dias, nas lutas autônomas contra os patrões, contra a burguesia que está diante de nós, contra os partidos e os sindicatos que querem perpetuar a escravidão assalariada. Sim, é preciso generalizar a luta, radicalizá-la e torná-la mundial, coordená-la; estimular o intercâmbio militante entre os proletários revolucionários de todos os países e combater o capital em todos os lugares. Mas é contraproducente e nocivo acreditar que os proletários do mundo se manifestarão, de forma cada vez mais massiva, num determinado lugar e hora, contra esses eventos, até liquidar o capitalismo.

Ainda que pudéssemos e quiséssemos, seria absurdo concentrar a luta do proletariado de todos os países num só lugar, porque não se trata de destruir a mercadoria em tal ou qual cidade ou mesmo país. Nossa ação direta, nossa luta como revolucionários proletários e internacionalistas, é para destruir o poder do capital. Em todos os lugares, no mundo inteiro.

IDEOLOGIA, NEUROSE E REVOLUÇÃO SOCIAL

O pendor sacrificial do militante que pretende se tornar um "herói da classe operária" está fundado em alguns equívocos. Um deles, talvez o maior de todos, consiste em pensar que as massas não se revoltam por falta de informação acerca dos dispositivos econômicos e políticos do capitalismo. Comprovadamente, o discurso militante - isto é, todo aquele que pretende explicar aos proletários a injustiça e a irracionalidade do sistema capitalista - dirige-se a surdos.

De fato, aqueles que se levantam às cinco horas da manhã para trabalhar - e, além disso, passam duas ou mais horas por dia indo e voltando (de metrô, ônibus e/ou trem) de casa para o local de trabalho – têm de se adaptar, seja como for. Assim, se quiserem continuar suportando a vida de merda que levam, têm de afastar do pensamento toda e qualquer veleidade crítica.

Se, repentinamente, os proletários concluíssem que estão destruindo suas vidas a serviço de um sistema absurdo, enlouqueceriam ou cometeriam o suicídio. Para evitar essa angustiante consciência, racionalizam e recalcam tudo que poderia perturbá-los, engendrando uma estrutura de caráter adaptada (leia-se: neurótica) às condições mercantis. Conclui-se, pois, que tentar convencer os proletários de que eles são explorados é uma tarefa inútil. Simplesmente, porque eles tiveram que recalcar a consciência da exploração para torná-la suportável.

Mas os militantes se julgam revolucionários e querem provocar "tomadas de consciência". A experiência mostra que raramente o conseguem. Por que? Porque se chocam contra todos os mecanismos de defesa inconscientes e todas as racionalizações que os proletários elaboram para não tomar consciência da exploração e do vazio de suas existências. O discurso militante, ainda que pareça revolucionário, escorrega sobre a couraça psíquica das massas proletárias, sem produzir qualquer efeito conscientizador, porque repercute ameaçadoramente tudo que elas tiveram de recalcar para suportar o cotidiano de embrutecimento e miséria em que sobrevivem.

(Esta discussão está apenas começando...)


O BOM CIDADÃO

Só lhe resta um olho (o outro ainda escorre lentamente da cavidade ocular), mas entregou-se ao uso. Em volta, os muros sorriem. A televisão vomita na sua cara, provocando-lhe um estranho gemido. A boca, em forma de U, parece um ânus. Onde quer que ele vá, a mesma cena. Por toda parte: um carro fala, um hambúrguer grita, belos vestidinhos comentam a respeito da conjuntura geopolítica. E todos dançam.

Durante a semana, ele é desgastado, utilizado, dedado no olho, pisado, chutado no saco, cagado&mijado e, enfim, elogiado pelo patrão. Mas tem os seus direitos: por exemplo, o de votar, escolhendo entre o ruim e o pior, de tempos em tempos.

Está subjugado ao tripalium. É um trabalhador e, às vezes, até se orgulha disso. Produz tudo que pode ser produzido. Em troca, recebe uns pedaços de papel com os quais tenta imantar os objetos à venda. Não percebe que a mercadoria obedece ao dinheiro, não a ele. Até mesmo a água suja do arroz com feijão que ele come.
O mundo, reduzido a espetáculo mercantil, pulula em bisonhos fetiches antropomórficos. Das vitrines, inconsoláveis, as coisas choram a falta do pedaço de papel moeda - que se tivemos, já não temos... As mercadorias não existem para satisfazer as necessidades humanas.

Oh! Sim... E, para impedir a satisfação das necessidades, estão convocados fuzis, metralhadoras, tanques e a servidão (mais ou menos voluntária) dos que os manejam.
"E tudo que não se pode fazer, o dinheiro faz para a gente. Pode-se comer, beber, ir ao baile e ao teatro. Ele pode adquirir arte, saber, tesouros históricos, poder político; e pode-se viajar. Mas, apesar de poder fazer tudo isso, o dinheiro só quer criar a si mesmo, e comprar a si mesmo, pois tudo mais a ele se submete."
(K. Marx – Manuscritos Econômicos e Filosóficos) 1