Racionamento em Boqueirão é tema de artigo de escritor no WSCOM Online
[28/04/03 - 09h37]
WSCOM Online, da Redação


O administrador de empresas Pedro Severino de Sousa encaminhou ao WSCOM Online um texto sobre o racionamento de água na barragem de Boqueirão. Autor do livro Água: a essência da vida, Pedro é funcionário do Departamento de Estradas de Rodagem da Paraíba (DER-PB) e tem diversos artigos publicados nos jornais do Estado. Leia a íntegra do texto:

Boqueirão: racionar é preciso

Segundo levantamento em conjunto da CAGEPA, SEMARH e AGISA, o manancial (Boqueirão de Cabaceiras), que tem a capacidade máxima de 450.000.000m £ (quatrocentos e cinqüenta milhões) de metros cúbicos de água e que sua vazão/consumo/mês é de 6,5m£/m (seis e meio) milhões de metros cúbicos por mês, para abastecer Campina Grande e outros municípios do Compartimento da Borborema... E que hoje (16.04.2003), se encontra com 150.000.000m£ (cento e cinqüenta milhões) de metros cúbicos, que corresponde somente a 33% de sua capacidade máxima...

No dia: 14.04.2003(segunda feira), no Escritório de Representação do Governo do estada da Paraíba, se reuniram Dirigentes e Técnicos da Companhia de abastecimento (CAGEPA), Secretaria Extraordinária de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (SEMARH) e Agência Estadual de Água (AGISA), depois de exaustivas discussões, chegaram à esdrúxula conclusão: Bastava que, o Açude Epitácio Pessoa, conhecido popularmente como Boqueirão de Cabaceiras, no final de Maio/2003, se chegasse a capacidade de 190.000.000m£ (cento e noventa) milhões de metros cúbicos de água, para suprir no abastecimento da água de Campina Grande e as demais cidades do compartimento da Borborema, dependentes deste mencionado reservatório (Epitácio Pessoa), até Maio/2005... Isto foi pelo menos, que ouvi e vi (assisti) no Bom Dia Paraíba do dia: 15.04.2003(terça feira), na TV Cabo branco.

Este diagnóstico, ou melhor, prognóstico (previsão), é de uma total discrepância à situação, hidrológica e climatológica, que estamos atravessando atualmente. Pois, vejamos: Além de ser crescente a demanda do consumo de água para o humano propriamente dito, pois é crescente o aumento vegetativo populacional, principalmente nos grandes centros urbanos, não só pelo crescimento populacional em si, e sim, devido ao êxodo rural... Afora, ao aumento de demanda do crescimento do desenvolvimento auto-sustentável, até por que não só de `Água de beber, vive o Homem´. Então, diante disto, é mais do que obvio, que é crescente a demanda suplementar para suprir as necessidades de Água de beber e ao desenvolvimento auto-sustentável em qualquer Região economicamente ativa do planeta. E que Campina Grande (PB), não poderia ser exceção!. O que si quis mostrar com isso? É que a atual demanda/consumo/mês de 6,5 m3/s(seis e meio) de milhões de metros cúbicos de água por mês, não poderia jamais ficar estática ao longo dos anos, obviamente, sofrerá um acentuado e progressivo crescimento. Isto mostra nitidamente, que continuamente, aumentará à vazão/consumo/mês de água... E não estão levando isto em consideração.

E concernente à questão climatológica, não estão considerando também, que paulatinamente vem diminuindo os índices pluviométricos em todo as regiões da superfície terrestre, e principalmente, no semi-árido do Nordeste do Brasil, onde está encravado o Cariri Paraibano, nascentes do Rio Paraíba, que alimenta o açude de Boqueirão. E por falar em índices pluviométricos, se sabe, e muito bem, que os índices pluviométricos do Cariri paraibano são muito baixo, que varia de 400mm/ano a 500mm/ano. Isto em ano bom de inverno (estação chuvosa), em ano fraco de chuva, este índice cai para em média 300mm/ano, índice do município de Cabaceiras (PB), onde se aproxima até mesmo, aos índices do Deserto do Saara, que é de 250mm/ano. Partindo desta realidade, seria interessante, se fazer uma analogia desta situação, como se vê, tão crucial., basta-se tomar como parâmetros os anos de 2002 e o corrente ano de 2003.

