JUSSIEU, UMA ASSEMBLÉIA EXTRAORDINÁRIA

FEVEREIRO DE 1998

Já faz duas semanas que se reúne, diariamente, uma assembléia geral na Universidade de Jussieu. Nascida no seio do "movimento dos desempregados" é, ao mesmo tempo, lugar e vínculo de uma tendência desse movimento, que aqui se dirige às e aos que se reconhecem nela. Como se constituiu? O que começou a construir? Quais são os problemas que encontra e como procura resolvê-los? Que perspectivas se propõe, com que meios e com que espírito? Isso é o que os participantes da assembléia queremos comunicar.

No sábado, 17 de janeiro, durante a manifestação dos desempregados, várias centenas de pessoas se encontraram ao redor da faixa "QUEREMOS UM TRABALHO DE MERDA E UM SALÁRIO DE MERDA!". Elas que se reconheciam na ironia dos lemas da alegre comitiva de flagelantes que rodeava a faixa em questão. Entre a gente que se juntou, movida pela comum insatisfação com o tédio do ritual das manifestações e suas miseráveis reivindicações (exigir mínimos sociais é rebaixar-se a si próprio), havia jovens e menos jovens, assalariados e desempregados. E também se encontravam muitos indivíduos e grupos que participaram nas ocupações das semanas anteriores, em particular na ENS [1], rua de Ulm. Surgiu, e então se espalhou, a idéia de manter um laço, um vínculo entre nós, aprofundar juntos o que é consensual, refletir sobre nossa existência e nossa atuação neste movimento.

Faltava um lugar. A polícia já havia tomado medidas para impedir qualquer ocupação. Ficamos, pois, na segunda, dia 19, num anfiteatro da Universidade de Jussieu, no centro. O lugar convinha e a ocupação policial não nos deixava outra escolha.

Qualquer um que escute as palavras "assembléia geral" pensa imediatamente numa espécie de reunião impossível, imagina uma algazarra tremenda e uma atmosfera sufocante. Entretanto, nossa assembléia conseguiu superar alguns dos defeitos habituais, o que lhe confere um lado agradável, porque a gente se escuta. Contém, portanto, o germe de um entendimento inteligente.

Desde os primeiros dias, 19 e 20 de janeiro, alguns espontaneistas quiseram se fazer de presidentes de sessão. Seu papel foi nocivo, mais prejudicial que um debate sem moderadores, onde cada um se dirige aos demais e tem a possibilidade de contestar. O debate nunca segue uma ordem de palavras, mas o seu curso.

Colocou-se a questão de votar. Recusamos o voto, porque é um sucedâneo das tradições democráticas, inadequado para nossas necessidades do momento. O voto é uma forma de decidir que não faz, na maioria dos casos, senão impedir o debate, caricaturizando-o, ao reduzir os argumentos a uma sucessão de prós e contras. Dito isto, nossa postura não é um princípio inamovível. Dependendo das circunstâncias, poderíamos até votar.

Nossa assembléia só é geral na medida em que convida as pessoas a participar: não é uma reunião de delegados. De momento, não temos que dar contas a ninguém mais que a nós mesmos, isto é, aos que participam na elaboração dessa inteligência coletiva.

O número de participantes varia entre 80 e 400 pessoas. As ações propostas à assembléia não têm de ser obrigatoriamente ratificadas por ela. Tentamos falar do espírito das propostas, mais do que de impedir fulano ou sicrano de levar a cabo uma iniciativa que lhe apetece. Um certo estilo vai se desenhando, pois, através de ações originais (ver os relatos do Comitê de BALADE) e da autocrítica que se segue às ações.

Decidimos ultrapassar por completo o aparato da democracia representativa e também algumas máquinas. Alguns de nossos panfletos são manuscritos porque muitos de nós não gostam de computadores. Também tentamos nos desfazer do cacoete horrível dos aplausos, como medida do êxito que tanto almejam os demagogos.

Pouco a pouco, percebemos que algo excepcional estava ocorrendo: a assembléia começou a querer dominar seus meios de expressão e o sentido de seus atos. Além da necessidade de nos proteger de possíveis represálias policiais, a presença de jornalistas e outros observadores externos nos pareceu contrária ao nosso desejo de uma assembléia que permita a cada um retomar o espírito de coerência coletiva, coerência que havia submergido no redemoinho da midiatização das relações sociais. Depois de um debate agitado, no qual talvez nem todo mundo estava convencido disso, concluímos que era necessário rechaçar a presença de qualquer "midiático". Seus defensores alegavam que dependíamos da informação. Concluímos que, se queríamos nos fazer escutar, primeiro é necessário ter algo essencial a dizer; e que, para dizê-lo, ninguém melhor que nós mesmos. O "essencial" de que falamos é a vontade de transformar as relações sociais, suprimir o parasitismo das relações individuais e coletivas, retomar os vínculos simples e diretos.

