Encontro sobre a Autonomia Operária - Uma Fraude Vulgar

Crítica da CCI (Corrente Comunista Internacional) ao encontro.

Nos dias 10 e 11 de junho, ocorreram em Barcelona algumas reuniões sob o título “Da Autonomia Operária ao Antagonismo Difuso”. Na convocatória, dizia-se que, durante os anos 70, houve, na Espanha, “autênticos movimentos autônomos protagonizados por milhares de trabalhadores que não queriam uma saída capitalista para a crise do franquismo” . Acrescentava-se que era importante conhecer esses movimentos, diante da situação atual, e que no Encontro tratariam da “história (as lutas dos anos 70) e a atualidade unidas por uma ponte (Balanço)” . A convocatória era, pois, muito atraente para a reflexão operária.

Os jovens operários de hoje e também a geração anterior, que viveu as grandes greves dos anos 60-70, necessitam de conhecer a fundo essas experiências, tirar lições de como então se comportaram os sindicatos - que fizeram o impossível para destroçá-las - e as forças “democráticas” - que prometeram as “liberdades”, o “Estado das autonomias” e a “modernização da Espanha”, como alternativa para desviar e frear o desenvolvimento da luta operária na perspectiva da unidade internacional e revolucionária para a destruição do capitalismo.

Fomos ao encontro com ânimo de contribuir para o conhecimento e balanço daquelas experiências, para que a classe operária supere a difícil situação atual. Qual não foi a nossa surpresa, quando os organizadores - que em nenhum momento mostraram a cara, disfarçando-se de “gente de base” - impediram qualquer discussão sobre as lutas dos anos 70, reduzindo-a a mero folclore nostálgico, uma espécie de “água passada não move moinho”, e, exagerando, diziam que, com as mudanças tecnológicas operadas no capitalismo, com o fim das fábricas e do correspondente “operário massa”, a classe operária foi pulverizada, desapareceu, não existe. Mais ainda, na sociedade atual já não existiria sujeito revolucionário, teriam desaparecido todos os antagonismos.

Essa “teoria”, que expuseram com um palavreado pedante e ares de grande novidade - é uma velha ladainha que vem se repetindo desde os anos 50 [1] -, supõe um ataque à consciência da classe operária e não é senão outra voz que se une ao coro orquestrado por todos os meios informativos (!?) e intelectuais da burguesia com sua monótona repetição de que a classe operária “não existe mais”, “a luta de classes desapareceu” e, se ainda se deve “lutar”, é como cidadãos, de mãos dadas com o Estado “democrático”, para superar as injustiças que existem no mundo.

Nossa intervenção retomou as análises que desenvolvemos na série Resposta às Dúvidas sobre a Classe Operária [2], sublinhando que a fumaceira da “nova economia” baseada na INTERNET não deve ocultar para nós que é necessário seguir construindo automóveis, alimentos, máquinas, computadores; transportar, extrair petróleo, refiná-lo etc., e que tudo isso nasce da exploração global e mundial da classe operária e não da informática virtual da “rede de redes”. Que, hoje, todos os trabalhadores - sejam eles fixos, precários, imigrantes, autônomos ou obrigados à solidão do “teletrabalho” - permanecem completamente separados dos meios de produção e de vida, vendo-se forçados a vender sua força de trabalho no mercado capitalista para poder sobreviver. Essa condição não se modificou, em absoluto - a não ser para pior: para fazê-la mais dura, mais precária e mais extenuante -, e é a mesma dos operários dos anos 70, dos que sofreram a guerra mundial nos anos 40 ou dos que se rebelaram contra o capitalismo na onda revolucionária dos anos 1917-23.

Os organizadores do Encontro qualificaram nossas argumentações de antiquadas e nos convidaram a “remover a ferrugem da cabeça”, adicionando seu “valor agregado” às campanhas sobre o “fim dos antagonismos”: em vez de perder tempo em “lutas sem sentido” seria preciso dedicar-se a “viver a vida” e a “fazer uma investigação para detectar os autênticos desejos das pessoas”. Disseram que o desemprego é uma libertação! Pois “permite a quem o desfruta se dedicar ao ócio”.

