CHICO BUARQUE

Outro capítulo à parte

 

“Não é um garoto, mas se existisse no reino animal um bicho pensativo e belo e eternamente jovem que se chamasse garoto, Francisco Buarque de Hollanda seria dessa raça montanhosa. “

Clarice Lispector

 

Eis aqui um dos maiores ícones da Música Popular Brasileira de todos os tempos, grande expressão da cultura brasileira desde a década de 60 até os dias atuais.

Francisco Buarque de Hollanda, conhecido com Chico Buarque, é músico, cantor, compositor, teatrólogo e escritor brasileiro.

É clara a importância deste artista não só no contexto artístico como também político do país e a contribuição dada por ele para a música, o teatro, o cinema e a literatura brasileira. Suas músicas denunciavam aspectos sociais, políticos, econômicos e culturais.

Nascido na década de 40, desde o início de sua carreira, marcou a história da MPB fazendo grande sucesso e repercutindo explosivamente nos festivais dos quais participou, com suas músicas inteligentes, compondo e interpretando canções, abordando temas políticos ou românticos, driblando historicamente a censura da época, fazendo de suas letras e voz instrumento para, além de encantar, espalhar seus ideais dividindo com o público, suas lutas políticas e sociais, angústias comuns aos dois.

No campo das definições, no entanto, é na verdade, muito grande. Pois, dentre tudo o que representou também foi o carioca que viveu muito entre os paulistas, o exilado, o pai, o amigo, o boêmio. Teve parceiros notáveis como Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Toquinho, Milton Nascimento e Caetano Veloso. Seus parceiros mais constantes são Francis Hime e Edu Lobo.

Desde muito jovem, conquistou reconhecimento de crítica e público tão logo os primeiros trabalhos foram apresentados.

Falar de Chico Buarque é, portanto, espetacular. Êxito e sucesso são sinônimos praticamente inerentes ao nome Francisco Buarque de Hollanda. A obra completa do artista é uma das maiores riquezas que a cultura brasileira produziu até hoje.


 

1-                 FRANCISCO BUARQUE DE HOLLANDA – OS PRIMEIROS ANOS

 

 

 

 

No dia 19 de junho de 1944 nasce na Maternidade São Sebastião, no Largo do Machado, Rio de Janeiro, Francisco Buarque de Hollanda, o quarto dos sete filhos do historiador e sociólogo Sérgio Buarque de Hollanda e da pianista amadora Maria Amélia Cesário Alvim.

Compositor, intérprete, poeta e escritor, Chico Buarque é hoje uma referência obrigatória em qualquer citação à música brasileira dos anos 60 pra cá. Sua influência é decisiva em praticamente tudo que aconteceu musicalmente no Brasil nos últimos 35 anos, pelo requinte melódico, harmônico e poético que suas obras apresentam.

Morou em São Paulo, Rio e Roma durante a infância. Desde criança teve contato em casa com grande personalidades da cultura brasileira, como Vinicius de Moraes (que viria a se tornar seu parceiro), Baden Powell e Oscar Castro Neves, amigos dos pais ou da irmã mais velha, Miúcha, também cantora e violonista.

Aos cinco anos de idade parece surgir seu primeiro interesse pela música, materializado sob a forma de um álbum de recortes com fotos de cantores do rádio. Um ano mais tarde, ao partir de viagem para a Europa, se despediria da avó com um profético bilhete:

 

"Vovó, você está muito velha e quando eu voltar eu não vou ver você mais, mas eu vou ser cantor de rádio e você poderá ligar o rádio do Céu, se sentir saudades". (<http://chicobuarque.uol.com.br/vida/vida.htm>)

 

 

Em 1964 começou a se apresentar em shows de colégios e festivais e no ano seguinte gravou pela RGE o primeiro compacto, com "Pedro Pedreiro" e "Sonho de um Carnaval". Desde então não parou mais de compor e se apresentar, participando de festivais internacionais de música, atuando no programa O Fino da Bossa, da TV Record.

Ainda em 65, musicou o poema "Morte e Vida Severina", de João Cabral de Melo Neto, que fez enorme sucesso no Brasil e na França, para onde excursionou, arrancando elogios até mesmo do poeta João Cabral, que admite só ter autorizado a utilização do poema por amizade ao pai de Chico.

Com o Festival de Record de 1966 tornou-se conhecido no Brasil inteiro por sua música "A Banda", interpretada por Nara Leão, que conseguiu o primeiro lugar (empatada com "Disparada", de Geraldo Vandré e Theo de Barros).

Sua participação em festivais foi definitiva para a consolidação de sua carreira. Fez sucesso com "Roda Viva", "Carolina" e "Sabiá", e defendeu ele mesmo suas músicas "Benvinda" e "Bom Tempo". Lançou LPs no fim da década de 60, fazendo shows na França e Itália, onde morou por aproximadamente um ano.

De volta ao Brasil, fez música para cinema e gravou um de seus discos mais bem-sucedidos, "Construção". Várias de suas composições e peças de teatro tiveram problemas com a censura na época da ditadura militar, e chegou a usar o pseudônimo Julinho de Adelaide para assinar algumas de suas músicas, como "Acorda, Amor".

No teatro, escreveu "Gota D’Água" com Paulo Pontes, e a "Ópera do Malandro". Como escritor, lançou em 1991 o romance "Estorvo" e, quatro anos depois, "Benjamin". Depois disso voltou a dedicar-se à música, lançando "Paratodos" em 1993 e "as cidades" em 1999, ambos com amplas turnês pelo Brasil e exterior.

Em 1998 foi enredo da Mangueira, que ganhou o desfile daquele ano. Em 2001, Chico lança o DVD “As cidades”. Além do show "As Cidades", filmado em película, o especial traz cenas captadas no Rio de Janeiro e em Buenos Aires. Entre as participações especiais estão Jamelão, a Velha Guarda da Mangueira e Maria Bethânia.

Chico morou dois anos em Roma. Aos oito inventava marchinhas de Carnaval. A banda foi a canção que mais lhe trouxe dinheiro.
Sonhava ser cantor de rádio e imitava João Gilberto.

Sua irmã Ana de Hollanda, a "Baía", conta que aos doze, treze anos de idade, já de volta a São Paulo, Chico compôs "umas operetas" que eram cantadas em conjunto com as irmãs mais novas, Ana, Cristina e Pii.

Embora fosse um apaixonado torcedor do Fluminense, a camisa que seu ídolo vestia era a do Santos. Seu nome: Paulo César de Araújo, o Pagão, nome que Chico adota até hoje, em homenagem ao craque, quando veste a camisa número 9 de seu time de futebol, o Politheama. Alguns amigos brincam, afirmando que Chico só se tornou músico porque não conseguiu brilhar no futebol.

Em 1961, publica suas primeiras crônicas no jornal por ele batizado de Verbâmidas, do Colégio Santa Cruz. Sonhava um dia vê-las publicadas nas grandes revistas semanais, ao lado de cronistas consagrados.

Em 1964 começou a se apresentar em shows de colégios e festivais e no ano seguinte gravou pela RGE o primeiro compacto, com "Pedro Pedreiro" e "Sonho de um Carnaval". Desde então não parou mais de compor e se apresentar, participando de festivais internacionais de música, atuando no programa O Fino da Bossa, da TV Record.

Em 65, musicou o poema "Morte e Vida Severina", de João Cabral de Melo Neto, que fez enorme sucesso no Brasil e na França, para onde excursionou, arrancando elogios até mesmo do poeta João Cabral, que admite só ter autorizado a utilização do poema por amizade ao pai de Chico.

Em mais de 3 décadas de carreira, Chico Buarque compôs centenas de canções, compostas em parcerias, versões e adaptações, compostas para teatro, cinema e aquelas que só aparecem em discos de outros intérpretes. Suas músicas foram gravadas em cerca de 40 álbuns.

 

2– CHICO, HUMOR SURREALISTA

 

Contar a história dos gênios da música popular é tentar separar mito e realidade. Com Francisco Buarque de Hollanda, carioca criado em São Paulo,  não é diferente. Os amigos contam que Chico tem o hábito de criar situações absurdas para exercer um humor surrealista, do qual o bilhetinho para a avó, em 1952, é um aperitivo. A história que, distraído, o poetinha Vinícius de Moraes, amigo família, sentou no sofá em cima do bebê Chico, quase encerrando prematuramente a brilhante carreira do futuro compadre e parceiro, bem, essa história é lenda. Ou quase, porque o episódio, de fato, ocorreu, mas Vinícius sentou em cima de Cristina uma das quatro irmãs do compositor. Chico Buarque é tímido? Vamos aos fatos. Era envergonhado, é verdade, a ponto de o diretor de tevê Fernando Faro pedir aos câmeras que o focalizassem de baixo para cima, única forma de captar a imagem do rosto do cantor. Mas, aos 18 anos, para comemorar a aprovação no vestibular, subiu na mesa de um bar e fez um discurso jogando ovos para cima.

Já cantor de sucesso, em show coletivo num estádio em Patos de Minas (MG), pregou outra peça. O comediante Ronald Golias costuma trazer para a vida real os tiques nervosos de seus personagens, como franzir a testa ou piscar um olho insistentemente. Chico inventou que Golias estava fazendo caretas porque havia perdido as lentes de contato. Logo havia dezenas de pessoas à procura das lentes de Golias no gramado. A veia dramática do compositor existe muito antes de ele se consagrar com peças como Calabar e Ópera do malandro. Ao receber o primeiro cachê - 50 mil cruzeiros, ou US$ 30 - em 1964, enfiou o dinheiro no bolso e foi visitar uma namorada no interior paulista. Convenceu o amigo e colega de faculdade, o arquiteto Carlos Jaguaribe Ekman, o Barão, hoje com 56 anos, a acompanhá-lo. "A viagem era longa, a gente ia de pé no ônibus e bebia cachaça para agüentar", conta Barão. Chico inventou que era sul-africano ao registrar seu nome no hotel. A mulher olhou por cima do óculos e comentou: "Pensei que os africanos fossem todos pretos." Barão, cúmplice, retrucou: "Olha o cabelo dele, todo enrolado." Chico, que até então estava calado, começou a falar num idioma que ele criou naquele exato instante.

 

1.2. -  A vida de Chico Buarque de Hollanda por Graziela Salomão

Ele já foi considerado 'unanimidade nacional', chamado de 'alienado' pelos tropicalistas e invocado como 'a voz dos exilados brasileiros'. Hoje, é 'apenas' uma referência obrigatória em qualquer citação à música brasileira a partir dos anos 60 e foi eleito recentemente o músico brasileiro do século. Esse é um mero resumo do papel de destaque na música nacional exercido por Francisco Buarque de Hollanda, ou melhor, Chico Buarque. Nos últimos quarenta anos, não há como separar a influência poética, harmônica e melódica de suas composições do amadurecimento da MPB. Chico também fica marcado na música brasileira como o homem que melhor conseguiu compor como mulher. 'Mulheres de Atenas' é uma das pérolas de seu lirismo feminino.

Chico Buarque, atualmente, não é só o compositor de Construção ou o intérprete de A Banda. Ele conseguiu ampliar suas investidas e produzir trabalhos de muita profundidade como poeta e escritor.

Em comemoração aos seus 60 anos, a BMG lança a caixa Francisco, com doze CDs e dois DVDs, reunindo todos os discos de Chico lançados pela gravadora desde que ele passou a fazer parte de seu cast, em 1987.

Chico nasceu no dia 19 de junho de 1944, no Rio de Janeiro. Foi o quarto de sete filhos do historiador e sociólogo Sérgio Buarque de Hollanda e da pianista amadora Maria Amélia Cesário Alvim. Com dois anos de idade, mudou-se com a família para São Paulo, onde o pai assumiria a direção do Museu do Ipiranga.

A infância de Chico Buarque ainda seria completada em Roma, para onde foi aos nove anos de idade, quando o pai fora convidado a dar aulas na Universidade de Roma. Na Itália, Chico tornou-se trilingüe, uma vez que estudava em escola americana, conversava com os colegas em italiano e, em casa, falava o português. É no país, também, que começou a escrever suas primeiras 'marchinhas de carnaval'.

A formação cultural do pequeno Chico seria composta, ainda, pelas constantes visitas de figuras importantes do cenário artístico brasileiro, como Vinicius de Moraes, Baden Powell e Oscar Castro Neves, por intermédio de seu pai ou pela amizade à sua irmã mais velha Miúcha.

No meio dos anos 50, Sérgio Buarque de Hollanda volta com a família para o Brasil. Chico começa a dar seus primeiros passos no mundo da música, escrevendo pequenas 'operetas', as quais cantava com suas irmãs mais novas Ana, Cristina e Pii.

Os sambas tradicionais de Noel Rosa, Ismael Silva e Ataulfo Alves eram os preferidos do jovem Chico, junto com as canções estrangeiras, que faziam sucesso na época, de artistas como Elvis Presley e The Platters. Mas, sua relação com a música foi definitivamente influenciada por João Gilberto e seu disco Chega de Saudade. Chico dizia que seu sonho 'era cantar como João Gilberto, fazer música como Tom Jobim e letra como Vinicius de Moraes'. Mal sabia o garoto que, algumas décadas depois, ele desbancaria esses grandes nomes e seria considerado o músico do século no Brasil.

Ainda sem se decidir pela música, Chico ingressou em 1963 na FAU - Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. Mas, sua turma gostava era mesmo de um bom samba e cachaça e, no terceiro ano do curso, Chico abandonou a faculdade.

Em 1964 aconteceria a estréia de Chico na música, cantando 'Canção dos Olhos' em uma apresentação no Colégio Santa Cruz. O ano seguinte delimitaria, definitivamente, a incursão de Chico Buarque no cenário musical do país com seu primeiro compacto - com a música 'Pedro Pedreiro' - e com o convite de Roberto Freire, diretor do TUCA, para musicar o poema 'Morte e Vida Severina', de João Cabral de Mello Neto. Esse foi um sucesso e, durante excursão pela Europa, a peça conquistou o festival de teatro universitário de Nancy, na França.

Os festivais de música que aconteciam nos anos 60 eram a mostra do turbilhão criativo intelectual e artístico pelo qual o país passava. Os compositores escreviam e interpretavam suas músicas fervorosamente. Chico tornava-se uma celebridade no país com várias de suas músicas inscritas nos festivais. 'A Banda', por exemplo, foi uma das vencedoras do II Festival de Música Popular Brasileira da TV Record e propiciou o reconhecimento de Chico em várias partes do Brasil e até mesmo do exterior. Carlos Drummond de Andrade chegou a se referir ä música como a marchinha, 'tão antiga em sua tradição lírica', que trazia ao país o amor de que ele precisava. Foi a glória para Chico: com apenas 23 anos, ele conquistava um público diversificado, tinha depoimentos gravados no Museu da Imagem e do Som e, segundo Millôr Fernandes, tornara-se a única 'unanimidade nacional'

Enquanto o cenário cultural se voltava para um momento de grande criatividade e qualidade, o país sofria o endurecimento da ditadura. Às vésperas do AI-5, que instauraria de vez um duro regime militar, os envolvidos na produção cultural eram 'obrigados' a tomar posições. Enquanto de um lado o tropicalismo propunha um rompimento estético com o belo e uma absorção do que também era considerado feio, a música de Chico tendia para o que ainda era bonito. Mesmo suas composições mais nostálgicas declamavam uma alegria contagiante.

