Capítulo XXX

"A arte brasileira ornamentando o lixo na Bélgica"


O sorriso no rosto do príncipe revelou a mudança de humor que a carta franco-chinesa foi capaz de proporcionar. Claudete ficou espantada ao ser recebida com um espontâneo agradecimento e de contrapartida recebeu um convite para sair em companhia dele para conhecer novos amigos. Ele dizia que poderia ajudá-la a melhorar o francês e isto deixou Claudete muito empolgada.

No flat à noite ela contou para as amigas tudo o que havia ocorrido e se dispôs a ouvir os comentários.
- Ah ! mas este teu príncipe é um aproveitador de oportunidades, não perdeu tempo, hem ! ! disse Joana rindo da cara séria da amiga Claudete.

-Ai, Joana você não vê que o homem só está querendo ajudar a Claudete ? disse Maria em defesa do pobre homem bem intencionado.

- E claro ! Maria tem razão, eu não vi maldade neste gesto dele ; vocês não vêm que ele não é um homem experiente com mulheres ? A primeira coisa que ele fez foi me dizer que é casado, levando os filhos para que eu visse.

- Sim ! – exclamou Joana, e não usa aliança, o que seria uma economia de tempo para as pobres crianças que ganhariam mais ficando em casa na frente da televisão.

Claudete pegou sua bolsa e saiu porta afora.

Vera saiu atrás dela e encontrou a amiga sentada na escada do prédio chorando. Vera sentou-se ao lado dela e permaneceu em silêncio.

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Nos dias que se seguiram Claudete passou a andar calada fazendo uma profunda reflexão. Ela pensava e repensava sua vida e todos as experiências observada ao longo de seus trinta anos. Não havia vivido muito mas era uma profunda observadora de tudo o que se passava em torno dela. De antemão ela sabia que mais valia a amizade daquele homem que uma aventura vivida com ele que poderia ser uma faca de dois gumes. De um lado poderia não deixar raízes, poderia ser uma aventura rotineira na vida de um homem casado comum, isto é, um homem habituado a dar suas escapadinhas ; de outro lado, o amor dela poderia ser catastrófico na vida de um homem reto, fiel e que na verdade só ofereceu ajuda, sem nenhuma segunda intenção.

Claudete sentiu-se agradecida pela oferta de ajuda mas resolveu dizer não. Verdadeiramente ela não queria correr risco por nada e o risco de uma paixão por um homem casado ela sabia que poderia ser catastrófica. Se necessário fosse sairia do trabalho mas não iria entrar em barco furado.

Logo que pôde vê-lo outra vez agradeceu a oferta e recusou o convite. Após isto, ela sentiu que algo mudara : não o viu mais.Ele desapareceu do escritório nas noites em que a moça fazia a limpeza. Antes um frequentador tão assíduo.

- E as fotografias dos seus quadros? – perguntou-lhe Joana.

- Estão com ele ; creio que logo me devolverá.

- A que conclusão você chegou sobre o que ele queria com o convite para sair ?

- Eu pefiro não dar a minha opinião.

- Amizade não era, ele desapareceu ; doeu o « não » recebido de uma faxineira.

Joana não insistiu. Percebia-se no olhar de Claudete que aquela história doia e a delicadeza da amiga não permitia ir além. Joana calou-se.

Mais de um mês se passou e o príncipe desapareceu e não deu satisfação das fotografias.

Claudete deixou um bilhete sobre a mesa dele pedindo para devolver-lhe as fotos que eram de grande estimação. Não obteve resposta.

Azaral retornou à cena vindo fiscalizar o trabalho, insistente, grosseiro, como se lidasse com cavalos. Até então ele não estava satisfeito com Justo, seu tio. Diante de Claudete chamou o tio de frouxo por não ter conseguido ganhar a moça, e avisou :

-Vou sair de férias para Portugal, vou deixar os dois substituindo meus trabalhos, e olhando para Justo disse a frase que só muito tempo depois Claudete compreenderia :

- Vê se desta vez trabalha direito tio.

Claudete teve que fazer o mês de férias do português ajudando o tio Justo a supervisionar todos os trabalhos. Haviam funcionários de Azaral trabalhando em diversos lugares. Mas se Azaral esperava dar uma última oportunidade ao tio Justo de provar que era homem, para sorte de Claudete, Justo estava apaixonado pela polonesa. Foi um mês que rendeu uma amizade extra para Claudete. Curiosa conhecedora de psicologia ela passou a ser parceira ouvinte dos desabafos amorosos de Justo e da polonesa. Por sua vez Claudete aconselhava Justo em favor da polonesa e este sentia até uma certa felicidade ao ouvir os conselhos da moça dizendo que teve razão em ter gostado dela pois ela é muito inteligente. Santa psicologia, pensava Claudete.

Findo o mês de férias Azaral retornou com a mesma conversa :

- Então Claudete, e você e o tio ?

Claudete repetiu a verdade : somos grandes amigos e nada mais.

Era a gota d’água no copo de Azaral em relação à moça e ao fiasco do tio.

Na noite de quinta feira Azaral apareceu no escritório e foi dizendo :

-Domingo você não virá mais, você está despedida, disse isto a sorrir, enquanto Claudete via todo um temporal se desencadear dentro dela. Azaral saiu, ela ficou para teminar a faxina da noite. A mesa da sala de reunião acolheu as lágrimas de desespero da moça. A razão de todos estarem nesta cidade é o trabalho mas Claudete não se importava com isto naquele instante. Um motivo era a razão única das suas lágrimas: nunca mais ela veria o príncipe dos olhos azuis.

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