AVANTE OS QUE LUTAM CONTRA O CAPITAL E O ESTADO!
(Contra o Mito da Invencibilidade das Forças Repressivas)

A ausência de imprensa proletária e a gigantesca ocultação da informação tornam extremamente difícil fazer uma idéia do desenvolvimento da luta de classes em certas regiões. Quando não se oculta totalmente o que sucedeu, utilizam-se todos os mecanismos de desinformação para que o proletariado não se reconheça, para apresentar o enfrentamento generalizado de toda a ordem estabelecida como um conjunto de movimentos isolados e parcializados, com bandeiras e programas locais, e sem qualquer objectivo comum.

Como nos últimos meses (desde meados de 1999) não lhes foi possível ocultar as importantes lutas que se desenvolveram em vários países da América, esforçaram-se para desvirtuar e parcializar tudo. Contra essa manipulação, queremos sublinhar alguns elementos importantes: as greves gerais e confrontos dos proletários ("camponeses e indígenas", diz a imprensa!) contra os militares em diferentes cidades do Paraguai; as barricadas, o enfrentamento generalizado do poder e a conquista de centros cruciais do Estado burguês por parte do proletariado no Equador ("indígenas", dizem os meios de difusão da direita!; "epopéia heróica dos indígenas equatorianos", diz a imprensa esquerdista e anarcóide!); a radicalização nas lutas e ocupações de terra por parte dos proletários do Brasil ("camponeses sem terra", diz a imprensa); a continuidade dos escraches realizados pelo proletariado contra os torturadores e assassinos, sobretudo na Argentina ("familiares dos desaparecidos" e "partidários dos direitos humanos", dizem os fabricantes da desinformação); o uso da dinamite pelo proletariado das minas, no Chile, para defender os seus interesses ("mineiros destróem suas próprias minas", dirão a televisão e outros meios de comunicação); as importantes manifestações proletárias com confrontos e pedradas, na Costa Rica ("manifestantes", dirá a imprensa); os permanentes confrontos entre proletários e guardiães da ordem, no México ("estudantes", dizem a televisão, os diários, a rádio e a Internet!); a revolta proletária generalizada na Bolívia inteira...

Não tendo os meios, nem as possibilidades, numa revista como a nossa, de reunir os elementos necessários para dar uma informação adequada, contentamo-nos em sublinhar alguns aspectos dessa luta, em particular na América, que leva para a frente o proletariado, contra o capitalismo e o Estado. Queremos assinalar alguns elementos particularmente positivos para a nossa classe e que por isso mesmo são sistematicamente escondidos pela imprensa capitalista.

Referimo-nos a certas batalhas e confrontos da nossa classe contra as forças da ordem. Nessas batalhas, ao contrário do mito de invencibilidade no qual elas próprias, os seus escribas e periodistas tentam fazer-nos acreditar, podemos ver que, diante de um proletariado determinado e decidido a lutar, essas tropas mercenárias são débeis e covardes, vêem-se minadas pelas suas contradições e, assim, podemos lhes dar a sova que merecem. Isto reafirma a perspectiva da sua destruição generalizada em escala planetária.