Chico começou a ser criticado como 'alienado'. Sua música 'Bom Tempo' foi vaiada, pois não era possível falar em dias claros enquanto o céu brasileiro escurecia com a mancha da ditadura. 'Sabiá', uma parceria de Chico e Tom Jobim, recebeu a maior vaia da história dos festivais em 1968 e, mesmo assim, foi escolhida vencedora, desbancando o hino da oposição 'Pra Não Dizer que Não Falei das Flores', de Geraldo Vandré. Mas, a premonitória 'Sabiá' teria seu valor reconhecido tempos depois, quando se tornou um hino dos exilados brasileiros pela ditadura.

Chico Buarque promoveu um auto-exílio em Roma, onde a gravadora tinha um plano de divulgação de seu trabalho pela Europa. Lançou dois discos fora do Brasil, que não obtiveram sucesso. Em 1970, voltou ao país e lançou seu quarto LP, marcado por um amadurecimento de seu trabalho. Chico deixou de lado o lirismo nostálgico e descompromissado que antes o identificava, e suas letras passaram a transmitir um protesto político mais duro ao regime ditatorial em que o Brasil estava imerso. 'Apesar de você' registra essa nova fase do compositor. 'Apesar de você/Amanhã a de ser outro dia' dizia a canção em uma referência implícita ao general Emílio Garrastazu Médici, então presidente da República, cujo governo foi marcado pelas mais atrozes barbaridades cometidas contra os opositores do regime.

Muitas músicas de Chico começaram a ser barradas pela censura. Como forma de burlá-la, o compositor decidiu criar um personagem heterônimo chamado Julinho de Adelaide, fazendo com que suas canções passassem com maior facilidade pelos censores. A estratégia surtiu efeito e músicas como 'Acorda, amor' e 'Milagre brasileiro' passaram sem maiores problemas. Entretanto, uma reportagem publicada em 1975 pelo Jornal do Brasil desmascarou o verdadeiro Julinho de Adelaide.

Chico Buarque procurou outras formas de artes pelas quais pudesse se expressar. Chegou a atuar no filme Quando o Carnaval Chegar (1972), de Cacá Diegues, produzir a trilha sonora de Vai Trabalhar Vagabundo, de Hugo Carvana e escrever o roteiro e as músicas da peça 'Calabar', com Ruy Guerra.

Em 1978, Chico conquistou o Prêmio Molière como melhor autor teatral do ano com a peça 'A Ópera do Malandro', com texto e música escritos por ele. Chico também ingressou no campo da Literatura com obras como a novela 'Fazenda Modelo', em 1974, e 'Estorvou', em 1991.

Os anos noventa se anunciaram como um divisor de águas para parte daqueles que fizeram a MPB dos anos 60 e 70. Chico, Caetano e Gil foram segmentados e o popular perdeu a dimensão desses artistas, fazendo com que suas músicas ficassem voltadas para uma pequena parcela da população brasileira de classe média.

 

1. 3 - Curiosidades

Chico é apaixonado por futebol e torce freneticamente para o Fluminense. Entretanto, seu ídolo no esporte vestia a camisa alvinegra do Santos: o número 9 Paulo César de Araújo, o Pagão. Até hoje, quando joga pelo seu time Politheama, Chico veste a camisa nove em homenagem ao jogador. Quando jovem, Chico gostava de ler os clássicos da literatura francesa, alemã e russa e só se interessou pela literatura nacional quando um colega de escola o criticou por ler apenas livros estrangeiros. Chico Buarque envolveu-se com um grupo ultraconservador da igreja chamado 'Ultramontanos'. Chico foi casado com a atriz Marieta Severo com quem teve três filhas: Sílvia, Helena e Luiza. Em 1997, após trina anos de união e boatos de casos extraconjugais de Chico, o casal se separou.

 

 


 

2-         O político: coragem, ousadia, astúcia, inteligência

 

Volta-se para o protesto político com Apesar de você, uma resposta crítica ao regime ditatorial no qual o país ainda estava imerso. Surpreendentemente, a música passaria incólume pela censura prévia e se tornaria uma espécie de hino da resistência à ditadura. Depois de vender cerca de 100 mil cópias, a canção é censurada, o disco é retirado das lojas e até a fábrica da gravadora é fechada. Para o público, não havia dúvidas: o "você" da música era o general Emílio Garrastazu Médici, então presidente da República, em cujo governo foram cometidas as maiores atrocidades contra os opositores do regime. Ao ser interrogado sobre quem era o "você" da canção, Chico responde: "É uma mulher muito autoritária". Após este episódio, o cerco às suas composições endurece.

Participa do Circuito Universitário, com shows promovidos pelos centros acadêmicos das universidades por artistas com dificuldades em mostrar seu trabalho nos meios de comunicação.

Ao lado, entre outros nomes, do arquiteto Oscar Niemeyer, do editor Ênio Silveira, e de seu próprio pai, participa do Conselho do Cebrade - Centro Brasil Democrático - organização de intelectuais publicamente comprometidos com a luta contra a ditadura. A aproximação com o Cebrade lhe valeria, durante bom tempo, o rótulo de membro da "linha auxiliar" de um dos dois partidos comunistas brasileiros, o PCB, pró-Moscou.

 

3-         O CHARME CHIQUE DA MÚSICA DE CHICO BUARQUE DE HOLLANDA  - TÁTICAS CARNAVALESCAS DE TRANSCENDER A OPRESSÃO DA DITADURA

Em 1980, à pedido da bailarina Marilena Ansaldi, faz as músicas para a peça Geni.

Participa da festa do Avante, órgão oficial do Partido Comunista Português, e do projeto Kalunga, em Angola, onde se apresenta, com mais 64 artistas brasileiros, por todo o país. A renda dos shows é destinada à construção de um hospital.

O cineasta argentino Maurício Berú realiza o documentário Certas palavras, sobre Chico Buarque, com participação - em números especiais ou depoimentos - de Caetano Veloso, Maria Bethânia, Vinícius de Moraes (que é filmado pela última vez), Toquinho, Francis Hime, Ruy Guerra, Miúcha, Sérgio Buarque de Hollanda e outros amigos e familiares.

Ainda em 1980, faz duas músicas para a peça O Último dos Nukupirus, de Ziraldo Gugu Olimecha.

Lança o LP Vida, que traz, entre outras, a música Eu te amo, feita especialmente para o filme homônimo de Arnaldo Jabor.

A peça Roda viva foi escrita por Chico Buaque no final de 1967 e estreou no Rio de Janeiro, no início de 1968 com Marieta Severo, Heleno Pests e Antônio Pedro nos papéis principais. A temporada no Rio foi um sucesso, mas a obra virou um símbolo da resistência contra a ditadura durante a temporada da segunda montagem, com Marília Pêra e Rodrigo Santiago. Um grupo (de cerca de 110 pessoas) do Comando de Caça aos Comunistas - CCC - invadiu o teatro Galpão, em São Paulo, em julho daquele ano, espancou artistas e depredou o cenário.

No dia seguinte, Chico Buarque estava na platéia para apoiar o grupo e começava um movimento organizado em defesa de Roda viva e contra a censura nos palcos brasileiros.

O primeiro livro de Chico Buarque, publicado em 1966, trazia os manuscritos das primeiras composições e o conto Ulisses, e ainda uma crônica de Carlos Drummond de Andrade sobre A Banda. Em 1974, escreve a novela pecuária Fazenda modelo e, em 1979, Chapeuzinho Amarelo, um livro-poema para crianças. A bordo do Rui Barbosa foi escrito em 1963 ou 1964 e publicado em 1981. Em 91, publica o romance Estorvo.

Em janeiro de 94 sobe aos palcos para fazer o show do disco Paratodos, lançado no final de 93 e que é recebido com grande expectativa depois de um jejum de quatro anos sem gravar.

Participa da "Campanha Nacional Contra a Fome e Pela Cidadania", do sociólogo Herbert de Souza, o Betinho.

Escreve o segundo romance, Benjamim, que, lançado em 1995, recebe críticas desfavoráveis de parte da crítica literária, não obstante o sucesso de vendas e os elogios de grandes nomes da literatura.

No último ano do 2º milênio, o filme Estorvo, de Ruy Guerra, concorre à Palma de Ouro do 53º Festival Internacional de Cinema de Cannes. Baseado em romance homônimo de Chico, é uma co-produção de Brasil-Cuba-Portugal. Traz no elenco o cubano Jorge Perugorría e os brasileiros Bianca Byington, Leonor Arocha e Tonico Oliveira.

A versão cinematográfica de Estorvo marca mais uma parceria de Ruy Guerra e Chico. Eles já haviam trabalhado juntos na peça Calabar e na adaptação para o cinema do musical A Ópera do Malandro.

 

3.1 – O cinema e o teatro

Em 1966 fez seu primeiro trabalho para cinema compondo as canções para o filme Anjo assassino de Dionisio Azevedo.
Como ator, participou de Garota de Ipanema, de Leon Hirzman (1967); Quando o carnaval chegar, de Cacá Diegues (1972) - para o qual compôs diversas canções além de organizar as peladas nos intervalos da filmagem; no documentário; Certas palavras (1980 - sobre sua vida), de Maurício Beirú; Ed Mort, de Alain Fresnot (1996); e O mandarim, de Júlio Bressane (1995).

No teatro, escreveu "Gota D''Água" com Paulo Pontes, e a "Ópera do Malandro". Escreveu os roteiros de Os saltimbancos trapalhões, de J. B. Tanko (1981) e Ópera do malandro, de Ruy Guerra (1986). Sua música Samba do grande amor é o tema de um dos quatro episódios do filme Veja esta canção, de Cacá Diegues (1996). Compôs para o cinema brasileiro algumas dezenas de canções.   

Em 1965, a pedido de Roberto Freire, diretor do TUCA, Teatro da Universidade Católica de São Paulo, Chico musicou o poema Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, para a montagem da peça. Desde então, sua presença no teatro brasileiro tem sido constante. Aqui, você pode conhecer as quatro peças que escreveu além das diversas canções que compôs para teatro.

 

3.1.1- Chico e Caetano participam de filme de Carlos Saura

 

Lisboa, 05 Dez (Lusa) - Chico Buarque e Caetano Veloso participam da produção de "Fados", o novo filme do cineasta espanhol Carlos Saura, que será apresentado no próximo dia 13, no Palácio da Mitra, em Lisboa, disse nesta quarta-feira à Agência Lusa uma fonte da produção.

O filme foi gravado em Lisboa no verão europeu (de julho a setembro) e passa pela África e pelo Brasil, de acordo com Carlos do Carmo, que é um dos mais famosos fadistas portugueses e colaborador da produção.

 

3.2 – Os Festivais

Qualquer que seja o conteúdo (bom ou ruim) da música feita no Brasil hoje (ou seja lá o que você ache bom ou ruim em matéria de MPB), não foi por falta de background cultural. Marcas indissociáveis da formação de público, cujo gosto fora desenvolvido e apurado para a música feita no país, os festivais da canção, tradicionais competições entre compositores das mais variadas vertentes, formaram a maior parte, o "grosso" do conjunto de compositores e intérpretes que ainda ouvimos, não importam se ainda estão aqui ou não.

Sempre lembrados com saudosismo e com aquele suspiro de "Bons eram os festivais...", os maiores concursos tendo como matéria de competição a música popular brasileira são lidos, relidos e estudados pelas mãos e memória do pesquisador Zuza Homem de Melo, decano da pesquisa musical e melhor indicado para a tarefa. Em A Era dos Festivais: Uma Parábola, integrante da ainda mais valiosa coleção Todos Os Cantos (Editora 34), Zuza trata da ligação evidente entre a realização dos mais de dez festivais da canção e o momento político em que os mesmos tomaram corpo, relata com uma fidelidade quase que obsessiva, nomes, datas, locais (em especial a decoração dos mesmos), detalhes musicais (em algumas partes para não íntimos à teoria musical, o livro parece egípcio) e principalmente compositores e suas obras. "Esse livro serve para os jovens, para os contemporâneos dos festivais e para quem estuda a história social e cultural deste país", explica Zuza, em entrevista por telefone num sábado à tarde.

A tri-indicação da obra tem seus porquês: para os jovens, o livro serve como uma espécie de mapa genético da música popular brasileira. Por ele, é possível saber como surgiram nomes como Milton Nascimento, Dori Caymmi, Edu Lobo, Geraldo Vandré... se formos listar, uma matéria será pouco. Para os contemporâneos aos festivais, em sua maioria saudosos pela efervescência que criavam os festivais e suas acirradas disputas, uma espécie de relatório, de livro de memórias. Para pesquisadores, a coisa fica ainda mais interessante.

No meio do fogo cruzado político em que o Brasil viveu entre a renúncia de Jânio e o fim do regime militar, os jovens iam aos estúdios de TV (naqueles tempos, em teatros) para ver um conflito muito mais interessante do que o travado em Brasília e nos quartéis. O conflito entre Chico Buarque e Gilberto Gil no Festival da Record em 1966. Chico entrava de sola com A Banda. Gil chutava de Ensaio Geral. Deu Chico. "Os festivais foram grandes válvulas de escape da juventude que os frequentava", analisa o autor, um absoluto descrente no jovem 'consumidor' de música no Brasil. "é de se lamentar a forma como as gravadoras conduzem as coisas hoje em dia. Os jovens se acostumaram a ouvir tolices e acharem aquilo palatável e bom. Estão todos errados", alfineta ele.

Surge a questão: foi realmente indispensável a realização dos festivais para a saúde da música brasileira? "Foi, se você pensar que a maioria daqueles que foram revelados nos festivais ainda estão ativos, compondo, muito bem, obrigado", ironiza o autor, ligando obviamente ato a fato: Dos chamados 'grandes' pela audiência musical no Brasil (Chico, Caetano, Gil, João Gilberto, meio que por vias difíceis, entre outros tantos, compositores e intérpretes), a suprema maioria permanece gravando, compondo, fazendo apresentações, com exceções e ausências. "O trabalho deles ficou e ficará para outras tantas gerações. Sem os festivais, talvez a identificação com aquilo (a música popular brasileira) se daria de uma forma mais 'comercial', como é hoje", relativiza ele, aproveitando para re-alfinetar as ditas 'majors' e seus super-esquemas de divulgação.

