Quem construiu o calçamento da Rua da Praia?
(E de outras tantas ruas do Cone Sul...)*
Quem construiu as sete portas de Tebas?
Os livros estão cheios dos nomes dos reis.
Foram os reis que levantaram os pesados blocos de pedra?
(Bertold Brecht).
 
 
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Gráfico 1
Veículos de tração mecânica e animal em Porto Alegre 1918-1939
Fonte: BRASIL, 1940
Embora as descrições do trabalho em pedreiras remetam-nos ao uso de ferramentas tão-somente como extensão do braço humano, há que considerar que algumas vezes tais ferramentas resultam de avanços tecnológicos consideráveis para o início do século XX. Nas pedreiras de Capão do Leão e Morro Redondo (então pertencentes ao município de Pelotas, Rio Grande do Sul) - que, administrados pela Compagnie Française, forneciam material para a construção do Porto de Rio Grande -, inventariaram-se 4 guindastes a vapoor, 14 guindastes elétricos, 2 enxadas a vapor (escavadeiras), 4 eletro-geradores, 2 "grupos pneumáticos" (compressores de ar), 1 motor locomóvel, forjas e máquinas para a reparação de ferramentas, 32 "martelos perfuradores (revolvers)" e "instalação para britar pedras" (RIO GRANDE DO SUL, 1920. p. 158-161). É improvável que houvesse equipamentos dessa natureza em Porto Alegre na mesma época. O granito róseo de Teresópolis não seria utilizado na suntuosa construção do Palácio do Governo (Palácio Piratini) porque a tecnologia existente na capital não era suficiente para "trabalhá-lo senão em pequena escala..." (apud  BITTENCOURT, 1990, p. 139). Ainda em 1918, só foi possível verificar a existência de um guindaste de madeira em determinada pedreira de Porto Alegre (Correio do Povo, 29/6/1918). Semelhante ao trabalho nas pedreiras, a atividade de calçamento poderia prescindir de mecanismos, ainda que o uso de "cilindros" ou "compressores" a gasolina para a preparação do terreno viesse a aumentar o rendimento do trabalho (PORTO ALEGRE, 1916-1917, p. 11).
É fácil verificar que os processos de trabalho nas pedreiras e no calçamento eram diferentes: enquanto canteiros atuavam na mineração, calceteiros atuavam na construção civil. Não obstante, havia pelo menos duas "classes anexas" que poderiam trabalhar tanto em uma como em outra atividade. O já referido concurso dos cavouqueiros (ou "socadores") na extração de pedras não obliterava sua importância na preparação do terreno para a pavimentação, ao passo que os ferreiros, imprescindíveis no "reparo da[s] ferramenta[s]", repará-las-íam em qualquer lugar onde o ferro se encontrasse com a pedra, reduzindo, com isso, o tempo de ociosidade (Processo, fl. 90).
Por entre diferenças, semelhanças e convergências nas atividades de canteiros e calceteiros, é surpreendente que o orgulho do próprio ofício não impeça a emergência de uma identidade solidária entre essas duas profissões. Essa identidade expressa-se em termos como "trabalhadores em pedra" (ou "do ramo da pedra"), ou ainda "trabalhadores do calçamento", divididos entre "trabalhadores das pedreiras" e "trabalhadores da rua" (A Voz do Trabalhador, 17/4/1909; ESTATUTOS, 1916, Art. 1o, § III; El Picapedrero, feb. 1919; A Luta, 31/5/1916). Há mais do que voluntarismo nessas expressões que, de mais a mais, não suprimem clivagens entre canteiros e calceteiros (como se verá ainda neste ensaio): a utilização intensiva de pedras na construção civil de grandes obras públicas era feita por empresas que ganhavam concorrências por oferecer um menor preço, o que se fazia possível se tal empresa controlasse tanto a extração de pedras quanto sua colocação, evitando a oscilação de preços promovida por pequenos empreiteiros de pedreiras devido à súbita demanda. Desse modo, canteiros e calceteiros, por maiores que fossem suas diferenças, não raro eram empregados de um mesmo patrão.
