"BANDIDOS VERMELHOS", FUNCIONÁRIOS E POETAS

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A descrição dos métodos do partido "comunista" fez a reputação do livro entre os anti-stalinistas de todos os matizes. Hoje, porém, muitos concordam ao considerá-lo um texto da guerra fria, escrito com a intenção primária de amalgamar as duas formas de totalitarismo e justificar o sistema da democracia parlamentar. Para fazê-lo, o livro foi construído em torno de uma mentira histórica: a única oposição ao nazismo na Alemanha teria sido feita pelo partido stalinista, utilizando os mesmos métodos que seu irmão inimigo e guiado pelo princípio de que o fim justifica os meios. Martelar a idéia da semelhança dos extremos consolida o discurso justificativo do mundo tal como é e, portanto, tal como deve ser. E as verdades do testemunho de Valtin servem, assim, à mentira dominante.

Quando, em 1923, Valtin ingressou no KPD, o prisioneiro político mais célebre na Alemanha era Max Holz (2). Holz tornou-se revolucionário nas trincheiras da primeira guerra mundial. Em 1919, membro da Liga Spartacus, de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, era um agitador itinerante do KPD. Expulso por indisciplina, Holz se juntou ao recém-fundado KAPD (partido comunista operário), que seguia uma linha antiparlamentar e anti-sindical. No sudeste da Alemanha, região fronteiriça com a Tchecoslováquia, organiza um grupo proletário armado que, juntamente com comitês de desempregados e alguns conselhos operários não reformistas, toma o poder local, abrem as prisões, expropriam os burgueses e latifundiários para financiar o partido, enfrentam o exército, os pistoleiros da social-democracia e os bandos nacionalistas em formação.

O grupo de Holz não era o único. Entre os demais, havia o grupo de Karl Platner, outro "bandido vermelho" conhecido, no qual atuavam mulheres. Em março de 1921, Holz dirigia uma das milícias operárias que agiam na Alemanha central (3). Ao contrário de Platner, Holz era pouco estimado por seus companheiros, que o criticavam pela arrogância e autoritarismo (4). Preso e condenado à prisão perpétua, adere ao KPD, que lhe promete uma defesa eficaz (5). Em 1928, foi libertado. O partido, que desconfia de seu espírito rebelde, envia-o para a Rússia... trabalhar nas minas. Dissidente mais uma vez, Holz é convocado pela GPU, que mal conhece o antigo lutador do KAPD. Ele não se arrepende e ainda faz ameaças. Habituados com a obediência, os policiais russos se amedrontam, cedem e o mandam para repousar no campo. Em setembro de 1929, Holz foi "suicidado" pela GPU. Três anos depois, Platner seria assassinado pela polícia alemã, quando tentava passar para a Checoslováquia.

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São anos decisivos. Em março de 1921, as greves insurrecionais (que, mais tarde, seriam conhecidas como "ação de março") eclodem na Alemanha central, governada pela social-democracia, onde a repressão patronal e policial era particularmente dura. O KAPD apóia um movimento de ação direta. Seus militantes, reagrupados nas comissões de fábrica e empresas, embora respeitando o modelo de dupla organização, partido-sindicato (6), dedicam-se à radicalizar as ações econômicas e recusam qualquer negociação com os patrões. O KPD, fiel a Moscou, se mostra indeciso, dilacerado entre sua política parlamentarista e a pressão da base (7). Será, aliás, a última ação anticapitalista de massas em que combatem juntos, ombro a ombro, os militantes decididos dos dois partidos.

 
Isolados, sem perspectivas, as milícias operárias, inclusive a de Max Holz, são derrotadas e as fábricas ocupadas são retomadas pela polícia. Depois de anos (1918-1921) de uma guerra social latente (8), o fracasso da ação de março é o "retorno à normalidade" tão desejado pela social-democracia. Mais de três mil proletários revolucionários são presos, os militantes combativos expulsos das empresas e forçados à clandestinidade. As organizações comunistas radicais, o KAPD e sobretudo as Uniões Operárias são postos fora da lei, acelerando o declínio. O terreno estava livre para a linha institucional e legalista do KPD.