Figura notória quando o assunto é MPB, Zuza coleciona e mostra no livro, algumas histórias conferidas in loco que dão a medida do que eram aqueles dias. "Caetano, em dúvida, me mostrou uns vinte dias antes de um festival, duas músicas que queria inscrever: uma era Alegria Alegria, lembra. Aliás, o que hoje podemos considerar como um acinte à MPB não passava de mero fato banal. No festival da Record em 1967, Erasmo Carlos teve uma canção eliminada na primeira fase. Capoeirada não era páreo ao poder de Alegria Alegria, Domingo no Parquee para a vencedora Ponteio, de Edu Lobo e Capinam. Certa vez, o compositor Zé Keti fez nada menos que 16 sambas para ter o que inscrever num outro festival.

No Festival Internacional da Canção de 1971, Jorge Ben foi de Porque É Proibido Pisar na Grama, desconhecida talvez até do próprio, então defendida por ele mesmo, enquanto Moacir Franco defendia arduamente. Um Novo Sol, de Carlos Imperial e Ângelo Antonio. Ben teve mais sorte no ano seguinte, quando ganhou o último FIC, também o último festival da "Era" descrita no livro, com Fio Maravilha. A essa altura, os festivais eram feitos na Rede Globo, cercados do regime do presidente Médici por todos os lados. E ninguém nunca mais ouviu falar em Ângelo Antonio.

Sua participação em festivais foi definitiva para a consolidação de sua carreira. Fez sucesso com "Roda Viva", "Carolina" e "Sabiá", e defendeu ele mesmo suas músicas "Benvinda" e "Bom Tempo". Lançou LPs no fim da década de 60, fazendo shows na França e Itália, onde morou por aproximadamente um ano.

Com o Festival de Record de 1966 tornou-se conhecido no Brasil inteiro por sua música "A Banda", interpretada por Nara Leão, que conseguiu o primeiro lugar (empatada com "Disparada", de Geraldo Vandré e Theo de Barros).

 

3.3 - Chico de Hollanda,  de aqui e de alhures

 

Ruy Guerra, cineasta, fala sobre o amigo Chico Buarque e sua notoriedade:

"Parceiro de euforias e desventuras, amigo de todos os segundos, generosidade sistemática, silêncios eloqüentes, palavras cirúrgicas, humor afiado, serenas firmezas, traquinas, as notas na polpa dos dedos, o verbo vadiando na ponta da língua - tudo à flor do coração, em carne viva... Cavalo de sambistas, alquimistas, menestréis, mundanas, olhos roucos, suspiros nômades, a alma à deriva, Chico Buarque não existe, é uma ficção - saibam. Inventado porque necessário, vital, sem o qual o Brasil seria mais pobre, estaria mais vazio, sem semana, sem tijolo, sem desenho, sem construção." (Ruy Guerra, cineasta e escritor, outubro de 1998).

 

O retorno de Chico Buarque ao Brasil é marcado pelo "barulho" organizado por recomendação de Vinicius de Moraes: muita gente o esperando no aeroporto, manifestações de amigos, entrevistas à imprensa e um show marcado na boate Sucata para lançar seu quarto LP, um disco de transição, gravado em circunstâncias complicadas. Afasta-se do samba tradicional, variando mais a linha das composições e revelando novas influências como a toada, em Rosa dos ventos, até o iê-iê-iê italiano em Cara a cara. A mudança se reflete também nas letras, nas quais ele parece desvencilhar-se explicitamente do lirismo nostálgico e descompromissado que antes parecia identificá-lo.

Volta-se para o protesto político com Apesar de você, uma resposta crítica ao regime ditatorial no qual o país ainda estava imerso. Surpreendentemente, a música passaria incólume pela censura prévia e se tornaria uma espécie de hino da resistência à ditadura. Depois de vender cerca de 100 mil cópias, a canção é censurada, o disco é retirado das lojas e até a fabrica da gravadora é fechada. Para o público, não havia dúvidas: o "você" da música era o general Emílio Garrastazu Médici, então presidente da República, em cujo governo foram cometidas as maiores atrocidades contra os opositores do regime. Ao ser interrogado sobre quem era o "você" da canção, Chico responde: "É uma mulher muito autoritária". Após este episódio, o cerco às suas composições endurece.

Participa do Circuito Universitário, com shows promovidos pelos centros acadêmicos das universidades por artistas com dificuldades em mostrar seu trabalho nos meios de comunicação.

De volta ao Brasil do exílio, fez música para cinema e gravou um de seus discos mais bem-sucedidos, "Construção". Várias de suas composições e peças de teatro tiveram problemas com a censura na época da ditadura militar, e chegou a usar o pseudônimo Julinho de Adelaide para assinar algumas de suas músicas, como "Acorda, Amor".

Em 1998 foi enredo da Mangueira, que ganhou o desfile daquele ano. Em 2001, Chico lança o DVD “As cidades”. Além do show "As Cidades", filmado em película, o especial traz cenas captadas no Rio de Janeiro e em Buenos Aires. Entre as participações especiais estão Jamelão, a Velha Guarda da Mangueira e Maria Bethânia.

O CD Duetos é lançado em 2002 e reúne 14 das mais de 200 participações de Chico cantando com outros artistas. Participaram do CD: Marçal, Ana Belén, Nara Leão, Zeca Pagodinho, Sergio Endrigo, Nana Caymmi, Johnny Alf, Pablo Milanés, João do Vale, Dionne Warwick, Miúcha, Tom Jobim e Elba Ramalho.

O DVD “Chico ou o país da delicadeza perdida” é lançado em 2003. Neste trabalho, Chico Buarque estreou para a televisão francesa em 1990. Após 8 anos sem gravar um disco de inéditas, Chico Buarque lança o CD “Carioca” em 2006. São 12 faixas, algumas em parceria com artistas como Edu Lobo, Ivan Lins e Tom Jobim.

 

4- Publicações, depoimentos e entrevistas

 

 

Entrevistas, artigos, depoimentos, reportagens e textos do próprio compositor revelam o olhar de amigos, parceiros, imprensa e dele mesmo sobre sua vida e sua obra:

"...Palmas pra ala dos barões famintos, o bloco dos napoleões retintos e os pigmeus do bulevar. Meu Deus, vem olhar! Vem ver de perto uma
cidade a cantar. A evolução da liberdade até o dia clarear. Ai, que vida boa, olerê. Ai, que vida boa, olará. O estandarte do sanatório..." (Chico Buarque)

 

O músico do século

Istoé - 28/02/99

Todos os sons

Estamos publicando a biografia dos 20 músicos do século. Esse é o segundo fascículo do projeto O Brasileiro do Século, que começou com a eleição do esportista mais destacado. Convém lembrar que a indicação dos vencedores obedece a um rigoroso processo. Primeiro, um júri de 30 personalidades indica 30 destaques. A partir dessa lista, o leitor é convocado a escolher os premiados, indicando sua preferência numa cédula encartada em ISTOÉ.

Se a escolha do esportista do século foi polêmica porque ficou polarizada entre Ayrton Senna e Pelé (com a vitória de Senna), o prêmio da Música, certamente, causará muita discussão por razão oposta: o excessivo número de candidatos. Como explicar o fato de Chiquinha Gonzaga e Carmen Miranda ocuparem as duas últimas posições desse seleto grupo, se não pela juventude do eleitorado? No mesmo caso se enquadram Cartola (representando a nobreza do samba dos morros cariocas) e Lupicínio Rodrigues (o mestre da canção da dor-de-cotovelo). É de se louvar o reconhecimento a Villa Lobos, um erudito que ganhou um lugar merecido na memória popular.

Entre os contemporâneos, a briga foi acirrada. Na apuração dos votos que chegavam à redação de ISTOÉ, o primeiro lugar foi ocupado sucessivamente por Chico Buarque, Tom Jobim e Roberto Carlos, entre outros, indicando que o resultado final seria apertadíssimo. O leitor, ao final, escolheu Chico, com 76,48% dos votos. Se a soma dos percentuais de todos os indicados é superior a 100, a explicação é simples: cada cédula tinha dez nomes assinalados, e não apenas um. Chico Buarque recebeu o voto de 76,48% dos leitores e muitos (a maioria) deles também votou em Tom Jobim, por exemplo, que abocanhou 73.78% das indicações.

 

4.1 – Depoimentos

 

Folha de São Paulo - 19/10/1991

O historiador escreve sobre seu filho Chico Buarque

Sérgio Buarque de Hollanda

A imagem que o público fixou de meu filho não é correta. Para o público, Chico é tímido (antes de tudo, tímido), bonzinho, retraído. Nada disso. Pelo menos em família e com os amigos, é completamente diferente, um rapaz brincalhão, extrovertido, bem para fora. Quando ele aparece em público, torna-se diferente. Talvez seja o medo de parecer ridículo. Mas podem crer, ele não é tímido, nem bonzinho. É, sem dúvida, uma boa pessoa. Mas não bonzinho, no sentido em que esta palavra é interpretada. Quando criança, jamais foi um rebelde. Posso assegurar que se tratava de uma criança normal.

Procurava sempre ser independente. E essa independência ele afirmava, procurando fazer tudo o que faziam os irmãos mais velhos. Nem um "amor de criança", nem um "enfant terrible". Normal. Não era nem ligado ao pai nem à mãe. Dava-se bem com todos. Com as irmãs, tias e avós. Quando viajamos para a Itália (nesse tempo tinha 8 anos), deixou para avó um bilhete: "Avó, vou para Itália. Quando eu voltar, provavelmente a senhora estará morta. Mas não se preocupe. Eu vou me tornar um cantor de rádio. É só a senhora ligar o rádio do céu que vai me escutar".

Desde menino, sempre se interessou por música e futebol. Jogo, não perdia uma irradiação. Seus ídolos eram Telê, do Fluminense, e Pagão, do Santos. Na Itália, torcia pelo Genoa. Da música popular, seus ídolos eram Ismael Silva, Caymmi e Ataulfo Alves. Mas tarde, João Gilberto, de quem procurava imitar o estilo. Não acredito que Noel exerça influência sobre Chico. A maior semelhança entre os dois é a temática: urbana. Caymmi, Ataulfo e Ismael marcaram mais que Noel. Chico também não é um compositor de classe média, como afirmam por aí. Não há dúvida, Noel e Chico também se assemelham um pouco, porque ambos enfocam temas urbanos. Nada mais. Aliás, há no Brasil uma mania de Noel! Qualquer compositor que surge é imediatamente comparado com o grande criador carioca. Creio que há um pouco de exagero em tudo isso.

Quando surgiu a bossa-nova, Chico se encontrou com ela. Apreciava muito João Gilberto e ouvia-o seguidas vezes. Vinícius, muito amigo da família, aparecia sempre em festas e Chico ficava a ouvi-lo, com grande admiração.
Desde cedo, Chico já tinha namorada. Sempre foi muito vivo e alegre. Jogava futebol nas ruas, como todos os garotos de sua idade. Quanto aos estudos, dedicava-se a eles principalmente às vésperas de exame. Estudava duas ou três horas seguidas, depois cansava e ia se divertir. Em 1962, quando terminou o curso científico, foi orador da turma, provocando muitas risadas com seu discurso cheio de humor.

O sucesso não o mudou essencialmente, chateia-o um pouco, apenas. Hoje, não pode sair às ruas sem que lhe venham pedir autógrafos. Para ir à praia, há dificuldades, só em São Conrado. Bem longe. Continua fiel aos amigos, embora não tenha muito tempo para se dedicar a eles. Assim que chega a são Paulo, telefona para todos, organiza noitada com eles. Chico sempre viveu em bando, com muitos amigos, uma verdadeira turma. Sua formação é, sem dúvida, paulista. Nasceu no Rio, mas quando completou 2 anos, mudamos para São Paulo. Aqui, passou toda sua infância. Preferiu fazer o científico porque achava que o curso clássico era coisa de mulher. Dado momento, escolheu um ramo bem aproximado do artístico: arquitetura. Ficava em casa criando cidades imaginárias. Todas tinham uma fonte no meio da praça: lembrança das fontes de Roma, onde moramos algum tempo. Chico, em vez de começar a falar, cantou. Desde que tentou se expressar foi através da música. Mas tarde, ficava com as irmãs aí pela sala, inventando música. Dizia que já que não conhecia de cor música de outros compositores, era obrigado a inventar as próprias. O sucesso veio de repente, sem que ninguém esperasse. Recebi a notícia de que Chico tinha ganho o Festival de Música Popular Brasileira com "A Banda", quando estava em Nova York. Um jornal norte-americano publicou a notícia. Claro que me senti muito orgulhoso. Cheguei à conclusão - o que uma revista publicou na época - de que, antes, ele era meu filho. E depois do festival eu passei a ser o pai dele. Não há posição melhor. Têm surgido boatos por aí, de que eu componho as músicas para ele. Mas, meu Deus, quem sou eu para ter tanto talento? Se eu soubesse escrever músicas como ele, há muito tempo não seria eu mesmo, mas Chico Buarque de Holanda. São boatos sem fundamentos, como muitos que vão por aí. Como essas notícias que circulam, afirmando coisas que jamais afirmamos. Um jornal carioca publicou que, após ver a peça "Roda Viva", eu tinha dito: "eu sabia que havia tudo isso aí dentro do meu filho". A frase talvez pudesse ter sido dita por mim, mas que não disse, não disse. Das suas músicas todas, gosto mais de "A Banda", "Pedro Pedreiro", "Roda Viva" e "Carolina". Nunca me esquecerei do dia em ouvi "A Banda" pela primeira vez, em Nova York, na casa de um amigo. Foi uma grande emoção. Não obstante todo o sucesso, o qual não lhe provoca muito prazer, é bem capaz de Chico largar tudo isso e partir para uma outra coisa qualquer, bem diferente. Ele é bem capaz disso. Muito inquieto. Muito inteligente. Sempre gostou muito de ler. Guimarães Rosa é um de seus autores preferidos. Quando fez "Pedro Pedreiro", inventou uma palavra: penseiro.
Talvez inspirado
em Guimarães Rosa, que também era dado a inventar palavras.
Tolstoi e Dostoiévski também eram seus favoritos. Assim como Kafka. Em geral, ele ia lendo tudo o que caía em suas mãos. A música é responsável por ele ter abandonado o curso de arquitetura, decisão que tomou sozinho. O sucesso abriu uma impossibilidade de estudar. Excesso de compromissos, solicitações. Creio que, na música, ele se realiza mais, se torna muito mais feliz. É preferível um compositor realizado, que um arquiteto frustrado, como todo mundo sabe. Quando vai compor, geralmente fica isolado, no quarto, sozinho. A música e a letra sempre nascem juntas, uma ligada à outra, indissoluvelmente. Encontrou grande dificuldade em musicar "Morte e Vida Severina", porque a letra não era sua. Desde que aprendeu a tocar violão, com sua irmã Heloisa, hoje casada com João Gilberto e morando em Nova York, nunca mais deixou de compor. Sua adolescência foi normal, sem nenhum conflito especial. Posso considerá-lo um rapaz feliz. Suas primeiras composições falavam de amor. Mais tarde, quando ingressou na faculdade, passou a fazer música de participação, sendo que a primeira foi "Pedro Pedreiro". A família ficou um pouco tonta com o sucesso tão fulminante, tão rápido. Mas já nos acostumamos. Chico é que não se habituou a ele. Ficou muito contente de ter ido a Paris, porque ninguém o conhecia por lá. Talvez o sucesso tenha provocado uma espécie de defesa, tornando-o um pouco retraído. De fato, meu filho não é tímido. É bem diferente a imagem que temos dele. Trata-se de uma pessoa normal, alegre, sem problemas graves de personalidade. Eu sei o que eu estou falando. Sou seu pai há 23 anos.