Esse fenômeno ocorreu em Porto Alegre a partir de 1913, quando se iniciou a construção intensiva de esgotos. Como a obra implicava "o revolvimento do solo", a Intendência Municipal aproveitou para trocar o calçamento das ruas em grande escala. Uma grande empreiteira venceria a concorrência pública aberta em 1915, para pavimentar 515.568m2. Tal empresa também obteria a concessão para a exploração de pelo menos duas pedreiras, de modo a baixar o custo de produção do material. Embora empresas de Porto Alegre concorressem, a vencedora proveio do Rio de Janeiro, já tendo feito trabalhos semelhantes também em São Paulo e Salvador. Logo em 1916, a mesma Empresa do Calçamento ganhou a concorrência para a construção de 600m do cais do porto da capital, obra na qual ainda empregaria pedreiros (PORTO ALEGRE, 1896, p. 12; PORTO ALEGRE, 1915. p. 46-48; RIO GRANDE DO SUL, 1916).
É difícil saber exatamente quantos canteiros, calceteiros e oficiais de classes anexas trabalhavam em Porto Alegre, porque há divergências e lacunas nas fontes. O Recenseamento de 1920 é fonte que deve ser usada com cuidado, não só porque os dados foram colhidos em 1919 - quando as obras antes sob responsabilidade da Empresa do Calçamento já haviam sido encampadas pela Intendência Municipal -, como também porque consta que havia 139 trabalhadores em pedreiras na cidade, ainda que o ofício de canteiro estivesse indiscriminado no interior da rubrica "Indústrias de edificação" e inexista, dentro ainda dessa rubrica, o ofício de calceteiro. A imprensa de 1917 fornece dados mais consistentes, devido à qualidade da cobertura jornalística sobre a greve de março daquele ano. Segundo o Correio do Povo, haveria cerca de 600 canteiros e calceteiros em greve, o que corresponderia à "maior parte" dos trabalhadores, mesmo porque "poucos operários não aderiram à greve". Outra fonte ainda nos fala de "más de mil obreros de las canteras", mas é provável que esse elevado número seja devido a problemas com o idioma, pois consta que estariam aí incluídos os pedreiros e carpinteiros da construção do cais que, embora trabalhassem para a mesma Empresa, entraram em greve com outra pauta de reivindicações e outra coordenação. (12)
Mais difícil ainda é tentar verificar a proporção de canteiros, calceteiros, cavouqueiros, encunhadores, etc. que trabalhavam em Porto Alegre. No entanto, é possível estimar algo dessa proporção - assim como idade e nacionalidade desses trabalhadores - a partir da quantificação dos depoimentos colhidos no Processo-crime instaurado em março de 1917.
Para compor a amostragem utilizada, 3 dos 91 depoimentos foram retirados do Processo: 2 pertencentes a funcionários administrativos da Empresa do Calçamento (um guarda-livros e um "encarregado do pessoal") e o depoimento de um caixeiro (ver-se-á mais tarde seu papel na greve). Desse modo, temos uma amostragem de 88 trabalhadores, o equivalente a 14,67% (dos supostos 600) da categoria. Embora creia que essa percentagem seja exagerada, trabalharei com essa possibilidade, de qualquer modo atento a possíveis distorções.
 
Gráfico 2
Nacionalidade declarada dos trabalhadores em pedra em Porto Alegre em 1917 (Total = 78)
 
...as greves têm sido contínuas desde que aqui aportaram, os operários espanhóis e portugueses em busca de serviços, aparecendo no escritório da empresa, conforme a profissão são aceitos e distribuídos. (Processo, fl. 65).
A idade média da amostra é de 28 anos e 8 meses (distribuídos cf. o Gráfico 3): observe-se que 52% dos trabalhadores tem idades entre 21 e 30 anos. O espectro profissional da "base" da categoria é amplo, como se pode ver ainda na Tabela 1. O maior número de profissionais (35) declarou-se "canteiro", embora seja provável que essa fosse a denominação genérica para o conjunto dos trabalhadores em pedreiras, pois apenas três depoentes se declararam "encunhadores" e nenhum declarou-se, por exemplo, "macaqueiro", ainda que as reivindicações salariais da categoria contemplassem essas diferentes tarefas (v. Correio do Povo, 11/6/1916 e A Federação, 24/3/1917). Observe-se ainda que, além dos já citados ferreiros, há referência a outros oficiais (oleiros, marmoristas, pedreiros), cujo aprendizado profissional os permitia exercerem também a cantaria.