Em janeiro deste ano, as lutas que tinham se desenvolvido durante todo o ano passado, no Equador, adquiriram uma força inusitada, quando proletários do interior começaram a marchar em direcção a Quito, radicalizando assim também o movimento preexistente nessa cidade. O governo democrata popular de Mahuad tentou travar os protestos, enviando a repressão e diluindo-os pela força. No princípio, o ataque surpreende os manifestantes: há feridos, há presos e, de imediato, dispersão e desorientação. Mas à violência de cima, que ataca o proletariado rural e urbano, responde-se com a violência de baixo: as manifestações não só não acabam, mas desenvolvem-se de forma mais organizada e se fortalecem, a violência de classe é abertamente assumida. Enquanto o proletariado ocupa os poços de petróleo, paralisa o oleoduto transequatoriano, cortando a distribuição do combustível e impedindo toda exportação, dezenas de milhares de manifestantes enfrentam os militares, cortam os grandes eixos, controlam os acessos das aldeias e cidades, e conquistam as ruas de várias cidades do país. Se antes se podia ainda pretender que os protestos estavam dirigidos contra a presidência e o poder executivo, com a radicalização das manifestações, o questionamento do Estado é tão geral que se reconhece publicamente. Proíbem-se as manifestações, mandam para a rua as forças de choque e o Estado de Sítio é declarado. Mas as manifestações são cada vez mais potentes, o proletariado questiona abertamente o poder estatal no seu conjunto. Vendo-se totalmente questionado e superado, o presidente Mahuad designa alguns ministros como culpados, força-os a renunciar, nomeia outros mais progressistas… Mas tudo isso para nada serve, a luta proletária segue com maior intensidade. Consciente do perigo, a burguesia decide sacrificar o próprio presidente e até o Exército e os Sindicatos tentam acalmar a situação. Dizendo que "a luta é contra a corrupção", a FUT - Frente Unitária de Trabalhadores - declara que é necessário castigar os corruptos e formar um governo de Salvação Nacional; por sua vez, a Central de Trabalhadores de Petro Equador, a Coordenadora de Movimentos Sociais e a CONAIE - Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador- que exigem a renúncia/destituição do presidente, junto a outras reivindicações, vêem-se totalmente ultrapassadas por uma guerra social que se afirma apesar de tudo: os manifestantes gritam abertamente que sua luta não procura mudar um presidente e reafirmam que lutam contra o Estado todo. A ruptura dos aparatos policiais é total, rompe-se a disciplina, a desorganização é geral, os proletários controlam a rua, apesar de o exército, ao contrário da polícia, ter mantido, num primeiro momento, uma relativa unidade de corpo. Mas, pouco depois, as contradições do exército também se tornam visíveis, e corpos inteiros passam a participar das manifestações junto aos proletários e em alguns casos atuam de maneira decisiva na conquista dos edifícios que o movimento realiza. Nenhuma força repressiva é então capaz de travar o movimento insurreccional, os poucos militares que tentam fazê-lo são completamente ultrapassados e recuam covardemente, diante dessa avalanche de várias dezenas de milhares de proletários dos dois sexos, de todas as idades e categorias ("indígenas" ou não - mais uma vez, com essa discriminação, os jornalistas se revelam como agentes decisivos do Capital e do Estado), que buscam apoderar-se de vários edifícios públicos: em Quito tomam o Palácio do Governo, o parlamento, a Corte Suprema de Justiça, a Tesouraria, os ministérios, o Banco Central e outros edifícios, ao mesmo tempo que incitam a repetir isso em todas as cidades que já estão totalmente paralisadas pelo movimento. O presidente passa a ser uma figura decorativa, que apesar de seguir gritando que "não renunciará" já está, de fato, destituído pelo movimento. O efetivo ataque dos manifestantes contra os três poderes formais do Estado (executivo, legislativo e judiciário) é acompanhado pela exigência de destituição desses poderes formais, o que, sem dúvida nenhuma, é uma formalização jurídica extrema da intransigente luta proletária, para impor seu poder contra o Estado. No dia 23 de janeiro, nas ruas, festeja-se a vitória da insurreição, apesar dos maquiavélicos e dos recuperadores que, misturados aos manifestantes, continuam de "buscar soluções ao movimento". Os fabricantes da desinformação falsificam tudo e falam de "um golpe de estado militar apoiado por indígenas!", ao mesmo tempo que propagam o racismo anti-indígena. Declara-se formada uma Junta de Salvação Nacional - de fato um triunvirato constituído por militares, líderes indígenas oficialistas e um membro em voga da corte Suprema – que, com um discurso de esquerda tenta restabelecer a ordem. Frente à continuidade do movimento e à incredulidade do proletariado, opera uma verdadeira frente única de salvação nacional constituída pelos sindicatos, os partidos e tudo o que