 

4.2 - Entrevistas

Revista Manchete - 1978

Texto de Renato Sérgio

Entrevista a Ivandel Godinho Jr.

Chico Buarque está aí, outra vez, para os Caros Amigos, preparando uma comédia musical (O dia em que Frank Sinatra veio ao Brasil) e um filme baseado em sua peça Gota d'Água.

Parece mentira, mas já tem gente jurando que o homem secou. E argumentando: como é que pode, alguém tão fértil (três filhas e tantas músicas, teatro, disco, livro, televisão, cinema, show, tudo) não ter lançado uma grande novidade durante o ano inteiro? Pois, modestamente, qualquer um pode contra-argumentar que ele anda meio estéril apenas porque está usando toda a sua fertilidade na feitura de uma comédia musical chamada "O Dia em que Frank Sinatra Veio ao Brasil". E também — bomba, bomba! — nos primeiros rabiscos do roteiro de um filme baseado na sua peça "Gota d'Água". Portanto, o homem não secou coisa nenhuma. É intriga da oposição. Aliás, muito pelo contrário, continua mandando bala por aí. Exemplo? Está gravando um disco para crianças.

Me alimentaram / Me acariciaram / Me aliciaram / Me acostumaram / O meu mundo era o apartamento / Detefon, almofada e trato / Todo dia filé-mignon / Ou mesmo um bom filé de gato / Me diziam todo momento / Fique em casa e não tome vento...

A música chama-se História de uma Gata. Adaptação de uma melodia do italiano Sérgio Bardotti para uma peça infantil baseada num conto dos Irmãos Grimm. Sílvia e Helena — as mais velhas de suas três filhas — fazem parte do coro, ao lado das vozes de Miúcha — irmã de Chico —, Rui e Magro, do MPB4...

mas é duro ficar na sua / quando à luz da Lua / Tantos gatos pela rua / Toda a noite vão cantando assim / Nós gatos já nascemos pobres / Porém já nascemos livres / Senhor, senhora, senhorio / Felino não reconhecerás.

Chico vem acompanhando atentamente as gravações. Há pouco mais de um mês ele esteve naquele mesmo estúdio, para os últimos retoques no seu mais recente disco, "Caros Amigos", já um tremendo sucesso de vendagem, apesar de não ter nenhuma música inédita.

Chico Buarque de Hollanda. Aos 32 anos de vida, 10 de carreira, não tem quase nada a ver com o mocinho meigo que fez a Banda passar. A começar pela aparência física. E pelo violão, antigamente sempre presente, que agora dá lugar aos livros e aos muitos papéis rabiscados. Em comum, nos dois Chicos, apenas a timidez. E a eterna graça carregada de crítica.

De manhã eu voltei pra casa / Fui barrada na portaria / Sem filé e sem almofada / Por causa da cantoria / Mas agora meu dia-a-dia / É no meio da gataria / Pela rua virando lata / Eu sou mais eu / Mais gata / Numa louca serenata / Que de noite sai cantando assim / Nós gatos já nascemos pobres / Porém já nascemos livres / Senhor, senhora, senhorio / Felino não reconhecerás.

"Se a gente comparar minhas atividades atuais com as de 10 anos atrás, vamos encontrar muitas diferenças. Antes eu viajava pelo Brasil inteiro, apresentando shows em todos os cantos. Hoje meu ritmo de vida é diferente, mesmo porque não agüentaria o ritmo antigo. Então eu admito uma tendência em me concentrar mais no ato de criação, ou seja, o astro estaria desaparecendo para dar lugar apenas ao criador. Realmente, não pretendo me apresentar em público tão cedo. Mas isso pode ser também um estado cíclico, não posso garantir que seja definitivo. De qualquer forma, mais do que nunca estou concentrado no processo criativo. Um pouco porque estou cansado de shows, um pouco porque estou me sentindo predisposto a esse tipo de trabalho. E um pouco por causa do meu próprio temperamento: fico sempre numa posição nada confortável em relação ao público e acabo me desgastando, sofrendo. E, além do mais, tenho mais prazer, ultimamente, com um trabalho criador. Como aconteceu, por exemplo, com o livro Fazenda Modelo. Às vezes trabalhava até 12 horas por dia e com um enorme prazer. Só não escrevo outro livro agora porque não tenho uma boa idéia. Se tivesse, largaria tudo para me dedicar apenas a ele. Posso até garantir que compor uma música me dá um prazer que não dura tanto quanto escrever um livro ou uma peça de teatro."

— No momento você está escrevendo uma comédia, quase teatro de revista, como você mesmo diz. Não é esquisito que isso aconteça depois de uma peça altamente politizada, polêmica, como "Gota d'Água"?

— "É justamente por ter vindo de uma tragédia que quis dar uma refrescada. Só que a comédia que está sendo escrita agora não chega a ser inconseqüente. E uma sátira social, cheia de ironias. Não há o simples propósito de fazer rir. E tem mais uma coisa: quem observar bem "Gota d'Água" vai ver que há uma grande parte de comédia nela. E foi justamente — isso é engraçado — a parte mais atingida pela censura. Agora, o importante é que eu não sou escravo de imagem nenhuma. Não carrego nenhuma bandeira e não sou herói. E faço questão de desmistificar isso. Meu único compromisso é com a cultura brasileira."

— Já que não é uma comediazinha, você não tem medo que a peça seja proibida?

"Quando estou trabalhando nunca penso na presença da censura. Faço o que acho certo, eles que cortem depois, se discordarem. Além do mais, de nada adiantaria eu me vigiar, porque ninguém pode adivinhar os critérios de julgamento dos outros. Quero é terminar a peça para entregá-la, logo ao Paulo Pontes. Com "Gota d'Água" foi o contrário: o Paulinho escreveu primeiro e eu fiz, depois, as alterações que achava convenientes. No caso de "Frank Sinatra", nós resolvemos mudar. Como eu estou mais ligado à música e a peça será musical, eu escrevo tudo primeiro. Depois ele vai mexer no que achar necessário."

— Novos planos de trabalho da dupla para mais tarde?

— "O Paulinho é um cara cheio de projetos. Então, é muito entusiasmante trabalhar com ele. E já há uma idéia concreta de se filmar "Gota d'Água", coisa que eu revelo só agora porque só agora é um projeto materializado. Só está faltando encontrar a produção. Ao contrário da peça, o filme será totalmente musical. Inclusive estou disposto a escrever novas músicas o sobre o tema, para usar no filme. O roteiro será meu e do Paulo, também. Não pretendemos entrar na produção, primeiro porque um filme como a gente imagina vai custar um dinheiro que nós não temos, segundo porque encerrei minhas atividades de produtor depois que investi em "Calabar" e a peça acabou sendo proibida. Quem vai escolher os atores é o diretor, Leon Hirschman, mas posso adiantar que pelo menos Bibi Ferreira estará no elenco."

— E que tal a sensação de lançar um disco como "Caros Amigos" e antes mesmo dele chegar ao público já ter vendido 100 mil cópias?

"Soube que ele está vendendo muito, mas apenas por informação de bastidor. Do vizinho que disse, do amigo que ouviu falar. Eu mesmo, quando fui comprar o disco pra mim, ouvi do vendedor: "Olha, está vendendo horrores!". Fico contente porque foi um trabalho do qual gostei. E espero, aliás, que ele continue vendendo. Na verdade, nesses 10 anos de carreira, me acostumei a tudo. Tive altos e baixos. Hoje estou com uma peça em cartaz fazendo sucesso, estou escrevendo outra, e meu disco está saindo.

Mas já passei por outras situações bem menos agradáveis. Teve, por exemplo, um tempo em que fui morar na Itália e senti vontade de largar tudo. Aí entrei para balanço. E vi que se minhas músicas incomodavam é porque elas tinham alguma coisa para dizer. Quando voltei, estava mais forte."

— As notícias que chegaram aqui é que desta outra vez que você esteve na Itália, o sucesso, foi enorme.

"Foi. Sem exagero nenhum. Mas o sucesso não foi só meu, foi da música brasileira. Do Jorge Ben, do Gil, da Betânia. De todos os brasileiros que se apresentaram no Teatro Sistina de Roma. E as críticas foram espetaculares. Lembro-me de que, quando morava na Itália, apenas uma pequena elite é que curtia a nossa música. Hoje é um público bem mais diversificado. Dessa vez havia uma média diária de 1.400 pessoas. Eu levei um susto. E é preciso salientar que as músicas eram cantadas em português, no original. E quando eu morei lá, tinha de traduzir tudo para o italiano. Isso quer dizer que há alguma coisa no ar, que os empresários brasileiros deveriam aproveitar. Pra dar uma idéia do interesse que há pela música brasileira por si, basta dizer que entre o dia de minha apresentação e a do Gil, havia um intervalo. Então, os organizadores apresentaram um conjunto espanhol ou francês, não me lembro direito. E disseram que era música brasileira. O teatro lotou também. Eu devo voltar para lá, em março ou abril, para gravar um disco de músicas minhas com a Ornella Vanoni. Como ela fez com as músicas do Vinícius. Aliás, acho que o Vinícius e o Toquinho é que foram os responsáveis por essa euforia italiana com relação à música brasileira."

— E porque você se limitou à Itália?

"Quando terminaram as apresentações em Roma recebi convites para me apresentar em Paris. Mas recusei. Estava muito cansado. Afinal, uma das razões da minha ida era descansar. Tirar umas feriazinhas. E foi o que fiz. Aluguei um carro e andei por tudo quanto é lado, com a Marieta, minha mulher. Conheci Amsterdã e vi filmes que não vão passar aqui. Foi ótimo. Voltei tranqüilo. Pronto para enfrentar o trabalho. E ver meu Fluminense brilhar".

 

 

O Estado de São Paulo/Caderno 2 - 29/06/05

“Tenho medo de me tornar um idiota"

Aos 60 anos, Chico Buarque fala sobre ser escritor e músico, considera oca a fama de sexy e rejeita o título de ícone

Ima Sanches La Vanguardia

"Tenho 60 anos. Nasci e vivo no Rio. Estou separado e tenho três filhas, duas netas e meia, e um neto: Chico. Sou um democrata que ainda acredita na possibilidade de um socialismo democrático. Já tivemos quase duas décadas de idiotice globalizada. Sou ateu. Publico Budapeste na Salamandra em castelhano e na La Magrana em catalão."

Uma vida rodeado de mulheres. Sim, irmãs, filhas, netas.

O que aprendeu com elas?

Continuo com a curiosidade intacta, com o mesmo desconhecimento e esta estranha admiração. Sempre me surpreendem e suas opiniões me interessam mais que a dos homens.

Você encabeça a lista dos homens mais sexys do Brasil.
Isso é ridículo, e essa lista é ridícula. Tenho 60 anos, percebe?

Sempre fugiu da fama?

Não, participei de festivais e busquei o reconhecimento para meu trabalho. Mas logo aparece a fama boba, oca, que é a sombra do reconhecimento e que fala se o artista está gordo ou com quem vai para a cama. Há 40 anos não era assim.

Ficávamos bêbados em Ipanema dizendo coisas absurdas, mas não saía na imprensa. Hoje, alguém vai ver uma partida de futebol e vem o jornalista lhe perguntar como está a partida. Isso não me agrada.

Mas é o que vende. Tem gente que persegue essa fama que não corresponde a nada. É insólito.

Nunca vi um movimento geral de idiotice como o de agora. Mas em meu país, de 15 anos para cá, vem crescendo perigosamente. A idiotice nos rodeia, eu mesmo tenho medo de me tornar idiota...

Pense bem... Talvez tenha razão. Tudo seria mais fácil, nada me surpreenderia e poderia dar entrevistas sem escrever livros.
Sim, sim, anuncio que vou escrever um novo livro e passo dois anos dando entrevistas. Depois falo do livro que não saiu. E assim passa a vida. Hoje é possível viver de feira literária. Há festivais a cada semana em alguma parte do mundo. E agora que finalmente sou escritor...

Custou-lhe três livros.

Sim. Agora já me consideram como tal e posso viver me fazendo de turista literário; certamente conseguiria ser muito mais conhecido como escritor do que sou hoje sem necessidade de escrever mais livros.

Falemos de épocas mais intensas.

Não sou nostálgico, não penso que éramos mais bonitos, mais magros e mais felizes, embora tudo isso seja verdade. Não me agrada recordar nem os anos 60 nem os 70, dos 80 não me lembro, e nos 90 começou a idiotice. Nunca estive de acordo com o que me cercava. Me agrada estar vivo, fazer as coisas em meu ritmo, sem pressões.

Em fins de 68 começou a verdadeira censura e a perseguição aos opositores do regime, políticos, simples artistas ou fumadores de maconha. Isso tudo era preciso combater e nós, os artistas mais populares, o fizemos com a música, com prejuízo para a qualidade artística.

Você vivia sendo preso.

Como todos, mas saía sempre. Só dormi na prisão quando era menor de idade e roubava carros.

Um filho de ilustre historiador e sociólogo roubando carros? Sim, roubávamos carros para circular pela cidade e quando acabava a gasolina os largávamos. No dia seguinte fazíamos o mesmo, assim até que me pegaram. Mas durante a ditadura me chamavam ou vinham me buscar e me levavam para perguntar por que havia cantado isso ou aquilo.

Chegou a ter medo?

Quem tem c... tem medo. Recebia ameaças, cartas. Hoje tem gente no Brasil que tem medo de outras coisas e vive cercada de guarda-costas, sobretudo os famosos, porque ter guarda-costas o torna ainda mais famoso.

Você é um ícone da música; poderia ter dois ou três.
Não me agradaria ser ícone, soa fatal. Chegaram a me chamar de monstro sagrado, que medo!

Para quem escreve as letras de suas canções?
São "cantadas" para mim mesmo: é formidável, experimente, diga-se coisas bonitas. Me lembro de Vinicius de Moraes, que quando viajava sozinho e tinha sonhos se cantava canções de ninar e passava a mão no rosto até adormecer. Eu tentei e não funcionou.

Você é um insone?

