ENTREVISTAS

PERGUNTAS E RESPOSTAS COM ALAN MOORE

Por Chris Hutchins

Publicado originalmente na Wizard Magazine #95, em Julho de 1999


Alan Moore, a maior lenda dos quadrinhos, evita os holofotes e os rumores selvagens que o cercam.

Os rumores dizem que o premiado escritor é um adorador do Demônio. Você já deve ter ouvido que ele tem uma voz assustadora. De que ele é um recluso egomaníaco, um gênio louco, um sujeito gótico sem nenhum humor. De que foi proibido pelo Departamento do Estado de viajar para os EUA. E se você olhar para a conhecida e super-assustadora foto em preto e branco que acompanha a maioria dos artigos sobre ele, você provavelmente acreditará em cada palavra.

Mas aqui está Moore, sentado em sua casa em Northampton, Inglaterra, acendendo um cigarro e falando humildemente sobre sua carreira. Tranqüilo e cordial, ele não vê a si mesmo como o gênio escritor que outros o descrevem. A idéia de ser um tipo de pedestal não é tão divertida quanto parece, ele diz. O fato de eu não ir às convenções e ser inclinado a abster-me da fama de nenhum modo dá a você uma idéia de como me sinto sobre isso. Tudo bem, então alguma carta em um fanzine diz que você é um gênio. Bem, por cerca de dez minutos você pode dizer, "sim, provavelmente sou um gênio". Mas não demora muito até eu perceber que isso é absurdo.

Esse não é o Alan Moore que os rumores descrevem. Não, o criador da nova linha Os melhores Quadrinhos da América (cuja sigla em inglês é ABC) é completamente humano aqui, sorrindo e alardeando sobre suas duas filhas punks cobertas de piercings (as duas têm mais metal em seus corpos que a maioria de muitos eletrodomésticos, ele diz). Ele relembra histórias do início dos anos noventa, quando tocava em uma banda pop chamada The Imperors of Ice Cream (literalmente, Os Imperadores do Sorvete). Nós tínhamos uma ótima banda, e eu usava essa vestimenta toda branca e maravilhosa, ele ri. Mas não funcionou.

Tá, então Moore não entrou para a lista da Billboard. Grande coisa. Ele é reconhecido como um pioneiro nos quadrinhos. Moore deixou os leitores americanos impressionados com sua reinvenção da moderna revista de quadrinhos de horror, A Saga do Monstro do Pântano, da DC. Ele deu aos leitores a altamente política V de Vingança. Mas Moore é talvez mais conhecido por Watchmen, a série de 1986 que deu aos leitores uma história de super-heróis sem super-heróis. A história agitou a industria de quadrinhos, e catapultou Moore à aclamação da crítica, à atenção da mídia e a uma grande admiração entre os leitores.

No final dos anos oitenta, Moore deixou a DC - principalmente devido a disputa dos direitos e royalties acerca de Watchmen e V de Vingança - prometendo nunca mais escrever para a DC novamente. Mas agora Moore está [indiretamente] de volta à DC, escrevendo a linha ABC para a WildStorm Productions, comprada pela DC. Ele fala abertamente sobre seu relacionamento com a companhia, e sua nova linha de quadrinhos. Ele também desfaz alguns rumores, explicando porque odeia ser visto como um "deus" dos quadrinhos e fala sobre ser um praticante de Magia - não um adorador do Demônio.

Oh, e sobre ele ter sido banido dos EUA? Isso é entre ele e o Departamento do Estado. Afinal, há algumas coisas que você simplesmente não deve perguntar a um praticante de Magia...

Wizard: Através dos anos, seu nome tornou-se sinônimo de "gênio", "visionário"... até mesmo "Deus dos quadrinhos". Mas qualé, cara. Você come como todo mundo. Você "solta um barro" como todo mundo...

Moore: E também visto minha calça de três pernas como todo mundo [risos]. Eu vivo em Northampton, onde todo mundo é familiar o bastante com minha espalhafatosa e desarrumada presença física para dissipar qualquer ilusão de divindade. Ninguém aqui me trata de modo especial, exatamente como eu gosto.

A noção de celebridade é algo que tornou-se horrível para mim. Desde os fins dos anos oitenta, mantive-me em baixa evidência. Antes disso, ia para as convenções [de quadrinhos] e ficava cercado por uma multidão em todo lugar que eu fosse. Garotos desmaiavam - ou tinham ataques epilépticos - quando encontravam-se comigo.


Wizard: As convenções foram uma má experiência para você?

