Nota dos tradutores: Este texto é um subtítulo de Contra las cumbres y anticumbres, publicado na revista Comunismo nº 47, em espanhol, pelo GCI (Grupo Comunista internacionalista). O original está disponível na internet em: http://www.oocities.com/icgcikg_comunismo/c47_cumbres.htm

Acerca da crítica das falsas rupturas: ruptura proletária contra o centrismo

Antes de continuar a crítica das falsas rupturas, que sempre é importante para nossa classe, devemos voltar a situar esta questão no contexto atual da correlação de forças entre as classes. Em todo esse espetáculo de cimeiras e manifestações coloridas, o proletariado é, como vimos, o principal convidado a aplaudir e marchar nos cortejos oficiais. E como a impostura é grosseira, pois quem pretende assumir, com esses espetáculos, a direção dos protestos são as mesmas figuras, as mesmas estruturas e os mesmos programas social-democratas. Mas ainda que consigam domesticar muitos (sempre haverá carneiros!), o proletariado ultrapassa e tende, na medida em que se torna autônomo, a se situar totalmente fora e contra essas missas cidadãs.

Mas essa ruptura não acontece da noite para o dia. Todas as suas afirmações são ainda parciais, e é essa parcialidade o que permite a diferentes frações da social-democracia reinterpretá-las, novamente canalizá-las e, sobretudo, impedir que a ruptura seja total. Obviamente, essas frações, que retomam pontos decisivos da crítica comunista e dizem defender a revolução, tentam por todos os meios continuar aferradas ou dependentes, sob o jugo social-democrata. Este é o papel clássico das frações que os revolucionários definem como centristas, porque, apesar de retomarem pontos fundamentais do programa revolucionário, freiam o salto de qualidade indispensável - que consiste precisamente em se situar fora e contra toda organização capitalista.

Tanto ontem quanto hoje, contra os velhos revisionismos e oportunismos da social-democracia, que sustentavam que o desenvolvimento do capitalismo seria cada vez mais favorável aos proletários e que, portanto, deveria ser abandonada a revolução e adotada a evolução (1), se desenvolve o centrismo. Retomando uma crítica proletária contra a social-democracia, que opõe ao reformismo aberto essa luta revolucionária contra o capital e o estado, o centrismo atua parecendo assumir as mesmas bandeiras, mas se opõe ao chamamento para constituir um partido à parte, fora e contra a social-democracia; um partido contraposto às eleições, ao parlamentarismo, ao sindicalismo, ao frentismo... e que leve às últimas conseqüências a guerra social contra o capital e o estado. Neste sentido e ainda que o centrismo retome aspectos centrais da crítica proletária, na medida em que não só não leva esta crítica às suas conseqüências necessárias, mas se opõe com todas as suas forças a isso, não deixa de ser parte da social-democracia e constitui assim o último baluarte do capital.

Por natureza, o centrismo oscila entre as bandeiras revolucionárias e a política de impedir a ruptura com a social-democracia histórica, daí muitos considerarem que se encontram suspensos entre as classes. Mas, na realidade, a política oscilante realizada em nome do proletariado não está, nem pode estar, no meio de nada, mas freia a constituição do proletariado em força e cumpre uma função objetivamente contra-revolucionária; constituindo, de fato, uma fração extrema da social-democracia.

Nos cenários atuais contra as cimeiras, a necessária ruptura proletária se choca com um conjunto de ideologias presentes em muitos grupos e organizações, que, apesar de falar de luta contra o capital e o estado, impedem a mesma. São essas barreiras centristas que estamos denunciando.

Anticapitalismo? Contra o estado?
Diante da raiva proletária contra as cimeiras e anticimeiras, frente ao caráter ridículo e frouxo da crítica da ATTAC e outras estruturas social-democratas - que em tudo são suas cúmplices -, milhares e milhares de proletários, durante essas manifestações (e não apenas nelas), opuseram a esta crítica burguesa o ABC da crítica de nossa classe. Dezenas de grupos, nos cinco continentes, centenas de folhetos, pedradas, molotovs, panfletos e artigos denunciam as críticas que os social-democratas fazem do Fundo Monetário e do Banco Mundial, e contrapõem a elas a luta contra o capital e o estado. Mas não basta dizer que se é anticapitalista para lutar contra o capitalismo, não basta se dizer anarquista ou comunista para lutar contra o estado. Quando se vai ao conteúdo mesmo dessa crítica, constata-se, por um lado, muita confusão no que isso significa e, por outro, a ideologização de um conjunto de pseudo-rupturas que de fato constitui uma posição centrista que impede a verdadeira ruptura proletária e sua prática insurrecional.

Assim, há toda uma moda “anticapitalista”. Muitíssimos grupos e organizações se chamam de “anticapitalistas”. Os mesmos, em cuja prática, muitas vezes constatamos que unicamente denunciam as multinacionais, os monopólios, o capital financeiro, o “imperialismo” (2), determinado país ou o Fundo Monetário Internacional e outras instituições similares. Isto, na realidade, é um apoio mal dissimulado da ideologia de humanização do capitalismo da social-democracia. O “anticapitalismo” deste tipo tampouco é novo, é também uma velha história social-democrata. Desde a época de Marx, há todo tipo de ideologias anticapitalistas, de socialismos, que ele já denunciava como socialismo burguês e pequeno-burguês. Foi mais tarde que a social-democracia teorizou que “o capitalismo, agora, é monopolista e imperialista” (3) e pôde justificar desta maneira o oportunismo e o reformismo, contribuindo para a guerra imperialista em nome de um capitalismo mais democrático.

