TRADEWINDS

QUEM SOU EU?
"As flores que um amante de Deus colheu em seu jardim de rosas e que quis dividir com seus amigos subjugaram de tal forma sua mente por sua fragância, que caíram do seu regaço e murcharam". Poesia Sufi
"QUEM SOU EU?"

Essentuki, cerca de 1918

Ao abordar diversos assuntos, notei o quanto é difícil comunicar sua própria compreensão a uma pessoa que você conheça bem, embora seja a respeito do assunto mais corriqueiro. Nossa linguagem é pobre demais para uma descrição exata e completa. E descobri que essa falta de compreensão entre um homem e outro é um fenômeno matematicamente ordenado, tão preciso quanto a tabuada de multiplicação. De modo geral, a compreensão depende do que se denomina a "psique" dos interlocutores e, de modo mais particular, do estado dessa "psique" no momento dado.

Pode-se verificar a cada passo a exatidão dessa lei. Para ser com preendido por outro homem, não basta que o que fala saiba como falar; é necessário também que aquele que ouve saiba como escutar. Por esse motivo, posso dizer que, se me pusesse a falar da maneira que considero exata, todos os que aqui estão, quase sem exceção, pensariam que estou louco. Mas como nesse momento, devo falar a meu auditório tal como ele é, e como esse auditório deve me escutar, é preciso que, antes de tudo, estabeleçamos as bases de uma compreensão comum.

Durante nossa conversa, deveremos fixar certos pontos de referência para que ela seja eficaz. Tudo que queria propor agora a vocês é que tentassem olhar as coisas, os fenômenos que os cercam e especialmente a si mesmos de um ponto de vista diferente do que lhes é habitual ou natural. Tentar olhar apenas, porque fazer mais só é possível com a vontade e a cooperação do ouvinte, quando ele pára de escutar passivamente e começa a FAZER, quer dizer, quando entra num estado ativo.

Em uma conversa encontramos, com muita freqëncia, expressa mais ou menos abertamente, a idéia de que o homem, tal como o encontramos na vida comum, seria de alguma forma o centro do Universo, a "coroa da criação", ou pelo menos, uma vasta e importante entidade; que suas possibilidades são quase ilimitadas, seu poderes quase infinitos. Esse ponto de vista, entretanto, comporta em si mesmo certo número de restrições. Diz-se que para isso, é preciso condições excepcionais, circunstâncias especiais, a inspiração, a revelação e assim por diante.

No entanto, se estudarmos essa concepção do homem, veremos de ime diato que ela é feita de um conjunto de traços que não pertencem a um único homem, mas a certo número de indivíduos reais ou imaginários. Jamais encontramos tal homem na vida real, nem no presente nem como personagem histórico no passado, porque todo homem tem suas próprias fraquezas e, se você olhar mais de perto, a miragem de grandeza e de potência se desintegra.

Aliás, o mais interessante não é que as pessoas revistam as outras com essa miragem, mas que, devido a um traço particular de seu psiquismo, a transfiram para si mesmas, se não na totalidade, ao menos em parte, como um reflexo. De modo que, embora sendo nulidades ou quase isso, imaginam que correspondem a esse tipo coletivo ou que não se afastam muito dele.

Mas, se um homem sabe como ser sincero em relação a si mesmo - não sincero como a palavra é compreendida habitualmente, mas impiedosamente sincero -, então não contará com uma resposta tranqüilizadora à pergunta "Quem é você?". Em conseqüência, sem esperar que tenham se aproximado por si mesmos da experiência de que falo, e para que compreendam melhor o que quero dizer, sugiro que cada um faça a si mesmo a pergunta: "Quemsou eu?". Estou certo de que noventa e cinco por cento de vocês ficarão perturbados e responderão com outra pergunta: "O que é que o Sr. quer dizer?".

Isso prova que um homem viveu toda sua vida sem se fazer essa per gunta e considera perfeitamente normal que ele seja "algo", e até mesmo algo muito precioso, algo que jamais pôs em dúvida. Ao mesmo tempo, é incapaz de explicar a outra pessoas o que esse algo é, incapaz de dar a menor idéia desse algo, porque ele próprio não o sabe. E se não o sabe, não será simplesmente porque esse "algo" não existe, mas apenas se supõe existir? Não é estranho que as pessoas dêem tão pouca atenção a si mesmas, ao conhecimento de si mesmas? Não é estranho que fechem os olhos, com tão tola complacência, ao que realmente são, e passem a vida na agradável convicção de que representam algo de precioso? Esquecem de ver o vazio insuportável por trás da soberba fachada criada por seu auto-engano e não se dão conta de que essa fachada só tem valor puramente convencional.