resta das forças repressivas que apelam à cessação do movimento e ao apoio à Junta. O próprio presidente da CONAIE, Antonio Vargas, declara que "o povo equatoriano triunfou, que a Junta de Salvação Nacional não defraudará o país, e… que a unidade com as forças armadas era uma experiência nova para a América Latina". Mas, perante a descrença generalizada, essa Junta dura apenas algumas horas. O poder de fato permanece na rua, apesar dos esforços dos reorganizadores do Estado capitalista, entre eles os jornalistas, que jogam suas cartas mais valiosas, ocultando, desinformando, tergiversando… Aproveitando a falta de novas iniciativas e diretivas do proletariado, assim como os apelos a voltar para casa, declara-se (especialmente pela boca do general Carlos Mendoza, em nome dos militares) que o "poder" do presidente destituído passa para as mãos do vice-presidente Gustavo Noboa, que, como aparece evidente a todos os protagonistas, imporá a mesma política econômica de seu predecessor. O rechaço do proletariado a tais "soluções" continua explícito. Na rua, as palavras de ordem são de total repúdio a todas as tentativas provenientes abertamente do Estado. Contra esse sentimento geral (que tende à permanência da revolução), a frente de salvação nacional - desde os setores militares até aos sindicatos e partidos - dá seu apoio a Noboa e multiplica os apelos para abandonar o movimento, falando, bastante encagaçados (têm medo de suas próprias mentiras), de "triunfo". A CONAIE, organização indigenista, que, como vimos, aparecia como interlocutora- representante do movimento, pela boca do seu presidente Antonio Vargas, apóia "a solução" (o indigenismo sempre atua contra a unificação do proletariado) pactuada pelos partidos, exército e sindicatos, apesar de, para manter uma certa credibilidade, também falar da "traição" de Mendoza. Todos os aparatos do Estado burguês se reunificam, assimilando proletários indígenas inconsequentes. Nas ruas, o descontentamento, desorientação é geral, o sentimento de ter sido enganado de novo é absoluto, mas o golpe que significam as declarações dos chefes vendidos é forte e procura desarticular, ao menos temporariamente, o movimento. A imprensa capitalista dirá, satisfeita (por ter cumprido seu dever), que "os indígenas voltam às suas casas e às suas terras". Depois de duas semanas de luta aberta contra o Estado, o regresso para casa tem um gosto amargo. Mas o proletariado, que sentiu de maneira concreta que podia enfrentar o estado e destroçá-lo, já não será tão facilmente mantido em submissão. Será muito difícil, apesar de todos os esforços feitos pelos fabricantes da opinião pública, sepultar a consciência de sua força experimentada. Passemos agora a "outras"(nem tanto!) situações e experiências recentes do proletariado, na América. Em Bolívia, o estado de efervescência geral é grande. Há vários meses, reuniões e discussões acontecem por toda parte, panfletos são o pão de cada dia e as manifestações proletárias tornaram-se, durante o último trimestre de 99, cada vez mais fortes. Em La Paz, juntam-se aos protestos grupos de mulheres e familiares de integrantes das forças repressivas. Quando os militares são enviados para reprimir os próprios parentes, não só se recusam, mas unem-se a eles. Em Cochabamba e outras cidades, os protestos proletários giram em torno do problema da água e de seu preço extorsivo, imposto pelo governo juntamente com a empresa Aguas del Tunari. Quando o regime constata que o proletariado não se acalma, Banzer generaliza a repressão e declara o Estado de Sítio. Mas também na Bolívia, o movimento se fortalece e responde à violência do Capital com a violência proletária: as manifestações atacam e buscam apoderar-se de vários edifícios públicos, rompendo efetivamente com a ordem que o Estado tentava impor à porrada. Não conhecemos outros detalhes do movimento, mas em Cochabamba o fracasso do Estado de Sítio é tão grande (em princípio, as forças repressivas impedem toda a circulação; em Cochabamba, a revolta impede a circulação dos militares), que o governo acaba por levantá-lo e fazer importantes concessões sobre a questão da água potável. Para terminar, digamos uma palavrinha sobre alguns acontecimentos recentes no México. É verdade que, na capital do México, os militares do Estado democrático obtiveram uma importante vitória sobre os grevistas e ocupantes da UNAM (Universidade Autónoma do México), desalojando-os violentamente, apesar da enorme determinação de que fizeram prova os milhares de proletários que acudiram para socorrer os companheiros sob cerco, naquela oportunidade. Mas a luta continuou e os militares não conseguiram impor o terror em toda parte. Assim, na pequena cidade de Francisco Madero, os militares mexicanos, com a brutalidade que os caracteriza, tinham desalojado violentamente de uma escola rural ocupada e prendido 165 proletários, que haviam tomado posição nesse local. É claro que os proletários foram espancados e presos.