Atualmente, são inúmeros os anticapitalistas burgueses que invariavelmente defendem um estado contra outro. Mais ainda, vemos frações inteiras da burguesia internacional que sempre apoiaram, com a lenda do socialismo, a política capitalista e imperialista do bloco russo, isto quando não eram diretamente parte dele, e que estão tentando se reciclar. Entre elas se encontram setores esquerdistas que sempre falaram de anticapitalismo para melhor defender, no confronto imperialista, uma fração contra outra. Por exemplo, na Guerra do Golfo, em suas contradições “com os ianques”, não apoiavam o proletariado, mas o partido baasista, a guarda republicana e Saddam Hussein.

Do nosso ponto de vista, é imprescindível denunciar essas posições como faz, muito corretamente, um folheto difundido no Canadá em abril de 2001, assinado “Libertários”: “Porém, muito mais insidiosa, porque se encontra próxima de nós, andando no nosso passo, é esta nova tendência para o extremo da cidadanização respeitável. Trata-se, é claro, de todo esse movimento que se proclama “anticapitalista”, “anti-autoritário”, “autogestionário”... Abaixo o novo anticapitalismo: o capital!

A essa ala radical, que conhece muito de retórica anticapitalista e maneja bem as declarações de princípios, estaríamos tentados a responder: Continuem tagarelando, papagaios! (4). De fato, eles culpam o capital financeiro, as corporações. É o velho antiimperialismo que volta pela porta dos fundos. O socialismo pueril de ontem se transformou num anticapitalismo de qualidade, complementado pela exigência de democracia total. Todas as separações capitalistas são ampliadas como identidades reais a salvaguardar e promover (sexo, idade, raça, nacionalidade, papéis sociais ou econômicos, minerais, vegetais e cósmicos, a lista é infinita...). Essa ala turbulenta mescla dissimuladamente o jargão de seus mais veneráveis mestres, mas só para acusá-los de traição. Além do mais, atua em geral como tropa de choque dos partidos e sindicatos, que por sua vez, se servem deles como espantalhos.

Parece-nos muito adequada a crítica que esses companheiros “libertários” realizam da ideologia da afinidade, tal como está na moda atualmente. Ideologia que, ao invés de impulsionar o proletariado a se unir com base na homogeneidade de interesses, perspectiva e projeto social, fortalece todas as divisões e separações instituídas pelo capital: cultura, sexo, raça, idade, região... e, às vezes, crenças, opiniões, religiões... Até a música da moda pode ser um critério de afinidade, mas o agrupamento com base nisso só pode separar os proletários em células desenvolvidas pela sociedade burguesa, quando o que necessitamos é de romper com todas essas células e desenvolver uma força homogênea e autônoma, de classe, contra o capital (5).

NOTAS:

1. Bernstein queria suprimir o “hegelianismo” em Marx, porque lhe incomodava a transformação da quantidade em qualidade, da evolução em revolução; e, também, seu “blanquismo”, porque o horrorizava ainda mais o fato de que a revolução proletária implicava necessariamente conspiração revolucionária e insurreição. Hoje, tornou-se moda no movimento essa tendência para evitar a ruptura, o salto de qualidade, a revolução, a insurreição.

2. O “antiimperialismo” é, de fato, sempre a defesa de uma fração do capital imperialista. Ser antiimperialista sem ser anticapitalista não é apenas um absurdo: todo capitalismo é necessariamente imperialista, porque todo estado é imperialista – pois, ao mesmo tempo em que assegura a exploração e opressão de “seu” proletariado, representa no campo da luta imperialista uma fração burguesa contra outra, logo, é pró-capitalista. Isso se traduz na oposição exclusiva a determinada fração, determinada instituição (OTAN, FMI, BM, como antes o Pacto de Varsóvia) ou determinado país, que é capitalista e, por acréscimo, totalmente imperialista.

3. A essência do capitalismo é invariável. Todas as oposições entre as fases competitiva e monopolista, de livre concorrência e imperialista do capitalismo só serviram como cobertura ideológica do oportunismo, para sua defesa do “bom lado” do capitalismo: democracia, industrialização, e, na realidade, a tal ou qual bloco na guerra imperialista.

4. É difícil traduzir do francês a expressão: cause toujours, mon lapin.

5. A organização do proletariado em força histórica requer uma estruturação totalmente antagônica a essas divisões burguesas. Tanto maior potência terá uma organização proletária, quanto mais saiba juntar em suas células proletários de culturas, sexos, origens, idades, raças, práticas anteriores e diferentes, superando as barreiras e os compartimentos que o capital nos impõe, para nos impedir de avançar no sentido da comunidade humana mundial.



Biblioteca virtual revolucionária

RETORNAR A PÁGINA PRINCIPAL

1