Foi assim que expulsamos fotógrafos, câmeras e gente que "estudava" o movimento dos desempregados. Em troca, são benvindos aqueles que rompem com sua função social: jornalistas que deixem de se fazer de olheiros, artistas que abandonem suas performances exibicionistas, sindicalistas que deixem de depender de suas burocracias respectivas... Valorizamos mais o membro da CGT [2] que, em 27 de janeiro, depois de uma manifestação, nos disse que lhavíamos alegrado seu coração com nossa presença e nosso humor, mais do que a presença de qualquer contestador profissional ou especialista do radicalismo.

Nessa manifestação, éramos umas 800 pessoas atrás da faixa "sacrifiquemos nossas vidas à economia". Nós nos divertimos, bebendo vinho quente. De volta a Jussieu, o alvoroço no metrô para expulsar uma policial e a bobagem que se fez a propósito disso não impediram que voltássemos a nos encontrar na assembléia da noite, à qual acudiram uns 400. Naquela noite, os amantes do combate finalmente entenderam a importância da aposta coletiva, que promete um prazer maior do que o gosto imediato do enfrentamento direto.

É tão importante saber quando atuar como saber quando não atuar. Nossa meta não é nos exibir para fazer peso na balança do jogo político. E se alguns setores da sociedade nos ignoram, não faz nenhuma diferença: não pretendemos nos integrar neles.

Uma espécie de mistura suave entre antigas e novas amizades, entre grupos que existiam antes e indivíduos que descobrem a possibilidade de se associar, explica talvez a rapidez com que tomamos algumas orientações e algumas decisões. Os arruaceiros já não são unicamente vândalos e os enamorados do palavrório já não são unicamente charlatães, começamos a ser melhores que todas essas categorias, extraídas dos movimentos do passado. Não temos outra escolha: devemos organizar nosso acordo. Durante nossas diversas ações e manifestações, alguns problemas não foram ainda resolvidos. É difícil para nós nos apresentar, fazer entender que não somos os amáveis organizadores [3] de um militantismo fétido que se dirigem ao outro como se ele fosse um objeto no qual só vêem uma adesão a mais. Não se trata, para nós, de "incidir em amplos setores", de "mobilizar" (como quem mobiliza tropas), mas de criar condições favoráveis ao reconhecimento e ao encontro. Essa inteligência coletiva que a assembléia começou a construir é possível também pelo fato de que já não nos determinamos apenas em função dos inimigos, em função de uma linha, por uma idéia posta acima de nós; mas em função do que é a assembléia, ou seja, as pessoas que a conformam e a situação do debate entre essas pessoas. Até agora, soubemos falar de tudo, inclusive do que alguns pensavam que era evidente. Uma das qualidades dessa assembléia foi ter sabido, em várias ocasiões, recuar para poder ir adiante. Sonhamos que se multipliquem assembléias como a nossa, para que desapareça a sensação de inevitável no correr das coisas.

Somos uma assembléia de marginais e desclassificados que quer dar lugar ao melhor de cada um, que toma consciência de que a força de um movimento coletivo depende de sua capacidade de superar alguns medos e fortalecer os indivíduos. Nossas ações, nossas brincadeiras, nossos debates e nossas festas produzem a confiança necessária para praticar nossas idéias.

Hoje, com o silêncio se seguiu à supermidiatização, alguns voltam a colocar o problema de nossa existência pública. Pensamos, ao contrário, que a retirada dos media joga a nosso favor, porque as suas mentiras já não parasitam nossa expressão e, ao mesmo tempo, devemos contar somente com nossas próprias forças. Porque é importante esclarecer o problema do trabalho assalariado, do sistema que o produz e do dinheiro, que está associado a ele. A única maneira de desfazer a confusão, inclusive entre nós, é aprofundar esta perspectiva: como substituir esta sociedade - que se baseia no trabalho e, ao mesmo tempo, o suprime embora mantenha a ideologia que o defende como valor supremo - por outra, a associação dos produtores livres e iguais?

Para responder esta pergunta central, queremos conservar o estilo e o espírito que essa assembléia inventou: a mistura de seriedade e jogo que experimentamos nas manifestações em que nos conhecemos um pouco. Não nos limitamos a reivindicar, pois seria deixar aos que enfrentamos a possibilidade de pensar que podem nos indenizar por tudo o que nos roubam.

Haverá outros encontros do Comitê de BALADE, outros jogos na rua, outros panfletos, outros cartazes, um jornal. Em busca de outros companheiros e de experiências para compartilhar, decidimos comunicar nossas idéias, realizações e projetos aos que manifestem sua simpatia conosco, com o propósito de esboçar uma rede.

NOTAS:

[1] ENS: École Normale Supérieure, a Escola de Magistério Superior.

[2] CGT: Conférération Générale du Travail, sindicato vinculado ao PC francês.

[3] "gentils organizateurs", em francês: assim são chamados os monitores do Club Mediterranée.



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