HOMENAGEM PÓSTUMA AO AMIGO
ANTÔNIO PRATES
sábado, 13 de setembro de
2003
Desde minha
meninice que a figura de “Tõe” Prates assoma como uma lembrança constante. Não
há, certamente, em Caetité e mesmo em algumas das cidades vizinhas, quem o
desconhecia, quem dele nunca participou ao menos uma vez, daquilo que foi-lhe a
marca característica: a solidariedade na hora extrema.
Falecido no dia 6
de setembro de 2003, foi uma nota que figurou em nossa história como algo de
que jamais nos esqueceríamos... na véspera, ao visitá-lo, já mal conseguia
falar, e sua única palavra foi “fraqueza”, era o que sentia.
Na semana
anterior Tõe fora internado, pois tomara uma queda em casa. Fui ao seu quarto,
e conversamos. Ele então lembrou-me que, há 36 anos atrás, estivera ali internado
com uma úlcera perfurada. Eu mal havia nascido, de sorte que era um fato
desconhecido para mim – e ele me disse que, deitado no leito, ouvia o Monsenhor
Osvaldo ao lado perguntar ao médico: “Morreu?”, ao que o facultativo respondia:
“Não”. Passado um minuto, novamente: “Morreu?”, e a mesma resposta: “Não”. Mais
um minuto, e a cena se repetia: “Morreu?”...
Era o ano de
1967, e a cidade inteira se colocou à porta do Hospital, com a expectativa de
ver morrer uma das suas figuras mais queridas. Mas Tõe sobreviveu, e estava,
divertido, contando-me o episódio, 36 anos depois.
Foi, não tanto
quanto gostaríamos, um de nossos “informantes” sobre o passado de Caetité,
cujas lembranças registrava com ardor, revoltando-se com o descaso que por
vezes partia de algumas pessoas inescrupulosas.
Sempre que morria
algum caetiteense, ou algum familiar de alguém que aqui residira, era ele o
primeiro a propagar a notícia, levando os pêsames aos parentes e conhecidos,
inteirando-se de todos os pormenores. Eu achava, porém, que nunca seria
notificado por ele, já que meus parentes parecem nunca morrer. Era menino de
uns catorze anos quando Seu Antonio me apresentou o pesar pelo falecimento de
Armando Rodrigues Lima, em Vitória da Conquista. Irmão de minha avó, foi a
primeira vez que soube da existência dele... fui satisfeito para casa,
“premiado” com uma notícia dada por Tõe, pela primeira vez na vida. Descobri
mais sobre a pessoa falecida mas, horas depois, ele nos procurava para se
desculpar: errara de Armando, não era o meu “tio”, e sim um outro, que explicou
a genealogia mas, claro, esqueci-me.
Ajudante das
coisas da Igreja, foi galgando postos que o permitiram até mesmo celebrar
alguns dos sacramentos, no que se revelava prestimoso e sempre solícito. Mas o
que verdadeiramente nos causava admiração era ver seu destemor, quando escalava
a torre da Catedral, pelo lado de fora, a fim de amarrar uma bandeira à cruz de
ferro que encima o coruchéu.
Ainda lembro-me
de sua figura, ao meu lado, diante do computador, pondo em revista as
fotografias que fui scaneando ao longo do trabalho na Divisão de Cultura do
Município. Contava-me dos padres, bispos, de sua meninice, sempre com a
promessa de um melhor e mais detalhado depoimento, que frustrou-se.
Há alguns anos um
motoqueiro o atropelou. O golpe fraquejou-lhe para sempre. O homem alto e
franzino, que não media distâncias para levar conforto a quem quer que fosse,
agora estava irremediavelmente combalido. O carinho e assistência do sobrinho
Valdemar “Foba” e sua esposa Zoraide amenizavam, e nada poderia deter Tõe, nos
seus passos.
Uma noite,
voltando duma demorada visita, encontramo-lo trazendo sob o braço duas garrafas
térmicas e toda a louça para servir o café, indo para um velório que,
acreditava, estaria na Igreja de São Benedito ou a então na de São João.
Tomei-lhe o enorme peso e o acompanhei, para descobrir que o velório estava na
capela de São Gaspar, do lado oeste da cidade. Com esforço conseguimos
convencê-lo a pedir uma carona, junto a parentes da falecida, poupando-nos a
ambos de uma maratona extenuante. Acreditava que, se não fizesse este trabalho,
ninguém o faria. Em sua internação penúltima, porém, ele nos dizia do Padre
Alex, que agora vinha desempenhando este papel consolador, e dizia com alívio,
por sentir que as pessoas não sentiriam tanto sua falta... Era estranho, mas
pela primeira vez o ouvimos falar de seu próprio transpasse.
Aquilo nos
colocou diante duma nova realidade, algo que sempre tememos, mas que Antonio
Prates encarou como a trajetória de sua vida. Amparava a todos na morte, tinha
sempre, com sua presença, com seu corpo magro, franzino, a solidariedade.
Eu, eu não
consigo, Tõe. Não tenho este dom. As veias do coração me fazem por demais
emotivo, para acompanhar muitos enterros. Em especial dos amigos. Mesmo não
acreditando na “morte”.
Queria dizer-lhe
algo mais bonito, mas mesmo agora é difícil refletir sobre as voltas que damos
em nossas vidas. Saudade, sim. É isto. Mas também um sentimento sem nome, de que a morte nos privou de alguém que poderia
ter muito ainda a contribuir para a memória desta Caetité que o recebeu como
segunda mãe, ele que para cá veio ainda menino. Perda?
Caetité perdeu
Antonio Macedo Prates.