ENTREVISTAS

NÓS PRECISAMOS DE OUTRO HERÓI

Por Sridhar Pappu

O próprio Moore prefere as revistas que não tenham heróis, pequenos trabalhos de dúzias de revistas que ele recebe a cada mês na sua grande caixa de merda, a DC Comics. Ele diz que preferiria a diversidade de quadrinhos dos anos cinqüenta, onde alguém poderia achar de tudo, dos assuntos mais benignos - vaqueiros, marcianos e animais engraçadinhos - para os personagens mais moralmente afásicos, dentro de um folheto de 24 páginas. De preferência, não escreveria tanto sobre super-heróis, mas ele sente que deve fazer o que puder para salvar o mercado de mainstream e, fazendo isso, incentiva o único assunto sobre o qual alguém do mainstream tenha algum interesse em ler.

Então, tentando mover a locomotiva do perigo, Moore escolheu usar todas as suas horas disponíveis para escrever e reuniu uma horda de vertiginosos artistas na esperança de trabalharem com ele. Ele produz cinco revistas, que incluem Tom Strong e A Liga de Cavalheiros Extraordinários na qual Capitão Nemo, Mina Murray do Drácula de Bram Stoker, Allan Quatermain, Henry Jekyll, e o Homem Invisível, juntos, lutam contra as forças das trevas no fim do século XIX.


ELE TERIA DE DECICIR SE CORTARIA SEUS PULSOS

Em Tom Strong, Moore alcança o herói em seu conceito mais arquetípico, tentando rebobinar, como ele diz, a fita do super-herói até antes do Super-homem. Na fita antes do Super-homem estão os personagens dos pulps que o inspiraram - Doc Savage, Solomon Kane - assim como o charme e o frescor de Tintin. Moore quis que Strong tivesse uma origem vitoriana embora vivesse nos dias de hoje, e o quis casado porque super-heróis casados são de alguma maneira mais sensuais e sabia, de algum modo, que o herói deveria ser amigo de um gorila falante.

O que atrai em Tom Strong é precisamente o quão irreal ele é, quão minúscula é a tentativa de uní-lo à enfadonha vida diária. Minúscula se alguém se importar pelo fato de que Tom ter 100 anos de idade e aparência de 39, ou pelo fato de que, quando necessário, ele será mandado de volta no tempo ou viajará para Vênus. Além disso, os atos de Tom Strong não estão mais longe de um desejo de alimentar seu ego ou uma necessidade patológica de machucar do que Platão, que em sua A República, considera a justiça como o fato de que cada pessoa em uma sociedade executa o papel para o qual está mais adaptada.

Ele adquiriu uma fantástica imaginação visual, e nenhum escritor de revistas em quadrinhos alguma vez tentou comunicar isso a um artista antes, diz Rick Veitch, colaborador de longa data de Moore. O que a maioria dos escritores de quadrinhos fazia era dar a você a mais simplificada e limitada descrição de um ato que aconteceria num quadrinho, como por exemplo “Super-homem luta com Bizarro”, [enquanto que] Alan vai até o fundo das motivações de cada personagem no momento que eles estão realizando algo. Ele monta pequenas imagens, lhe dizendo, “Ok, há um quadro no parede, lá atrás do Bizarro, quando ele era um garotinho”. Ele o localiza em todos estes diferentes níveis - e alguns artistas não podem lidar com isso”.

Eu não estou tão interessado se eles são hábeis ou profundos, diz Moore de seus quadrinhos. Se, ocasionalmente, acontece de serem assim, ótimo. Mas estou mais preocupado se eles têm frescor ou não. É como se houvesse um tipo de fedor - “Pelo amor de Deus, alguém poderia abrir uma janela?” - para a indústria de quadrinhos durante 10 anos. Eu apenas quis um pouco de ar fresco.

