AUTONOMIA OPERÁRIA VERSUS INTELECTUAIS E TEORIA

Tem sido constatada, nos coletivos de operários revolucionários, uma atitude de repúdio aos intelectuais, inclusive àqueles que defendem a tese da autonomia operária. Esse repúdio atinge, também, o campo específico dos intelectuais: a 'teoria'. Os proletários tendem a encarar a discussão teórica como uma perda de tempo, de um tempo que já seria escasso para a ação revolucionária. De fato, os intelectuais se sentem em relação à teoria como peixes na água e costumam utilizar essa facilidade para assumir funções dirigentes no movimento proletário. Isso vale até para aqueles intelectuais cujo discurso se caracteriza por criticar o substituísmo das vanguardas autoproclamadas.

É importante assinalar que esse repúdio, cujo alvo é a teoria e os intelectuais, tem raízes na história do movimento operário e na memória coletiva da classe, nas quais se acumulam as experiências da luta contra o Capital. Em primeiro lugar, a divisão (técnica e social) do trabalho em manual e intelectual, ao longo do desenvolvimento da produção capitalista, tem servido para justificar uma crescente desigualdade entre os trabalhadores. Além disso, tão logo a classe operária adquire consciência de que as 'vanguardas' a tem substituído na direção de suas lutas, o repúdio aos intelectuais assume a forma de aversão à teoria, na medida em que esta, por sua vez, tem servido aos intelectuais para justificar sua dominação ideológica e política.

Mas, quando a história do movimento operário põe em evidência a aversão dos operários pela teoria, a questão é se - e em que medida - isso contribui para resolver o problema da autonomia operária. O que parece fora de questão é que essa aversão (que corresponde ao repúdio dos intelectuais pelos operários) está associada ao início do processo de tomada de consciência da realidade social ou, dito de outra maneira, ao processo de auto-educação coletiva e formação de um 'pólo interno' à classe operária. Trata-se de uma luta ideológica ou, mais exatamente, de uma luta contra a ideologia, que expressa o desenvolvimento da consciência revolucionária da classe operária.

O intelectual deve a permanência de sua função social à necessidade que têm as classes dominantes, ao longo da história, de legitimar e justificar a opressão que exercem. Além disso, há, por parte da classe dominante, o interesse em acumular, conservar e transmitir o saber - que, transformado em Capital, é um poder que se herda através da inculcação familiar e escolar dos valores - e os conhecimentos adquiridos e/ou realizados na produção (material e simbólica) das condições sociais de sua dominação. O capitalismo se fundamenta na produção de mercadorias, caracterizando-se por atribuir o caráter de mercadoria à força de trabalho. O trabalhador, seja manual ou intelectual, é submetido ao regime salarial. Todavia, a expansão do Capital, que não se limita à produção industrial, vai, sucessivamente, anexando a si a produção agrária e o chamado setor terciário ou de serviços. O trabalho intelectual, na medida em que se adapta a essa expansão, nada mais é do que um componente da divisão capitalista do trabalho.

Operários e intelectuais compartilham a situação comum de assalariados, pois têm de vender sua força de trabalho ao Capital. Entretanto, a divisão do trabalho cria uma estratificação social, o fracionamento dos assalariados em camadas, cujos interesses são contraditórios. tal estratificação se situa, em geral, nos níveis quantitativos e qualitativos de consumo, além do prestígio social vinculado ao exercício de uma atividade intelectual e ao modo de vida que lhe é correspondente.

Na organização do movimento operário para a luta revolucionária, os intelectuais desempenham um papel importante, mesmo antes de se tornarem assalariados. Os intelectuais elaboram as primeiras formulações críticas da exploração capitalista. Mas essas formulações não eram acessíveis à classe operária, a não ser que a linguagem fosse traduzida para o seu nível de compreensão, e que, visando à sua mobilização, assumisse a forma de palavras-de-ordem ou consignas de um partido.

A 'incapacidade' dos operários para compreender a teoria, os termos em que é formulada pelos intelectuais, tem sido o pretexto utilizado para justificar a divisão entre dirigentes e dirigidos no interior do movimento proletário. Aos intelectuais caberia, então, a tarefa de analisar a realidade e elaborar os programas, a estratégia e a tática revolucionárias. Lênin (Que Fazer? - 1902), inspirando-se em Kautsky, propõe a criação de um partido de vanguarda, formado por 'revolucionários profissionais' e rigidamente centralizado, sob a direção dos intelectuais. A divisão do trabalho, tão eficaz e racional na organização capitalista da produção, serviu de modelo para a concepção leninista da organização revolucionária, subordinando os operários aos intelectuais e atribuindo a estes a função dirigente. O resultado é conhecido: logo após a revolução, a 'eficácia' do partido leninista, que até então se limitara a aparelhar as organizações de massa, se estende e se afirma como 'ditadura do proletariado'. Uma camada da burguesia, os tecnocratas e gestores, assume o poder em nome do proletariado e mantém, no essencial, as relações de produção/exploração capitalistas, mudando apenas sua forma superestrutural ou jurídico-política: o capitalismo de mercado se transforma em capitalismo de estado.

Na perspectiva da autonomia operária, o problema se coloca nos seguintes termos: o discurso teórico do proletariado tem de ultrapassar o mero repúdio aos intelectuais, expressando a consciência de que é necessário e possível suprimir sua função - ao fim e ao cabo, dirigente - no interior das organizações revolucionárias. Para resolver esta questão, o proletariado, na luta contra o Capital (e seus aliados: porta-vozes ideológicos e representantes políticos, burocratas, sindicais, etc), terá de expropriar, subverter e reinventar a teoria, ou seja, os instrumentos de análise crítica da realidade social, formulando programaticamente os objetivos revolucionários de sua prática autônoma de classe.



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