Tabela 1
Profissão e nacionalidade/naturalidade declaradas
 
Profissão declarada
Rio Grande do Sul
Total de Brasileiros
Portugueses
Espanhóis
Uruguaios
Outros*
S/registro de nacionalidade
Total
Canteiros
0
2
17
13
1
0
2
35
Calceteiros
4
6
0
2
0
1
2
11
Pedreiros
1
1
1
1
2
0
0
5
Serventes e jornaleiros
5
6
0
2
0
1
1
10
Ferreiros
1
1
2
3
0
0
1
7
Encunhadores
0
0
3
0
0
0
0
3
Marmoristas
0
0
0
1
0
0
0
1
Oleiros
0
0
0
1
0
0
0
1
Mineiros
0
0
0
1
0
0
0
1
Capatazes
0
1
0
1
0
0
0
2
S/declaração 
1
2
5
1
0
0
4
12
Totais
12
19
28
26
3
2
10
88
* Um alemão e um italiano.
 
Gráfico 3
Idades declaradas dos trabalhadores em pedra (Total = 83)
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Acervos Pesquisados
 
Arquivo Histórico do Estado do Rio Grande do Sul (Porto Alegre) Arquivo Histórico Municipal Moisés Vellinho (Porto Alegre)
Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul (Porto Alegre) Biblioteca Central - UFRGS (Porto Alegre)
Biblioteca da Faculdade de Ciências Econômicas - UFRGS (Porto Alegre) Biblioteca Pública Pelotense (Pelotas)
Biblioteca Pública do Estado do Rio Grande do Sul (Porto Alegre) Biblioteca Municipal Josué Guimarães (Porto Alegre)
Museu da Comunicação Social Hipólito José da Costa (Porto Alegre) Fundação de Economia e Estatística (Porto Alegre)
Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul (Porto Alegre) Núcleo de Documentação Histórica - UFRGS (Porto Alegre)
Universidad de la República Oriental del Uruguay (Montevideo) Biblioteca Nacional (Montevideo)
 
Bibliografia e fontes citadas
A GREVE dos trabalhadores do calçamento [Boletim anexo ao Processo].
AREND, Silvia Maria Fávero. Um "olhar" sobre a família popular porto alegrense (1886-1906). Dissertação de mestrado em História-UFRGS, 1994.
AXT, Gunter. Política energética e indústria da energia elétrica no Rio Grande do Sul republicano. Cadernos de Estudo n. 10. Porto Alegre : Curso de Pós-Graduação em História-UFRGS, dez. 1994, p. 74-96
BEZERRA, Gregório. Memórias. Primeira parte: 1900-1945. 3. ed. Rio de Janeiro : Civilização Brasileira, 1980.
BITTENCOURT, Doris Maria Machado de. Os espaços do poder na arquitetura do período positivista do Rio Grande do Sul: o Palácio do Governo. Porto Alegre, dissertação de mestrado em História do Brasil-PUCRS, 1990.
BLANCATO, Vicente S. As forças econômicas do Estado do Rio Grande do Sul no 1o Centenário da Independência do Brasil 1822-1922. Porto Alegre : Globo. s/d.
BRASIL. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Sinopse estatística do Município de Porto Alegre. Comemorativa do Bi-centenário de Porto Alegre. Porto Alegre : Globo, 1940.
BRASIL. Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio. Recenseamento do Brasil - Indústria. Rio de Janeiro : Tipografia da [Diretoria Geral da] Estatística, s/d.
BRASIL. Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio. Recenseamento do Brasil - Salários. Rio de Janeiro : Tipografia da [Diretoria Geral da] Estatística, 1922.
CATTANI, Antonio David. A ação coletiva dos trabalhadores. Porto Alegre : SMCultura/Palmarinca, 1991.
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CHAVES, Antônio José Gonçalves. Memórias ecônomo-políticas sobre a administração pública do Brasil. Porto Alegre : Companhia União de Seguros Gerais, 1978. (ERUS; 1).
D'ELIA, German, MIRALDI, Armando. História del movimiento obrero en el Uruguay. Desde sus orígenes hasta 1930. Montevideo : Banda Oriental, 1986.
ESTADO DO PARANÁ. Secretaria de Estado da Indústria e do Comércio. Minerais do Paraná S.A. Gerência de Fomento e Economia Mineral. Paralelepípedos e alvenaria poliédrica. Manual de utilização. s/l : s/ed., 1983.
ESTATUTOS do Sindicato dos Canteiros e Classes Anexas. Porto Alegre : Typ. Riograndense, [1916]. [Anexo ao Processo].
