ENTREVISTAS

PERGUNTAS E RESPOSTAS COM ALAN MOORE

Por Mike Cotton

Publicado originalmente na Wizard Magazine #130, em Julho de 2002

O roteirista por trás da linha ABC, da WildStorm, nos fala sobre sua recusa em trabalhar com um super-herói da Marvel, por que nunca fará uma seqüência de Watchmen e sobre como poderá abandonar os quadrinhos.

O que é mais estranho sobre Alan Moore não é sua devoção ao ocultismo, ou sua recusa em participar de convenções de quadrinhos ou ainda seu aspecto de assassino em série - é o quanto este roteirista realmente é bastante normal.

Com um punhado de quadrinhos clássicos de sua autoria (Watchmen, O Monstro do Pântano e Batman: A piada Mortal) e um número crescente de lendas urbanas sobre ele - venera o Diabo, não permitem que entre nos Estados Unidos, aborrece seus fãs - alguém poderia pensar que Moore é um gênio louco, mas ao falarmos com ele, obtemos uma impressão totalmente diferente.

Deixe-me lhe prepara uma xícara de chá e conversaremos, disse-me amavelmente enquanto move seu esbelto corpo de 1,82 metros em direção à cozinha de sua casa, em Northampton, Inglaterra.

Hoje estou terrivelmente atrasado, lamenta-se esta lenda de 48 anos enquanto serve-me uma xícara de chá. Acho que eu deveria estar vendo as provas de impressão da nova encadernação de Promethea, e eu tinha prometido ao Scott Dunbier (editor da WildStorm) um novo roteiro para Tom Strong para os próximos dias.

É claro que Moore pratica o ocultismo, é uma espécie de recluso e como ele mesmo disse, não o escritor amistoso e carinhoso que alguns fãs gostariam que eu fosse. Mas Moore é o pai de duas filhas, das quais fala desenfreadamente quando tem oportunidade. Ele adora a literatura clássica, que lota suas estantes ao invés de revistas em quadrinhos. Tenho livros mais velhos que o seu país, diz ironicamente. Além disso, ele tem uma fazenda perto de Gales para, segundo ele, descansar entre as cabras e as galinhas, uma ou duas vezes por ano.

Moore preenche as estantes de sua sala de estar com edições da bíblia do século XVIII, um crânio de um monge tibetano de 200 anos e edições autografadas de algumas de suas obras clássicas, mas não há nenhuma evidência de que esse roteirista tenha feito carreira nos quadrinhos, notavelmente ausentes estão suas próprias obras, tais como Do Inferno, A Liga dos Cavalheiros Extraordinários ou Top Ten.

Você verá algum ou outro número solto por aí, diz Moore, sentado sob uma janela de vitrais ao estilo das catedrais que projeta uma luz turquesa e dourada por sobre seu lar. Mas jamais mantenho eles por perto. Você acha isso estranho?

Não, de maneira alguma. Mas isso é apenas um dos muitos detalhes inesperados que cercam enigmático Moore.

Wizard: Olhando para trás, quão satisfeito você está com a linha America's Best Comics, cujos títulos você produziu nos últimos três anos?

Alan Moore: Minha intenção original com a linha ABC era que ela pudesse salvar os quadrinhos, descobrir uma cura para o câncer e acabar com as guerras para sempre. Assim, ela não atingiu minhas expectativas iniciais.


Wizard: Metas elevadas...

Alan Moore: Sim, são metas elevadas se você tiver grandes ambições. Mas por outro lado, temos produzido uma impressionante pilha de quadrinhos. Eles parecem ótimos. Tenho muito orgulho deles, de todos eles. Acho que conseguimos uma pequena e fantástica linha de quadrinhos, sabe? Eu realmente quis fazer bons quadrinhos comerciais que mostrassem o quanto os quadrinhos comerciais podiam ser.


Wizard: Como é o seu relacionamento com a WildStorm e sua companhia-mãe, a DC Comics?

Alan Moore:[Rapidamente] Bem, eu não tenho um relacionamento com a DC. Não tenho nada a ver com a DC, mas nunca houve um relacionamento positivo entre eu e a DC [risos]. Entendo-me muito bem com a DC. Jim Lee [diretor editorial da WildStorm] é um perfeito cavalheiro. É um prazer trabalhar com Scott Dunbier. Mas com relação com a companhia DC Comics, ainda sinto-me feliz em ficar a uma boa distância deles.