Na verdade, não é sempre assim. Nem todo mundo se olha tão superficialmente. Há homens que buscam, que têm sede da verdade do coração e se esforçam para encontrá-la, que tentam resolver os problemas colocados pela vida, alcançar a essência das coisas e dos fenômenos e penetrar em si mesmos. Se um homem raciocina e pensa judiciosamente, qualquer que seja o caminho que siga para resolver seus problemas, deve inevitavelmente voltar-se para si e começar por resolver o problema do que ele próprio é, de seu lugar no mundo que o cerca, pois, sem esse conhecimento, não terá centro de gravidade em sua busca. As palavras de Sócrates:"Conhece-te a ti mesmo" permanecem o lema de todos os que buscam o verdadeiro conhecimento e o ser.

Acabo de utilizar uma nova palavra: o "ser". Para nos assegurar de que todos compreendemos a mesma coisa por essa palavra, devo dar algumas explicações.

Acabamos de nos perguntar se o que um homem pensa de si mesmo cor responde ao que ele é na realidade e vocês se interrogaram sobre o que são. Eis aqui um médico, um engenheiro, um pintor. São realmente o que pensamos que são? Podemos considerar que a personalidade de cada uma se confunde com sua profissão, com a experiência que essa profissão ou sua preparação lhe deu?

Todo homem vem ao mundo igual a uma folha de papel em branco, mas as pessoas e as circunstâncias que o cercam disputam para ver quem melhor sujará essa folha e a cobrirá de inscrições de toda a espécie. A educação, as lições de moral, o saber que denominamos conhecimento, intervêm - todos os sentimentos de dever, de honra, de consciência, etc. E todos proclamam o caráter imutável e infalível dos métodos de que se servem para enxertar esses galhos na árvore da "personalidade" do homem. Aos poucos a folha vai ficando suja, e quanto mais suja por pretensos "conhecimentos", mais o homem é considerado inteligente. Quanto mais inscrições no lugar denominado "dever", mais o possuidor é considerado honesto. E a folha assim suja, vendo que se toma sua sujeira por mérito, a considera como preciosa. Aí está um exemplo do que designamos pelo nome de "homem", acrescentando-lhe até com freqüencia, palavras como "talento" e "gênio". No entanto, nosso "gênio" verá seu humor estragado para o resto do dia, se não achar seus chinelos ao lado da cama ao acordar de manhã.

O homem não é livre nem em suas manifestações nem em sua vida. Não pode ser o que gostaria de ser nem mesmo o que acredita ser. Não se parece com a imagem que faz de si mesmo e as palavras "homem coroa da criação" não se aplicam a ele.

"Homem" - isso soa altivamente, mas devemos nos perguntar de que espécie de homem se trata. Não certamente do homem que se irrita com ninharias, que dá atenção a questões mesquinhas e se deixa envolver por tudo que o cerca. Para ter o direito de se chamar homem, é necessário ser um homem e "ser um homem" só é possível graças ao conhecimento de si e ao trabalho sobre si, nas direções que esse conhecimento de si revela.

Vocês tentaram algum dia ver o que se passa em vocês quando sua atenção não está concentrada num problema definido? Suponho que para a maior parte de vocês esse é um estado muito habitual, ainda que uns poucos, sem dúvida, o tenham sistematicamente observado. Talvez se dêem conta de como o nosso pensamento procede por associações fortuitas, quando ele faz desfilar cenas e lembranças sem ligação, quando tudo que cai no campo de nossa consciência ou simplesmente a toca de leve suscitaem nós essas associações fortuitas. O fio dos pensamentos parece se desenrolar sem interrupção, tecendo entre si fragmentos de imagens de percepções anteriores, tiradas de diversos registros armazenados em nossa memória. E, enquanto esses registros rodam e se desenrolam, nosso aparelho formatório urde sem cessar, com esse material, a trama dos pensamentos. Os registros de nossas emoções desfilam da mesma maneira - agradáveis e desagradáveis, alegria e tristeza, riso e irritação, prazer e dor, simpatia e antipatia. Alguém o elogia e você fica contente; alguém o repreende e seu humor se deteriora. Qualquer coisa nova o atrai e você esquece imediatamente aquilo que o interessava tanto um instante atrás. Em breve o seu interesse o prende a essa coisa nova a ponto de você mergulhar nela da cabeça aos pés; e, de repente, não a possui mais, você desapareceu, você está ligado a essa coisa, dissolvido nela; de fato, é ela que o possui, que o mantém cativo, e essa alienação, essa propensão a se deixar cativar é, sob múltiplas formas, a característica de cada um de nós. É isso que nos prende e nos impede de sermos livres. Além do mais, isso rouba nossa força e nosso tempo, nos tira toda possibilidade de ser objetivos e livres - duas qualidades essenciais para quem decide seguir o caminho do conhecimento de si.

Devemos lutar para nos tornar livres, se quisermos lutar para nos conhecer. Conhecer-se e se desenvolver é uma tarefa de tal importância e seriedade, exigindo tal intensidade de esforço, que tentá-la da maneira habitual, entre outras coisas, é impossível. O homem que empreende essa tarefa deve dar-lhe o primeiro lugar em sua vida, que não é tão longa que ele possa se permitir desperdiçá-la em futilidades.

