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| A BADALADA, A BALADA, A SAÍDA DO BOI 2005... |
| 2005, um ano marcado por desastres, tragédias aquáticas, em seu breve começo: tsunami na Ásia, chuvas torrenciais em Caetité. Então, esperamos a saída do Boi de Idalino, mais uma vez, este ano prometendo como novidade o trio elétrico, um verdadeiro carnaval - olhando para o céu carregado, ameaçador de forte chuva. Minha filha Joanna dormira em minha casa. Partilhava com o pai as expectativas. Discutimos a possibilidade dela sair fantasiada de careta, mas não conseguimos localizar nenhuma máscara para comprar! Caetité, que perdeu muitas de suas tradições, não tem máscaras para vender... (Cogitamos colocar-lhe a velha peruca, que foi de D. Áurea, mãe de Gilsão - mas, como veremos adiante, não seria uma boa escolha...). Bom, o sábado chegou e Nelsinho passa para avisar que está na hora: estou achando que vou virar "mobília" da Lavagem... Figura carimbada, mais um dos acessórios que são necessários... Vamos, eu e Joanna, para a rua Idalino Barberino, na Feira Velha. Algumas caretas já estão a postos. As "Meninas Superpoderosas" estão ali, numa reedição de 2004, desta vez não mais ostentando o mesmo conteúdo da primeira vez. Verifico, curioso, se chegarão figuras vetustas, e elas estão ausentes. A rua vai se enchendo aos poucos. Mas, para minha alegria, é grande a participação da comunidade. São poucos os forasteiros, como eu. Entramos na casa de Idalino - Joanna já se esqueceu de cobrar dele um iguana prometido quando ela tinha lá seus quatro aninhos e até hoje nada... bem, tá rolando um sambão, e Idalino, logo ele, o "Dono do Boi", não está no banheiro, como nos anos anteriores. Parecia agir como se já estivesse em pleno controle da ansiedade, como se já fosse senhor da expectativa e não precisasse ficar escondido até o último instante... As poucas caretas já fantasiadas brincam com os meninos que descobrem a verdadeira finalidade da infância: correr, bulir, fugir, provocar as caretas. E as caretas descobrem que estão ali para perseguir os meninos. Defronte à casa do "Mestre do Boi" colocaram um velho manequim de loja, com um pano de estopa fazendo as vezes de roupa. Meninos e caretas brincam com ele, e logo pedaços do manequim estão nas mãos das crianças e das caretas... assim estripado, vemos ora um braço, ora uma perna, passeando no meio do povo. Com Joanna nos ombros, vamos até a casa de Nelsinho, na Praça da Feira Velha, descendo pelo beco que um dia margeava o belo Mercado Municipal, hoje a sede da EBDA. Um bando de seis ou sete garotos passa por nós, carregando uma perna da boneca estripada, justo a que trazia a virilha, devidamente caracterizada por um pedaço de bombril colado lá... e o maior deles grita: _Viva a perna da puta! Ao que os outros, em coro, respondem: _Viva! Pai zeloso, levo na brincadeira, também... afinal, é parte da vida ouvirmos certas coisas... Nelson e Raquel, sua esposa, estão na porta. Joanna ganha sua camiseta "oficial". Reparo que este ano desenharam um boi estilizado baseado num símbolo da radioatividade, lembrando o urânio... ou será para dizer que o Boi está irradiando-se para mais e maiores fronteiras? Ajudamos Nelson a levar alguns petrechos, as adrianinas, uma boneca de baiana, bombons para Roberto, filho de Soldado (velho morador da rua Idalino, ex-censor da Escola Normal), distribuir, e colares para as baianas. Nelson vai passando nas casas. Vistoria tudo, constata que as baianas, como sempre, estão atrasadas. O "velho" Gueguêu ficara encarregado de buscá-las. Isnar, na frente da casa, fantasiado com uma peruca igual à que pensei em vestir Joanna, distribui os bombons! Já pensou? Dois emperucados iguais? Teria sido muita coincidência. Olho, toda hora, para o céu, implorando aos numes para empurrar as nuvens carregadas, adiar a chuva que prometia. Volta e meia alguns pingos caíam, mas até o pessoal "lá de cima" queria ver o cortejo - e a chuva não se concretizou... Este ano, por ter ido mais cedo, vi algo que não presenciara nas edições anteriores: a "descida" do Boi da casa onde estava guardado, uma cuidadosa operação em que ele vem carregado até ser posto deitado defronte à casa do Dalinim... Chega a capoeira. Algumas adrianinas espocam. A rua está cheia. Desço até a Feira Velha, e uma novidade me deixa encantado: dois vaqueiros de verdade, montados em dois bois de verdade! Confesso que por esta não esperava! O boi de brinquedo, seguido por dois animais de carne e osso!!!! Joanna se encanta com as caretas e as perseguições: uma delas leva um teclado de computador: é o "Fantasma da Internet", batizo-a, lembrando-me