Wizard: Há alguma revista em quadrinhos que você tem acompanhado ultimamente?

Alan Moore: [Pausa] Não muitos. Provavelmente há alguns ótimos quadrinhos sendo publicados por aí que não estou lendo. Ainda acompanho os suspeitos de sempre. Se um dos dois irmãos Hernandez [Gilbert e Jaime] estão fazendo algo, então provavelmente deve ser ótimo. O mesmo vale para Dan Clowes, Peter Bagge, Chris Ware - todos os suspeitos de sempre da Fantaghaphics e da Draw and Quartely. Com relação aos quadrinhos comerciais, realmente não leio muito deles. Descobri que não tenho nenhum interesse nas revistas de super-heróis publicados pelas grandes companhias.


Wizard: Você já pegou alguma edição de títulos como Hellblazer, o qual você ajudou a criar, para ver o que vem sendo feito com ele?

Alan Moore: Li algo do arco Hard Times, escrito por Brian Azzarello [Hellblazer #146 - #150, ainda inédito aqui no Brasil]. Realmente gostei do trabalho que Brian e [o desenhista] Richard Corben fizeram nessas edições em particular. Sim foi boa. Não tenho visto mais nada desde então, mas não fico mesmo de olho nos títulos da Marvel ou da DC. Realmente não tive nenhum pensamento sobre como outras pessoas lidam com os personagens que foram meus no passado. Todos são completamente diferentes. Comparar eles é como comparar o Jesus bíblico do Jesus do South Park.


Wizard: Já que você não tem visto muitos quadrinhos americanos, tem visto muitos filmes americanos? O que você achou do modo como adaptaram Do Inferno para o Cinema?

Alan Moore: Não tenho nenhuma idéia. Não o vi.


Wizard: Sério?

Alan Moore: Não tenho tempo para filmes. Eles realmente não me interessam. Não quer dizer que não haja filmes que sejam ótimos. Cinema não está na minha lista das cinco melhores. Talvez quando sair em vídeo, eu o veja. Ouvi algumas pessoas dizerem que ele é um filme muito bom, desde que você não espere que seja igual aos quadrinhos.


Wizard: E da televisão americana?

Alan Moore: A Família Soprano é a melhor coisa que veio da televisão americana que eu possa me lembrar. Não há muito da televisão que consigo assistir... dificilmente assisto televisão, de qualquer forma. Coisas como Ally McBeal, Frasier, Buffy, a Caça-vampiros, Dr. Who, Jornada nas Estrelas, Babylon 5... - todas essas coisas com as quais simplesmente não me importo. A Família Soprano, por outro lado, é realmente bem-escrito. Ela tem uma excelente caracterização. Na maior parte, os episódios são incrivelmente bem-dirigidos. Refleti sobre as últimas três temporadas da série, e o padrão tem se mantido maravilhosamente. Desde Twin Peaks, essa é a primeira série americana dramática que tem me agradado. Não que não tenha gostado de Os Simpsons ou South Park, ou alguns desses desenhos animados americanos que são muito, muito bons.


Wizard: Eu nunca associaria você com Os Simpsons ou South Park.

Alan Moore: Oh, bem, nem tudo é trevas e maldição na Mansão Moore [risos]. Acho que Os Simpsons são muito bons porque eles tem mantido um maravilhoso padrão de comédia e arte por muito, muito tempo. E a série é subversiva. As vezes acho que é porque ela tem sido exibida por tanto tempo, que esquecemos o quão subversiva [ela é]. Quanto à South Park, tenho que dizer, tiro o meu chapéu para eles também. Isso é, considerando que ela é principalmente sobre piadas de peido e meio que piadas gay e tudo o mais. Acho que elas estão realmente ampliando os horizontes da televisão americana. Elas tiram suas histórias de todas essas áreas realmente desconfortáveis. Você tem certeza que elas não serão capazes de se safar sem ficarem severamente envergonhadas de si mesmas, mas elas conseguem se safar.


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