O que tornará o homem capaz de consagrar utilmente seu tempo à sua busca, senão a liberdade em relação a qualquer apego?

Liberdade e seriedade. Não essa seriedade de sobrancelha franzidas, lábios cerrados, gestos cuidadosamente medidos, palavras filtradas entre os dentes, mas a seriedade que significa determinação e persistência na busca, intensidade e constância, de modo que, mesmo nos momentos de repouso, o homem prossegue com sua tarefa principal.

Façam a si mesmos a pergunta: São livres? Muitos serão tentados a responder que "sim", se estiverem num estado de relativa segurança material, sem preocupação com o amanhã e se não dependerem de ninguém para sua subsistência ou para a escolha de suas condições de vida, Mas a liberdade está aí? É somente uma questão de condições externas?

Você tem muito dinheiro, vive no luxo e goza do respeito e da estima geral. À frente das importantes empresas que controla estão homens capazes, que lhe são inteiramente devotados. Em suma, sua vida é um verdadeiro mar de rosas. Você se considera totalmente livre, porque, no final das contas, seu tempo lhe pertence. Você patrocina as artes, resolve os problemas mundiais diante de uma xícara de café e se interessa pelo desenvolvimento dos poderes espirituais ocultos. As coisas do espírito não lhe são estranhas e você se sente à vontade diante de qualquer questão filosófica. É bem educado e instruído. Graças a seus conhecimentos nos mais variados domínios, tem a reputação de ser um homem inteligente, hábil para resolver qualquer problema. Você é o modelo do homem culto. Em resumo, pode-se invejá-lo.

Esta manhã você acordou sob a influência de um sonho desagradável. Esse ligeiro mal-estar desapareceu rapidamente, mas deixou seu traço: uma espécie de lassidão, de hesitação nos gestos. Você se dirige ao espelho para se pentear e, por descuido, deixa cair a escova. Mal acaba de pegá-la, ela escapa de novo. Você a apanha então com ligeira impaciência; ela foge de suas mãos pela terceira vez. Você tenta pegá-la no ar, mas em vez disso, ela vai bater no espelho. Em vão tenta agarrá-la. Craque!...Eis um feixe e estrelas sobre o espelho antigo de que você se orgulha tanto. Diabo! Os discos do descontentamento começam a se mover. Você sente a necessidade de descarregar sua irritação em alguém. Descobrindo que seu empregado se esqueceu de pôr o jornal sobre a mesa do café da manhã, você perde a paciência e decide que tal malandro não pode permanecer mais tempo em sua casa.

Agora está na hora de sair. Como o dia é bonito e você não precisa ir muito longe, decide ir a pé, enquanto seu carro o segue lentamente. O belo sol produz em você efeito apaziguador. Uma pequena multidão que se formou na esquina da rua atrai sua atenção. Você se aproxima e descobre um homem caído na calçada, inconsciente. Com a ajuda dos transeuntes, alguém o coloca num táxi e o leva para o hospital. Note como o rosto estranhamente familiar do chofer de táxi se liga em suas associações ao acidente que lhe ocorreu no ano passado.

Você voltava para casa depois de ter festejado alegremente um aniversário. Como os doces estavam deliciosos! Esse danado do seu empregado que esqueceu seu jornal da manhã estragou o seu café matinal. Essa desgraça não poderia ser reparada? Afinal de contas, os doces e o café têm sua importãncia! Aqui está justamente o famoso café onde você se encontra às vezes com seus amigos. Mas por que você se lembrou daquele acidente? Você quase havia esquecido os aborrecimento da manhã...E agora o bolo e o café têm realmente um gosto tão bom?

Olhe só! Duas moças na mesa vizinha. Que loura espetacular! Ela lança um olhar para você e sussura para a companheira:"Ele é o meu tipo". Certamente nenhum de seus aborrecimentos merece mais a sua atenção ou a sua contrariedade por causa dele. Será que você notou a mudança do seu humor enquanto conhecia essa bela loura e como ele se manteve o tempo todo que passou com ela? Você voltou para casa cantarolando e até o espelho quebrado só tirou de você um sorriso. Mas...e o negócio para o qual você saiu essa manhã? Você acaba justamente de se lembrar...Não importa!...Afinal, sempre se pode telefonar.

Você tira o fone do gancho, mas a telefonista liga um número errado. Faz uma segunda ligação e o erro se repete. Um homem lhe diz grosseiramente que você o está aborrecendo; você responde que nada tem a ver com isso; segue-se uma discussão e você fica sabendo com surpresa que é um grosseirão, um idiota e que se ligar outra vez...

Um tapete que ficou preso em seus pés o exaspera; é preciso ouvir em que tom você repreende o empregado que lhe traz uma carta. Ela foi enviada por um homem que você estima e cuja opinião é importante para você. O conteúdo da mensagem é tão lisongeiro que a sua irritação aos poucos se dissipa, dando lugar a esse delicioso sentimento de embaraço que a lisonja provoca. É com o mais agradável humor que você termina a leitura.