Mas o proletariado da dita cidade atuou de maneira coordenada e organizada, tendo decidido correr debaixo de pancada com os milicos ali postados. Às 8 da manhã do dia 20 de fevereiro, com porretes, facas e lanças, os habitantes da cidade (homens, mulheres, …velhos e jovens) passaram ao ataque com a intenção de libertar seus companheiros e além disso dar uma surra vigorosa nos militares. Tomaram todas as saídas da cidade, para que nenhum deles pudesse escapar, rodearam, desarmaram e despiram os milicos e fizeram uma enorme e alegre fogueira, na qual queimaram uniformes, botas e coletes à prova de balas, e mantiveram os soldados como reféns durante muitas horas. Os soldados em calções e os oficiais nus, todos foram atados uns aos outros, com as mãos na nuca, e forçados a desfilar em fila cinco quilômetros, até a praça central da cidade.

Foram também incendiados todos os veículos policiais da cidade, em geral camionetas Chevrolet. Uma vez na praça, os proletários passaram a cobrar explicações aos militares. Estes, completamente encagaçados, pedem perdão, mas os insultos da massa continuam e alguns proletários não hesitam em dizer que se deve transformar a praça em patíbulo e acabar com eles agora mesmo, enquanto outros diziam simplesmente: "queimem-nos" . As diretivas do movimento eram: "se não há solução (a libertação dos 165 presos) haverá cremação!" ou mais explicitamente: "libertem os detidos ou queimaremos os milicos!"

Não conhecemos outros detalhes do que sucedeu, mas, diante da determinação proletária, o Estado mexicano abandonou toda formalidade jurídica e legal e deixando de lado os processos com que tinham ameaçado os presos libertou-os apressadamente. Assim se conseguiu-se libertar 165 proletários que as forças de repressão tinham prendido. Os militares, vigiados por grupos de proletários organizados e encapuzados que manejam porretes e estacas para controlar os reféns, foram mantidos até à noite. Só quando os companheiros presos foram entregues a seus familiares e amigos, e a festa se foi generalizando, os reféns foram soltos.

Esses fatos dispensam explicação e demonstram que só com a força se pode responder vitoriosamente ao terror do Estado democrático; que só a união no combate contra toda a ordem legal permite ao proletariado impor seus interesses e se defender.

NOTA:

1) De fato, essa junta cívico-militar foi constituída por: Lucio Gutiérrez, líder de um grupo de oficiais do exército (que a seguir será substituído por Mendoza); Antonio Vargas, presidente da CONAIE e Carlos Solórzano Constatini, ex-presidente da corte Suprema de Justiça.


TRADUZIDO DE COMUNISMO # 45 (JUNHO DE 2000), PUBLICAÇÃO EM ESPANHOL DO G.C.I. (GRUPO COMUNISTA INTERNACIONALISTA).


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