TRADEWINDS

Fragmentos de um ensinamento desconhecido.

"As flores que um amante de Deus colheu em seu jardim de rosas e que quis dividir com seus amigos subjugaram de tal forma sua mente por sua fragância, que caíram do seu regaço e murcharam". Poesia Sufi
FRAGMENTOS DE UM ENSINAMENTO DESCONHECIDO ou em busca do milagroso

Autor: P. D. Ouspensky

Tradução: Eleonora Leitão de Carvalho - com a colaboração de membros da Sociedade Para o Estudo e Pesquisa do Homem.

Publicado no Brasil pela Editora Pensamento de São Paulo.

Capítulo I

RETORNO DA ÍNDIA.

Voltei à Rússia no começo da primeira guerra mundial, em novembro de 1914, após uma viagem relativamente longa pelo Egito, Ceilão e Índia. A guerra me surpreendera em Colombo, de onde embarquei para retornar pela Inglaterra.

Ao partir de São Petersburgo, tinha declarado que ia em busca do milagroso. É muito difícil definir o "milagroso". Mas, para mim, esta palavra tinha sentido bem definido. Há muito já chegara à conclusão de que, para escapar do labirinto de contradições em que vivemos, era necessário encontrar um caminho inteiramente novo, diferente de tudo o que havíamos conhecido ou seguido até então. Mas, onde começava esse caminho novo ou perdido eu era incapaz de dizer. Já reconhecera então, como fato inegável, que, para além da fina película de falsa realidade, existia outra realidade de que,por alguma razão, algo nos separava. O "milagroso" era a penetração nessa realidade desconhecida. E parecia-me que o caminho para esse desconhecido podia ser encontrado no Oriente. Por que no Oriente? Era difícil dizer. Talvez houvesse nesta idéia uma dose de romantismo. Em todo caso, havia também a convicção de que nada poderia ser encontrado aqui na Europa.

A GUERRA E A "BUSCA DO MILAGROSO".

Durante a viagem de regresso e as poucas semanas que passei em Londres, todas as conclusões que tirara de minha busca foram transtornadas pelo absurdo selvagem da guerra e por todas as emoções que pairavam no ar, invadiam as conversas, os jornais e, frequentemente, me afetaram contra minha vontade.

Mas quando, de regresso à Rússia, reencontrei os pensamentos com que partira, senti que minha busca e as mínimas coisas relacionadas com ela, eram mais importantes que tudo que acontecia ou poderia acontecer num mundo de "absurdos evidentes".*

[*Isto se refere a um livrinho que possuía na infância. Chamava-se "Absurdos evidentes" e pertencia à "Pequena Coleção Stupin". Era um livro de imagens deste tipo: um homem carregando uma casa nas costas, um carro de rodas quadradas, etc. Este livro me impressionara muito na época, porque continha numerosas figuras nas quais não podia descobrir o caráter absurdo. Elas pareciam exatamente com as coisas comuns da vida. E, depois, cheguei a pensar que este livro dava efetivamente imagens da vida real, tendo-me convencido, cada vez mais, ao crescer, que a vida inteira é feita só de "absurdos evidentes". Minhas experiências ulteriores só me confirmaram essa convicção.]

Disse-me, então, que a guerra devia ser considerada uma dessas condições de existência, geralmente catastróficas, no meio das quais devemos viver, trabalhar e buscar respostas às nossas perguntas e às nossas dúvidas. A guerra, a grande guerra européia, em cuja possibilidade não sentia necessidade de crer e cuja realidade por muito tempo não quisera reconhecer, tornara-se um fato.

Estávamos nela e vi que deveria ser considerada um grande "memento mori", mostrando ser urgente apressar-se e ser impossível crer numa "vida" que não levava a parte alguma.

A guerra não me podia afetar pessoalmente, pelo menos não antes da catástrofe final que me parecia, além do mais inevitável para a Rússia e talvez para toda a Europa, porém ainda não iminente. Apesar de que, nessa época, a catástrofe em marcha parecesse apenas temporária e ninguém tivesse podido ainda imaginar toda a amplitude da ruína, da desintegração e da destruição, tanto interior quanto exterior, em que teríamos que viver no futuro.

Resumindo o conjunto de minhas impressões do Oriente e particularmente da ìndia, devia admitir que , na volta, meu problema parecia ainda mais difícil e mais complicado que na partida. Não só a Índia e o Oriente nada haviam perdido de seu miraculoso atrativo mas, ao contrário, este encanto tinha-se enriquecido de novos matizes de que não podia suspeitar antes. Tinha visto claramente que se podia encontrar no Oriente algo que há muito deixara de existir na Europa e considerava que a direção tomada por mim era boa. Mas, ao mesmo tempo, convenci-me de que o segredo estava escondido bem mais profundamente e bem melhor do que eu poderia prever.

Quando de minha partida, já sabia que ia em busca de uma ou várias escolas. Chegara a esse resultado há muito tempo, ao dar-me conta de que esforços pessoais independentes não podiam bastar e de que era indispensável entrar em contacto com o pensamento real e vivo que seguramente existe em alguma parte, mas com o qual perdemos toda ligação.

Isso eu compreendia, mas até a idéia que fazia das escolas deveria modificar-se muito durante minhas viagens; num sentido, tornou-se mais simples e mais concreta; noutro, mais fria e mais distante. Quero dizer que as escolas perderam o seu caráter de conto de fadas.

No momento de minha partida, admitia ainda muitas coisas fantásticas a respeito das escolas. Admitir talvez seja palavra forte demais. Melhor dizendo, sonhava com a possibilidade de um contacto não físico com as escolas, um contacto, de algum modo, "noutro plano". Não podia explicá-lo claramente, mas parecia-me que o primeiro contacto com uma escola já devia ter caráter milagroso. Imaginava, por exemplo, a possibilidade de entrar em contacto com as escolas que existiram num passado remoto, como a escola de Pitágoras, as escolas do Egito ou a escola dos monges que construíram a Catedral de Nôtre Dame e assim por diante. Parecia-me que as barreiras do espaço e do tempo desapareceriam por ocasião de um tal contacto. A idéia das escolas era, por si só, fantástica e nada do que lhes dizia respeito me parecia demasiado fantástico. Assim, não via contradição alguma entre minhas idéias e meus esforços para encontrar escolas reais na Índia. Pois me parecia ser possível, precisamente na Índia, estabelecer uma espécie de contacto que poderia vir depois a tornar-se permanente e independente de todas as interferências exteriores.

Durante minha viagem de regresso, repleta de encontros e impressões de todo o tipo, a idéia das escolas tornou-se muito mais real e quase tangível para mim; perdeu o caráter fantástico. E isto, sem dúvida, porque, como então me dei conta, "uma escola" não exige somente uma busca, mas uma "seleção" ou uma escolha - quero dizer: de nossa parte.

De que houvessem escolas, não podia duvidar. Mas acabaria por me convencer de que as escolas de que ouvira falar e com as quais teria podido entrar em contacto não eram para mim. Eram de natureza francamente religiosa ou semi-religiosa e de tom nitidamente devocional. Não me atraíam principalmente porque, se tivesse buscado um caminho religioso, teria podido tê-lo encontrá-lo na Rússia. Outras escolas, mais moralizantes, eram de tipo filosófico ligeiramente sentimental com um matiz de ascetismo, como as escolas dos discípulos ou fiéis de Ramakrisna; entre estes últimos, havia pessoas agradáveis, mas tive a impressão de que lhes faltava um conhecimento real. Outras escolas, comumente descritas como "escolas de ioga" e que se baseiam na criação de estados de transe, participavam um pouco demais, a meus olhos, do gênero espírita. Não podia confiar nelas; levavam inevitavelmente a mentir-se a si mesmo ou, então, àquilo que os místicos ortodoxos da literatura monástica russa chamam "sedução".

Havia outros tipos de escolas, com as quais não pude entrar em contacto e de que somente ouvi falar. Essas escolas prometiam muito, mas pediam igualmente muito. Exigiam tudo de uma vez. Teria sido, pois necessário ficar na Índia e abandonar para sempre qualquer pensamento de voltar à Europa; teria que renunciar a todas as minhas idéias, a todos os meus projetos, a todos os meus planos e entrar num caminho de que nada poderia saber de antemão.

Essas escolas interessavam-me muito e as pessoas que tinham estado em relação com elas e que me haviam falado delas, destacavam-se claramente da média. Parecia-me, entretanto, que devia existir um tipo mais racional dessas escolas e que um homem tinha o direito, até certo ponto, de saber para onde ia.

Paralelamente, chegava à conclusão de que uma escola - pouco importa o nome: escola de ocultismo, de esoterismo ou de ioga - deve existir no plano terrestre comum como qualquer outra espécie de escola: escola de pintura, de dança ou de medicina. Dava-me conta de que a idéia de escolas "noutro plano" era simplesmente sinal de fraqueza; significava que os sonhos haviam tomado o lugar da busca real. Assim, compreendia que os sonhos são um dos maiores obstáculos em nosso caminho eventual para o milagroso.

A caminho da Índia, fazia planos para futuras viagens. Dessa vez desejava começar pelo Oriente mulçumano. Estava atraído sobretudo pela Ásia Central russa e a Pérsia. Mas nada disso estava destinado a se realizar.