Eu poderia continuar descrevendo dessa maneira o seu dia - ó homem livre! Pensa por acaso que exagero? Não, trata-se de uma série de instantâneos tomados ao vivo.

Esse é um dia na vida de um homem importante e até de renome internacional, um dia reconstituído e descrito por ele, na mesma noite, como exemplo vivo de pensamentos e sentimentos associativos.

Onde está então a liberdade, quando as pessoas e as coisas se apoderam de um homem a ponto de fazê-lo se esquecer de seu humor, de seus negócios e de si mesmo? Pode um homem sujeito a tais mudanças ter, por pouco que seja, uma atitude séria em relação a sua busca?

Agora vocês podem compreender melhor que um homem não é necessariamente o que parece ser e que o que importa não são os fatos exteriores nem a situação, mas a estrutura interna do homem e a sua atitude em relação a esses fatos.

Será que tudo que acabamos de dizer é verdadeiro apenas para as associações que o atravessam? Será que a situação é diferente em relação àquilo que ele "conhece"?

Mas pergunto-lhes: se, por qualquer razão, cada um de vocês esti- vesse, durante vários anos, na impossibilidade de pôr em prática seus conhecimentos, que restaria deles? Quem sabe, nada mais do que materiais que se evaporam e ressecam com o tempo? Lembrem-se da folha de papel em branco. É fato que durante nossa vida, aprendemos sem cessar coisas novas. Chamamos "conhecimentos" os resultados dessa acumulação. Mas apesar desses conhecimentos , não nos mostramos com freqüência afastados da vida real e, portanto, mal adaptados a ela? Somos formados pela metade, como girinos, ou, mais ainda, simplesmente "instruídos", quer dizer, tendo fragmentos de informação sobre muitas coisas. Mas tudo isso permanece vago e inadequado. E, com efeito, não passam de informações: não podemos chamar isso de "conhecimento". O conhecimento é propriedade inalienável de um homem; não pode ser maior nem menor do que ele, porque um homem só "conhece", quando ele próprio "é" esse conhecimento.

Quanto às suas convicções, vocês nunca as viram mudar? Como tudo que está em nós, também elas não estão sujeitas a flutuações? Não seria mais correto chamá-las de opiniões em vez de convicções, uma vez que dependem de nosso humor tanto quanto de nossa informação ou talvez simplesmente do estado de nossa digestão naquele momento?

Cada um de vocês não passa de um mero exemplar de autômato animado. Vocês pensam que é necessária uma "alma" e até um "espírito" para fazerem o que fazem e viverem como vivem. No entanto, talvez baste uma chave para dar corda ao seu mecanismo. Suas rações de alimento quotidiano contribuem para dar corda à mola e para renovar continuamente as piruetas vãs de suas associações. Certos pensamentos desalinhavados surgem desse pano de fundo e vocês tentam fazer deles um todo, apresentando-os como preciosos e pessoais. Da mesma forma, com os sentimentos e as sensações que passam, os humores, as experiências vividas, criamos a miragem de uma vida interior. Dizemos que somos seres consciente, capazes de raciocínio; falamos de Deus, da eternidade, da vida eterna e de outros assuntos elevados; falamos de tudo que se possa imaginar; julgamos, discutimos, definimos e apreciamos, mas omitimos falar de nós mesmos e de nosso real valor objetivo, pois estamos todos convencidos de que se nos falta alguma coisa, podemos certamente adquirí-la.

Se, com tudo que eu disse, conseguí, mesmo em pequena medida, mos trar com clareza em que caos vive esse ser que chamamos homem, vocês estarão em condições de encontrar por si mesmos uma resposta à pergunta sobre o que falta a ele, o que ele pode esperar se permanecer como é, o que poderá acrescentar de legítimo ao valor que ele próprio representa.

Já disse que certos homens têm fome e sede de verdade. Se eles re fletirem sobre os problemas da vida e forem sinceros consigo mesmos, logo se convencerão de que não lhes é mais possível viver como viveram, nem ser o que foram até o presente; que precisam a qualquer preço encontrar uma saída para essa situação e que um homem só pode desenvolver seus poderes e capacidades ocultos se limpar a sua máquina de todas as sujeiras que nela se encoscoraram durante a sua vida. Para empreender essa limpeza de maneira racional, é preciso ver o que deve ser limpo e como. Mas ver isso por si mesmo é quase impossivel. Para ver seja o que for dessa espécie, deve-se olhar do exterior; e, para isso, a ajuda mútua é indispensável.