GITAHY, Maria Lucia Caira. Ventos do mar. Trabalhadores do porto, movimento operário e cultura urbana em Santos, 1889-1914. São Paulo/Santos : Ed. da Universidade Estadual Paulista/ Prefeitura Municipal de Santos, 1992.
HAHNER, June E. Pobreza e política. Os pobres urbanos no Brasil - 1870-1920. Brasília : Ed. UnB, 1993.
HOBSBAWM, Eric J. Revolucionários. Rio de Janeiro : Paz e Terra, 1982.
JARDIM, Jorge Luiz Pastoriza. A imprensa operária no Rio Grande do Sul. Porto Alegre, dissertação de mestrado em História do Brasil, PUCRS, 1990.
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LÓPEZ D'ALESSANDRO, Fernando. Historia de la izquierda uruguaya. La fundación del Partido Comunista y la división del anarquismo (1919-1923). Montevideo : Vintén, 1992.
MAROTTA, Sebastián. El movimiento sindical argentino. Su génesis y desarrollo. 2. ed. Buenos Aires : Libera, 1975.
MAZERON, Gaston Hasslocher. A Igreja do Rosário. Notas para a história de Porto Alegre. Porto Alegre : Globo, 1928. p. 15-17.
MOREIRA, Paulo Roberto Staudt. Entre o deboche e a rapina: os cenários sociais da criminalidade popular em Porto Alegre (1868/1888). Porto Alegre, dissertação de mestrado em História-UFRGS, 1993.
Ofícios encaminhados em março de 1917 ao Superintendente da Empresa do Calçamento em Porto Alegre [Anexos ao Processo, fls. 132, 134, 135, 136, 137].
O Ideal Libertário. Rio de Janeiro : Centro Libertário. s/d. [Anexo ao Processo fls. 38-41].
PASSOS SOBRINHO, Josué Modesto dos. Migrações internas: resistências e conflitos (1872-1920). Cadernos de Estudos Sociais. Recife, vol. 8, n. 2, p. 235-260, jul.-dez. 1992.
PEREIRA, Miguel. Esboço histórico da Brigada Militar do Rio Grande do Sul. 2. ed. Porto Alegre : Livraria Americana, 1950. v. 2.
PERROT, Michelle. O olhar do Outro: os patrões franceses vistos pelos operários (1880-1914). Os excluídos da história. Operários, mulheres e prisioneiros. Rio de Janeiro : Paz e Terra, 1988, p. 81-101.
PETERSEN, Silvia Regina Ferraz. Cruzando fronteiras: as pesquisas regionais e a História operária brasileira. Anos 90. Porto Alegre, n. 3, jun. 1995, p. 129-153.
PORTO ALEGRE. Relatório e projeto de orçamento para o exercício de 1916 apresentado ao Conselho Municipal na sessão ordinária de 1915. Porto Alegre : Oficinas Gráficas d'A Federação, 1915.
PORTO ALEGRE. Relatórios da Diretoria de Obras da Intendência Municipal de Porto Alegre. Anos 1896, 1897, 1914-1915, 1916-1917, 1917-1918, 1918-1919, 1919-1920, 1922-1923, 1924-1925.
Processo-crime n. 1029. Réu: Leopoldo Silva. Maço 67, Estante 29. 1919. Tribunal do Júri.
Processo-crime n. 526. Réu: Paulino Rodrigues da Rosa. Maço 29, Estante 29. 1914. Tribunal do Júri.
Processo-crime n. 856. Réus: Ângelo Cavanellas e outros. Maço 53, Estante 29. 1917. Tribunal do Júri.
RIO GRANDE DO SUL. Secretaria de Estado dos Negócios das Obras Públicas. Relatório da Diretoria da Viação Fluvial. 1916.
RIO GRANDE DO SUL. Transferência ao Estado dos contratos da "Compagnie Française du Port de Rio Grande do Sul". Porto Alegre : Oficinas Gráficas d'A Federação, 1920.
RIO, João do. A Fome Negra. A alma encantadora das ruas. Rio de Janeiro : Secretaria Municipal de Cultura, Departamento Geral de Documentação e Informação Cultural, 1991, p. 113-117.
RODRIGUES, Edgar. Alvorada Operária. Rio de Janeiro : Mundo Livre, 1979.
RODRIGUES, Leôncio Martins. Partidos e Sindicatos. São Paulo : Ática, 1990.