De Londres, pela Noruega, Suécia e Finlândia, cheguei a São Petersburgo, já rebatizada "Petrogrado", e onde o patriotismo e a especulação estavam no auge. Pouco depois, parti para Moscou a fim de reassumir o trabalho no jornal de que fora correspondente na Índia. Estava ali há umas seis semanas, quando ocorreu um pequeno fato que devia ser o ponto de partida de numerosos acontecimentos.

Certo dia que me encontrava na redação do jornal, preparando o número seguinte, descobrí, creio que no A Voz de Moscou, uma nota relativa à encenação de um balé intitulado "A Luta dos Magos", que diziam ser obra de um "hindu". A ação do balé devia situar-se na Índia e dar um quadro completo da magia do Oriente, com milagres de faquires, danças sagradas, etc. Não gostei do tom fanfarrão dessa nota, mas como os autores de balés hindus eram bastante raros em Moscou, recortei-a e inseri-a em meu artigo, juntando-lhe a pequena restrição de que, nesse balé, encontrar-se-ia com certeza tudo o que não podemos encontrar na verdadeira Índia, mas que os turistas vão procurar lá.

Pouco depois, por diversas razões, deixei o jornal e fui para São Petersburgo.

Em fevereiro e março de 1915, fiz ali conferências públicas sobre minhas viagens à Índia. Os títulos eram "Em Busca do Milagroso" e o "Problema da Morte". Nessas conferências, que deviam servir de introdução a um livro que projetava escrever sobre minhas viagens, dizia que, na Índia, o "milagroso" não era buscado onde devia ser; que todos os caminhos habituais eram vãos e a Índia guardava seus segredos muito melhor do que se supunha; mas que o "milagroso" ali existia de fato e era assinalado por muitas coisas ao lado das quais se passava, sem se apreender o verdadeiro alcance e significado oculto ou sem saber como delas se aproximar. Era ainda nas "escolas" que pensava.

Apesar da guerra, minhas conferências despertaram considerável interesse. Cada uma delas atraiu mais de mil pessoas ao Hall Alexandrowski da Duma municipal de São Petersburgo. Recebi numerosas cartas, pessoas vieram visitar-me e senti que, com base numa "busca do milagroso", seria possível reunir um número muito grande de pesssoas que não podiam mais suportar as formas habituais da mentira e da vida na mentira.

CONFERÊNCIAS SOBRE A ÍNDIA EM MOSCOU.

Depois da Páscoa, parti novamente para fazer as mesmas conferências em Moscou. Entre as pessoas encontradas por ocasião dessas conferências, houve duas, um músico e um escultor, que logo se puseram a falar-me de um grupo de Moscou empenhado em diversas pesquisas e experiências "ocultas" sob a direção de certo G., um grego do Cáucaso. Compreendi que se tratava justamente do "hindu", autor do libreto do balé mencionado no jornal que caíra em minhas mãos três ou quatro meses antes. Devo confessar que interessou-me muito pouco tudo o que esses dois homens me disseram desse grupo e do que ali se passava - prodígios de auto-sugestão de todo o tipo. Já ouvira muitas vezes histórias desse gênero e formara opinião bem clara a seu respeito.

...Senhoras que vêem, de súbito, flutuarem em seus quartos olhos que as fascinam e que elas seguem de rua em rua até a casa de certo oriental, ao qual esses olhos pertencem. Ou então, pessoas que, diante desse mesmo oriental, têm bruscamente a impressão de que ele as está atravessando com o olhar, vê todos os seus sentimentos, pensamentos e desejos; e têm uma estranha sensação nas pernas, não podem mais se mover e caem em seu poder, a ponto de ele poder fazer delas tudo o que desejar, mesmo à distância...

Tais histórias sempre me pareceram ficção de má qualidade. As pessoas inventam milagres para si mesmas e inventam exatamente o que se espera delas. Trata-se de uma mistura de superstição, auto-sugestão e debilidade intelectual; mas tais histórias, segundo o que pude observar, nunca surgem sem certa colaboração dos homens a que se referem.

Prevenido assim por minhas experiências anteriores, só diante dos persistentes esforços de um dos meus novos conhecidos, M., é que aceitei encontrar-me com G., e ter uma conversa com ele.

ENCONTRO COM G.

Minha primeira entrevista modificou totalmente a idéia que tinha dele e do que podia dar-me.

Lembro-me muito bem dela. Tínhamos chegado a um pequeno bar situado fora do centro, numa rua barulhenta. Vi um homem que não era mais jovem, de tipo oriental, com bigode negro e olhos penetrantes. Inicialmente, causou-me espanto, porque parecia estar completamente deslocado nesse lugar e nessa atmosfera. Estava ainda repleto de minhas impressões do Oriente e esse homem com rosto de rajá hindu ou de xeque árabe que imaginaria sob um albornoz branco ou um turbante dourado, produzia, nesse pequeno café de lojistas e vendedores, com seu capote negro de gola de veludo e chapéu-coco negro, a impressão inesperada, estranha e quase alarmante, de um homem mal disfarçado.

Era um espetáculo constrangedor, como quando a gente se encontra diante de um homem que não é o que pretende ser e com o qual, entretanto, deve-se falar e portar-se como se nada percebesse. G. falava um russo incorreto, com forte sotaque caucasiano, e esse sotaque, ao qual costumamos associar não importa o que, menos idéias filosóficas, reforçava mais a estranheza e o caráter surpreendente dessa impressão.

Não me lembro do início de nossa conversa, creio que falamos da Índia, do esoterismo e das escolas de ioga. Guardei a impressão de que G. viajara muito, fora a certos lugares de que eu apenas ouvira falar e tinha desejado vivamente visitar. Não só minhas perguntas não o embaraçavam, mas me pareceu que punha, em cada resposta, bem mais do que eu tinha pedido. Agradava-me seu modo de falar, ao mesmo tempo prudente e preciso. M. deixou-nos. G. falou-me do que fazia em Moscou. Não o compreendia bem. Ressaltava do que dizia que, em seu trabalho, de caráter sobretudo psicológico, a química desempenhava importante papel. Como o escutava pela primeira vez, tomei naturalmente suas palavras ao pé da letra.

- O que o Sr. diz faz-me lembrar um fato que me foi relatado sobre uma escola do sul da Índia. Ocorreu em Travancore. Um brâmane, homem excepcional sob vários aspectos, falava a um jovem inglês de uma escola que estudava a química do corpo humano e provara, dizia, que, introduzindo ou eliminando diversas substâncias, podia-se modificar a natureza moral e psicológica do homem. Isto parece muito com aquilo de que o Sr. me fala.

- Sim, disse G., é possível, mas talvez não seja absolutamente a mesma coisa. Algumas escolas empregam aparentemente os mesmo métodos, mas os compreendem de modo completamente diferente. Uma semelhança de métodos ou mesmo de idéias nada prova.

- Há outra questão que me interessa muito. Os iogues servem-se de diversas substâncias para provocar determinados estados. Não se trataria, às vezes, de narcóticos? Eu mesmo fiz numerosas experiências desse gênero e tudo que li sobre magia me prova claramente que as escolas de todos os tempos e de todos os países fizeram amplo uso de narcóticos para a criação desses estados que tornam a "magia" possível.

- Sim, respondeu G., em muitos casos essas substâncias são o que você chama "narcóticos". Mas podem ser empregadas, repito, para fins diferentes. Algumas escolas servem-se dos narcóticos da forma correta. Seus alunos o tomam para estudar-se a si mesmos, para melhor se conhecerem, para explorar suas possibilidades e discernir, de antemão, o que poderão atingir efetivamente ao final de um trabalho prolongado. Quando um homem pôde tocar a realidade do que aprendeu teoricamente, trabalha a partir de então conscientemente, sabe para onde vai. É, às vezes, o caminho mais fácil para se persuadir da existência real das possibilidades que o homem frequentemente suspeita em si mesmo. Existe uma química especial para esse fim. Há substâncias particulares para cada função. Cada função pode ser reforçada ou debilitada, despertada ou adormecida. Mas é indispensável profundo conhecimento da máquina humana e dessa química especial. Em todas as escolas que seguem esse método, as experiências são efetuadas só quando realmente necessárias e somente sob o controle experimentado e competente de homens que podem prever todos os resultados e tomar todas as medidas necessárias contra riscos de consequências indesejáveis. As substâncias empregadas nessas escolas não são, portanto, apenas "narcóticos", como você as chama, embora grande número delas seja preparado a partir de drogas como o ópio, o haxixe, etc.

"Outras escolas empregam substâncias idênticas ou análogas, não para fins de experiência ou estudo, mas para alcançar, mesmo que por pouco tempo, os resultados desejados. O uso adequado de tais drogas pode tornar um homem momentaneamente muito inteligente ou muito forte. É claro que, depois disso, ele morre ou fica louco, mas isso não é levado em consideração. Tais escolas existem. Você vê, pois, que devemos falar das escolas com prudência. Podem fazer praticamente as mesmas coisas, mas os resultados serão totalmente diferentes."

Tudo o que G. acabava de dizer interessara-me profundamente. Senti que ali havia pontos de vista novos, que não se pareciam com coisa alguma do que encontrara até então.

