CRISE ECONÔMICA: GLOBALIZAÇÃO OU DECOMPOSIÇÃO DO CAPITALISMO?

Texto publicado em KAOS #3 07/1998 - traduzido, resumido e adaptado do artigo Crisis Económica, publicado na Revista Internacional # 92 (órgão da Corrente Comunista Internacional).


Em dezembro de 1996, Alan Greenspan, principal gestor do Banco Central estadunidense, saía de um jantar elegante, quando foi abordado por jornalistas. Na falta de algo melhor, fez um comentário a respeito da "exuberância irracional" dos mercados financeiros. Foi o bastante para que os investidores, vislumbrando um mau presságio, começassem a vender no mundo inteiro, pulverizando bilhões de dólares, numa das maiores quedas das Bolsas desde 1986. Os mercados financeiros logo se recuperariam do mini-crash, mas o episódio serviu para assinalar a fragilidade de todo o sistema.

Especialistas em finanças têm insistido no crescente descompasso entre as enormes massas de capital especulativo, investidas em todos os mercados do mundo, e a atividade produtiva real, além da compra e venda efetivas. Também em dezembro de 1996, o New York Stock Exchange festejava seu centenário, anunciando que, com um aumento de 620%, durante os últimos 14 anos, a Bolsa de Nova York superara todos os recordes anteriores, incluído o da "exuberância irracional" que precedeu a crise de 1929.

Contudo, houve quem, de olho na crescente diferença entre os preços das ações no mercado financeiro e o valor real dos ativos que as lastreiam, à razão de 30 para 1, não visse motivos para júbilo nessa notícia. A instabilidade do setor financeiro baseia-se no fato de que a atividade econômica só se mantém graças ao endividamento, cada vez maior. As engrenagens da indústria, e conseqüentemente de todos os ramos da economia, funcionam lubrificadas por dívidas que jamais serão quitadas. O recurso ao crédito - mecanismo fundamental desde a reconstrução econômica do pós-guerra até os dias de hoje, tendo contribuído para o remanejo da crise econômica desde o final dos anos 60 - é o que mantém vivo o capitalismo, ao longo desses 30 anos. Mas o remédio mantém vivo o doente agravando a doença.

O problema é que, além de os grandes capitais financiarem os pequenos para que estes continuem a adquirir suas mercadorias, os principais credores do mundo se converteram em devedores. A situação do Japão é um belo exemplo: país superavitário no comércio internacional, transformou-se em banqueiro do planeta, com créditos que ultrapassam a cifra de 1 trilhão de dólares e financiando 50% da dívida dos países da OCDE. Paradoxalmente, o Japão é um dos países mais endividados do mundo. A dívida acumulada dos agentes financeiros (famílias, empresas e Estado) se eleva a 260% do PNB e, mantido o ritmo de crescimento atual, será de 400% daqui a dez anos. Os banqueiros japoneses estão sentados em cima de uma montanha de 460 bilhões de dólares de empréstimos que jamais serão pagos.

Desorientados com as dificuldades enfrentadas pelo Japão, os ideólogos do capital foram buscar novas esperanças nas façanhas dos "dragões" do sudeste asiático - Tailândia, Indonésia e Coréia do Sul, cujas vertiginosas taxas de crescimento são apresentadas como modelo - e da China, "futura superpotência econômica" que substituirá o Japão. Mas, zombando desses mascates do otimismo, a crise se instalou no sudeste da Ásia. Em 27 de outubro de 1997, no período de uma semana, as Bolsas caíram: 18%, em Hongkong; 12,9%, em Kuala Lumpur (Malásia); 11,5%, em Singapura; 9,9%, em Manilha (Filipinas); 6%, em Bancok (Tailândia); 5,8%, em Jacarta (Indonésia); 2,4%, em Seul (Coréia); 0,4%, em Tóquio. Em um ano, nos mesmos países, as quedas foram de: 22%, 44%, 26,9%, 41,4%, 23%, 18,5%, 12%, (*) respectivamente. Mais uma vez, a burguesia plantou dragões e colheu pulgas.

Esta situação de bancarrota anunciada demonstra com nitidez que, apesar de todo o palavrório sobre economias saudáveis e equilibradas, tão ao gosto de governantes e oposicionistas, o capitalismo se decompõe globalmente. Desde os anos 60, a crise - brutal, deflacionista, típica do século passado e que se repetiria catastroficamente em 1929 - vem sendo evitada através de paliativos: recessões intermitentes e sobressaltos financeiros, cuja função é soltar aos poucos o vapor que o endividamento global produz na caldeira do sistema. A ruína do capitalismo de Estado no leste europeu deveria ter servido de advertência para a burguesia de todos os países: não se pode adiar indefinidamente as conseqüências da lei do valor. Mais cedo ou mais tarde, esses aprendizes de feiticeiro sofrerão os efeitos das potências que suscitaram e já não conseguem manejar.

(*) Courrier International, 30/10/97.



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