Se se lembrarem do exemplo de identificação que dei, verão como um homem é cego, quando se identifica com seus humores, seus sentimentos e seus pensamentos. Mas nossa dependência se limitará às coisas que podem ser captadas no primeiro instante? Àquelas que são tão salientes que não possam deixar de chamar a atenção? Lembram-se do que dissemos sobre a maneira como julgamos o caráter das pessoas, dividindo-as de modo arbitrário em boas e más? À medida que um homem começa a se conhecer, desco- bre sempre novos domínios de mecanicidade em si mesmo - chamemos isso de automatismo - domínios onde sua vontade, seu "eu quero", não tem nenhum poder e onde tudo é tão confuso e sutil, que é impossível ele se achar dentro dessa confusão, sem ser ajudado e guiado pela autoridade de alguém que sabe.

Em suma, este é o estado de coisas no que se refere ao conhecimento de si mesmo: para fazer, é preciso saber - mas para saber é preciso descobrir como saber; isso não podemos descobrir sozinhos.

Há, porém, um outro aspecto da busca: o desenvolvimento de si. Ve jamos um pouco como as coisas se apresentam nesse campo. É evidente que, entregue a si mesmo, um homem não pode aprender por dá cá aquela palha como se desenvolver a si mesmo e muito menos aquilo que precisamente deve desenvolver.

Entretanto, pouco a pouco, ao encontrar pessoas que buscam, falan do com elas, lendo livros sobre o desenvolvimento de si, ele é atraído para a esfera dessas questões.

Mas o que vai encontrar aí? Primeiro um abismo de charlatanice de savergonhada, baseada inteiramente na avidez, no desejo de dar-se um vida fácil mistificando as pessoas crédulas que procuram sair de sua impotência espiritual. Antes que tenha aprendido a separar o joio do trigo, passará muito tempo, durante o qual o seu desejo de descobrir a verdade corre o risco de vacilar e se extinguir, ou se perverter. Privado do seu faro, pode então se deixar levar a um labirinto que desemboca diretamente nos cornos do diabo. Se ele conseguir escapar desse primeiro atoleiro, o homem corre o risco de cair num novo pântano, o do pseudoconhecimento.

A verdade lhe será servida de forma tão vaga e indigesta, que pro duzirá a impressão de um delírio patológico. Indicarão a ele a maneira de desenvolver poderes e capacidades ocultos que - lhe são prometidos, com a condição de que se for perseverante - lhe darão, sem muito trabalho, o poder e o domínio sobre tudo, tanto sobre as criaturas animadas quanto sobre a matéria inerte e os elementos. Todos esses sistemas, baseados nas mais diversas teorias, são extraordinariamente sedutores, sem dúvida devido a seu caráter vago. Atraem de modo muito especial as pessoas "semi-educadas", parcialmente instruídas em matéria de conheci- mento positivo.

Considerando que a maioria das questões estudadas do ponto de vista das teorias ocultas ou esotéricas ultrapassam os limites das noções acessíveis à ciência moderna, essas teorias consideram essa última com ares de superioridade. De tal forma que, embora rendendo justiça a ciênci positiva, minimizam, por outro lado, a sua importância e deixam entender que a ciência é um fracasso e bem pior ainda.

Portanto, para que ir à universidade e se esgotar com os manuais oficiais, se teorias dessa espécie permitem desdenhar todos os outros saberes e se pronunciar, sem apelação, sobre todas as questões científicas?

Há, no entanto, uma coisa importante que o estudo dessas teorias não dá: menos ainda do que a própria ciência, ele não dá origem à objetividade em matéria de conhecimento. Ele tende a obscurecer o cérebro do homem e a diminuir a sua capacidade de raciocinar e pensar de maneira sã, conduzindo-o dessa forma à psicopatia. Tal é o efeito dessas teorias sobre o homem semi-educado, que as toma por autênticas revelações. Aliás, a sua ação não é muito diferente sobre os próprios cientistas, que podem ter sido tocados, mesmo levemente, pelo veneno da insatisfação com as coisas tais como existem.

Nossa máquina de pensar tem a propriedade de ser persuadida de tudo que vocês quiserem, quando é influenciada, por pouco que seja, de maneira repetida e persistente na direção desejada. Uma coisa que pode parecer absurda no começo, acabará por parecer racional à medida que é repetida com insistência e convicção suficientes. Certo tipo de homem repetirá frases feitas que lhe permaneceram no espírito, outro irá procurar provas e paradoxos sofisticados para justificar suas afirmativas. Ambos são igualmente lamentáveis. Todas essas teorias enunciam afirmações que, tais como os dogmas, não podem ser verificadas - pelo menos através dos meios de que dispomos.

São então sugeridos certos meios e métodos de desenvolvimento de si, que se supõe conduzam a um estado no qual essas afirmações possam ser verificadas. Em princípio, não haveria nada a censurar nisso. Mas, de fato, a prática prolongada desses métodos põe o pesquisador exageradamente zeloso em risco de ser levado a resultados muito indesejáveis. Um homem que adere às teorias ocultas e que acredita ser dotado nesse domínio será incapaz de resistir à tentação de pôr em prática os métodos que estudou, isto é, passará da teoria à ação. Talvez aja com circunspecção, evitando os métodos que, a seu critério, contenham riscos, e escolhendo os meios mais seguros e autênticos. Talvez os examine com o maior cuidado. No entanto, a tentação que sentirá de empregá-los, a insistência do seu ambiente sobre a necessidade de que faça uso deles, sobre a natureza miraculosa dos seus resultados, enquanto os aspectos danosos são cuidadosamente dissimulados, tudo isso o levará a experimentá-los.