Moore: Sim. Fui a uma convenção britânica durante o estouro de Watchmen, e certamente foi uma das mais concorridas convenções britânicas. Muitos vieram pela reunião com a impressa sobre Watchmen que estava ocorrendo. Foi um grande momento de triunfo para os quadrinhos, pensei comigo mesmo. Mas tudo que lembro-me de toda a convenção era que eu estava sentado em uma fria sala de espera, deprimido, pois eu não podia sair sem arrastar uma multidão. Em outra ocasião, eu estava na metade do caminho de uma escadaria com cinqüenta garotos se espremendo. Na convenção de San Diego, acordei gritando de um sonho de mãos que me agarravam.

O que você pode fazer? Não quero ser uma celebridade, o centro das atenções. As vezes fico bastante entediado, acredite ou não, e não quero enfatizar a mim mesmo durante cada segundo do dia.

Apenas quero manter meu trabalho em evidência. Realmente não importa para os leitores se eu existo ou não, importa? É apenas trabalho. Não quero que eles me admirem por meu corte de cabelo. Não quero que admirem minha complexão ou meus adornos físicos. Se eles gostam da história, então isso é ótimo. O contato entre eles e eu foi completamente realizado com sucesso, sabe?


Wizard: E seus contatos com a DC nesses dias? Embora a companhia publique sua nova linha de quadrinhos, não há o logotipo da DC em nenhuma das capas.

Moore: Isso é parte do acordo que Jim Lee propôs [quando a DC adquiriu a WildStorm] que tornou possível manter a DC tão longe quanto possível. Não há nada nas revistas que as conecte com a DC. Quero dizer, sim, no final das contas, é a DC que publica essas revistas. E sim, eu preferiria que isso fosse de outra forma. Mas isso é algo com o qual posso conviver, e enquanto nós mantivermos esse relacionamento a distância, não haverá problemas.


Wizard: Há alguma possibilidade de você escrever o Monstro do Pântano ou outro personagem da DC novamente?

Moore: Sei que os fãs gostariam de ver isso, mas não. Mesmo se meu relacionamento com a DC fosse diferente, não tenho interesse de trabalhar com esses personagens novamente. Eles parecem que mudaram muito nos últimos dez anos, provavelmente para melhor, mas eles não são mais os personagens com os quais eu queira trabalhar, de qualquer forma. Realmente não sinto saudades deles. Estou muito satisfeito com o material que estou fazendo.


Wizard: Falemos sobre isso. Qual era o seu plano geral para a linha ABC quando você a concebeu?

Moore: Havia uma banda por aqui, nos anos oitenta, chamada Pop Will Eat Itself [N. do T.: literalmente, o pop devora a si mesmo]. Esse é um ótimo nome, um nome profético. O pop - seja a música popular, cultura ou quadrinhos - chegou a um ponto onde devorou seu próprio passado para encontrar algo novo. Os quadrinhos têm feito isso. Meu trabalho em Supremo [para a Awesome Entertainment, que plagia o Super-homem] é um exemplo. O que eu queria fazer era evitar isso nessa linha. Então perguntei a mim mesmo, Há outro caminho através dos quadrinhos pelo qual possamos trilhar?

Para descrever isso, tenho que traçar as raízes dos quadrinhos, de volta ao ponto no qual os modernos super-heróis foram concebidos: o Super-homem. Se você voltar ao passo anterior a esse, você encontrará as revistas pulp e a tirinhas de jornais. Os romances de fantasia do século XIX. Mitologia. As primeiras ficções científicas. Essas foram as coisas das quais os quadrinhos cresceram. Tentei voltar ao território pré Super-homem e extrapolar um futuro diferente a partir disso. Esses são os quadrinhos de um mundo paralelo, se você quiser. Apenas espero que haja um público nesse mundo paralelo que se interesse em lê-los [risos].


Wizard: Há verá cinco revistas da linha ABC debutando nos próximos meses. Há planos para outros títulos?

Moore: Há um sexto título que estamos pensando em fazer, um para artistas que não possam se comprometer com o andamento de uma revista, mas que eu ficaria louco se não puderem trabalhar conosco. Tenho falado com pessoas como Dave Gibbons, Brian Bolland, Glenn Fabry. Isso está bem formulado no momento; não há nenhuma programação ainda, mas é algo que estamos planejando para sair pela linha nos próximos meses. Também temos mais seis historias planejadas para A Liga dos Cavalheiros Extraordinários.


Wizard: Tem sido difícil encontrar tempo para escrever tudo isso?

Moore: Francamente, estou adorando fazê-lo, vejo isso como, Ei, vamos nos exibir e fascinar os leitores. Não sou indulgente comigo mesmo com muita freqüência, então por que não, diabos!

 

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