Convidou-me a acompanhá-lo até uma casa onde alguns de seus alunos deviam reunir-se.

Tomamos uma carruagem para ir a Sokolniki. No caminho, G. disse-me o quanto a guerra viera interferir em seus planos: grande número de seus alunos tinha partido desde a primeira mobilização, aparelhos e instrumentos muito caros, encomendados no estrangeiro, se tinham perdido. Depois, falou-me das pesadas despesas que sua obra exigia, dos apartamentos muito caros que alugara e para os quais me pareceu que iríamos.

A seguir, informou-me que sua obra interessava a numerosas personalidades de Moscou, "professores" e "artistas" disse-me. Mas, quando lhe perguntei de quem se tratava precisamente, não me deu nenhum nome.

- Faço-lhe esta pergunta porque nasci em Moscou. Por outro lado, trabalhei aqui como jornalista durante dez anos, de modo que conheço mais ou menos todo mundo.

G. nada respondeu.

Chegamos a um grande apartamento vazio em cima de uma escola municipal; evidentemente, pertencia aos professores dessa escola. Penso que ficava na praça da antiga Lagoa Vermelha.

Vários alunos de G. estavam reunidos; três ou quatro rapazes e duas senhoras que pareciam ser professoras. Já estivera em locais como este. Até a falta de mobiliário confirmava minha idéia, porque não se dá mobiliário às professoras das escolas municipais. Ao pensar nisso, experimentei estranho sentimento em relação a G.. Por que me contara essa história de apartamentos muito caros? Primeiro, este não era o seu; depois, era isento de aluguel, e, finalmente, seu aluguel não poderia custar mais de 10 rublos por mês. Havia nisso um "bluff" evidente demais. Disse a mim mesmo que isso devia significar alguma coisa.

É difícil para mim reconstituir o início da conversa com os alunos de G.. Ouvi várias palavras que me surpreenderam; esforcei-me por descobrir em que consistia o trabalho deles, mas não me deram resposta direta, empregando com insistência, em certos casos, terminologia fora do comum e ininteligível para mim.

Sugeriram ler o início de um relato que, segundo eles, fora escrito por um dos alunos de G.. ausente de Moscou, naquele momento.

Naturalmente aceitei e um deles começou em voz alta a leitura de um manuscrito. O autor contava como travara conhecimento com G..Chamou-me a atenção o fato de que, no início da história, o autor lia a mesma nota que eu lera, no inverno anterior, no A Voz de Moscou, sobre o balé "A Luta dos Magos". A seguir - e isso me agradou extremamente porque o esperava - o autor contava como, em seu primeiro encontro, sentira que, de certo modo, G. punha-o na palma da mão, sopesava-o e o deixava cair novamente. A história intitulava-se "Vislumbres da Verdade" e fora escrita por um homem evidentemente desprovido de qualquer experiência literária. Mas, apesar de tudo, impressionva, porque deixava entrever um sistema do mundo onde eu sentia algo muito interessante que teria sido, aliás, inteiramente incapaz de formular para mim mesmo. Certas idéias estranhas e de todo inesperadas sobre a arte encontraram também em mim ressonância muito forte.

Soube mais tarde que o autor era uma pessoa imaginária e que o relato fora escrito por dois dos alunos de G., presentes à leitura, com a intenção de expor suas idéias sob a forma literária. Mais tarde ainda, soube que a própria idéia desse relato provinha de G..

A leitura deteve-se no fim do primeiro capítulo. G. escutara o tempo todo com atenção. Estava sentado num sofá, sobre uma perna dobrada. Bebia café preto num grande copo, fumava e, por vezes, lançava-me um olhar. Gostava de seus movimentos assinalados por uma espécie de segurança e de graça felina; até o seu silêncio tinha algo que o distinguia dos outros. Senti que teria preferido encontrá-lo, não em Moscou, não nesse apartamento, mas num desses lugares que acabava de deixar, no adro de uma das mesquitas do Cairo, entre as ruínas de uma cidade do Ceilão, ou num dos templos do sul da Índia - Tanjore, Trichinopolis ou Madura.

- Bem, que tal acha esta história? perguntou G., após breve silêncio, quando a leitura terminou.

Disse-lhe que não escutara com interesse, mas que a meu ver tinha o defeito de não ser clara. Não se compreendia exatamente do que se tratava. O autor falava da impressão muito forte produzida nele por um ensinamento novo, mas não dava nenhuma idéia satisfatória desse mesmo ensinamento. Os alunos de G. me objetaram que eu não compreendera a parte mais importante do relato. G. mesmo não disse uma palavra.

Quando lhes perguntei o que era o sistema que estudavam e seus traços distintivos, a resposta deles foi das mais vagas. Depois falaram do "trabalho sobr si", mas foram incapazes de explicar-me em que consistia esse trabalho. De modo geral, minha conversa com os alunos de G. foi bem mais difícil e senti neles algo calculado e artificial, como se representassem um papel previamente aprendido. Além disso, os alunos não estavam à altura do mestre. Todos eles pertenciam a essa camada particular da "inteligentsia" mais pobre de Moscou, que eu conhecia muito bem e da qual nada podia esperar de interessante. Pensei até que era estranho, na verdade, encontrá-los nos caminhos do milagroso. Ao mesmo tempo, achava-os todos gentis e de boas maneira. As histórias que M. me contara não vinham evidentemente dessa fonte e nada tinham a ver com eles.

- Queria perguntar uma coisa, disse G., depois de um silêncio. Este artigo pode ser publicado por um jornal? Pensávamos interessar deste modo o público pelas nossas idéias.

- É totalmente impossível, respondi. Em primeiro lugar, não se trata de artigo, quero dizer: não é algo com princípio e fim; é apenas o começo de uma história e é longa demais para um diário. Veja bem, contamos por linhas. A leitura leva mais ou menos duas horas, o que dá cerca de três mil linhas. O senhor sabe o que chamamos de folhetim, num jornal; um folhetim comum consta de cerca de trezentas linhas. De modo que, esta parte da história exigiria dez folhetins. Nos jornais de Moscou, um folhetim em série nunca é publicado mais de uma vez por semana, o que levaria dez semanas. Ora, trata-se da conversa de apenas uma noite. Isto só poderia ser aceito por uma revista mensal, mas não vejo nenhuma de gênero correspondente. Em todo caso, lhe seria pedida toda a história, antes de lhe darem a resposta.

G. nada respondeu e a conversa terminou. Mas eu experimentara de imediato, ao contato com esse homem, um sentimento extraordinário e, à medida que a reunião se prolongava, essa impressão só se reforçara. No momento da despedida, atravessou-me o espírito como um relâmpago este pensamento: devia imediatamente, sem demora, dar um jeito para revê-lo e, se não o fizesse, arriscava-me a perder todo contato com ele. Perguntei-lhe, pois, se não poderia encontrá-lo mais uma vez, antes de minha partida para São Petersburgo. Disse-me que estaria no mesmo café, no dia seguinte, à mesma hora.

Saí com um dos rapazes. Sentia-me num estado esquisito; uma longa leitura que compreendera pouco, pessoas que não respondiam às minhas perguntas, o próprio G., com os seus modos de ser incomuns e sua influência sobre os alunos, que eu tinha constantemente sentido, tudo isto provocava em imi um insólito desejo de rir, de gritar, de cantar, como se acabasse de escapar de uma aula ou de alguma estranha detenção.

Sentia a necessidade de comunicar minhas impressões a esse rapaz e de fazer algum gracejo sobre G. e essa história passavelmente pretenciosa e cansativa. Via-me contando essa reunião a alguns de meus amigos. Felizmente, parei a tempo pensando: "mas ele vai correr para o telefone para contar-lhes tudo! São todos amigos."

Tentei, pois, conter-me e, sem dizer nada, acompanhei-o até o bonde que nos devia levar de volta ao centro de Moscou. Depois de um percurso relativamente longo, chegamos à praça Okhotny Nad, perto da qual eu morava e, lá, sempre em silêncio, apertamo-nos as mãos e nos separamos.

Volteir, no dia seguinte, ao mesmo café onde encontrara G. da primeira vez e o mesmo sucedeu no dia imediato e todos os dias seguintes. Durante a semana que passei em Moscou, vi G. todos os dias. Depressa percebi que ele dominava muitos assuntos que eu queria aprofundar. Por exemplo, explicou-me certos fenômenos que eu tivera ocasião de observar na Índia e sobre os quais ninguém me pudera dar esclarecimentos, nem no local nem mais tarde. E, em suas explicações, eu sentia a segurança do especialista, uma análise muito apurada dos fatos e um sistema que não podia compreender, mas cuja presença sentia, porque suas palavras faziam-me pensar não só nos fatos que se discutiam, mas em muitas outras coisas que eu já observara ou cuja existência previa.

Não tornei a ver mais o grupo de G.. Sobre si mesmo, G. falava pouco. Uma ou duas vezes, mencionou suas viagens ao Oriente. Interessava-me muito saber exatamente onde tinha ido, mas fui incapaz de tirar isso a limpo.