Talvez que, experimentando-os, descubra métodos inofensivos para si. Talvez até tire daí um benefício. Mas, geralmente, os métodos de desenvolvimento de si que se propõem para serem experimentados, quer como meios, quer como fins, são contraditórios e incompreensíveis. Como são aplicados a uma máquina tão complexa e tão mal conhecida como o organismo humano e, ao mesmo tempo, a esse aspecto de nossa vida intima- mente ligado a ele e que chamamos o nosso psiquismo, o menor erro de aplicação, o menor descuido, o menor excesso de pressão, podem causar danos irreparáveis à máquina. Feliz daquele que escapar quase ileso de tal enrascada!

Infelizmente, a maior parte dos que se dedicam ao esenvolvimento dos poderes e faculdades espirituais terminam a carreira num asilo de alienados, ou arruínam a saúde e o psiquismo a ponto de se verem reduzidos a enfermos, incapazes de se adaptarem à vida. Suas fileiras são engrossadas por aqueles a quem a nostalgia do mistério e do miraculoso levam ao pseudo-ocultismo. Há ainda os indivíduos com uma vontade excepcionalmente débil e que são fracassados na vida, e que, visando a ganhos pessoais, sonham desenvolver em si o poder e a capacidade de subjugar os outros. E, finalmente, há os que procuram simplesmente a novidade na vida, um meio de esquecer as preocupações ou então de encontrar uma diversão para o seu tédio, a sua rotina diária e escapar assim a todo conflito.

À medida que se dissipam as suas esperanças de obter as qualidades com que contavam, eles caem facilmente num charlatanismo mais ou menos intencional. Lembro-me do exemplo clássico de certo buscado de poder psíquico, um homem abastado e muito instruído, que havia corrido o mundoà procura do milagroso. Finalmente se arruinou e, ao mesmo tempo, ficou completamente desiludido com as suas pesquisas.

Para encontrar novos meios de vida, teve a idéia de utilizar o pseudoconhecimento em que havia gasto tanto dinheiro e energia. Dito e feito. Escreveu um livro, dando-lhe um desses títulos que enfeitam as capas dos livros de ocultismo, algo como Método de Desenvolvimento das forças ocultas do homem.

A obra consistia de sete conferências e constituía pequena enciclopédia de métodos secretos para o desenvolvimento do magnetismo, do hipnotismo, da telepatia, da vidência, da clauriaudiência, das incursões pelo mundo astral, da levitação e outras faculdades sedutoras. Lançado com grande publicidade, esse método foi posto à venda por um preço excessivamente elevado, embora no fim tenha sido concedido um abatimento apreciável de até 95% aos compradores mais recalcitrantes ou mais acanhados, com a condição de que o recomendassem aos amigos.

Devido ao interesse geral despertado por esses assuntos, o sucesso ultrapassou todas as expectativas do autor.

Pouco tempo depois, ele recebeu numerosas cartas em termos entusi asmados de compradores que respeitosos,reverentes, se dirigiam a ele como "Caro Mestre" e "Mui Sábio Iniciador", exprimindo a mais profunda gratidão por sua notável exposição das preciosíssimas instruções que lhe haviam permitido desenvolver diversas faculdades ocultas, de maneira espantosamente rápida.

Em pouco tempo, ele reuniu uma considerável coleção dessas cartas e cada uma delas era uma surpresa para ele. Finalmente, chega uma carta informando-o de que, graças ao seu método, alguém chegara, em menos de um mês, a levitar, Foi a gota d'água que transbordou o seu espantoFoi a gota d'água que transbordou o seu espanto.

Eis, palavra por palavra, o que ele disse nesse momento: "Estou estupefato com o absurdo que ocorre. Eu, o autor desse método, já não tenho uma idéia clara da natureza dos fenômenos que ensino. E esses idiotas, não só saem dessa embrulhada, como dão um jeito de tirar dela qualquer coisa. E agora eis que um super-idiota aprendeu até a voar. Que inépcia...Que vá para o inferno! Dentro em pouco, vão vestir-lhe uma camisa de força em plena levitação e será bem feito. Vive-se melhor sem tais imbecis".

Senhores ocultistas, apreciaram bem as conclusões do autor desse manual de psicodesenvolvimento? Em casos semelhantes, não está excluído o fato de que se possa encontrar acidentalmente algo numa obra desse gênero, porque acontece com freqüência que um homem, embora ignorante, seja capaz de falar com singular justeza sobre diversas coisas, sem saber como. Ao lado disso, realmente, ele diz tantas tolices, que todas as verdade que possa exprimir ficam completamente enterradas e é absolutamente impossível extrair a pérola de verdade desse monte de disparates.