Sim, por isso sempre trabalho de noite, o que é fatal para o insone. Quando consigo dormir, escrevo música em sonhos. Compus coisas maravilhosas, mas logo percebi que eram de outros.

Por que está há seis anos sem se apresentar?

Lancei o disco, fiz um ano de concertos, depois lançaram o disco do concerto do disco, e depois o disco do disco do concerto do disco... Em seguida colaborei em teatro, escrevi o livro e agora estou aqui com você.

Como é a sua mãe?

Tem 95 anos e repete constantemente, "Juízo e alegria!", e eu lhe digo: "Mamãe, ou juízo ou alegria." Meu pai era um sonhador e ela equilibrou seu lado boêmio, impunha a disciplina mas com muito sentido de humor, com isso: com juízo e alegria. Sete filhos!

O que significou para você trazer filhos ao mundo?
É formidável. Quando nasceu a primeira eu tinha 24 anos, era quase uma irresponsabilidade. Mas as três são melhores que seu pai e creio que se cada um de nós pudesse dizer isso, se Bush o dissesse, por exemplo, em 30 anos teríamos um mundo melhor.

 

Tom Jobim

Folha de S. Paulo - 18/06/94

Jobim chama compositor de "gênio da raça"
O compositor Tom Jobim, que Chico Buarque qualifica de "mestre soberano" na canção "Paratodos", rende reverência ao seu "discípulo".

Sensibilizado com a homenagem, Jobim retribui com eloquência: "Para o Brasil, é uma coisa muito boa ter um Chico Buarque. Ele é um gênio da raça, depositário da cultura popular brasileira. Grande poeta, grande músico, grande letrista, grande escritor, grande tudo." "Eu nunca pretendi ser mestre de ninguém. Nem formado sou. Abandonei Arquitetura no primeiro ano, Chico, no último. Nem topógrafo, como ele, posso ser."

Mas Jobim não nega a ascendência sobre o compositor. "Chico bebeu em todas as fontes, Pixinguinha, Noel Rosa, Vinícius de Moraes, mas devo ter influenciado um pouquinho." "Quando escuto meus garotos, que já são esses cinquentões como Chico, Caetano e Gil, alguma coisa lembra a minha música. Para mim, essa é a nova geração. Depois, vou perdendo o referencial."
O compositor recorda 11 parcerias com Chico, "alguma coisa mais para filmes, outra que eu esqueço".

Uma dessas parcerias poderá ser conferida no próximo disco de Jobim, que será lançado em julho ou agosto.

Chico assina a letra de "Piano na Mangueira", música de Jobim. Desta forma, a parceria funciona desde os anos 70.

"Mas o Chico não precisa de mim para nada. Fui eu quem o procurou há um quarto de século para botar letra em uma música que ia concorrer no Festival Internacional de Canção", lembra.

"Sou um parceiro bissexto. Chico é um homem muito ocupado, eu também. Minha relação com Chico é muito mais de amizade do que puramente musical." Jobim conta que a relação entre os Buarque de Hollanda e os Paes Leme, de quem descende, começou antes da amizade com Chico. "Meu pai e o dele já se conheciam, não sei se eram amigos, mas freqüentavam o mesmo ambiente literário."

 

Entrevista, por Geraldo Leite:

"...Os momentos bons e as horas más que a memória coa..." (Rádio Eldorado - 27/09/89)

 

Pra começar, pedimos ao Chico para falar sobre a música popular e por que é tão expressiva no Brasil?

Olha, eu, como estou dentro da música, nem me sinto muito à vontade de fazer uma comparação desse tipo. Fora daqui, na Europa, nos Estados Unidos, a música brasileira, a música popular brasileira tem consumo. Ela goza de um conceito muito alto. Eu não poderia comparar com outras artes para não ficar indelicado. Mas se chegou até a um casamento feliz, como aliás, eu tenho impressão que só acontece nos Estados Unidos e em Cuba. O casamento, quer dizer, a mestiçagem que gera a música brasileira, que é semelhante à mestiçagem que gera o jazz e toda música caribenha. O casamento entre a música e a letra, a formação européia dos nossos letristas, isso vem de muito tempo. A formação européia dos nossos melodistas, mas basicamente o ritmo. Os ritmos brasileiros é que dão um cunho muito especial à música popular. Acontece, como eu disse, aqui como lá nos Estados Unidos, como no Caribe. Você não vê esse mesmo casamento, essa mesma harmonia em músicas onde há menos presença do negro. Nos países andinos, por exemplo, tem a música popular, mas, ao nível internacional, ela não tem o pique que tem a música brasileira.

Na música brasileira esse elemento negro é fundamental. E a forma como ele entra, como ele se casa com os outros elementos que compõem a música. Eu vejo por aí.

No Brasil, a música popular... se você quiser considerar a música como música pura, vai levar desvantagem em relação à música mais elaborada, à música de vanguarda, à música erudita, porque recolhe elementos dessa música e assimila esses elementos, e produz junto com a letra, que também não é uma poesia, produz uma obra de arte única.

Eu não sei se as pessoas, tanto os criadores como os críticos, têm consciência disso. É uma opinião minha, pessoal. Em relação ao meu trabalho e de outros compositores, sempre falam muito nisso: "Ah, precisa publicar as letras e tal." Eu resisti sempre a isto porque me parecia sempre que era mutilar o resultado final que é a procura desse casamento entre música e letra.

Esse casamento já está na tradição da música brasileira. Na música brasileira dos anos 30, 40, aquela que eu ouvia quando era garoto, nos anos 50 com Dorival Caymi, sem falar em Noel Rosa, Ari Barroso, isso já existia. Tanto assim que eu acho que o pai da minha geração é o Vinícius de Moraes, o poeta do nosso pai é o Vinícius, que a certa altura renunciou um pouco à poesia erudita e foi fazer música popular, e foi muito criticado por isso. Mas, eu acho que ele tinha essa visão, não estava renunciando a uma coisa maior em troca de uma coisa menor. Não, estava, simplesmente, se dedicando a uma outra tarefa, tarefa não é a palavra boa, mas a outra arte.

 

Chico fala agora de suas primeiras preferências musicais:

Engraçado, eu fui descobrir Dolores Duran, o samba-canção, essa coisa toda, não exatamente na época que isso fazia muito sucesso. Eu nem gostava tanto assim, não. Eu gostava mais que tudo da música americana. E gostava da música brasileira... gostava de música de carnaval, gostava de ritmo. Era um garoto. Queria pular, queria dançar. Então, o samba-canção e muito bolero que tocava nos anos 50 não me dizia muito não. Eu fui recuperar isso um pouco mais tarde, porque... até harmonicamente têm coisas muito interessantes nessas músicas, nas canções dos anos 50. O próprio Tom Jobim, que eu não conhecia, fui conhecer o Tom a partir da bossa-nova. Mas a época dele pré bossa-nova também é muito interessante. Mas a mim não dizia grande coisa não. Eu adorava rock, adorava Elvis Presley. Na música brasileira eu gostava, sobretudo, das músicas de carnaval, das marchinhas e dos sambas de carnaval. Porque naquela época tinha isso, as músicas de carnaval tocavam só na época do carnaval, depois o que se tocava era isso, samba-canção e bolero. Havia um contraste muito grande entre o que se executava em rádio entre dezembro e o carnaval. A partir daí, a quaresma era uma quaresma musical mesmo. Você só ouvia canções lentas. (Chico Buarque)

 

A seguir Chico fala de seus compositores prediletos:

Noel Rosa, sem dúvida, Ismael, Wilson Batista, Geraldo Pereira. Em outra linha: Custódio Mesquita, Ari Barroso e outros que estou me esquecendo agora. (...) Eu citava Noel no samba A Rita. Eu fiz algumas canções à maneira de Noel. Claro que Noel me marcou muito. Mas eu queria dizer: também tem o Ismael. Eu gosto tanto de Ismael quanto de Noel. Mas eu não posso negar que Noel, pra mim, representou uma influência mais forte até do que o Ismael. Mas eu queria fazer justiça: Ismael estava aí vivo e esquecido. Ismael eu conheci muito, era um grande personagem. Noel era uma lenda pra mim. Conviver mesmo eu não diria. Porque a vida que eu levava, a chamada roda-viva, pra cima e pra baixo. Eu me encontrava com eles muito naqueles programas da TV Record que juntava essa gente. Eu convivi bastante com o Ciro Monteiro, com o Ismael. Mas principalmente com o Ciro Monteiro. Aí entram motivos extra-musicais. A gente ia junto pro Maracanã. Ele era flamenguista, eu era tricolor. Motivos gastronômicos também, porque tinha um feijão que a mulher dele fazia, a Lu, que era uma maravilha. Ele tinha isso de reunir muita gente na casa dele. Vinícius era muito amigo dele também. Com o Ciro eu convivi bastante. Os outros não. Eu cruzava muito com Ataulfo Alves, que era outra antiga admiração minha. Tenho músicas feitas a la Ataulfo, pelo menos uma claramente, que é Quem te viu, quem te vê. A gente se cruzava nos bastidores do Teatro Record. (Chico Buarque)

 

4.2.1 - Influências

Chico fala sobre sua relação com o poeta Vinícius de Moraes e diz que tinha já um carinho pessoal por ele. Mas isso não interferiu tanto. Ele conheceu Vinícius quando era criança. Mas passou a ser fã de Vinícius a partir da bossa-nova. Foi aí que se interessou:

 Eu não lia muita poesia. Acho que eu não conhecia o poeta Vinícius de Moraes. Eu conhecia o boêmio e compositor Vinícius de Moraes, amigo lá de casa, e a partir de Chega de saudade passei a conhecer. A bossa-nova foi que desencadeou a minha paixão pela música popular e a paixão da minha geração inteira. É um ponto comum de referência de todos nós. É João Gilberto, é Tom Jobim e é Vinícius. Virou uma página mesmo. Foi a partir daí que eu comecei a me interessar pelo violão e querer fazer música mesmo. Eu gostava muito de musica. Mas eu seria talvez um arquiteto que gostasse de música. (Chico Buarque)

 

Conheceu João Gilberto acho que em Nova Yorque. (...) Ele gravou Retrato em branco e preto bem mais tarde. Não faz tanto tempo. Há menos de 10 anos. Acho que já faz dez anos que eu não vejo o João Gilberto.

Chico fala sobra a possível influência dos Beatles:

Era, mas não tanto. Eu conversei isso outro dia com o Djavan, que é pouco anos mais novo que eu, apesar daquela cara de garoto, não é tão mais novo assim. Os Beatles pra ele representaram o que a bossa-nova foi pra mim. Existe uma idade, 15, 16 anos, quando você está aberto pras novidades musicais. Quando apareceram os Beatles eu já estava fazendo minha música. É claro que eu gosto dos Beatles, mas não teve o mesmo impacto que teve pra mim a bossa-nova. Ela me pegou veia, no momento certo, na idade exata da definição até profissional minha. Foi João Gilberto, foi a bossa-nova. Os Beatles já me pegaram dentro do bonde. Eu já estava fazendo música. (Chico Buarque)

 

Chico fala agora sobre a presença da música estrangeira no Brasil e do fértil período da bossa-nova:

Nos anos 50 eu ouvia, sobretudo, música estrangeira, e gostava de música estrangeira. Você não pode recriminar o jovem de hoje por gostar de rock. E não poderia fazer isso porque eu só gostava de rock até o aparecimento da bossa-nova. Agora, também não foi de graça que apareceu a bossa-nova. Não por coincidência, bossa-nova apareceu num momento em que estavam germinando o Cinema Novo, os novos movimentos de teatro no Brasil, a arquitetura de Oscar Niemeyer, Brasília. Foi numa época em que havia uma euforia, um sentimento, não vou dizer ufanista porque essa palavra foi descaracterizada mais tarde, mas havia um sentimento nacional de orgulho bastante forte. Você era brasileiro e gostava de ser brasileiro, e queria construir uma nação. Isso foi abafado mais tarde, por motivos que todo mundo conhece. Vai ser difícil, hoje, forçar, através de um decreto-lei, de uma proteção de mercado, criar o mesmo espírito que resultou no aparecimento da bossa-nova e dos outros movimentos de que eu falei em todos os setores da cultura brasileira. (Chico Buarque)

 

 

Chico fala agora da dificuldade do trabalho após 64 e de suas esperanças:

A partir de 64 a cultura brasileira esteve cerceada. Houve dificuldades em dar continuidade aos projetos. Os movimentos eram encarados com suspeitas. Acho que está na hora de aparecer gente nova. Inclusive porque tem gente com muito talento, às vezes desperdiçado, querendo fazer coisas. Eu tenho esperança, é claro, não sou pessimista. Tenho quase a certeza que mais cedo ou mais tarde essa página toda da bossa-nova vai ser uma página viradíssima. A bossa-nova existe até hoje. Volta e meia ela renasce porque ainda é uma música moderna. Foi criada em cinqüenta e poucos. Eu fico torcendo pra bossa-nova ser uma coisa do passado mesmo. Antecipamos a solução de um problema que era esdrúxulo: a ausência de relações diplomáticas entre Brasil e Cuba. São dois países muito ligados atavicamente, culturalmente. (...) Havia motivos políticos até pra eu me manifestar por isso, porque havia uma perseguição a tudo que dissesse respeito a Cuba. Mas a minha aproximação foi mais até com os artistas do que outra coisa. Havia a necessidade de se conhecer a cultura cubana, mesmo porque eles também tinham muito interesse pela cultura brasileira e havia essa barreira intransponível, ou quase. Eles conheciam tudo via Paris. Conheciam os discos de música brasileira que eram editados em Paris. Essas coletâneas misturando fulano e fulano. Chegava lá ele sabiam mais ou menos quem era quem, não sabiam exatamente. (Chico Buarque)

 

Chico fala sobre as canções feitas de encomenda para alguns intérpretes:

É você tem que partir de alguma coisa. É um velho tema: o papel em branco..." O que que eu vou escrever? Pra que que eu vou escrever? Se você tem pelo menos "pra quem que eu vou escrever", isso já ajuda. "Vou compor uma música pra GAL." É estimulante. Sou apaixonado por ela. É uma cantora maravilhosa. Aliás, tenho que fazer uma música pra ela nesses dias. Você acabou de me lembrar que eu tenho que terminar a música. Pensando na maneira dela cantar, isso sempre ajuda, estimula. Como é que eu vejo a Gal? Eu sinto a Gal tão claramente aqui, na minha cabeça, que eu sei que tem uma música com cara de Gal. Mas não sei te traduzir. (Chico Buarque)

 

Fala sobre Nara Leão, Bethânia e Gal:

A Nara mais de uma vez até me ajudou um pouco mais. A Nara me encomendava temas. Pelo menos uma vez ela encomendou. Por exemplo: Com açúcar, com afeto foi uma canção que eu fiz pra ela sob encomenda. Ela pediu: "Eu quero uma canção que fala que a mulher sofre, a mulher espera o marido etc. e tal." Eu fiz pra Nara e pro tema exato que ela pediu. Uma canção sob encomenda mesmo. Mas, normalmente, não acontece isso não. As cantoras deixam a gente à vontade. O que ajuda e não ajuda. A Bethânia é a mesma coisa que a Gal. Quer dizer, inteiramente diferente, mas eu também sei o que que é uma canção pra Bethânia. A Bethânia tem uma coisa teatral. Eu fiz muitas músicas para teatro, as famosas canções no feminino que eu fazia pra determinados personagens. Mas o personagem, às vezes, pra mim, não era tão claro quanto quem iria cantar. Então, às vezes, eu pensava no ator ou na atriz que iria cantar. Mas, às vezes, a atriz que iria cantar, iria cantar só teatro, porque não era uma cantora profissional. Então, misturava, na minha cabeça, a encomenda do personagem, a atriz e a cantora que eu gostaria que gravasse aquela música. Então saíram canções como Folhetim, que tinha a cara de Gal, que servia pro personagem, mas que eu já compus pensando que a Gal iria cantar lindamente. (Chico Buarque)

 

Chico fala sobre a versão de Cauby para Bastidores:

Bastidores eu fiz pra minha irmã Cristina. Mas ele encarnou. É. Ele encarnou. Eu lembro que eu estava pra viajar e um jornalista amigo meu, Tarso de Castro, me pediu uma música para um disco do Cauby que ele estava produzindo. Eu disse: "Não tenho nenhuma música nova. O que eu tenho é isso aqui, que a Cristina gravou. Se ele quiser gravar..." Mas o disco dele atropelou, acabou saindo antes e ele encarnou, como você disse. Ficou sendo a música do Cauby. (Chico Buarque)

 

Buarque fala que, quando chegava na hora do disco, muita vezes não tinha o material pra completar um disco. E então era obrigado a pegar de volta canções que tinha dado. Por exemplo, Olhos nos olhos ele gravou num disco dele; O meu guri gravou, regravou na verdade nos próprios discos. Ele só segura pra si, quando está, realmente, em cima da gravação:

Durante os dois três meses em que eu estou gravando um disco eu tenho que ser um pouco egoísta. Aquela músicas que eu compus ali, são pra mim, eu vou gravar no meu disco, são pra mim, e eu não dou pra ninguém. Senão meu disco só sai com regravação, com repeteco. E eu tenho a impressão que as pessoas compram o meu disco pensando no compositor. Eu ainda sou considerado um compositor que canta as suas músicas. E é natural que as pessoas esperem encontrar músicas inéditas. (Chico Buarque)

 

Sobre sua timidez, diz que não se apresenta em público com muita naturalidade. Tem muito a sensação de super-exposição:

Eu tenho a impressão, a impressão não, eu tenho certeza de que os grandes intérpretes usam uma espécie de uma máscara. Eles são intérpretes. Na hora que ele estão no palco eles são personagens. Eu cantei com Bethânia durante cinco meses no Canecão. É impressionante a transformação da Bethânia quando ela entrava em cena. Eu estava com ela até cinco minutos antes no camarim e era uma pessoa. Daí a pouco ela encarnava o personagem e entrava. E eu não. Eu levava pro palco os meus problemas todos. Era uma extensão de quem estava no camarim pouco antes. (Chico Buarque)

 

A seguir, Chico comenta a nova mulher dos anos 70 e sua produção para teatro:

Nos anos 70 a mulher deu um salto incrível em direção a sua própria liberdade. Quando a Nara me pediu uma canção em 66, era da mulher submissa, não é à toa. Mais tarde a mulher começou a sair e vieram os movimentos feministas etc. Mas eu acho que essas canções são mais conseqüência do meu trabalho pra teatro, onde por algum motivo as mulheres sempre foram muito fortes. Desde a Joana que a Bibi Ferreira fazia no Gota d´água, até as personagens de Calabar. Calabar é a história de Calabar contada, na verdade, pela sua mulher, sua viúva, que é a grande personagem da peça. Na Ópera do malandro a Teresinha é a personagem que dá a volta na história. As mulheres são muito fortes nesse meu trabalho pra teatro. E eu compus para essas personagens femininas. Então era natural que as canções refletissem essa força da mulher, da mulher independente. (Chico Buarque)

 

4.2.2 – A censura

 

Por Buarque de Hollanda, o Caso Calabar, 1973:

O episódio foi bem significativo do período que a gente estava vivendo. Aconteceu o seguinte: havia uma censura prévia (parece uma coisa tão distante: uma censura prévia). Você mandava o texto pra ser examinado pela censura federal. Esse texto era aprovado ou reprovado, ou aprovado com cortes. Ele foi aprovado com cortes. Alguns palavrões aqui, uma coisa ali, que a gente não podia levar ao palco. O resto estava aprovado. Quer dizer: sinal verde para montagem da peça. Então, nos reunimos, o Ruy Guerra, que é meu parceiro na peça e eu, mais o Fernando Torres, produzimos a peça. O ensaio geral pra censura é marcado e a censura não foi assistir ao espetáculo. Não foi, adiou, adiou...não foi, não foi, não foi... e aconteceu o quê? Chegou uma hora em que não havia como manter aquela produção em pé, então, falimos. Eles não proibiram. Eles obrigaram os produtores a jogar a toalha. A gente recorreu e meses mais tarde ela foi proibida pelo general Bandeira, que era o chefe do serviço de censura. Ele era superior ao chefe que tinha aprovado anteriormente. A peça foi proibida dessa forma esdrúxula, e foi proibida a divulgação da proibição na imprensa. E a palavra Calabar foi proibida na imprensa. (Chico Buarque)

 

 

Quanto as proibições da censura, ele relata:

Havia proibição de músicas integralmente, e havia proibição de palavras dentro do texto. Ou você era obrigado a mudar essas palavras ou simplesmente não podia pronunciá-las. Você podia optar. Em algumas músicas eu desisti. Outras eu troquei palavras. Não só em Calabar como em outras músicas desse período. Por exemplo, em Partido alto, onde estava brasileiro, eu botei batuqueiro, onde estava titica eu botei coisica. Ou, então você cortava simplesmente a palavra. Ou como no disco ao vivo com Caetano na Bahia, o recurso foi aumentar os aplausos na hora das palavras proibidas. Atrás da porta tinha: "me agarrei nos seus cabelos, nos teus pêlos". Pêlos foram proibidos. Já a Elis quando gravou eu mudei para no teu peito. Já, aí, eu não podia mudar porque eu tinha cantado. Por um descuido eu cantei a letra correta no dia do show. Então o quê que a gente fez no disco? Aumentou o volume dos aplausos. (Chico Buarque)

 

E continua sobre o esquema de funcionamento da censura para liberar as músicas:

A censura prévia que valia pra teatro valia para letras de músicas também. Antes de gravar qualquer música tinha que mandar a letra pra censura federal. E espera até a volta dessa letra, com carimbo e assinatura do chefe de censura. O que, aliás, provocava problemas graves porque gerava uma burocracia muito grandes, atrasos... E às vezes não era nem implicância. As letras se perdiam no meio do caminho. Os produtores ficavam desesperados. Era um atraso de vida danado. É evidente que, uma vez proibido, ficava marcado. Eu e outros autores que tinhamos uma ou outra música proibida, ficávamos numa espécie de index da censura. Então a música que chegava com o meu nome chamava a atenção. E eu comecei a sofrer uns cortes bastante arbitrários. Tinha uma música que eu fiz pro Mário Reis e que não era nada, era brincadeira, e eles proibiram alegando que era uma ofensa à mulher brasileira. Chamava-se Bolsa de amores. Era uma brincadeira que eu fiz com o Mário Reis porque ele gostava muito jogar na bolsa, tinha mania dessas coisas... Era a época em que só se falava em bolsa... (Chico Buarque)

 

 As pessoas atribuíam às vezes outros sentidos que ele mesmo não tinha atribuído. Enfim, aí ele sentiu que a barra estava pesada e aí falou:

Vamos experimentar com outro nome que pode ser que melhore. E realmente melhorou. As três primeiras músicas que eu mandei, onde eu assinava como Julinho da Adelaide, passaram. Se fossem com o meu nome, provavelmente, não passariam. Foi um artifício que funcionou durante pouco tempo. Depois ficou meio marcado, porque só se gravava esse tal de Julinho da Adelaide, e começou a correr a suspeita de que o Julinho da Adelaide seria um pseudônimo, até que o Jornal do Brasil publicou uma matéria falando sobre a censura e divulgou a verdade: que o Julinho da Adelaide era realmente um pseudônimo. (Chico Buarque)

 

Indagado sobre o quê você mais gosta da obra do Caetano, responde:

Eu gosto de tudo que o Caetano faz. Não tem o que eu gosto mais. Inclusive, porque ele continua fazendo e me surpreendo. Tenho uma relação pessoal com ele muito boa. Sempre tive. Eu sou inteiramente diferente dele. Por isso mesmo que a gente se entende bem. Essa história desse Fla-Flu que se criou... Eu até comentei com ele esses dias... é uma coisa artificial. Vai ser difícil me jogar contra ele. Apesar dos esforços que são feitos nesse sentido continuamente. Mas eu acho bobagem esperar que eu faça as músicas do Caetano ou que o Caetano faça as minhas músicas. Acho bom que ele faça as dele e que eu faça as minhas, que têm até uma origem comum, como eu disse no começo. A nossa formação é comum: a bossa-nova. Mas a cabeça dele é.... da minha. Eu me entendo com ele e acho que a minha música se entende com a dele também. (Chico Buarque)

 

 

 

4.2.3 – Entrevista com Clarice Lispector

 

Xico Buark me visita

Jornal do Brasil - 26/06/71 Clarice Lispector

Essa grafia. Xico Buark, foi inventada por Millôr Fernandes, numa noite no Antonio's. Gostei como quando eu brincava com palavras em criança. Quanto ao Chico, apenas sorriu um sorriso duplo : um por achar engraçado, outro mecânico e tristonho de quem foi aniquilado pela fama. Se Xico Buark não combina com a figura pura e um pouco melancólica de Chico, combina com a qualidade que ele tem de deixar os outros o chamarem e ele vir, com a capacidade que tem de sorrir conservando muitas vezes os olhos verdes abertos e sem riso. Não é um garoto, mas se existisse no reino animal um bicho pensativo e belo e eternamente jovem que se chamasse garoto, Francisco Buarque de Holanda seria dessa raça montanhosa.

Gostei tanto de Chico que o convidei para a minha casa. Com simplicidade ele aceitou.

Apareceu perto das quatro da tarde : naquele tempo, às cinco horas tinha uma lição de música com Vilma Graça, e havia um ano que estava estudando Teoria Musical, para depois estudar piano.

Quantos momentos decisivos na sua vida, é muito moço para saber se eram de fato decisivos esses momentos, se no final das contas contaram ou não. Nasceu com a estrela na testa: tudo lhe correu fácil e natural como um riacho de roça. Para ele, criar não é muito laborioso. Às vezes está procurando criar alguma coisa e dorme pensando nisso, acorda pensando nisso ---- e nada. Em geral cansa e desiste. No outro dia a coisa estoura e qual-quer pessoa pensaria que era gratuita, nascida naquele momento. Mas essa explosão vem do trabalho anterior inconsciente e aparentemente negativo.

O problema lhe interessa : fez-me várias perguntas sobre meu modo de trabalhar. Eu lhe disse : " Você, apesar de rapaz que veio de cidade grande e de uma família erudita, dá impressão de que se deslumbrou ao mesmo tempo em que deslumbra os outros com sua fala particular : já se habituou ao sucesso ? Dá impressão de que você se deslumbrou com as próprias capacidades, entrou numa roda-viva e ainda não pôs os pés no chão ".

Chico acha que tem cara de bobo porque suas reações são muito lentas, mas que no fundo é um vivo. Só que pôr os pés no chão no sentido prático o atrapalha um pouco. Acha que o sucesso faz parte dessas coisas exteriores que não contribuem em nada para ele: “A pessoa tem sua vaidade, alegra-se, mas isso não é importante. Importante é aquele sofrimento de quem procura buscar e achar. Hoje - disse-me - acordei com um sofrimento de vazio danado porque ontem terminei um trabalho. “

Falamos do processo de criar de Vila-Lobos e ele contou uma frase dele dita a Tom Jobim : Vila-Lobos estava um dia trabalhando em sua casa e havia uma balbúrdia danada em volta. O Tom perguntou : " Como é, maestro, isso não atrapalha ? " Ele respondeu : "O ouvido de fora não tem nada a ver com o ouvido de dentro." E isso Chico invejava. Também gostaria de não ter prazo para entrega das músicas, e de não fazer sucesso : ele é interrompido nas ruas e nas ruas mesmo é obrigado a dar autógrafos.

Chico tem um ar de bom rapaz , esses que todas as mães com filhas casadoiras gostariam de ter como genro. Esses ar de bom rapaz vem da bondade misturada com bom humor, melancolia e honestidade. Tem o ar crédulo, mas diz que não é, é apenas muito preguiçoso.

Claro que gostou quando o maestro Isaac Karabtchevsky dirigiu a banda no Teatro Municipal, mas o que lhe interessa mesmo é criar. Desde pequeno faz versinhos. Pedi-lhe que fizesse assim de improviso um versinho e que, para pô-lo à vontade, eu esperaria na copa. Daí minutos Chico chamou, rindo : Como Clarice pedisse/ Um versinho que eu não disse/ me dei mal/ Ficou lá dentro esperando /mas deixou deu olho olhando / Com cara de Juízo Final.

Perguntei-lhe se já experimentara sentir-se em solidão ou se sua vida tinha sempre esse brilho justificável. Eu aconselhei que de vez em quando ficasse sozinho, senão seria submergido, pois até o amor excessivo dos outros podia submergir uma pessoa. Ele concordou e disse que sempre que podia dava suas retiradas.

Logo que entrou para Arquitetura, quando começou a trocar a régua pelo violão, a coisa parecia vagabundagem mas depois a família se conformou.

Estava em fase de procura e no dia anterior acabara um trabalho que era só de música, que exigia prazo. Mas para uma canção nova estava sempre disponível. A coisa mais importante para Chico é trabalho e amor, e, como indivíduo, quer exatamente Ter a liberdade para trabalhar e amar. De brincadeira perguntei-lhe o que era amor. "Não sei definir", disse-me, "e você ?" " Nem eu", respondi.