Quanto ao seu trabalho em Moscou, G. dizia ter dois grupos sem relação um com o outro e ocupados em trabalhos diferentes "segundo suas forças e seu grau de preparação", para citar suas próprias palavras. Cada membro desses grupos pagava 1.000 rublos por ano e podia trabalhar com ele, ao mesmo tempo que prosseguia o curso de suas atividades ordinárias na vida.

Disse-lhe que, a meu ver, 1.000 rublos por ano parecia-me preço elevado demais para aqueles que não possuíam fortuna.

G. respondeu-me que não havia outro jeito, porque não podia ter grande número de alunos, devida à própria natureza do trabalho. Aliás, não desejava e não devia - acentuou essas palavras - gastar seu próprio dinheiro para a organização do trabalho. Sua obra não era, não podia ser, do gênero caritativo e os próprios alunos deviam encontrar os fundos indispensáveis à locação dos apartamentos onde poderiam se reunir, para as experiências e tudo mais. Além disso, dizia, a observação tinha mostrado que as pessoas débeis na vida revelam-se igualmente débeis no trabalho.

- Esta idéia apresenta vários aspectos, disse G.. O trabalho de cada um pode exigir gastos, viagens e sei lá que mais. Se a vida de um homem está tão mal organizada que uma despesa de 1.000 rublos pode detê-lo, será preferível para ele que nada empreenda conosco. Suponha que um dia seu trabalho exija que vá ao Cairo ou a qualquer outro lugar, ele deve ter meios para isso. Através de nossa exigência, vemos se é capaz de trabalhar conosco ou não.

"Além disso, prosseguiu, tenho verdadeiramentoe pouquíssimo tempo para sacrificá-lo aos outros, sem ao menos estar certo de que isto lhes fará bem. Prezo muito meu tempo, porque tenho necessidade dele para meu trabalho, porque não posso e, como já disse, não quero gastá-lo de modo improdutivo. Há ainda uma última razão: é necessário que uma coisa custe para que seja valorizada."

Eu escutava essas palavras com estranho sentimento. De um lado, tudo o que G. dizia agradava-me. Atraía-me essa ausência de todo elemento sentimental, de todo palavreado convencional sobre o "altruísmo" e o "bem da humanidade", etc. Mas, por outro lado, estava surpreendido pelo desejo visível que ele tinha de me convencer sobre essa questão de dinheiro, quando eu não tinha nenhuma necessidade de ser convencido.

Se havia um ponto sobre o qual não estivesse de acordo, era esse modo de reunir dinheiro, porque nenhum dos alunos que vira podia pagar 1.000 rublos por ano. Se G. realmente descobrira no Oriente traços visíveis e tangíveis de uma ciência escondida e se continuava suas pesquisas nessa direção, era claro, então, que sua obra necessitava de fundos, do mesmo modo que qualquer outro trabalho científico, como uma expedição em alguma parte desconhecida do mundo, escavações a serem feitas nas ruínas de uma cidade desaparecida ou quaisquer outras investigações de ordem física ou química que exigissem experiências numerosas e minuciosamente preparadas. Não era, de modo algum, necessário tentar convencer-me de tudo isso. Ao contrário, pensava que, se G. me desse a possibilidade de conhecer melhor o que fazia, eu seria provavelmente capaz de encontrar todos os fundos de que ele pudesse necessitar para erguer solidamente sua obra e pensava também em trazer-lhe pessoas mais bem preparadas. Mas, evidentemente, eu ainda só tinha uma idéia muito vaga do que poderia ser seu trabalho.

Sem dizê-lo abertamente, G. deu-me a entender que me aceitaria como um de seus alunos, se eu expressasse esse desejo. Disse-lhe que o maior obstáculo, no que me dizia respeito, era ser-me impossível no momento residir em Moscou, porque me comprometera com um editor de São Petersburgo, e estava preparando várias obras. G. disse-me que ia várias vezes a São Petersburgo; prometeu-me que iria lá em breve e me previniria de sua chegada.

- Mas, se me junto a seu grupo, disse-lhe, me verei diante de um problema muito difícil. Não sei se o senhor exige dos alunos a promessa de guardar segredo de tudo o que aprendem; eu não não poderia fazer tal promessa. Por duas vezes em minha vida teria podido juntar-me a grupos cujo trabalho era análogo ao seu, segundo creio compreender, e isso me interessava muito. Mas, nos dois casos minha adesão teria significado que me comprometeria a guardar segredo de tudo o que pudesse aprender e, em ambos, resusei, porque antes de tudo sou escritor; desejo ficar absolutamente livre para decidir por mim mesmo o que escreverei ou não. Se prometo guardar segredo do que me disserem, talvez seja muito difícil para mim, depois, separar aquilo que me tiver sido dito do que poderia ocorrer-me a esse respeito ou do que surgisse em mim espontaneamente. Por exemplo, hoje ainda não sei quase nada de suas idéias; entretanto, estou certo de que, assim que começarmos a falar, chegaremos bem depressa às questões do espaço e do tempo, das dimensões de ordem superior e assim por diante. São questões sobre as quais trabalho há longos anos. Aliás, não tenho dúvida de que devem ocupar lugar muito grande em seu sistema.

G. concordou.

- Bem, o senhor vê que, se estivéssemos falando agora sob a promessa de sigilo, eu não saberia mais, desde este momento, o que posso escrever e o que não posso mais escrever.

- Como vê então esta questão? disse-me G.. Não devemos falar em demasia. Há coisas que somente são ditas aos alunos.

- Só poderia aceitar esta condição temporariamente. Naturalmente, seria ridículo que me pusesse logo a escrever sobre o que tivesse aprendido do senhor. Mas se, por princípio, não quer fazer segredo de suas idéias, se apenas zela para que não sejam transmitidas de forma distorcida, posso então aceitar tal condição e esperar ter adquirido melhor compreesão de seu ensinamento. Aconteceu-me frequentar um grupo de pessoas empenhadas numa série de experiências científicas em escala muito vasta. Não fazia mistério de seus trabalhos. Tinham, porém estabelecido a condição de que nenhum deles teria o direito de falar ou escrever sobre experiência alguma, a menos que fose capaz de levá-la a termo. Enquanto fosse incapaz de repetir a experiência, devia calar-se.

- Não poderia haver fórmula melhor, disse G., e se houver por bem observar esta regra, tal questão nunca se levantará entre nós.

- Existem condições para entrar em seu grupo? perguntei. E um homem que faça parte dele estaria doravante ligado a ele, bem como ao senhor? Noutros termos, desejo saber se ele é livre de se retirar e abandonar o trabalho ou, então, se deve assumir obrigações definitivas. E que faz o senhor com ele, caso não as cumpra?

- Não há nenhuma condição, disse G., nem pode haver. Partimos do fato de que o homem não se conhece a si mesmo, de que não é(acentuou essas palavras), isto é, não é o que pode e o que deveria ser. Por essa razão, não pode comprometer-se nem assumir nenhuma obrigação. Nada pode decidir quanto ao futuro. Hoje é uma pessoas e amanhã, outra. Não está pois, ligado a nós de modo algum e , se desejar, pode abandonar o trabalho a qualquer momento e ir embora. Não existe nenhuma obrigação nem em nossa relação com ele, nem na dele conosco.

"Se quiser, pode estudar. Terá que estudar por muito tempo e trabalhar sobre si mesmo. Se um dia chegar a aprender o suficiente, então será diferente. Verá por si mesmo se gosta ou não de nosso trabalho. se desejar, poderá trabalhar conosco; se não, poderá partir. Até esse momento, é livre. Se permanecer depois disso, será capaz de decidir ou tomar providências para o futuro.

"Por exemplo, considere isto: um homem poderá encontrar-se - é claro que não no início, porém mais tarde - numa situação em que deva guardar segredo, pelo menos por algum tempo, sobre algo que tenha aprendido. Como poderia um homem que não se conhece a si mesmo prometer guardar um segredo? Naturalmente, pode prometê-lo, mas poderá cumprir sua promessa? Pois não é um, há uma multidão de homens nele. um deles promete e acredita que quer guardar segredo. Mas amanhã um outro nele dirá a sua mulher ou a um amigo, diante de uma garrafa de vinho ou, então, deixará que qualquer sabido lhe dê corda e contará tudo, sem mesmo perceber. Ou ainda, gritarão com ele inesperadamente e, intimidando-o farão dele o que quiserem. Que espécie de obrigações poderia, pois, assumir? Não, com tal homem não falaremos seriamente. Para ser capaz de guardar um segredo, um homem deve conhecer-se e deve ser. Ora, um homem como o são todos os homens, está muito longe disso.

"Algumas vezes, fixamos condições temporárias para as pessoas. É uma prova. Ordinariamente, elas deixam muito depressa de observá-las, mas isso não tem importância, porque nunca confiamos um segredo importante a um homem em quem não temos confiança. Quero dizer que, para nós, isto não importa, embora destrua nossa relação com ele e, assim esse homem perca a oportunidade de aprender algo de nós, supondo-se que haja algo a aprender de nós. Isto pode também ter repercussões desagradáveis para todos os seus amigos pessoais, embora possam não esperar isso."

UMA ALUSÃO AO GRUPO DOS "BUSCADORES DA VERDADE".

Lembro-me de que, numa das minha conversa com G., durante a primeira semana em que nos conhecemos, comuniquei-lhe a intenção de voltar ao Oriente.