"Como compreender esse enigma?" perguntarão vocês. A razão é simples. Como já disse, não temos conhecimentos que nos sejam próprios, quer dizer, conhecimentos fornecidos pela própria vida e que não nos possam ser tirados. Todos os nossos conhecimentos, que não passam de simples informações, podem ter ou não valor. Absorvendo-os como uma esponja, podemos facilmente restituí-los e falar deles de maneira lógica e convincente, embora sem compreender nada deles. É igualmente fácil perdê-los, porque não nos pertencem, mas foram despejados em nós como um líquido num recipiente. Migalhas da verdade estão espalhadas por toda parte e, para os que sabem e compreendem, é espantoso ver como as pessoas vivem perto da verdade e como, no entanto, são cegas e impotentes para penetrar nela. Para o homem que a busca, é preferível não se engajar de nenhum modo nos sombrios labirintos da estupidez e da ignorância humanas a se aventurar por eles sozinhos, pois sem a orientação de alguém que saiba, ele pode sofrer a cada passo um imperceptível deslocamento da sua máquina, que o obrigaria depois a passar muito mais tempo a repará-la do que o despendido para danificá-la.

O que vocês pensariam de um homem corpulento que se apresentasse como um "ser de doçura angelical", acrescentando que "ninguém à sua volta é capaz de julgar o seu comportamento, visto que ele vive num plano mental a que não se aplicam as normas da vida física?" Na verdade, há muito que esse comportamento deveria ter sido submetido aos exames de um psiquiatra: eis um homem que "trabalha" sobre si mesmo, com consciência e perseverança, todos os dias durante horas, isto é, que dedica todos os seus esforços a aprofundar e reforçar uma deformação psíquica já tão séria, que estou convencido, irá levá-lo em breve a um asilo de loucos.

Poderia citar centenas de exemplos de buscas mal dirigidas e mostrar a vocês a que isso conduz. Poderia dar a vocês o nome de pessoas bastante conhecidas na vida pública que ficaram perturbadas por causa do ocultismo e que vivem entre nós e nos surpreendem com suas excentricidades. Poderia lhes dizer com exatidão qual o método que as desequilibrou, isto é, em que domínio "trabalharam" e se "desenvolveram", como e por que esses métodos afetaram o psiquismo delas.

Esta questão, no entanto, constituiría por si só assunto de uma longa conversa e, por falta de tempo, não me permitirei nela me deter agora.

Quanto mais um homem se dá conta dos obstáculos e enganos que o espreitam a cada passo nesse terreno, mais se convence de que é impossível seguir o caminho do desenvolvimento de si segundo instuções dadas ao acaso por pessoas com que cruza, ou segundo informações colhidas aqui e ali em leituras e conversas fortuitas.

Começa, ao mesmo tempo, a distinguir, de início como um tênue clarão, depois cada vez com mais clareza, a luz viva da verdade que não cessou de iluminar a humanidade através dos tempos. As origens da iniciação se perdem na noite dos tempos. De épocas em épocas, surgem culturas e civilizações saídas das profundezas dos cultos e dos mistérios, que, em perpétua transformação, aparecem e desaparecem para reaparecer novamente.

O Grande Conhecimento é transmitido sucessivamente, de época a época, de povo a povo, de raça a raça. Os grandes centros de iniciação na Índia, na Assíria, no Egito, na Grécia, iluminam o mundo com uma luz viva. Os nomes venerados dos grandes iniciados, portadores vivos da verdade, são transmitidos com reverência de geração a geração. A verdade, fixada por meio de textos simbólicos e lendas, é transmitida às massas para ser conservada sob a forma de costumes e de cerimônias, de tradições orais, de momumentos, de arte sacra, pela mensagem secreta da dança, da música, da escultura e dos ritos diversos. Ela é comunicada abertamente, através de provações determinadas, àqueles que a buscam e é guardada intacta por transmissão oral ao longo da corrente daqueles que sabem. Mas, no fim de certo tempo, os centros de iniciação se extinguem uns após outros e o antigo conhecimento se retira para caminhos subterrâneos, dissimulando-se aos olhos dos buscadores.

Os portadores desse conhecimento também se dissimulam, fazendo-se desconhecidos daqueles que os cercam, mas não deixam de existir. De tempos em tempos, vêm a tona correntes isoladas, mostrando que em algum lugar nas profundezas, mesmo em nossos dias, flui a poderosa corrente do antigo conhecimento do ser.

Abrir passagem até essa corrente, encontrá-la, é a tarefa e o objetivo da busca; porque, depois de tê-la encontrado, o homem pode confiar-se com audácia ao caminho em que se engaja; em seguida, resta-lhe apenas "conhecer" a fim de "ser" e e "fazer". Nesse caminho, o homem não estará inteiramente só; nos momentos difíceis, receberá apoio e orientação, porque todos os que seguem esse caminho estão ligados por uma cadeia ininterrupta.