RODRÍGUEZ DÍAZ, Universindo. Los sectores populares en el Uruguay del Novecientos. Primera parte (1907-1911). Montevideo : Compañero, 1989.
SAPRIZA, Graciela. Los caminos de una ilusión. 1913: huelga de mujeres en Juan Lacaze. Montevideo : Fin de Siglo, 1993.
SCHONEBOHM, Dieter. Notas y apuntes. In: SAPRIZA, Graciela. Los caminos de una ilusión. 1913: huelga de mujeres en Juan Lacaze. Montevideo : Fin de Siglo, 1993. p. 109-125.
SCOBIE, James R. El crecimiento de las ciudades latinoamericanas, 1870-1930. In: BETHELL, Leslie (ed.). Historia de América Latina. Barcelona : Crítica, 1991, vol. 7 (Economía y sociedad, c. 1870-1930), p. 202-230.
SHIRLEY, Robert Weaver. Antropologia Jurídica. São Paulo : Saraiva, 1987.
SILVA Jr., Adhemar Lourenço da. "Povo! Trabalhadores!": tumultos e movimento operário. (Estudo centrado em Porto Alegre, 1917). Porto Alegre, dissertação de mestrado em História-UFRGS, 1994.
---. Contribuição a uma "história dos de baixo" do sindicalismo. Estudos Ibero-americanos. Porto Alegre (PUCRS), vol. XXI, n. 1, jul. 1995, p. 61-83.
---. História regional e operariado: o caso da produção recente sobre a Primeira República. Veritas. Vol. 39, n. 154, jun. 1994, p. 272-282.
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ZUBILLAGA, Carlos, BALBIS, Jorge. Historia del movimiento sindical uruguayo. Tomo III: Vida y trabajo de los sectores poulares (hasta 1905). Montevideo : Banda Oriental, 1988.
---. Historia del movimiento sindical uruguayo. Tomo I: Cronologia y fuentes (hasta 1905). Montevideo : Banda Oriental, 1985.
Jornais
 
A Federação, Porto Alegre, 1917 e 1926. A Luta, Pelotas, 1916.
A Luta, Porto Alegre, 1906. A Noite, [Porto Alegre, 19 mar. 1917]. 
A Voz do Trabalhador. Orgam da Confederação Operária Brasileira. Coleção fac-similar de 71 números 1908-1915. São Paulo : Imprensa Oficial do Estado, 1985. Correio do Povo, Porto Alegre, 1916-1918 
Zero Hora, Porto Alegre, 28 abr. 1994.
Correio Mercantil, Pelotas, jan.-jun. 1914. Diário de Notícias, Porto Alegre, 9 ago. 1927. 
Diário Popular, Pelotas, jan.-jun. 1914. Echo do Povo, Porto Alegre, maio 1913-abr. 1914.
El Picapedrero, Montevideo, 1918-1924. La Batalla, Montevideo, 1915-1920.
Notícia, Porto Alegre, 2 abr. 1918. O Diário, Porto Alegre, 1912 e 1917.
O Rebate, Pelotas, 22 ago.-31 dez. 1914. O Syndicalista, Porto Alegre, mar. 1921.
Opinião Pública, Pelotas, jan.-jun. 1914. O Trabalho, Porto Alegre, 13 mar. 1937.
Rebelião, Porto Alegre, 14 mar. 1917. Última Hora, Porto Alegre, 19 mar. 1917. p. 2. 
 
* Este texto mereceu premiação no Concurso Histórias de Trabalho, no ano de 1995, e já foi publicado no livro: D'ANGELO, Ana Lúcia Velinho (org.). Histórias de Trabalho. Versão 1995. Porto Alegre : Unidade Editorial Porto Alegre, 1996, p. 135-154. Parte deste texto retoma pesquisa de minha dissertação de mestrado, financiada pela CAPES e concluída em 1994, mas excede em muito o que fora então escrito, pois se acrescentaram resultados de pesquisa financiada pela FAPERGS e concluída em 1996. Vários colegas contribuiram para esta versão, por suas críticas e indicações de fontes. Com o risco de esquecer alguém, a quem peço desculpas, lembro-me de Ana Frega, Beatriz Loner, Cláudia Mauch, Esther Ruiz, Joan Lamaysou Bak, José Remedi e Rodolfo Porrini.