- Vale a pena pensar nisso? perguntei-lhe; e acredita o senhor que possa encontrar lá o que busco?

- É bom ir lá para repousar, em férias, disse G., mas, para o que você busca, não vale a pena. Tudo isso pode ser encontrado aqui.

Compreendi que falava do trabalho com ele. Perguntei-lhe:

- Mas as escolas encontradas no Oriente, no âmago de todas as tradições, não oferecem algumas vantagens?

Em sua resposta, G. desenvolveu váriaS idéias que só compreendi muito mais tarde.

- Supondo-se que encontrasse escolas, só encontraria escolas "filosóficas". Na Índia, só existem escolas "filosóficas". Há bastante tempo, as coisas tinham sido repartidas assim: na Índia, a "filosofia", no Egito a "teoria" e, na região que corresponde hoje à Pérsia, à Mesopotâmia e ao Turquestão, a "prática".

- E continua sendo do mesmo modo atualmente?

- Em parte, mesmo hoje em dia, respondeu, mas você não capta o que quero dizer por "filosofia", "teoria" e "prática". Essas palavras não devem ser entendidas no sentido em que o são ordinariamente.

"Hoje em dia, no Oriente, só encontrará escolas especiais; não existem escolas gerais. Cada mestre ou guru é especialista em algum assunto. Um é astrônomo, outro escultor, o terceiro, músico. E os alunos devem estudar, antes de tudo, o assunto da especialidade do mestre. depois do que passam a outra matéria e assim por diante. Levaria uns mil anos para estudar tudo isso.

- Mas como o senhor estudou?

- Não estava só. Havia, entre nós, especialistas de todos os gêneros. Cada qual estudava segundo os métodos de sua ciência particular. Depois do que, quando nos reuníamos, compartilhávamos os resultados que tínhamos obtido.

- E onde estão, agora, seus companheiros?

G. ficou silencioso e, depois, olhando ao longe, disse lentamente:

- Alguns morreram, outros prosseguem seus trabalhos, outros estão enclausurados.

Essa expressão da linguagem monástica, ouvida num momento em que menos esperava, fez-me experimentar estranho sentimento de constrangimento.

E, de repente, dei-me conta de que G. estava fazendo certo "jogo" comigo, como se tentasse deliberadamente lançar-me, de vez em quando, uma palavra que pudesse interessar-me e orientar meus pensamentos numa direção definida.

Quando tentei perguntar-lhe mais claramente onde encontrara o que sabia, em que fontes recolhera seus conhecimentos e até onde se estendiam, não me deu resposta direta.

- Sabe, disse-me, quando partiu para a Índia, os jornais falaram de sua viagem e de suas pesquisas. Dei a meus alunos a tarefa de ler seus livros, de determinar através deles quem você era e de estabelecer sobre tal base o que seria capaz de encontrar. Assim, enquanto ainda estava a caminho, já sabíamos o que encontraria.

O BALÉ "A LUTA DOS MAGOS" E O ESTUDO DE SI.

Interrroguei um dia G. sobre o balé que fora mencionado nos jornais, com o nome de "A Luta dos Magos", e de que falava o relato intitulado "Vislumbres da Verdade". Perguntei-lhe se esse balé teria o carárer de um "mistério".

- Meu balé não é um "mistério", disse G. . Tinha em mira produzir um espetáculo a um só tempo significativo e magnífico. Mas não tentei colocar em evidência nem acentuar o sentido oculto. Certas danças ocupam um lugar importante. Explicarei brevemente por quê. Imagine que para estudar os movimento dos corpos celestes, por exemplo, dos planetas do sistema solar, se construa um mecanismo especial para dar uma representação animada das leis desses movimentos e para fazer-nos lembrar delas. Nesse mecanismo, cada planeta, representado por uma esfera de dimensão apropriada, está colocado a certa distância de uma esfera central que representa o sol. Posto o mecanismo em movimento, todas as esferas começam a girar sobre si mesmas, deslocando-se ao longo das trajetórias que lhes foram determinadas, reproduzindo de forma visível as leis que regem os movimentos dos planetas. Esse mecanismo traz-lhe à lembrança tudo que sabe do sistema solar. Existe alguma coisa análoga no ritmo de certas danças. Através dos movimentos estritamente definidos dos dançarinos e de suas combinações, certas leis se tornam manifestas e inteligíveis àqueles que as conhecem. São as danças ditas "sagradas". Durante minhas viagens pelo Oriente, fui muitas vezes testemunha de tais danças, executadas em templos antigos durante os ofícios divinos. Algumas delas são reproduzidas em meu balé.

"Além disso, "A Luta dos Magos" se baseia em três idéias. Se, porém apresentar esse balé num palco comum, o público nunca as compreenderia."

O que G. disse a seguir fez-me compreender que este não seria um balé no sentido estrito da palavra, mas uma série de cenas dramáticas e mímicas, ligadas por um enredo, tudo acompanhado de música e entremeado de cantos e danças. Para designar essa série de cenas, a palavras mais apropriada teria sido "revista", mas sem nenhum elemento cômico. As cenas importantes representavam a escola de um "Mago Negro" e a de um "Mago Branco", com os exercícios dos alunos e os episódios de uma luta entre as duas escolas. A ação devia situar-se no coração de uma cidade oriental e incluir um história de amor de sentido alegórico, tudo entrelaçado com diversas danças nacionais asiáticas, danças dervixes e danças sagradas.

Fiquei particularmente interessado, quando G. disse que os mesmos atores deveriam representar e dançar na cena do "Mago Branco" e na do "Mago Negro", e que, na primeira cena, deveriam ser tão belos e atraentes em si mesmos e por seus movimentos, quanto disformes e horrendos na segunda.

- Compreenda isso, dizia G., desse modo eles poderão ver e estudar todos os lados de si mesmos; esse balé apresentará, pois, imenso interesse para o estudo de si. - Na nota da imprensa que eu li, dizia-se que esse balé seria representado em Moscou e que alguns dançarinos célebres tomariam parte nele. Como o senhor concilia isso com a idéia do estudo de si? Esses dançarinos não representarão nem dançarão para estudar-se a si mesmos.

- Nada está decidido ainda e o autor da nota que leu não estava bem informado. Talvez o façamos de modo completamente diferente. Entretanto, o que é certo é que aqueles que vão representar nesse balé, queiram ou não, deverão ver-se a si mesmos.

- E quem está escrevendo a música?

- Isto também não está decidido.

G. não acrescentou mais nada e eu não ouviria falar mais desse "balé" por cinco anos.

O HOMEM É UMA MÁQUINA GOVERNADA PELAS INFLUÊNCIAS EXTERNAS.

Certo dia, em Moscou, falava com G. sobre Londres, onde estivera por pouco tempo, alguns meses atrás. Dizia-lhe da terrível mecanização que invadia as grandes cidades européias e sem a qual era, provavelmente, impossível viver e trabalhar no turbilhão desses enormes "brinquedos mecânicos". - As pessoas estão se transformando em máquinas, dizia eu, e não duvido que se convertam um dia em máquinas perfeitas. Mas será que são ainda capazes de pensar? Não creio. Se tentassem pensar não seriam tão belas máquinas.

- Sim, respondeu G., é verdade, mas só em parte. A verdadeira questão é esta: de que pensar se servem em seu trabalho? Se se servem do pensar conveniente, poderão até pensar melhor dentro de sua vida ativa e no meio das máquinas. Mas, uma vez mais, sob a condição de se servirem do pensar conveniente.

Não compreendi o que G. entendia por "pensar conveniente" e só o compreendi muito mais tarde.

- Em segundo lugar, continuou, a mecanização de que fala não é em absoluto perigosa. Um homem pode ser um homem - acentuou essa palavra - mesmo trabalhando com máquinas. Há outra espécie de mecanização bem mais perigosa: é ser ele mesmo uma máquina. Você já pensou alguma vez no fato de que todos os homens são eles mesmos máquinas?

- Sim, de um ponto de vista estritamente científico, todos os homens são máquinas governadas pelas influências exteriores. Mas a questão é saber se o ponto de vista científico pode ser totalmente aceito.

- Científico ou não científico, é a mesma coisa para mim, disse G.. Peço-lhe que compreenda o que digo. Olhe, todas essas pessoas que vê - indicava a rua - são simplesmente máquinas, nada mais.

-Creio compreender o que quer dizer e muitas vezes tenho pensado em como são pouco numerosos, no mundo, os que podem resistir a essa forma de mecanização e escolher o seu próprio caminho.

- Aí justamente está seu erro mais grave! disse G.. Pensa que alguma coisa pode escolher seu próprio caminho ou resistir à mecanização; pensa que tudo não é igualmente mecânico.

- Mas é claro! exclamei. A Arte, a poesia, o pensamento, são fenômenos de ordem totalmente diferente.

- São exatamente da mesma ordem. Essas atividades são exatamente tão mecânicas quanto todas as outras. Os homens são máquinas e de máquinas não se poderia esperar outra coisa a não ser ações maquinais.

- Muito bem, disse-lhe, mas não existem pessoas que não são máquinas?

- Pode ser que haja, disse G.. Mas você não pode vê-las. Não as conhece. É isso que quero fazê-lo compreender.