não sei por quê das demoradas conexões que sou obrigado a fazer para deitar na rede uma simples página de texto... Finalmente a onda humana e feérica se forma, "organizada". No carro de som Nelsinho avisa que este ano o cortejo se repetirá no domingo, para que a afiliada da Rede Globo possa filmar... é, as coisas estão mesmo mudando... Vamos ter replay do Boi! E a onda, nossa pequena tsunami de fantasia, invade a Rua de Saldanha. De uma janela, D. Celsina, com seus 95 anos e muita lucidez, observa, feliz... Vamos à Praça da Catedral, lotada, expectadores, pessoas que ainda não descobriram que a festa já tinha começado muito antes. (He, he, he... não iria caber todo mundo mesmo na rua Idalino...) Na Praça, uma longa parada. Maria, a baiana mais antiga, só foi chegar neste momento... está a cada ano mais estrela, mais cheia de vontades... é duro, pro Nelson, administrar os egos assim tão inflados! No bar de Valmirzinho jogam confetes e serpentinas! Eba! Confetes e serpentinas batizam a capa asfáltica que foi jogada nas ruas centrais... para deleite da meninada, e meu também, feito menino, catando confete no chão, jogando pra cima... Vombora, vombora, vai subir a Rua Barão! E me desculpem os que esperam um relato mais detalhado: com minha filha de 30 quilos nos ombros, tudo o que fiz daí pra frente foi dançar, muito, curtir, aproveitar esta coisa fantástica que acontece na minha cidade todos os anos, há 18 anos! Numa bagunça razoavelmente ordenada, subimos, a tsunami do Boi. Contornamos o Parque das Árvores, vamos chegar à descida da Avenida Santana, trecho final do cortejo, quando aparece o carro-pipa com a água que será usada na Lavagem da Esquina. Um médico passa, no seu carro, olhando admirado para aquelas pessoas, sem entender o que se passa... ainda tem gente em Caetité que desconhece o Boi, que perde este espetáculo ímpar... ainda tem gente que posa de inteligente, mas ignora a cultura... Não é o caso do meu colega Juliano Tanus, que veio de Sampa advogar aqui. Também com sua filha nos ombros, não perde nada! Valeu, companheiro, a gente tem mais é de dar exemplo de paternidade, de como plantar o amanhã!!! Mas, tenho de me despedir de minha filha, intimada a ir para a casa da avó. Levo-a, ambos conformados com as intransigências que já conhecemos - e volto ligeiro, a tempo de assistir a chegada na Praça. O locutor anuncia, e Passarinho traz o nonagenário Monsenhor Osvaldo Magalhães para "benzer" a festa profana. Tairone abraça o velho padre, Nelsinho trepa na grade da varanda, ambos ao lado dessa figura cuja esquina dá nome ao evento, criado na cabeça deles dois e do Bolivar, e que a cada ano parece ganhar mais e mais nuances, que a tornam imperdível! Estou cansado, o corpo quase quarentão não é mais o mesmo... tudo dói, depois de ter carregado não um fardo, mas a semente, a certeza de que o Boi, a Lavagem, terá sua continuidade numa geração que estamos trazendo... Além de Juliano, Mãe-da-Lua carrega Guilherme, filho do Anderson Gumes: outro que, com certeza, estaria com o filho, não tivesse de viajar! Até William, de Gilson, apareceu. Serão eles, um dia, a alimentar esta festa, que quando for centenária, estará sendo transmitida para outros planetas, pelas TVs intergaláticas... O velho Monsenhor canta, foguetes pipocam. Pingos de chuva começam a cair. Vou para casa, a camisa encharcada de suor. Tenho de escrever uma nota, em homenagem ao amigo Luizão, que morreu no ano passado, desfalcando as festas de nossa Caetité, e que tão prematuramente nos deixou - uma intimação de Tairone... (leia aqui, a pequena homenagem ao grande Luizão) A noite foi do trio elétrico, que varou a madrugada. Mas eu não sou mais de pular atrás do trio... veio a chuva, água celeste a lavar nossos pecados sertanejos. Não o pecado de festejar, mas talvez o pecado de muitos ainda deixarem de comemorar a Lavagem da Esquina, de acompanhar nossa cultura, de viver ao vivo algo que muitos já perderam! . . . Não falei que descobri o segredo de quase todas as caretas. Mas não vou revelar. Afinal, aprendi a lição: as caretas têm direito ao anonimato. . . . Vou acompanhar o repeteco, do domingo. Mas vale o registro da "primeira parte". Estou com o corpo cansado, mas feliz! Feliz por ser testemunha, mais uma vez, da Lavagem, do Boi, dos meninos e das Caretas. Feliz, sempre, por ser caetiteense, como aquele japonês com a câmara fotográfica que - ele, sim, se fez meu conterrâneo - não perdeu um momento da tsunami do bem, a onda de folclore, cultura, alegria e única que, saindo de uma viela humilde, enriquece nossas ruas... Até o ano que vem! |
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