1 - Os dados sobre o Brasil foram obtidoss em HAHNER, 1993, p. 21. Para Montevideo, D'ELIA, MIRALDI, 1986, p. 29. Observe-se que os dados do Uruguay referem-se a 1908 porque, até a década de 1960, "los uruguayos consideraban que los censos eran una violación de la intimidad", cf. SCOBIE, 1991, p. 208. Para Buenos Aires, os dados foram obtidos no mesmo texto, p. 213-217. Sobre a eletrificação, v. AXT, 1994, p. 74-96 e HAHNER, 1993, p. 168.
2 - El Picapedrero, feb. 1919, p. 4. Ao longo deste ensaio, a Federación Sudamericana de Picapedreros merecerá maior atenção.
3 - Processo-crime n. 856. Réus: &Ângelo Cavanellas e outros. Maço 53, Estante 29. 1917. Tribunal do Júri. A partir de agora essa fonte será referida como Processo.
4 - Sobre padeiros, veja-se: SILVA Jr., 11994, p. 271-276, além dos Processos-crimes n. 526 (Réu: Paulino Rodrigues da Rosa. Maço 29, Estante 29. 1914) e n. 1029 (Réu: Leopoldo Silva. Maço 67, Estante 29. 1919).
5 - CHAVES, 1978, p. 106-107. Dois pesquiisadores que utilizaram processos-crimes da segunda metade do século XIX como fonte de suas dissertações de mestrado, muito embora tenham encontrado pedreiros como réus ou depoentes, também não encontraram nenhum calceteiro: MOREIRA, 1993 e AREND, 1994. Agradeço a ambos pela informação.
6 - PORTO ALEGRE, 1896, p. 12-15 e 1897, p. 17-19. Da mesma forma, o preço de pedras extraídas de pedreiras rio-grandenses para a construção do Palácio Piratini era considerado elevado, a ponto de custar o triplo do calcáreo proveniente da França, segundo relatórios oficiais: BITTENCOURT, 1990, p. 133-134 e 139.
7 - Segundo o jornal governista A Fedeeração (23/10/1926, p. 5), a lenta pavimentação devia-se à "falta de calceteiros e socadores, serviço que exige habilitação do operário".
8 - As descrições a seguir,, tanto do trabalho em pedreiras, como do calçamento, foram obtidas nas seguintes fontes: Egatea. jan.-fev. 1922 e jan.-fev. 1923; ESTADO DO PARANÁ, 1983; PORTO ALEGRE 1914-1915, 1916-1917, 1917-1918, 1918-1919, 1919-1920, 1922-1923, 1924-1925; Correio do Povo, 11/6/1916 e 21/3/1917.
9 - BEZERRA, 1980, p. 192. Outra imagem lliterária do trabalho em pedreiras (também no Rio de Janeiro, na ilha da Conceição), mais dramática por mais prolixa, pode ser vista em RIO, 1991, p. 113-117.
10 - Só encontrei uma referênncia ao trabalho autônomo (Processo, fl. 69), embora se possa supor que fosse (e ainda seja) generalizado. Quanto à remuneração por peça, veja-se A Voz do Trabalhador, 13/1/1909 e 1/1/1915, além de Correio Mercantil, 21/3/1914. Sobre a simultaneidade das diferentes formas de pagamento, veja-se A Voz do Trabalhador, 5/7/1914.
11 - O granituillo teria sido utiliizado pela primeira vez no Brasil na rua General Câmara, cf. PORTO ALEGRE, 1918-1919, p. 12-13. Outras formas de pavimentação, como o concreto com tela metálica (Montevideo), concreto com discos de ferro fundido (Paris) e borracha (Estados Unidos) são discutidos em: PORTO ALEGRE, 1924-1925, p. 3-4.
12 - São estas as várias fonntes citadas: BRASIL, s/d, p. 162-165; BRASIL, 1922. p. 380; Correio do Povo, 13/3/1917; PEREIRA, 1950, p. 536; A Federação, 19/3/1917; La Batalla, 2a quinc. mar. 1917; Correio do Povo, 15/3/1917 respectivamente.
13 - Para o tema da migraçãoo interna, v. PASSOS SOBRINHO, 1992 e PETERSEN, 1995, p. 137-142. Os depoimentos foram extraídos do Processo, fls. 17-19 e 87-90. Sobre Felipe Prieto fora de Porto Alegre, v.: La Batalla, 30/6 e 10/1/1918; El Picapedrero, ago. 1919.