 

4.2.4 – Autocrítica

Chico fala sobre o início da carreira:

Esses primeiros discos que eu gravava,(vou confessar uma coisa) eu gravava entre um show e outro. Eu fazia muito show. Durante onze anos não fiz outra coisa senão cantar e às vezes em condições precárias pelo Brasil a fora. Hoje em dia você tem todo um aparato que te permite mil comodidades. Naquele tempo era difícil. Às vezes eu chegava num lugar, sozinho, com o violão e um microfone só, e auto-falantes daqueles do tempo do onça. Hoje em dia é mais fácil. Eu fazia show pelo Brasil inteiro e entrava no estúdio os arranjos já estavam feitos, já estavam gravados, eu chegava lá, botava minha voz em cima. Hoje quando vou gravar um disco me dedico só a gravar o disco. Então eu estou lá trabalhando junto com arranjador, fazendo o que eu quero. Hoje eu assino inteiramente. Naquele tempo não. E ia conhecer a capa dum disco (aliás, umas capas horrorosas) quando já estavam impressas, prontas. Não posso nem culpar tanto a gravadora, porque era um pouco displicência minha também. Porque eu estava viajando, porque eu estava fazendo show pra cima e pra baixo e não era muito cuidadoso com relação aos discos. Esse ano andei trabalhando em cima desse songbook, o que me dá uma perspectiva do que foi meu trabalho esse tempo todo. Eu comecei a perceber coisas que na época eu não percebi. Eu estava fazendo as coisas sem perceber o que estava fazendo. Eu tenho a impressão que eu gravava esses discos sem a menor idéia que vinte anos depois eu iria ter que falar sobre eles. Eram produtos inteiramente descartáveis. (Chico Buarque)

 

Ele conta que tem três discos que são praticamente iguais. São discos que reúnem as músicas que fez ainda quase não profissionalmente. Era um estudante de arquitetura que fazia música e tomava cachaça. No terceiro disco tem músicas que já tinha composto na época do primeiro disco. Um disco é continuação do outro. São de uma fase mas na época não tinha a menor idéia de que estava criando pra ele uma profissão, uma carreira. Era uma brincadeira. Uma extensão da vida de estudante.

Chico continua avaliando sua obra:

Já o quarto disco é um disco complicado, porque eu gravei na Itália, eu morava na Itália. É o disco mais irregular que eu tenho. Eu gravei esse disco, que chama-se Chico Buarque de Hollanda nº 4, quando eu morava na Itália. Eu mandei as fitas com as canções pro Brasil. Aqui no Brasil foram gravados os arranjos todos, as bases. O produtor, que se chamava Manuel Berimbau, voltou pra Itália com essas bases e eu coloquei a voz em cima. Eu não podia voltar pro Brasil, ou não devia voltar pro Brasil. Compus as músicas também a toque de caixa porque eu tinha que gravar, eu estava morando na Itália e vivendo com uma certa dificuldade. Esse disco é um disco de transição. É o disco da minha maturidade, não como compositor, mas como ser humano. Eu estava morando na Itália, com problemas pra voltar pro Brasil, com uma filha pequena... Virei um homem. Eu era moleque. Virei um homem e não sabia o que dizer. Então, as músicas estavam com um pé ali e outro aqui. Um pé no Brasil e outro na Itália. E eu sem saber exatamente o que ia fazer da minha vida: Ah! Bom...vou ser compositor? Vou viver disso... vou ter que encarar isso a sério... vou ter que encarar a vida a sério. Uma série de circunstâncias me levaram a isso. A estar morando fora do Brasil e estar casado e com uma filha, e a ter que pensar pra valer na vida. Eu tive dificuldade. São as músicas mais arrancadas a fórceps que eu tenho. Essa fitinha que eu falei que mandei pra cá, o Manuel Barenbein, que eu chamava de Manuel Berimbau, ficou lá, eu me lembro, durante uns quinze dias em Roma, sentado diante de mim a dois metros de distância, e eu terminando a música e dizendo: espera aí Manuel, estou terminando aqui essa música...  Tem músicas que eu terminei nas coxas porque eu tinha que gravar esse disco. Tinha obrigação profissional de gravar esse disco senão... Eu tinha assinado contrato com a gravadora. Esse contrato profissional foi que me permitiu através de um adiantamento continuar vivendo na Itália, porque eu não tinha condições financeiras de me sustentar na Itália. Então eu tinha que cumprir esse contrato. Tinha que gravar as músicas pra pagar o dinheiro que eu tinha pedido emprestado. A história é essa. É um disco feito por necessidade. Os outros três discos anteriores são desnecessários (ri). Eu precisei passar por isso pra chegar ao disco seguinte, que é Construção, que já é um disco maduro como compositor. Aqui é um disco em que eu estou maduro como homem, como ser humano. Pera aí. Sou gente grande. Tenho uma filha pra criar. Acabou a brincadeira. Mas eu não sabia ainda como exprimir essa perplexidade. Eu não sei se daqui a vinte anos, quando eu olhar pra trás, eu não vou ter outra visão do que eu estou fazendo hoje, do que eu fiz há pouco tempo atrás. A gente não tem essa perspectiva. Eu fui obrigado a fazer essa revisão e entender o que se passava comigo há vinte e cinco anos, que foi quando eu comecei, há vintes anos, que foi quando eu gravei esse disco na Itália. Consegui entender isso agora.

 

Indagado sobre um possível alívio de produção, a partir do disco branco, com ilustração de Elifas Andreatto, como era um momento de conflito com a gravadora, ele discordou:

Parecia que aquele disco branco marcava já um Chico mais sereno... Já vejo diferente. Vejo um disco bastante angustiado. Sem dúvida, isso que você está dizendo, agora, é outra história. Se a gente continuar dividindo o trabalho, você vai ter, desde Construção até Meus caros amigos, toda uma criação condicionada ao país em que eu vivi. Tem referências a isso o tempo todo. Existe alguma coisa de abafado, pode ser chamado de protesto... eu nem acho que eu faça música de protesto... mas existem músicas aqui que se referem imediatamente à realidade que eu estava vivendo, à realidade política do país. Até o disco da samambaia, que já é o disco que respira, o disco onde as músicas censuradas aparecem de novo. Não havia mais a luta contra a censura. Enfim, a luta contra a censura, pela liberdade de expressão, está muito presente nesses cinco discos dos anos 70. São discos com a cara dos anos 70. Construção, Quando o Carnaval Chegar, Caetano e Chico ao vivo, Calabar, que nem se chamou Calabar, ficou sendo só Chico Canta, Sinal fechado, onde eu canto só músicas de outros compositores, e Meus caros amigos. Disco por disco, você vai ver isso. Fica bastante claro que a partir de 78 minha música está respirando melhor. (Chico Buarque)

 

Sobre o processo de criação, ele diz que:

Não existe um processo. Se houvesse me facilitava muito a vida. Às vezes eu tenho vontade de fazer, tenho a música encomendada, ou mesmo pra eu fazer um disco, e a coisa não aparece com tanta facilidade. A gente vai acabar chegando na história da encomenda. De repente, eu consigo trabalhar mais sob pressão. De onde vem eu não sei te dizer. Normalmente elas vêm em série. Uma puxa a outra. Há períodos em que não acontece nada. Posso passar 4, 5, 6 meses sem compor uma única canção. (...) Quando eu comecei a gravar tinha na gaveta 40 músicas. Gravei meu primeiro disco, gravei o segundo e ainda gravei o terceiro com resto de músicas que estavam na gaveta. Há aquele entusiasmo juvenil, quando não se tem nenhuma autocrítica. Vai dizendo qualquer coisa. Mais adiante começam as dificuldades porque você não quer se repetir. Os caminhos começam a ficar mais estreitos. Você sabe exatamente o que não quer fazer. O que você quer fazer, às vezes, a gente perde de vista. Quando eu aceito uma encomenda, assim como quando eu assino contrato pra gravar um disco, eu assino com a consciência de que estou blefando, que estou assinado um cheque sem fundo, porque eu não sei de onde é que eu vou tirar aquilo. Isso mais adiante vai me criar problemas. "Por que que fui aceitar tal encomenda? Por que que eu fui aceitar fazer esse disco? Por quê que eu fui aceitar escrever pra essa peça?" Mas tem funcionado. É claro que isso gera uma angústia muito grande. Uma insegurança. Você sofre. (...) Realmente se você me pedir uma música pro seu programa de rádio do ano que vem eu vou dizer: "OK. Pode deixar." Quando chegar uma semana antes eu vou lembrar: "Ih! Eu tenho que terminar essa música." Você perguntou pelo processo de criação, pra mim é um mistério. Eu não sei porque que existe isso. Eu não gostaria de ficar me criando essas angústias. Trabalhar em cima da hora não é nem saudável, porque quando você vai trabalhar vira a noite, se desgasta. Se eu pudesse ter uma disciplina de trabalho, uma organização de vida que me permitisse fazer as músicas uma por mês, direitinho, guardar ali no escaninho e amanhã apresentar, entregar sempre no prazo, seria formidável, acho. Mas não é assim. Não sei trabalhar assim. (Chico Buarque)

 

Sobre parcerias:

Eu guardo músicas minhas que ficaram incompletas e que eu posso mais tarde retomar, como já fiz. Agora, mais do que tudo o que eu tenho lá é acervo imenso de outros compositores. Quando eu comecei a fazer letras pra outros autores... no começo eu não fazia. Depois comecei a fazer, pro Tom, uma coisa ou outra. Depois comecei a incrementar esse tipo de trabalho que é um trabalho bastante diferente do trabalho de música e letras. É outra coisa. Outro departamento. Talvez até por uma certa carência de letristas, porque a gente tem muito mais músicos do que letristas, e um pouco talvez pra suprir a falta de Vinicius. Eu herdei vários parceiros do Vinicius. O próprio Tom, Francis Hime, Edu, tinham o Vinicius como seu principal letrista... Toquinho... Então eu fiquei sendo o letrista dessa gente e de outros. Eu comecei a gostar. Eu gosto de fazer letras. Eu recebo muita encomenda. Não é tudo que eu consigo fazer. Também não é fazer porque gosta ou não gosta. Aí entra outro mistério. Você não consegue às vezes encaixar uma letra. É difícil. Tudo é difícil. (Chico Buarque)

 

Chico fala agora sobre seu trabalho como letrista:

Você tem que entrar na cabeça do compositor. Tentar adivinhar. Se você fosse ele, o que você estaria dizendo com aquela música. Às vezes você adora uma música... eu tenho músicas lindíssimas do próprio Tom, do Piazzola, do Baden Powel, que eu não consegui fazer letra. Eu faço questão de respeitar cada nota do meu parceiro. Faço exatamente como ele quer. O fato de eu fazer música ajuda, evidentemente, porque eu fico conhecendo melhor o som das palavras, a musicalidade das palavras. Se não soubesse música eu não saberia fazer letras pra música. Mas eu respeito cada nota musical que o parceiro me manda. (Chico Buarque)

 

O tema agora são os parceiros do Chico. Adivinhe quem é o primeiro:

O Tom é o que mais interfere. O Tom, às vezes, entrega a música, já com uma idéia do que ele quer como letra. Então, às vezes, isso cria dificuldades. Agora mesmo tem uma, que se chama Bate-boca. Ele já me entregou a música com a letra quase toda pronta. Eu falo: "Tom, essa letra você mesmo vai terminar." Mas ele quer que eu mexa ali, pra ele remexer, por sua vez. O Tom é um caso muito especial porque ele é, além de tudo, um grande letrista. Eu digo pra ele: "Tom, você é o seu melhor letrista." E ainda tem mais um agravante: eu não consegui me libertar do culto ao Tom, que é muito forte desde Chega de saudades. Eu tenho intimidade com o Tom de sentar com ele lá na Plataforma, onde ele está almoçando sempre, e conversar com ele como um amigo. Mas quando chega a coisa profissional eu fico um pouco intimidado, além de ele não me ajudar (risos), ele me intimida. Ele não me ajuda por isso, porque eu fico intimidado. "Poxa!! Fazer uma música pra Tom!!" (Chico Buarque)

 

Chico fala agora sobre Francis Hime, Sivuca e MIlton:

Acho que o Francis nunca escreveu uma letra. Aí é o contrário do Tom. Ele não me dá nem sugestão. Nem título nem nada. Deixa comigo e está lá... em aberto. Cada música tem uma história. Cada parceiro tem uma história. Quando faço eu música pro Milton, eu quero fazer com a cara do Milton. As músicas que eu fiz pro Miltom, foram pro Milton cantar. Procurei fazer uma letra que eu achasse com cara de Milton Nascimento cantar. (...)Eu tenho uma parceria com o Sivuca que é engraçada. Ele fez a música, que ficou se chamando João e Maria. Ele mandou uma fita com uma música que ele compôs em 1944, por aí. Eu falei: "Mas isso foi quando eu nasci." A música tinha a minha idade. Quando eu fui fazer, a letra me remeteu obrigatoriamente pra um tema infantil. A letra saiu com cara de música infantil porque, simplesmente, na fitinha, ele dizia: "Fiz essa música em 47." Aí pensei: "Mas eu criança...". e me levou pra aquilo. (Chico Buarque)

 

Trabalho de dança e de teatro com Edu Lobo:

O Edu é diferente porque quase todas as músicas que eu fiz com ele, senão todas, foram compostas pra projetos. Pra peças de teatros e dois balés, O grande circo místico e Dança da meia-lua, do Teatro Guaíra. Então, tanto ele quando faz a música e me manda, como eu quando faço a letra, nós temos um objetivo: fazer a música pra um determinado tema, personagem. Não é em aberto como é com Francis. O que apareceu desses trabalhos, em disco, é a parte das canções. E tem todo um trabalho dele que não foi gravado porque há pouco interesse por música instrumental no Brasil hoje, mas é um trabalho muito bonito. O desenvolvimento dessas canções instrumentais é uma coisa preciosa. Ele tinha idéia de lançar em disco, mas estava difícil. Não há muito interesse por música instrumental. (Chico Buarque)

 

Sobre seu trabalho com trilhas para filmes, Buarque fala:

No caso do Cacá, Joana Francesa, ele me mostrou o roteiro. Eu li e gostei muito. E eu tinha que compor a música antes dele filmar porque a Jeanne Moreau ia cantar a canção-tema no filme. E em Quando o carnaval chegar foi a mesma coisa. Mas, normalmente, essas músicas entram quando o filme já está pronto. Eu vou compor em cima das imagens que eu assisto em banda dupla ou na moviola. É o caso do próprio Cacá, em Bye, bye, Brasil; do Bruno bsarreto, em Dona Flor e seus dois maridos, Miguelzinho Farias em República dos assassinos. Normalmente eu faço em cima das imagens. (Chico Buarque)

 

Aos 62 anos, Chico diz que debate sobre esquerda é conversa boba e de direita. 

Despojado com camiseta branca e calça jeans, Chico Buarque, pediu ontem respeito aos seus cabelos brancos, respeito ao seu direito de pedestre e respeito a poder discordar "quase sempre" de Caetano Veloso.

No ensaio do show "Carioca", que estréia no dia 4 no Canecão, em Botafogo, zona sul do Rio, questionado pela Folha, Chico comentou a frase do presidente Luiz Inácio Lula da Silva: "Se você conhecer uma pessoa muito idosa esquerdista, é porque ela tem problemas; se você conhecer uma pessoa muito nova de direita, é porque também tem problemas".

