O homem direito na calçada esquerda
De Alda Inacio
Crônica publicada em antologia
Classificada no concurso literário "Prêmio BEG de literatura 1994"

Ofereço a todos os colegas do curso de Filosofia
da Universidade Federal de Goiás

O pneu furado pára o carro, enquanto um olhar preguiçoso se alonga e esbarra na rua de uma segunda feira cansada.

O sol mostra os primeiros raios rubros colorindo a cidade que lentamente vai abrindo seus olhos de vitrais e sincronizando seus movimentos naturais.

A rua acordada, aos poucos vai vomitando carros e o olhar preguiçoso fixa-se no vulto que aponta ao longe. É um ponto escuro que se movimenta devagar como o acordar da cidade. Aos poucos a calçada fica larga e engole os passos lentos do vulto-homem.

Como toda rua tem um sentido, toda calçada tem duas mãos. O homem direito anda sobre a calçada esquerda.

De dentro do carro o olho vê que os anos tornaram grisalhos os cabelos que adornam o rosto do homem de camisa suada e triste semblante.

É fato ser o homem direito, observando que direito é o homem carregando a mochila ao ombro. A mochila suja vai sobre o ombro suado e dentro dela a marmita, pela qual ele se move rotinieramente sobre a calçada esquerda.

O conteúdo da marmita não dá ao homem, direito de sair da calçada esquerda e observar o mundo de dentro do carro com pneu furado. Mas, se o homem pudesse escolher, colocaria um penu novo no carro parado e rapidamente chegaria ao prato de filé com fritas.

Os passos do homem levam-no à reta mais próxima do olhar preguiçoso que de dentro do carro observa.

Tais passos dizem que devagar se revezam para protestar contra a falta de um mínimo decente que lhes dariam vigor.

Em linha reta, o olho observa que o cansaço do homem é devido à excessivas caminhadas que ao longo dos anos ele fez sobre a calçada esquerda. As longas caminhadas não desgastaram a calçada mas desbotaram as roupas e os sonhos do homem direito.

O olho observa que o homem, cansado das roupas desbotadas, cansado da marmita mal nutrida e mais cansado ainda pela falta de vigor, pára junto ao meio-fio e vira o rosto suado em direção ao trânsito. O suor do rosto é uma desculpa para esconder uma lágrima que desce pela face sem cor e resvala até a boca, sendo absorvida como último alimento.

O erro como solução vem da parte do homem que estica o passo, saindo da calçada esquerda, em direção ao meio da rua onde um carro se aproxima veloz e… no mesmo instante, o pneu trocado leva o olhar atento para outra direção.

Pelo retrovisor o olhar vê a mochila suada no chão mostrando a marmita amassada entre os grãos de arroz com feijão.

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