Talvez o único resultado positivo de ter vagado nos meandros dos atalhos do ocultismo será que, se tiver preservado a capacidade de pensar e julgar corretamente, desenvolverá em si a faculdade especial de discernimento que se pode chamar de faro. Recusará os caminhos da psicopatia e do erro e procurará incansavelmente os caminhos autênticos. E nisso, como no conhecimento de si, o princípio que já mencionei continua soberano: "Para fazer, é preciso saber, mas, para saber é preciso descobrir como saber."

O homem que busca com todo o seu ser, com seu "eu" mais íntimo, a verdade desse princípio, chega inevitavelmente à conclusão de que, para "descobrir como saber a fim de fazer", deverá inicialmente encontrar aquele ao lado de quem poderá aprender o que significa de fato "fazer", que dizer, um guia esclarecido, experimentado, que se encarregará de dirigí-lo espiritualmente e se tornará seu mestre.

E é nesse ponto que o faro do homem adquire toda a sua importância. Ele escolhe um guia para si mesmo. Naturalmente, a condição indispensável é que escolha um homem que sabe; do contrário, todo o sentido da sua escolha estará perdido. Quem sabe aonde pode conduzí-los um guia que não sabe!

Todo aquele que busca no caminho do desenvolvimento de si sonha com um guia que sabe. Sonha com este guia, mas é raro que se pergunte objetiva e sinceramente: "Sou digno de ser guiado? Estou pronto para seguir o caminho?"

Saia à noite, sob um vasto céu estrelado, e levante os olhos para esses milhões de mundos acima da sua cabeça. Em cada um deles provavelmente formigam bilhões de seres semelhantes a você, talvez de constituição superior. Olhe a Via Láctea. A Terra não pode sequer ser chamada de grão de areia nessa infinidade. Ela se dissolve, desaparece e, com ela, você também. Onde está você? Quem é você? Que quer você? Aonde quer ir? O que você empreende não será pura loucura?

Diante de todos esses mundos, interrogue-se sobre suas metas e suas esperanças, suas intenções e seus meios de realizá-las, sobre o que pode ser exigido de você, e pergunte a si mesmo até que ponto está preparado para responder a essas perguntas.

Espera-o uma viagem longa e difícil; você se dirige a um lugar estranho e desconhecido. O caminho é infinitamente longo. Você não sabe se poderá descansar nem onde isso será possível. Deve prever o pior. Leve consigo tudo que for necessário para a viagem.

Trate de não se esquecer de nada, porque depois será muito tarde para reparar o erro: você não terá tempo de voltar para buscar o que tiver esquecido. Avalie suas forças. São suficientes para toda a viagem? Quando é que você poderá partir?

Lembre-se de que quanto mais tempo passar a caminho, mais provisões precisará carregar, o que retardará proporcionalmente a sua marcha e alongará até a duração dos preparativos. E cada minuto é precioso. Uma vez que decidiu partir, por que perder tempo?

Não conte com a possibilidade de voltar. Essa experiência poderia lhe custar muito caro. O guia só se comprometeu a conduzí-lo; não é obrigado a reconduzí-lo. Você será abandonado a si mesmo e ai de você se fraquejar ou perder o caminho; jamais poderá voltar. E, mesmo que o reencontre, fica a pergunta: você voltará são e salvo?

Desventuras de toda espécie espreitam o viajante solitário que não conhece bem o caminho, nem as regras de conduta que ele impõe. Convença-se de que a sua vista tem a propriedade de lhe apresentar os objetos distantes como se estivessem próximos. Iludido quanto a proximidade da meta para a qual você se encaminha, cego por sua beleza e ignorando a medida de suas próprias forças, você não se dará conta dos obstáculos que estão no caminho; não verá as múltiplas valetas que atravessam a senda. Numa pradaria verde, juncada de flores deslumbrantes, o mato espesso oculta um profundo precipício. É muito fácil tropeçar e cair nele, se seus olhos não estão fixos em cada passo que está dando.

Não se esqueça de concentrar toda a atenção no que o cerca de perto. Não se ocupe com metas distantes, se não quiser cair no precipício.

entretanto, não se esqueça da sua meta. Lembre-se dela sem cessar e mantenha vivo o seu ardor por atingí-la, para não perder a direção certa. E, tendo partido, esteja atento; o que você atravessou ficou para trás e não tornará a se apresentar: o que não observou num momento dado, não o observará nunca mais.

Não seja curioso demais e não perca tempo com o que atrai a sua atenção, mas não vale a pena. O tempo é precioso e não deve ser desperdiçado com coisas sem relação direta com a sua meta.

Lembre-se de onde está e por que está ali.

Não se poupe e lembre-se de que jamais qualquer esforço é feito em vão.

E agora pode iniciar a caminhada.

***