Pareceu-me bastante estranho que insistisse de tal modo nesse ponto. O que ele dizia parecia evidente e incontestável. Nunca tinha, entretanto, gostado das metáforas em duas palavras que pretendem dizer tudo. Sempre omitem as diferenças. Ora, eu sempre afirmara que as diferenças são o que mais importa e que, para compreender as coisas, era necessário, ante de tudo, considerar os pontos em que diferem. Parecia-me estranho, portanto que G. insistisse de tal modo numa verdade que me parecia inegável, sob a condição, porém, de não fazer dela um absoluto e de reconhecer exceções.

- As pessoas se parecem muito pouco, disse eu. Considero impossível colocá-las todas dentro do mesmo saco. Há selvagens, há pessoas mecanizadas, há intelectuais, há gênios.

- Nada mais exato, disse G.. As pessoas são muito diferentes, mas a diferença real entre as pessoas você nem conhece nem pode ver. Fala de diferenças que simplesmente não existem. Isso deve ser bem compreendido. Todas as pessoas que vê, que conhece, que pode vir a conhecer, são máquinas, verdadeiras máquinas trabalhando apenas sob a pressão da influências exteriores, como você mesmo disse. Máquinas nasceram e máquinas morrerão. O que vêm fazer aqui os selvagens e os intelectuais? Agora mesmo, nesse exato momento, enquanto falamos, vários milhões de máquinas esforçam-se por se aniquilarem umas às outras. Em que então elas diferem? Onde estão os selvagens e onde os intelectuais? São todos a mesma coisa...

"Mas é possível deixar de ser máquina. Nisto é que deveria pensar e não nas diversas espécies de máquinas. Claro, as máquinas diferem: um automóvel é uma máquina, uma vitrola é uma máquina e um fuzil é uma máquina. Mas que diferença faz? É a mesma coisa - são sempre máquinas".

"PSICOLOGIA" E "MECÂNICA".

Essa conversa lembra-me uma outra.

- Que pensa da psicologia moderna? perguntei um dia a G., com a intenção de levantar a questão da psicanálise, da qual desconfiara desde o primeiro dia.

Mas G. não me permitiu ir tão longe.

- Antes de falar de psicologia, disse, devemos compreender claramente de que trata essa ciência e de que não trata. O objeto próprio da psicologia são os homens, os seres humanos. De que psicologia - sublinhou a palavra - se trata quando cuidamos somente de máquinas? É da mecânica e não da psicologia que necessitamos para o estudo das máquinas. Por isso é que começamos pelo estudo da mecânica. Ainda falta percorrer um longo caminho para chegar à psicologia.

Perguntei:

- Pode um homem deixar de ser máquina?

- Ah! aí está toda a questão, disse G.. Se tivesse feito mais freqüentemente semelhantes perguntas, talvez nossas conversas tivessem podido levar-nos a alguma parte. Sim, é possível deixar de ser máquina, mas, para isto, é necessário antes de tudo, conhecer a máquina. Uma máquina, uma máquina real, não se conhece a si mesma e não pode conhecer-se. Quando uma máquina se conhece, desde esse instante deixou de ser máquina; pelo menos não é mais a mesma máquina que antes. Já começa a ser responsável por suas ações.

- Isso significa, segundo o senhor, que um homem não é responsável por suas ações?

- Um homem - frisou esta palavra - é responsável. Uma máquina não é responsável.

TUDO "ACONTECE. NINGUÉM PODE "FAZER" NADA.

De outra vez, perguntei a G.:

- Qual é, na sua opinião, a melhor preparação para o estudo de seu método? Por exemplo, será útil estudar o que se chama literatura "oculta" ou "mística"?

Dizendo-lhe isto, tinha mais particularmente em vista o "Tarô" e toda a literatura referente ao "Tarô".

- Sim, disse G.. Pode-se encontrar muito pela leitura. Por exemplo, considere seu caso: já poderia conhecer muitas coisas se soubesse ler. Explicou-me: se tivesse compreendido tudo o que leu em sua vida, já teria o conhecimento daquilo que busca agora. Se tivesse compreendido tudo o que está escrito em seu próprio livro, qual é seu título? - pronunciou então algo totalmente ininteligível a partir das palavras "Tertium Organum"[Título de uma obra de Ouspensky] - eu é que deveria ir a você, curvar-me e pedir-lhe que me ensinasse. Mas você não compreende nem o que lê nem o que escreve. Não compreende nem o que significa a palavras compreender. A compreensão é, entretanto o essencial e a leitura só pode ser útil com a condição de que se compreenda o que se lê; mas é evidente que nenhum livro pode dar uma preparação real. É, pois, impossível dizer que livros são os melhores. O que um homem conhece bem - acentuou a palavra "bem" - isto é uma preparação para ele. Se um homem sabe bem como fazer café ou como fazer bem calçados, então já é possível falar com ele. Infelizmente ninguém sabe bem seja o que for. Tudo é conhecido de qualquer jeito, de maneira inteiramente superficial.

Era mais uma dessas voltas inesperadas que G. dava às suas explicações. Suas palavras, além do sentido ordinário, continham sempre outro totalmente diferente. Mas eu já entrevia que, para decifrar esse sentido escondido, tinha que começar por captar-lhes o sentido usual e simples. As palavras de G., tomadas do modo mais simples possível, estavam sempre cheias de sentido, mas tinham também outras significações. A significação mais ampla e mais profunda permanecia velada por muito tempo.

Outra conversa ficou-me na memória. Perguntei a G. o que um homem deve fazer para assimilar seu ensinamento.

- O que deve fazer? exclamou, como se esta pergunta o surpreendesse. Mas ele é incapaz de fazer seja o que for. Ele deve, antes de tudo, compreender certas coisas. Tem milhares de idéias falsas e de concepções falsas, principalmente sobre si mesmo e deve começar por se libertar ao menos de algumas delas, se quer algum dia adquirir seja o que for de novo. Doutro modo o novo seria edificado sobre base falsa e o resultado seria ainda pior.

- Como pode um homem libertar-se das idéias falsas? perguntei. Dependemos das formas de nossa percepção. As idéias falsas são produzidas pelas formas de percepção.

G. fez que não com a cabeça:

- Fala ainda de outra coisa. Fala dos erros que provêm das percepções, mas não se trata disso. Dentro dos limites de dadas percepções, pode-se errar mais ou menos. Como já lhe disse, a suprema ilusão do homem é a sua convicção de que pode fazer. Todas as pessoas pensam que podem fazer, todas as pessoas querem fazer e sua primeira pergunta se refere sempre ao que terão que fazer. Mas, para dizer a verdade, ninguém faz nada e ninguém pode fazer nada. É a primeira coisa que é preciso compreender. Tudo acontece. Tudo o que ocorre na vida de um homem, tudo o que se faz através dele, tudo o que vem dele - tudo isso acontece. E isso acontece exatamente como a chuva que cai porque a temperatura nas regiões superiores da atmosfera se modificou, como a neve se derrete sob os raios do sol, como a poeira se levanta com o vento.

"O homem é uma máquina. Tudo o que faz, todas as suas ações, todas suas palavras, seus pensamentos, seus sentimentos, suas convicções, seus hábitos, são o resultado das influências exteriores, das impressões exteriores. Por si mesmo, um homem não pode produzir um único pensamento, uma só ação. Tudo o que diz, faz, pensa, sente tudo isso acontece. O homem não pode descobrir nada, não pode inventar nada. Tudo isso acontece.

"Mas, para estabelecer esse fato, para compreendê-lo, para convencer-se de sua verdade, é preciso libertar-se de milhares de ilusões sobre o homem, sobre seu ser criador, sobre sua capacidade de organizar conscientemente sua própria vida e assim por diante. Nada disso existe. Tudo isso acontece - os movimentos populares, as guerras, as revoluções, as mudanças de governo, tudo isso acontece. E acontece exatamente do mesmo modo como tudo acontece na vida do homem individual. O homem nasce, vive, morre, constrói casas, escreve livros, não como deseja mas como isso acontece. Tudo acontece. O homem não ama, não odeia, não deseja - tudo isso acontece.

"Mas nenhum homem jamais acreditará em você, se lhe disser que ele não pode fazer nada. Não se pode dizer nada de mais desagradável e ofensivo às pessoas. É particularmente desagradável e ofensivo porque á a verdade e porque ninguém quer conhecer a verdade.

"Se você o compreender, será mais fácil falarmos. Uma coisa, porém, é captar com o intelecto que o homem não pode fazer nada e, outra, experimentá-lo "com toda a sua massa", estar realmente convencido de que é assim e nunca esquecê-lo.

"Essa questão de fazer (G. acentuava esta palavra a cada vez) suscita, aliás, uma outra. Parece sempre às pessoas que os outros nunca fazem nada, como deveriam, que os outros fazem tudo de errado. Invariavelmente, cada um acha que poderia fazer melhor. Ninguém compreende, nem sente a necessidade de compreender, que o que se faz agora - e principalmente o que já foi feito - de certa maneira, não se poderia fazer de outra maneira. Já se observou como todos eles falam da guerra? Cada qual tem seu próprio plano, sua própria teoria. Cada qual é de opinião que não se faz nada convenientemente. Em verdade, no entanto, tudo é feito da única maneira possível. Se uma só coisa pudesse ser feita de modo diferente, tudo poderia tornar-se diferente. E talvez, então, não tivesse havido a guerra.