Depois do almoço, Moore e eu caminhamos pelas redondezas, nas ruas de Northampton. Ele parece estar deslocado aqui, embora ele jamais tenha sido de um outro lugar qualquer. Nascido aqui em 1953, ele cresceu em um bairro com casas alugadas do século XIX, pertencentes ao conselho da cidade. A avó materna, com quem ele e a família viviam, não tinha nenhum banheiro em casa, enquanto que a sua outra avó tinha encanamento em casa, mas nenhuma luz elétrica.

Olhando pra trás, ele diz, soa como se eu estivesse descrevendo algo saído de Dickens. Quero dizer, estou falando de 1955, mas 1955 na Inglaterra. Eu via “Happy Days” (Dias Felizes) na televisão. Talvez os americanos dos anos cinqüenta fossem iguais àquilo, mas isso não era o que a Inglaterra dos anos cinqüenta foi. Era como se tudo fosse monocromático e abafado.

O escape que Moore encontrou foi todo na forma de forças imaginativas - primeiro na mitologia, com as versões infantis das lendas gregas e escandinavas, Robin Hood e Hiawatha. Havia quadrinhos, claro, mas estes eram quadrinhos britânicos, trabalhos que descreviam os infortúnios de meninos fardados da escola pública. Em preto e branco, eles focalizavam principalmente piadas sobre os diretores e castigo corporal, e pareciam à Moore não como um escape, mas como um hilário espelho dos problemas que ele enfrentava.

Então vieram Super-homem e Flash - extensões modernas dos mitos amados por ele. E eles eram até mais fantásticos por viverem na América, um lugar cheio de cor e com enormes edifícios, coisas que Northampton simplesmente não poderia oferecer.

Recebi meus conceitos morais mais do Super-homem do que eu jamais poderia obter de meus professores e amigos, ele diz. Porque o Super-homem não era real - ele era incorruptível. Você estava vendo a moral em sua forma mais pura. Você não vê o Super-homem mentindo e matando, o que, é claro, a maioria dos heróis de carne e osso tende a fazer.

Depois de vender ácido (algo que Clark Kent desaprovaria) e ser expulso da escola aos 17 anos, Moore levou seus vôos infantis ao rigor adulto. Ele foi trabalhar em um matadouro de ovelhas localizado nos arredores de cidade, por 6 libras (algo em torno de 8,66 dólares, hoje em dia) por semana, depois limpados banheiros no Grand Hotel onde hoje nos encontramos. Buscou um trabalho de escritório na companhia de gás local, onde ele encontrou a encruzilhada de sua vida: Ele decidiu que se não agisse logo por seus impulsos mais criativos, ele estaria em frente ao seu espelho quando ele tivesse 40 anos e teria de decidir se cortaria seus pulsos.


UM SUPER-HERÓI MUITO, MUITO RUIM MESMO.

Na verdade, ele não sabia exatamente o que queria fazer. Assim ele procurou a assistência pública e, com uma esposa grávida, passou um ano iniciando projetos impossivelmente grandes (ópera espacial de 20 parte da qual ele escreveu só uma página, por exemplo). Finalmente, ele arrumou um emprego como caricaturista para a revista semanal de música britânica Sounds.

Seu trabalho se tornou conhecido nas revistas de quadrinhos britânicas Warrior e 2000 A.D. Em 1984, a DC lhe ofereceu o comando de uma de suas revistas menos rentáveis, Monstro do Pântano. De um modo sério e não convencional , ele transformou a revista em uma ferramenta para explorar assuntos sociais, usando-a para discutir qualquer assunto, de racismo à questões ambientais. Em troca, ele rapidamente arregimentou uma devotada multidão de fãs e elevou as vendas mensais da revista de 17.000 para 100.000 cópias.

Ninguém, ele diz, quis realmente dizer "Mas ele está falando besteira". Todos eles falavam "Ele é um gênio inglês, e você deve ser um tolo se não vê isso". O que me fez bem por um tempo.

 

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