Como se sabe, apesar de toda adversidade climática, que é secular e cíclica, não só na bacia hidrográfica do Açude de Boqueirão de Cabaceiras, mas, em todo semi-árido do Nordeste brasileiro, todavia, mesmo assim, no período chuvoso do ano de 2002, que foi curto, porém, intenso, ou seja, de Jan/2002 a fev/2002, fez com que recarregasse este mencionado açude de Boqueirão em 100 milhões de metros cúbicos de água. Considerado um volume substancial, passando de 112 milhões em Jan/2002 para 212 milhões em Fev/2002. E que nos Meses de mar/2002, Abril/2002 e Maio/2002, mesmo sendo Meses chuvosos, entre ganhos e perdas, só fez manter o nível de Fev/2003. E que no transcurso do resto do ano, ou seja, de Maio/2002 a Dez/2002, entre consumo de abastecimento de água, evaporação e outros (infiltração e retirada clandestina), teve uma descarga de 72 milhões de metros cúbicos de água. Que da uma média de 9 milhões por mês, considerando oito meses transcorridos, ou seja, de Maio a Dezembro. Veja que existe uma acentuada discrepância, entre a vazão/consumo/mês, que é de 6,5 milhões de metros cúbicos e a média mensal de descarga (perdas), que é de nove milhões. O que dá uma diferença de 2,5 milhões de metros cúbicos de água. Esta diferença residiu justamente na evaporação, coadjuvado pela infiltração. E por falar em infiltração, a literatura hidrológica não considera muita a questão da infiltração, pois, ao meu modo de vê, a evaporação está intrinsecamente correlacionada com a infiltração. Segundo, alguns dados atmosféricos entabulados pela a ciência climatológica, diz que a evaporação no Semi-árido do Nordeste Brasileiro varia de 2000mm/ano a 3000mm/ano por metro quadrado de espelho de água, esta referida variação, mostra nitidamente, que é devido fundamentalmente, a infiltração. Pois, se sabe que o clima no semi-árido do Nordeste Brasileiro, é homogeneamente, quente e seco, variando um pouco para um clima mais ameno, em algumas localizações pontuais, como algumas cadeias de serras e planaltos, como por exemplo, o Planalto da Borborema. A infiltração depende muito da composição mineralógica de cada solo, como por exemplo, as serras e planaltos, por ter uma formação rochosa solidificada, tornando-os quase impermeáveis, que são classificados de solos cristalinos, então, são solos de pouca permeabilidade, ou seja de pouca infiltração...Que é o caso da bacia hidráulica do açude de Boqueirão. Ainda bem, se não a perda de água de Boqueirão por infiltração seria bem maior. E também, por está localizado em uma das regiões do Planalto da Borborema e obviamente tem um clima mais ameno. Então , talvez, o açude de Boqueirão, só tenha 2000mm/ano de evaporação, ou melhor, na combinação evaporação/infiltração. Deve-se salientar que a região de solo de rocha cristalina, quase inexiste lençol freático, devido justamente da pequena permeabilidade.

Já os solos de várzeas e de formação sedimentar têm uma acentuada permeabilidade. Não é à toa que nos limítrofes do oeste da Bahia, com leste de Tocantins e o sul do Piauí, existe um grande aqüífero, que alimenta três grandes Rios Brasileiros: Rio São Francisco, Rio Tocantins e Rio Parnaíba. Este mencionado grande aqüífero só existe devido está localizado em uma grande área de formação geológica sedimentar. Não diferentemente, as várzeas também têm uma acentuada permeabilidade Por terem um relevo de topografia baixa e uma formação geológica sedimentar. Um exemplo típico de uma alta permeabilidade de uma área de várzeas é sobre o açude de Chupadouro I(São João do Rio do Peixe/PB), que tem capacidade máxima de 2.700.000m (dois milhões e setecentos mil) de metros cúbicos de água. É que no mês de Agosto de 2002, estava com 2.150.000m (dois milhões e cento e cinqüenta mil) metros cúbicos de água, que equivalia a 77%, enquanto que em Setembro de 2002, portanto, um mês após, só estava somente com 1.768.000(um milhão setecentos e sessenta e oito mil) de metros cúbicos de água que equivalia a 64%, uma perda equivalente a 13%. Isto mostra com toda nitidez a alta permeabilidade desses solos de várzeas. Talvez estas microrregiões do semi-árido do Nordeste Brasileiro, tenham na combinação evaporação/infiltração de 3.000mm/ano por metro quadrado de espelho de água.