14 - D'ELIA, MIRALDI, 1986, p. 127; La Batalla, 1a quinc. nov. 1916; El Picapedrero, abr. 1919; A Luta, 29/9 e 10/10/1906.
15 - Respectivamente: La Batalla, 11a quinc. jul. 1915; El Picapedrero, abr. 1919; MAROTTA, 1975, p. 501; Opinião Pública, 4/4/1914. Sobre a migração Portugal-Rio de Janeiro, veja-se: A Voz do Trabalhador, 1/6, 1/9 e 1/11/1913, p. 4; sobre Rio de Janeiro-Tandil, veja-se A Voz do Trabalhador, 17/4/1909. Outros exemplos desse fluxo migratório serão vistos ao longo deste ensaio.
16 - PORTO ALEGRE, 1896, p. 13-14; SCHONEBBOHM, 1993. p. 116. A ferrovia entre Pelotas e Rio Grande era de propriedade da Compagnie Auxiliaire (belga). A Compagnie Française também era proprietária de 442 vagões ou vagonetes para o transporte das pedras, cf. RIO GRANDE DO SUL, 1920, p. 52 e 158. Sobre Tandil e Porto Alegre, v. El Picapedrero, mar. 1919 e Processo, fls. 92 e 94.
17 - "Os imigrantes que percebiam problemaas (...) freqüentemente procuravam soluções mudando de emprego ou de uma região para outra, ou mesmo retornando para a Europa, em vez de através da ação coletiva." HAHNER, 1992, p. 252.
18 - A Luta, 31/5/1916; Correio do Povo, 17/7/1917; ZUBILLAGA, BALBIS, 1988, p. 106; MAROTTA, 1975, p. 371 e 499; O Diário, 20/3/1917; Opinião Pública, 11/4/1914; A GREVE dos trabalhadores do calçamento [Boletim anexo ao Processo]; Correio do Povo, 20/3/1917; Processo, fls. 58, 60 e 69.
19 - O Diário, 25/1/1912; A Voz do Trabalhador, 1/121913 e 6/12/1908, p. 3; El Picapedrero, mar. 1919 e nov. 1918.
20 - A Voz do Trabalhador, 1/7/1913; ESTATUTOS do Sindicato dos Canteiros e Classes Anexas. op. cit. [Anexo ao Processo]; SINDICATO dos Canteiros e Classes Anexas. Boicote à pedreira de Rodolpho River. Porto Alegre, 12 fev. 1917. [Anexo ao Processo, fl. 56]. Muitas dessas expressões, inclusive "uma série de termos emprestados ao bestiário" encontram paralelo na imagem do "patrão vampiro", uma imagem do patrão pelo operário francês na passagem do século XIX para o XX. Note-se entretanto que o tema das acusações analisadas por Michelle PERROT (1988, p. 81-101) refere-se mais às relações de conflito econômico entre patrão e empregado e não a denúncias de confronto físico entre um e outro.
21 - A Voz do Trabalhador, 5/7/19144; El Picapedrero, ene. 1919. É interessante observar que Marcelino Ramos já era patrão em 1908, ao passo que Antonio Barão ainda era empregado e este último não desconhecia que o primeiro "como patrão que é não pode deixar de proceder como os seus colegas, ladrões e farsantes na sua maioria". A Voz do Trabalhador, 6/12/1908.
22 - A Voz do Trabalhador, 29/11/19908. O artigo é de autoria de Antonio Barão.
23 - O Diário, 20/3/1917; Rebelião, 14/3/1917;Correio do Povo, 11/6/1916; Processo, fls. 208-209; Correio Mercantil, 24/1/1914; Diário Popular, 4/3/1914.
24 - Encontrei um único caso de ameeça de violência ao patronato - na forma do denominado pistolerismo -, em La Paz (Uruguay), em 1919. Como o patronato estava elaborando listas negras, o Sindicato ameaçou-os "con poner en práctica la justícia catalana...": El Picapedrero, nov. 1919.