Essas barbaridades são um insulto aos operários e a todos os oprimidos que padecem a praga do desemprego, seja em sua forma pura e dura de não encontrar nenhum trabalho e “desfrutar dos prazeres do ócio”, seja em sua forma, mais massiva e mais cruel, de desemprego disfarçado de trabalho precário, isto é, de ter a vida encadeada a uma angustiante sucessão de um emprego de 3 semanas, um desemprego de 3 meses, outro emprego de 2 meses, um cursinho de “formação”, outro contrato de 3 meses... E se torna ainda mais desprezível que se diga isso em nome das grandes lutas operárias dos anos 70.

Durante o encontro, alguns companheiros criticaram as afirmações dos organizadores, mas o fizeram de forma muito tímida. Outros, que nos deram razão, preferiram retirar-se, enojados com a manipulação que consistia em embrulhar a mercadoria fraudulenta do “antagonismo difuso” com a bela embalagem da “Autonomia Operária”. [3]

Essa dificuldade para responder à vil manobra de intelectuais despreparados se explica por um problema, sobre o qual devemos alertar muitos companheiros jovens. Atualmente, é difícil ver, de maneira direta, a classe operária, devido à dificuldade e ao caráter confuso e contraditório do desenvolvimento de suas lutas. Por isso, muitos companheiros - que vêem ser mais necessário que nunca lutar para mudar esta sociedade que corre para o desastre - se lançam na participação em pretensas “lutas anticapitalistas”, como as de Seatle e Davos “contra a globalização”, a comédia das manifestações “antimilitaristas” contra o desfile de Barcelona, a cilada das “okupações” e toda uma série de formas de “ação”, pretensamente “radicais” e “libertadoras”, que não fazem outra coisa senão reforçar as mistificações capitalistas.

A conseqüência de se envolver nessa espiral de “lutas” inúteis é acabar totalmente desmoralizados. Quando alguns companheiros, fartos dessa falsa alternativa tentam fazer uma crítica dessas “lutas”, os manobristas, como os organizadores dos “Encontros”, dizem que eles “têm razão”, que é verdade que “essas lutas não servem para nada”, mas que a alternativa é “ir para a casa” e “viver a vida” para “realizar um subversão noturna” (Sc). Ou seja, escamoteam as críticas e, com isso, companheiros desejosos de lutar contra a miséria e a barbárie atual se desmoralizam e se perdem para a luta revolucionária da classe operária.

É necessário romper a falsa alternativa que consiste em escolher entre as mobilizações “anticapitalistas” estilo Seatle e a estupidez do “antagonismo difuso”. Diante disso, há um caminho menos “brilhante”, que requer mais paciência, mais tenacidade, uma confiança baseada na visão global e a longo prazo da luta histórica da classe operária. Uma capacidade para, em lugar de se agitar em ações estéreis, estar com as lutas difíceis, cheias de armadilhas, complicadas, sabotadas pelos sindicatos, confusas, que hoje a classe operária protagoniza. Lutas que não dizem, claramente e aos gritos: “aqui está a classe operária!” Mas encerram o único futuro possível para a humanidade.

Adalen, 12/07/2000

NOTAS:

[1] São inúmeros os “teóricos” que, desde a 2ª guerra mundial - Adorno, Marcuse, os neo-situacionistas etc. - vêm proclamando o “fim da classe operária”. Com a reaparição massiva e internacional do proletariado, desde os fins dos anos 60, esses gênios pedantes da sociologia barata tiveram que sair pela tangente. Mas, hoje, depois de 10 anos difíceis para a classe operária, como conseqüência da queda do falso comunismo dos países do leste - que nós prevíamos, como se pode ver na REVISTA INTERNACIONAL n.º 60 -, novos “gênios”, como um tal de Bonanno, entre outros, voltam à carga.

[2] Ver Acción Proletaria n.º 145, em diante.

[3] Um deles nos propôs, muito judiciosamente, organizarmos alguns Encontros para discutir e conhecer de verdade as lutas dos anos 70, e transmitir suas lições paras as gerações atuais. A proposta nos parece muito boa e estamos dispostos a apoiá-la.

Extraído de Acción Proletária n.º 153 (bimestral).
Corrente Comunista Internacional ( http://www.internationalism.org)



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