"Tente compreender o que digo: tudo depende de tudo, todas as coisas estão ligadas, nada há de separado. Todos os acontecimentos seguem, portanto, o único caminho que podem seguir. Se as pessoas pudessem mudar, tudo poderia mudar. Elas, porém, são o que são e, por conseguinte, as coisas também são o que são."

Isso era muito difícil de engolir.

- Não há absolutamente nada que possa ser feito? perguntei.

- Absolutamente nada.

- E ninguém pode fazer nada?

PARA FAZER É NECESSÁRIO SER.

- Essa é outra questão. Para fazer é preciso ser. E é preciso, antes de tudo, compreender o que significa ser. Se prosseguirmos estas conversas, verá que nos servimos de uma linguagem especial e, para estar em condições de falar conosco, é necessário aprender essa linguagem. Não vale a pena falar na linguagem comum, porque nela é impossível compreender-se. Isso espanta. Mas é verdade. Para chegar a compreender, deve-se aprender outra linguagem. Na linguagem em que falam, as pessoas não podem se compreender. Verá mais tarde porque é assim.

"A seguir, deve-se aprender a dizer a verdade. Isso também lhe parece estranho. Você não se dá conta de devemos aprender a dizer a verdade. Parece-lhe suficiente desejar ou decidir dizê-la. E digo-lhe que é relativamente raro que as pessoas digam uma mentira deliberada. Na maioria dos casos, pensam dizer a verdade. E, no entanto, mentem o tempo todo, quer quando querem mentir, quer quando querem dizer a verdade. Mentem continuamente, mentem a si mesmas e mentem aos outros. Por conseguinte, ninguém compreende os outros, nem se compreende a si mesmo. Pense nisto: - poderia haver tantas discórdias e mal-entendidos profundos e tanto ódio ao ponto de vista ou à opinião do outro, se as pessoas fossem capazes de se compreender? Elas, porém, não podem se compreender, porque não podem deixar de mentir. Dizer a verdade é a coisa mais difícil do mundo; seria necessário estudar muito e durante muito tempo, para poder um dia dizer a verdade. O desejo só não basta. Para dizer a verdade, é preciso ter-se tornado capaz de conhecer o que é a verdade e o que é uma mentira - e, antes de tudo em si mesmo. Mas isto ninguém quer conhecer."

As conversas com G. e o giro imprevisto que dava a cada idéia, cada dia interessavam-me mais, mas eu devia partir para São Petersburgo.

Lembro-me de minha última conversa com ele. Tinha-lhe agradecido a consideração que me dispensara e suas explicações que, já o via, mudaram muitas coisas para mim.

- Ainda assim, disse-lhe, o mais importante são os fatos. Se pudesse ver fatos reais, autênticos, de caráter novo e desconhecido, só eles poderiam convenver-me de que estou no bom caminho.

Estava ainda pensando nos "milagres".

- Haverá fatos, disse-me G.. Prometo-lhe. Mas não se pode começar por aí.

Não compreendi, então, o que ele queria dizer; só o compreendi mais tarde, quando G., cumprindo a promessa, pôs-me realmente diante de "fatos". Mas isso só se deveria produzir um ano e meio mais tarde, em agosto de 1916.

A CONSIDERAÇÃO, ESCRAVIDÃO INTERIOR.

De nossas últimas conversas em Moscou, guardo ainda a lembrança de certas palavras pronunciadas por G. e que também só se tornariam inteligíveis para mim mais tarde.

Falava-me de um homem que eu encontrara uma vez em sua companhia e das relações dele com certas pessoas.

- É um homem fraco, dizia-me. As pessoas se servem dele inconscientemente, é claro. E isso porque ele as considera. Se não as considerasse, tudo mudaria e elas próprias mudariam.

Pareceu-me estranho que um homem não devesse considerar os outros.

- Quer quer dizer o senhor com a palavra considerar? disse-lhe. Ao mesmo tempo que o compreendo, não o compreendo. Essa palavra tem significações muito diferentes.

É o contrário, disse G.; essa palavras só tem uma significação. Tente pensar nisso.

Mais tarde, compreendi o que G. entendia por consideração. E dei-me conta do lugar enorme que ocupa em nossa vida e de tudo daí decorrente. G. chamava "consideração" essa atitude que cria uma escravidão interior, uma dependência interior. Tivemos, depois, muitas ocasiões de falar novamente sobre isso.

Lembro-me de outra conversa sobre a guerra. Estávamos sentados no café Phillipoff, na Tverskaya. Estava repleto e muito barulhento. A especulação e a guerra mantinham uma atmosfera febril, desagradável. Tinha até recusado ir a esse café. Mas G. insistira e, como sempre ocorria com ele, eu tinha cedido. Já compreendia, na época, que ele criava, às vezes deliberadamente, situações que deviam tornar a conversa mais difícil, como se quisesse exigir de mim um esforço suplementar e um ato de resignação a condições penosas ou desconfortáveis, pelo gosto de falar com ele.

Mas, dessa vez, o resultado não foi particularmente brilhante; o barulho era tal que não conseguia ouvir as coisas mais interessantes. A princípio, não compreendia suas palavras. Mas o fio escapou-me pouco a pouco. Depois de fazer várias tentativas para acompanhar suas observações, das quais só me chegavam palavras isoladas, deixei finalmente de escutar e pus-me a observar simplesmente como falava.

A conversa se iniciara pela minha pergunta:

- A guerra pode ser detida?

E G. respondera:

- Sim, isso é possível.

No entanto, acreditava ter adquirido, das nossas conversas anteriormente, a certeza de que responderia: "Não, isso é impossível". - Mas a questão toda é: "como?", prosseguiu. É necessário grande saber para compreendê-lo. O que é a guerra? A guerra é um resultado de influências planetárias. Em algum lugar, lá em cima, dois ou três planetas aproximaram-se demais; disso resulta uma tensão. Já observou como fica tenso, quando um homem roça em você numa calçada estreita? A mesma tensão se produz entre os planetas. Para eles, isso talvez só dure um ou dois segundo. Mas aqui, na terra, as pessoas começam a se massacrar e continuam massacrando-se durante anos. Em tais períodos, parece-lhes que se odeiam umas às outras; ou talvez que seja seu dever massacrarem-se por algum propósito sublime; ou então, que devam defender alguma coisa ou alguém e que seja muito nobre fazê-lo; ou qualquer outra coisa deste gênero. São incapazes de se darem conta de até que ponto são simples peões num tabuleiro de xadrez. Atribuem a si uma importância; crêem-se livres de ir e vir a seu bel prazer; pensam que podem decidir fazer isto ou aquilo. Mas, na realidade, todos os seus movimentos, todas as suas ações, são o resultado de influências planetáris. E sua própria importância é nula. Quem tem o grande papel é a lua. Mas falaremos da Lua mais tarde. Basta compreender que, nem o Imperador Guilherme, nem os generais, nem os ministros, nem os parlamentos, não significam nada e nada fazem. Numa grande escala, tudo o que acontece é governado do exterior, seja por combinações acidentais de influências, seja por leis cósmicas gerais.

Foi tudo o que ouvi. Só muito mais tarde compreendi que ele havia querido explicar-me, então, como as influências acidentais podem ser desviadas ou transformadas em alguma coisa relativamente inofensiva. Ali estava uma idéia realmente interessante, que se referia à significação esotéria dos "sacrifícios". Mas, em todo caso, essa idéia só tem atualmente valor histórico e psicológico. O que era mais importante - e que dissera, de certo modo, de passagem, de forma que no momento não lhe dei atenção e só me lembrei mais tarde, ao tentar reconstituir a conversa - se referia à diferença dos tempos para os planetas e para o homem.

Mas, mesmo quando me lembrei disso, por muito tempo não consegui compreender a plena significação dessa idéia. Mais tarde, ficou claro para mim que era fundamental.

Foi mais ou menos nessa época que tivemos uma conversa sobre o sol, os planetas e a lua. Embora me tivesse tocado vivamente, esqueci-me de como começou. Lembro-me, entretanto, de que G., tendo desenhado um pequeno diagrama, tentou explicar-me o que denominava "correlação das forças nos diferentes mundo". Isso se referia ao que ele dissera anteriormente da influências que agem sobre a humanidade. A idéia era, grosso modo, a seguinte: a humanidade ou, mais exatamente, a vida orgânica sobre a terra, está submetida a influências simultâneas provenientes de fontes várias e de mundo diversos: influências dos planetas, influências da lua, influências do sol, influências das estrelas. Agem todas a um só tempo, mas com predominância de uma ou de outra, conforme os momentos. E, para o homem, existe certa possibilidade de fazer uma escolha de influências; ou seja, de passar de uma influência a outra.

- Explicar como exigiria desenvolvimentos demasiadamente extensos, disse G.. Falaremos disso de outra vez. Por enquanto, queria que compreendesse isto: é impossível libertar-se de uma influência sem se submeter a outra. Toda a dificuldade, todo o trabalho sobre si, consiste em escolher a influência à qual você quer se submeter e em realmente cair sob essa influência. Para esse fim, é indispensável que saiba prever a influência que lhe será mais proveitosa.