25 - Para o Rio de Janeiro, v. A Voz doo Trabalhador, 15/8/1908. Em Porto Alegre, o termo ocorre quando, em 19 de março de 1917, o 2o Secretário do Sindicato, Saturnino Sandoval acertou uma cacetada na cabeça de Antonio Fabrete, xingando-o de "carneiro sem-vergonha" (Processo, fl. 9). O termo estaria também implícito na ameaça feita a Carlos Bento de Lima, na mesma data, quando se dirigia às obras do calçamento: "que não trabalhasse, senão lhe cortariam o pescoço." (Processo, fl. 13). A ocorrência do termo "carneiro/carnero" é abundante no Uruguay e a própria lista de expressões seria interminável. Os exemplos citados provém dos seguintes exemplares do El Picapedrero (feb., abr. e oct. 1919). Outras expressões também ocorrem nesse jornal: "elementos corrompidos" (nov. 20) e "petiso gordo con cara de idiota" (abr. 1919).
26 - Refiro-me ao conceito de "sindicato dde minorias militantes", cf. SIMÃO, 1966. p. 226-228.
27 - Processo, fl. 85. També;m poderia ser investigado o fato de que a média de idade dos não-sindicalizados ser inferior ao do total da amostra (24 contra 28 anos), denunciando o processo de sindicalização como parte do aprendizado (ou da tradição) do ofício. Ressalvadas as incontáveis diferenças envolvendo tempo, espaço, processo de trabalho e origem, tais dados sobre sindicalização seriam semelhantes aos apresentados pela pesquisa de Leôncio Martins RODRIGUES (1990, p. 136 e ss.)
28 - SINDICATO dos Canteiros e Classes Aneexas. Boicote à pedreira de Rodolpho River. 12/1/1917; El Picapedrero, feb. 1920.
29 - Embora me refira aos boicotes a patr&ões, também os carneiros eram boicotados, seja por meio do não-fornecimento de "passes", seja pela divulgação de seus nomes e descrições, como por exemplo: "petiso gordo con cara de idota", "los dos portugueses", etc. El Picapedrero, abr. 1919 e sep. 1920.
30 - Refiro-me, por exemplo, à "mollhadura" dos tanoeiros, que distinguia os "oficiais" dos apenas "habilidosos no ofício", cf. KLEIN, 1984, p. 78-79.
31 - "8o-Todo empresario que tuuviera obrero incompetente, y (...) lo quiera suspender, deberá participarlo a la Comisión Administrativa para que esta averigue si es o no cierto." El Picapedrero, 31/12/1919
32 - Os primeiros exemplos provém ddos ofícios encaminhados em março de 1917 ao Superintendente da Empresa do Calçamento em Porto Alegre (Anexos ao Processo, fls. 132, 134, 135, 136, 137). O último está na transcrição de ofício existente em El Picapedrero, mar. 1919, p. 4. A expressão "envio de ofícios polidos" pertence a GITAHY, 1992. p. 157 nota 79.
33 - Sobre a impropriedade do uso do termoo "anarco-sindicalismo" para a militância anterior a meados de 1920, veja-se SILVA Jr., 1993 e 1995a
34 - Refiro-me ao livreto apreendido em Poorto Alegre: O Ideal Libertário. Rio de Janeiro : Centro Libertário, s/d. [Anexo ao Processo... fls. 38-41]. O texto do livreto foi transcrito em A Federação, 24/3/1917. Trechos teriam sido lidos por Rui Barbosa em sessão do Senado, cf. A Luta, 31/7/1916. O texto também foi publicado em Montevideo: La Batalla, 20/5/1918.
35 - "Afinal, ao nível do militantee (...), as diferenças doutrinárias ou programáticas (...) são geralmente muito irreais e podem ter pouca importância (...). Assim se compreende que a transferência da liderança do sindicato dos trabalhadores do tabaco de Cuba das mãos dos anarco-sindicalistas para as dos comunistas não tenha introduzido qualquer modificação substancial nem em suas atividades sindicais, nem na atitude de seus membros e militantes." HOBSBAWM, 1982, p. 72 e 75.
36 - O Sindicato do Rio de Janeiro enviou carta, "la cual no publicamos debido a la poca práctica del idioma" (El Picapedrero, abr. 1919). Com relação ao jornal dos trabalhadores em pedra de Porto Alegre, Rebelião, foi enviada uma nota: "mande sólo dos ejemplares porque aqui hay muy pocos que saben leer en portugués." (La Batalla, 2a quinc. mar. 1917).
37 - Sobre a rotatividade no secretariado das assembléias: "[o sindicato] é presidido por qualquer operário aclamado na sessão (...), tendo sempre assim outro presidente, não havendo portanto responsáveis"; ou então "é provável que o sindicato tenha um presidente que o declarante não conhece" (Processo, fls. 84 e 95-96).