Sim, depois de um breve parêntese, que foi feito para se analisar a questão evaporação/infiltração, retornemos a questão hidrológica/climatológica dos anos de 2002 e 2003, pertinente ao de Açude de Boqueirão. Como já foi feita análise da questão hidrológica do ano de 2002, deste Açude de Boqueirão, pois, considero de excelente aproveitamento, até porque, teve uma substancial recarga de 22% de sua capacidade máxima. Enquanto referente ao ano em curso, ou seja de 2003, não se pode se contentar muito, por já estarmos quase no final da estação chuvosa (Janeiro a Maio), isto é, já na segunda quinzena de abril/2003. E o açude de Boqueirão, só recebeu uma recarga de 10(dez) milhões de metros cúbicos de água, que corresponde a somente a 2.2%, pois hoje (16.04.2003) se encontra com 150 (cento e cinqüenta) milhões de metros cúbicos de água. E que, provavelmente, o Açude de Boqueirão neste ano de 2003, não receberá mais recarga de água. Ficando numa situação critica. E nem precisa fazer uma analise mais aprofundada para se detectar isto, se sabe que a perda (descarga) anual neste mencionado manancial (Boqueirão) é de 72 milhões de metros cúbicos de água, e que atualmente só está com somente 150 milhões de metros cúbicos de água. Então, Provavelmente, no inicio da estação chuvosa do ano de 2004 em Jan/2004, só estará com 78 milhões de metros cúbicos de água. E o pior é que, quando Boqueirão chegar a 70 milhões de metros cúbicos de água, estará com um volume de baixo teor de potabilidade (altamente salobra), imprestável para o consumo humano, animal e até para agricultura. Segundo analise laboratorial, é que esta referida água, chegará a ter uma densidade de 1.03g/cm³, ou seja, densidade da água do mar. Isto decorre por causa do efeito da composição mineralógica dos seus solos e subsolos, tanto da bacia hidrográfica e hidráulica, que tem grande predominância de cloreto de sódio e enxofre. Entretanto, como se vê, seria até interessante se elaborar um projeto de piscicultura com peixe do mar com este objetivo, até porque, as águas de Boqueirão nestas condições de alto teor de salinidade, só dar mesmo para servir de criatório de peixe do mar, ou então, instalarem `Usinas Dessalinizadoras´ desta referida água, altamente salobra, tornando-a potável para o consumo humano.

Enfim, além dos escassos recursos hídricos superficiais no compartimento da Borborema, como se sabe, tem mais um outro agravante, quase não existe reserva estratégica de recursos hídricos subterrâneos, por está localizado em área de cristalino. E quando existe alguma água no lençol freático, é de pouco volume e mesmo assim, altamente salobra. Todavia, restava uma esperança na barragem de Acauã, que tem a capacidade máxima de 253 milhões de metros cúbicos de água, que foi inaugurado em abril/2002. Todavia, desde da estação de chuva de 2001, a Barragem de Acauã, já se tinha condições de acumulação de água, entretanto, mesmo com um extraordinário inverno de 2002 e um regular inverno de 2003, pois está transcorrendo dentro da normalidade, mesmo assim, a barragem de Acauã, nunca passou de 7% de sua capacidade máxima. Hoje (16.04.2003), está com o volume de 12.460.000m(doze milhões, quatrocentos e sessenta) de metros cúbicos de água, que corresponde a somente a 4,9% de sua capacidade máxima. Então, seria esta colossal barragem de Acauã, que iria teoricamente, suprir as necessidades no abastecimento de água de Campina Grande (PB) e Cidades adjacentes. Entretanto, infelizmente, a Barragem de Acauã, parecer ser mais uma obra faraônica, que já nasceu morta...Então, diante desta realidade nua e crua, seria salutar e mais do que urgente, o racionamento de água já! No Compartimento da Borborema e sobretudo em Campina Grande (PB).

 


 

 

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