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Desde 1920, os dirigentes da Internacional em Moscou tentavam marginalizar os comunistas que se recusavam a atuar nos sindicatos, considerados formas neutras e, portanto, fáceis de retirar da influência social-democrata e de colocar sob a direção dos revolucionários. Quando Lênin classificou esses comunistas como esquerdistas, pretendia antes de tudo criticar sua recusa do compromisso político no terreno da política burguesa, no parlamento e nos sindicatos. É a esta crítica que responde Hermann Gorter, respeitado comunista holandês, em sua Carta Aberta a Lênin (9). Para a esquerda comunista, a extensão da tática de compromisso bolchevique à Europa ocidental asfixiava as organizações autônomas do proletariado, cujas ações eram as únicas capazes de desenvolver a consciência subversiva. Gorter e seus amigos insistiram em que a maior presença de revolucionários conscientes equivale ao menor papel dos dirigentes. Consideram que a tática dos bolcheviques implica de fato "a primazia dos dirigentes" e o oportunismo burocrático. Para a esquerda comunista, a vitória da linha bolchevique conduzirá inevitavelmente o movimento de emancipação social à derrota. Isto acontecia, cabe lembrar, em 1920-1921 !

Trotsky, encarregado por Lênin de contra-atacar, evitou responder sobre o fundamento de uma posição compartilhada por uma corrente revolucionária que era influente na Europa ocidental e na América do Norte, e optou pela ofensa pessoal. Velho método que sempre dá resultado. Conhecendo a fama de Gorter, considerado um dos maiores escritores holandeses, Trotsky o trata com condescendência como um poeta, cujo estado de espírito "se encontra infalivelmente associado ao pessimismo"(10). No final de 1921, derrotada a ação de março e esmagada a revolta de Kronstadt, a Internacional pode alardear que a Rússia é a vanguarda do comunismo. As organizações comunistas que se situam à esquerda dos bolcheviques são, então, excluídas em nome da luta contra o sectarismo.

NOTAS :
1 – Jean Valtin, « Sans Patrie ni Frontières », Babel, 1997. Primeira edição: Jean-Claude Lattès, 1975. As citações são da última edição.
2 – Ver sua autobiografia: Max Hölz, « Un rebelle dans la révolution », Spartacus, 1988.
3 – Ver mais adiante.
4 – Franz Jung, dirigente do KAPD, o tratará como « chefe de meliantes », « escaravelho-torpedo » - Ludd, Paris, 1993.
5 – As campanhas pela libertação dos prisioneiros políticos do KPD utilizavam os meios legais, a pressão parlamentar e sobretudo a ajuda russa. Uma das formas desse « internacionalismo proletário » era a troca de prisioneiros comunistas alemães pelos alemães aprisionados na Rússia. O KAPD, por sua vez, preferia libertar os prisioneiros, sempre que possível, recorrendo à ação direta. Em 1922, Karl Plättner foi arrestado e condenado a dez anos de prisão.
6 – Uma fração das Uniões, os AAU-E, recusou esse modelo e defendeu a unificação da ação política e sindical numa só organização. Otto Rühle foi o teórico desta tendência, dita unitária e antipartido, considerada próxima dos anarco-sindicalistas. Ver Paul Mattick Jr., « Modernisme et communisme antibolchévique », « Oiseau-tempête », n° 4, inverno de 1998.
7 – A Komintern fez pressão para que o KPD apoiasse o movimento. A revolta de Kronstadt explodiu ao mesmo tempo, é provável que os dirigentes bolcheviques tentassem desviar a atenção dos comunistas europeus da situação na Rússia.
8 – Encontraremos uma viva descrição da atmosfera daqueles anos e da « ação de março », no livro de Franz Jung e no de Max Hölz.
9 – H. Gorter, « Lettre ouverte au camarade Lénine », Spartacus, 1979. A introdução e as notas de Serge Bricianer estabelecem claramente os interlocutores e alvos do debate.
10 – Trotsky, intervenção contra os delegados do KAPD, Moscou, novembro 1920. Gorter, além de sua obra poética, traduziu obras de Spinoza, Dante, Shakespeare, Goethe e Shelley. Ver o texto de Serge Bricianer, « Gorter poète », anexo ao « Réponse à Lénine », Spartacus, op. cit.



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