O que me havia interessado nessa conversa era que G. havia falado dos planetas e da Lua como de seres vivos, com idade definida, período de vida igualmente definido. De suas palavras, ressaltava que a Lua não era um "planeta morto", como geralmente se admite, mas, ao contrário, um "planeta em estado nascente", um planeta em seu estágio inicial de desenvolvimento, que ainda não havia alcançado o "grau de inteligência que a terra possui", para citar suas próprias palavras.

- A Lua cresce e se desenvolve, disse G., e um dia talvez chegue ao mesmo nível de desenvolvimento da Terra. Então, perto dela, surgirá uma Lua nova e a Terra tornar-se-á o Sol de todas as duas. Houve um tempo em que o Sol era como a Terra hoje e a Terra, como a Lua atual. Em tempos mais longínquos ainda, o Sol era uma Lua.

Isso havia chamado a minha atenção de imediato. Nada me parecera sempre mais artificial, mais suspeito, mais dogmático, que todas as teorias habituais sobre a origem dos planetas e dos sistemas solares, a começar pela de Kant-Laplace até as mais recentes, com tudo o que mudaram e acrescentaram nelas. O "grande público" considera essas teorias ou pelo menos a última de que se tenha conhecimento, como cientificamente provadas. Mas, na verdade, nada é menos científico e nada é menos provado. Eis por que o fato de o sistema de G. admitir uma teoria totalmente diferente, uma teoria orgânica originando-se de princípios inteiramente novos e revelando uma ordem universal diferente, pareceu-me muito interessante e importante.

- Qual a relação entre a inteligência da Terra e a do Sol? perguntei.

- A inteligência do Sol é divina, respondeu G.. Entretanto, a Terra pode chegar à mesma elevação; mas é claro que nada disto é assegurado: a Terra pode morrer antes de ter chegado a alguma coisa.

- De que depende isto?

A resposta de G. foi das mais vagas.

Há um período definido, disse, durante o qual certas coisas podem ser realizadas. Se, ao fim do tempo prescrito, o que teria de ser feito não o foi, então a Terra pode perecer, sem ter chegado ao grau que teria podido alcançar.

- Esse período é conhecido?

- Ele é conhecido, disse G., mas as pessoas não teriam vantagens em sabê-lo. Seria até pior. Uns acreditariam, outros não acreditariam e outros ainda pediriam provas. Depois começariam a quebrar a cara uns dos outros. Sempre termina assim com as pessoas.

Na mesma época, em Moscou, tivemos várias conversas interessantes sobre a arte. Referiam-se ao relato que fora lido na primeira noite em que vi G..

- Atualmente, disse ele, você não compreende ainda que os homens podem pertencer a níveis muito diferentes, sem parecer diferir em nada um dos outros. Ora, há níveis de arte, assim como diferentes níveis de homens. Mas você não vê hoje que a diferença entre esses níveis é muito maior do que imagina; coloca tudo no mesmo plano, justapõe as coisas mais diferentes e imagina que os diferentes níveis lhe são acessíveis.

"Tudo o que você chama de arte é apenas reprodução mecânica, imitação da natureza - quando não de outros "artistas" - simples fantasia ou ainda ensaio de originalidade: tudo isso não é arte para mim. A arte verdadeira é totalmente diferente. Em certas obras de arte, em particular nas obras mais antigas, você é tocado por muitas coisas que não se podem explicar e que não se encontram nas obras de arte modernas. Mas, como não compreende onde está a diferença, esquece disso muito depressa e continua a englobar tudo sob o mesmo rótulo. E, no entanto, a diferença entre a sua arte e a de que falo é enorme. Em sua arte, tudo é subjetivo: a percepção que o artista tem desta ou daquela sensação, as formas nas quais procura expressá-la e a percepção dessas formas pelos outros. Em presença de um só e mesmo fenômeno, um artista pode sentir de certo modo e outro artista de modo inteiramente diferente. Um mesmo pôr de sol pode provocar sensação de alegria num e tristeza noutro. E eles podem esforçar-se por exprimir a mesma percepção por métodos ou formas sem relação entre si; ou, então, percepções muito diversas sob a mesma forma, segundo o ensinamento que receberam ou em oposição a ele. E os espectadores, os ouvintes ou os leitores perceberão, não o que o artista lhes queria comunicar ou o que sentiu, mas o que as formas pelas quais tiver expressado suas sensações lhe façam experimentar por associação. Tudo é subjetivo e tudo é acidental, isto é, baseado em associações: as impressões acidentais do artista, sua "criação" ( acentuou a palavra "criação") e as percepções dos espectadores, ouvintes ou leitores.

Na arte verdadeira, ao contrário, nada é acidental. Tudo é matemático. Tudo pode ser calculado e previsto de antemão. O artista sabe e compreende a mensagem que quer transmitir e sua obra não pode produzir certa impressão num homem e impressão completamente diferente noutro, sob a condição, naturalmente, de que se tomem pessoas de um mesmo nível. Sua obra produzirá sempre, com certeza matemática, a mesma impressão.

"Entretanto, a mesma obra de arte produzirá efeitos diferentes sobre homens de níveis diferentes. E os de nível inferior nunca extrairão dela tanto quanto os de nível mais elevado. Eis a arte verdadeira, objetiva. Tome, por exemplo, uma obra científica - um livro de astronomia ou química. Não pode ser compreendido de duas maneiras; qualquer leitor suficientemente preparado compreende o que o autor quis dizer e precisamente do modo pelo qual o autor quis ser compreendido. Uma obra de arte objetiva é exatamente semelhante a um desses livros, com uma única diferença: de que se dirige à emoção do homem e não à sua cabeça.

- Existem em nossos dias obras de arte desse gênero?

- Naturalmente que existem, respondeu G.. A grande esfinge do Egito é uma delas, do mesmo modo que certas obras arquitetônicas conhecidas, certas estátuas de deuses e muitas outras coisas ainda. Certos rostos de deuses ou de heróis mitológicos podem ser lidos como livros, não com o pensamento, repito, mas com a emoção, desde que esta esteja suficientemente desenvolvida. No curso de nossas viagens à Ásia Central, encontramos no deserto, ao pé do Hindu Kush, uma curiosa escultura que, à primeira vista, pensamos representar um antigo deus ou demônio. Causou-nos a princípio somente uma impressão de estranheza. Cedo, porém, começamos a sentir o conteúdo dessa figura: era um grande e complexo sistema cosmológico. Pouco a pouco, passo a passo, deciframos esse sistema: estava inscrito sobre seu corpo, sobre as pernas, sobre os braços, sobre a cabeça, sobre o rosto, sobre os olhos, sobre as orelhas e sobre todas as suas partes. Nada tinha sido deixado ao acaso nessa estátua, nada era desprovido de significação. E, gradualmente, esclareceu-se em nós a intenção dos homens que a haviam erigido. Podíamos, daí por diante, sentir seus pensamentos, seus sentimentos. Alguns dentre nós acreditavam ver seus rostos e ouvir suas vozes. Em todo caso, havíamos captado o sentido do que queriam nos transmitir através de milhares de anos e, não somente esse sentido, mas todos os sentimentos e emoções que estavam ligados a ele. Isto era verdadeiramente arte."

Estava muito interessado pelo que G. dissera a respeito da arte. Seu princípio de divisão entre arte subjetiva e arte objetiva era muito evocador para mim. Ainda não compreendia tudo o que ele colocava nessas palavras. Mas sempre sentira, na arte, certas divisões e gradações, que eu não podia, aliás, definir nem formular e que ninguém jamais formulara. Entretanto, sabia que essas divisões e graduações existiam. De modo que todas as discussões sobre a arte que não as admitiam pareciam-me frases ocas, vazias de sentido e inúteis. Graças às indicações que G. me dera dos diferentes níveis que não chegamos a ver nem compreender, sentia que devia existir um caminho de acesso a essa mesma gradação que eu sentira, mas não havia podido definir.

Em geral, muitas coisas ditas por G. me espantavam. Havia nelas idéias que eu não podia aceitar e me pareciam fantásticas, sem fundamento. Outras, ao contrário, coincidiam estranhamente com o que eu mesmo pensara ou confirmavam resultados aos quais já havia chegado há muito tempo. Sobretudo estava interessado no encadeamento do que ele dissera. Sentia já que seu sistema não era um amontoado de idéias, como todos os sistemas filosóficos e científicos, mas um todo indivisível, do qual, aliás, até então, só vira alguns aspectos.

Tais eram meus pensamentos, no trem noturno que me levava de Moscou a São Petersburgo. Perguntavam-me se tinha realmente encontrado o que buscava. Seria possível que G. conhecesse efetivamente o que era indispensável conhecer para passar de palavras ou idéias aos atos, aos "fatos"? Não estava ainda seguro de nada e não teria podido formular nada com precisão. Tinha, porém, a convicção íntima de que alguma coisa já mudara em mim e de que agora tudo iria tomar um caminho diferente.

Se por natureza não tiveres uma mente crítica, tua permanência aquí é inútil.
If you have not by nature a critical mind your staying here is useless