"Isso é uma bobagem. Como bobagem não precisa ser levada tão a sério. Esse assunto não rende mais não. Essa conversa é muito antiga de incendiário e bombeiro. Essa é uma conversa de direita sem dúvida. Eu não mudei porque tenho cabelos brancos. Não sei se botox é de direita ou de esquerda", disse o cantor e compositor.

Ainda se acha de esquerda, Chico? "Acho que sim", respondeu seco. No dia seguinte ao ataque de traficantes que causou 18 mortes, deixou 23 feridos e provocou a destruição de dezenas de ônibus, carros e prédios públicos, Chico se mostrou tranqüilo. "Pessoalmente não me sinto mais inseguro, porque na verdade era de se esperar. Quando aconteceu em São Paulo, as pessoas mais atentas perguntavam quando aconteceria no Rio. Não é nenhuma surpresa para mim."

Disse que não é alarmista nem estava disposto a viver a "paranóia" da insegurança. "Todas as grandes cidades pioraram. Não sou saudosista. Não tenho saudades do Rio. Tenho boas lembranças. Não tenho saudades de mim. Tenho boas lembranças. Hoje é uma cidade mais violenta, mais deteriorada."

O compositor criticou também a violência de classe média. "O sujeito aqui corre risco de ser atropelado mesmo na faixa da segurança. Ficam falando em violência e violência, mas é violência também quem dirige um carro e avança o sinal. Outro dia estava lá andando, atravessando na faixa, o sinal aberto para mim, o cara quase me atropela. Podia ter quebrado a perna ou ter morrido. E o cara tinha um adesivo: "Basta!" Basta de violência. Violência também é isso", disse em referência à campanha de organização não-governamental liderada por grupos de classe média que pede mais segurança.

Chico elogiou o novo disco de Caetano Veloso, mas disse discordar dele "quase sempre". "Eu adoro o disco do Caetano. É interessante isso. Ele é o contrário do meu. A gente convive há 40 anos, às vezes por caminhos paralelos, às vezes por caminhos diferentes, mas é bom que seja assim. É bom que seja assim para todo mundo: para mim, para ele, para a música. Durante estes 40 anos já tentaram criar algum tipo de conflito entre nós. E não dá certo porque a gente se gosta, sou amigo dele, sou admirador dele. "Também discorda na política, Chico?" "Também. Não preciso concordar em tudo com o Caetano. Aliás, discordo quase sempre. Isso é bom. A gente discorda amigavelmente. Acho o disco muito forte, muito bom. Está procurando uma coisa que não é o que eu estou fazendo. Ele foi por um caminho, eu fui por outro. Pode ser que daqui a alguns anos eu me interesse também por outra coisa e ele... Na raiz está tudo lá. Meu disco sem dúvida é mais rebuscado harmonicamente. Foi uma preocupação que eu tive. São caminhos que o Caetano pode trilhar. Eu posso querer fazer um disco mais cru. O rock não é a minha linguagem . É muito mais dele do que minha."

 

Última Hora - Mário Prata - 07 e 08/09/74

O samba duplex e pragmático de Julinho da Adelaide

 

Nos bares do Rio de Janeiro, nas praias badaladas, na favela da Rocinha e mesmo na casa de alguns milionários e ainda em algumas delegacias de polícia, Julio Cesar Botelho de Oliveira talvez não seja muito conhecido. Mas Julinho da Adelaide é figura das mais notórias, simpáticas e comentadas do momento. Não se admite mais uma festa ou rodada de samba sem a presença de Julinho da Adelaide.

Seu nome passou das crônicas policiais para as sociais quando cantores famosos começaram a se interessar pelo seu samba. Chico Buarque gravou Jorge Maravilha, o MPB-4, O milagre e Nara Leão deverá gravar uma música nova.

Como começou a ficar conhecido em São Paulo, esteve aqui no começo da semana para tentar mostrar o seu trabalho nas casas de samba. Não lhe deram muita chance. Três dias depois encontrei em cima da minha mesa um bilhete assinado por Julinho e que terminava assim: "e como a barra não está dando por aqui, eu e Leonel vamos amanhã para Portugal. Parece que a barra lá tá melhor pru meu samba". Junto ao bilhete a fotografia de sua mãe, nos áureos tempos do Orfeu Negro, no Teatro Municipal do Rio.

Julinho da Adelaide - Eu não estou acostumado com o clima de São Paulo. Devo dizer que esta é a segunda vez que venho. A primeira vez faz muito tempo, foi na época dos festivais. Inclusive, tenho um fato interessante para contar: eu estava na platéia quando o Sergio Ricardo jogou aquele violão. Acertou aqui, ó.

Mário Prata - Esta cicatriz é do violão?

JA - É. Inclusive eu pedi para não fotografar, por isso.

MP - Mas são duas cicatrizes.

Chico Buarque - É que pegou o cabo aqui e a caixa aqui deste outro lado. Eu tenho a pele quelóide, entende?

MP - Quer dizer que você é um sujeito marcado pela música popular brasileira?

JA - Sou. Foi aí que eu despertei para a música, inclusive. Eu não tinha ainda muita vocação musical. Quer dizer, eu já tinha feito a letra do Juca que o Chico Buarque de Hollanda gravou. Juca foi autuado em flagrante, como meliante, lembra? Foi um caso que aconteceu comigo. Mas foi no festival mesmo que eu despertei. Eu vim de ônibus.

MP - Nesta época, você ainda não estava nem pensando em construir casa na Gávea, não é?

JA - Não, isto é um pouco de confusão que estão fazendo. Quem está construindo é meu irmão, o Leonel. Meu irmão é procurador.

MP - E esta segunda vinda a São Paulo? Você está aqui profissionalmente? Eu soube que você está com três músicas novas.

JA - Três não, tenho muito mais que três, devo dizer isso. Não tenho culpa se as pessoas pedem sempre as mesmas. Em geral pedem Chama o Ladrão, Jorge Maravilha e O Milagre. Mas eu tenho muito mais músicas. Chama o Ladrão teve um problema com a Censura e O Milagre teve também. Eu queria, inclusive, aproveitar e dizer que eu não quero criar nenhum problema com a Censura, porque, através do Leonel, eu tenho um diálogo muito bom com eles, entende? O Leonel sendo meu procurador, me quebra todos os galhos em todos os sentidos.

MP - Qual a profissão do Leonel?

JA - Na carteira tá comerciário, mas ele não exerce a profissão não. Ele trabalha mais como meu procurador, tem boas relações e tal. Tem, inclusive, boas relações na polícia. Então, em relação à Censura, eu tenho esta posição: eu acho bobagem as pessoas falarem que a Censura prejudica, quando eu acho que o negócio de fazer samba, tem que se fazer muito samba. Eu faço muito samba, entende? Faço vários por dia, mesmo. O sujeito que trabalha lá, o trabalho dele é censurar música. Eu respeito muito o trabalho do cara. Quando termina o dia, perguntam: quantas músicas você censurou hoje? O meu trabalho é fazer música. Quantos sambas você fez hoje? Oito, nove. O dia que eu faço dez eu vou dormir em paz com a minha consciência. Cada um no seu ramo.

MP - Mas você realmente faz oito ou nove sambas por dia?

JA - Faço. E faço samba duplex, também.

MP - Antes de falar sobre samba duplex, por que você só foi descoberto agora? Porque só agora que estão cantando as suas músicas?

JA - Porque eu estou profissionalmente na jogada tem pouco tempo. O autor jovem é difícil, meu. Eu, por exemplo, andei em todas as fábricas e não consegui nada. É claro que minha voz não é muito boa pra cantar. Eu não sou cantor e hoje em dia todos os compositores são cantores. Eles que defendam a matéria-prima deles. Eu não posso fazer isto, então tenho que procurar as fábricas. Mas ficavam me empurrando de um cara pra outro. Um dia, na Phillips, eu acabei no Departamento Gráfico, lá no Rio. Fui de porta em porta. Cheguei até a falar com o Roberto Menescal, autor do Barquinho, conhece?

MP - E estas cicatrizes, atrapalham muito?

JA - Embora eu não seja cantor, um dia eu pretendo gravar um disco. Você vê, gente que não canta bem como o Chico Buarque, o Vinícius de Moraes, o Antonio Carlos Jobim, estão cantando. Quer dizer,a minha voz não é muito boa mas outro dia eu ouvi o disco do Nelson Cavaquinho e ele é mais rouco do que eu e gravou um disco. Eu posso ter que gravar um dia, entende? Aí a minha foto vai atrapalhar a vendagem do disco, não é? É claro que eu não vou pôr na capa a minha foto. Assim, uma destas menininhas bonitas da Rua Augusta pode comprar pensando que é um sujeito bonito e vende mais o disco, não é? Com a minha cara eu acho que vai vender menos. Então, é melhor não ter a cara do que ter a cara que eu tenho.

MP - Não vamos falar nisto.

JA - Eu fico muito nervoso quando eu falo nisto. Se quiser, tira a fotografia de costas. Ou então tira do meu irmão. O Leonel se ofereceu, inclusive, para aparecer na capa, se um dia eu fizer um disco.

MP - O Leonel está com você aqui em São Paulo?

JA - Não. Vem amanhã. Ele me mandou porque disse que leu nos jornais - ele lê muito jornal - que aqui em São Paulo tem muita casa de samba, que lá no Rio não tem. Lá só tinha uma, o Sucata, mas era um show já montado e que não podia entrar e cantar no meio. Aqui, me parece, as pessoas podem chegar e pedir a vez para cantar. Vou lá e já vou logo avisando antes para me desculparem por não ser um bom cantor. Tenho muita música para mostrar. Fiz uma chegando aqui, hoje.

MP - Você faz a música e a letra, junto?

JA - Faço tudo junto, claro. É claro que eu faço samba duplex. Quase todos os meus sambas são duplex.

"Minha mãe casou mais de uma vez, mas casou sempre"

MP - Samba duplex o que é?

JA - São sambas que você pode mudar. Este que eu fiz agora você pode mudar. É sobre o problema da meningite, porque o Leonel me avisou: vai para casa de samba, mas cuidado com a meningite. Me explicou o que era, porque eu não leio muito jornal. Aí eu fiz o samba pelo caminho que diz assim: "eu fui para São Paulo com a Judith e só saí de lá com a meningite". Eu sei que tem agora umas propagandas de vir pra São Paulo nos fins-de-semana e eu não quero prejudicar ninguém. Então, se der problema, eu mudo "eu fui para São Paulo com a meningite e só saí de lá com a Judith". Fica, inclusive, como se São Paulo tivesse curado a minha meningite. Faço também adaptações de sambas antigos. Eu tenho umas idéias para o Vinícius de Moraes, que eu admiro muito, aliás.

MP - Você conhece ele?

JA - Pessoalmente, não. Eu estou procurando um contato com ele porque eu fiz uma adaptação daquele samba dele, Formosa, conhece? Mudei pra China Nacionalista. Já estou com bastante tarimba neste negócio.

MP - Mas você diz que não lê jornal, como é este negócio de China Nacionalista?

JA - Eu leio só o que o Leonel manda. Ele já dá o serviço todo, entende? Se eu ficar o tempo todo lendo, eu acho que eu não vou poder me expressar bem. Eu sou um criador, entende?

MP - Quer dizer que o Leonel é uma figura importante na sua vida?

JA - Eu devo toda a minha carreira e minha vida a duas pessoas. A minha mãe Adelaide, a quem devo inclusive o meu nome - meu sobrenome é Oliveira, mas Oliveira todo mundo é. Então eu sou Da Adelaide. Aqui ela pode não ser muito conhecida, mas no Rio é, e muito. E devo ao Leonel que é quem me orienta agora a minha carreira.

MP - Fala um pouco da Adelaide.

JA - Adelaide foi a pessoa que me orientou a minha vida inteira.

MP - Existe um boato de que ela teria sido uma das mulheres do Vinícius.

JA - Eu não posso falar assim da minha mãe, não é? "Uma das mulheres do Vinícius", o que é isto? Em todo o caso, que ela conheceu o Vinícius, conheceu. A minha mãe é uma mulher muito honesta. Ela casou mais de uma vez, mas casou sempre, viu? Quando ela viajou para a Alemanha, ela casou com um luterano. O Leonel é luterano por causa disto. É loiro e é luterano. Ele agora alisou o cabelo e está dizendo que ele é parecido com este tal de Roberto Redford. Mas ele não é muito parecido, não. O nariz dele é igual ao da minha mãe, grossão. Ele é loiro sarará, sabe? Parecido, fisicamente, com o Ademir da Guia. Só que agora alisou o cabelo e tá achando que é artista de cinema.

MP - E a Adelaide?

JA - Mamãe esteve lá na Europa, com a Brasiliana. Ela é casada na Igreja Católica Apostólica Romana, na igreja Católica Brasileira, é casada na Igreja Luterana e tem mais uns três casamentos aí. Eu sou filho da Igreja Católica Brasileira.

MP - Do primeiro casamento?

JA - Terceiro.

MP - Se a sua mãe foi com a Brasiliana, ela é mulata mesmo?

JA - Mulata retinta, quase preta. Quase sangue puro.

MP - Mas e você com esta cor mais clara?

JA - Meu pai, que eu não cheguei a conhecer. Ele morreu pouco depois de eu nascer. O nome dele era F. Botelho. Este F. nem minha mãe sabe o que é.

MP - Ele fazia o quê?

JA - Meu pai? Meu pai trabalhava em jornal. Era copydesk, naquele tempo.

MP - Então você teve uma origem assim já um pouco cultural. Você recebeu uma certa formação.

JA - Eu sempre tive muitos livros, apesar de morar na favela. Mas eu não tenho nenhuma vergonha disto. Tem muita favela lá no Rio que é melhor que estas coisas que estão fazendo agora. Se bem que eu aluguei um cantinho pra escritório da firma que tenho com o Leonel. Eu vi até um anúncio agora, no intervalo daquela novela, o "Espigão", onde eles anunciam muito estes novos apartamentos de sala e quarto. Menor que o barraco onde me criei, entende?

MP - Quer dizer que já está pintando um dinheirinho?

JA - Diz o Leonel que sim. Eu ainda não pus a mão neste dinheiro porque o Leonel acha que não é legal pegar o dinheiro e fazer alguma coisa agora. É melhor empregar, entende? E ele empregou. Parece que o dinheiro já vai dar uns dividendos. É isso, né?

"O Chico Buarque está faturando em cima do meu nome"

MP - E aquela casa que você está fazendo lá na Barra? É com dinheiro da vendagem?

JA - Não sou eu que estou construindo. Quem comprou um terreno lá foi o Leonel e vai construir uma casa agora. Mas isto é problema dele. Ele tem os bicos por fora, além da participação nos meus lucros.

MP - Aqui em São Paulo ainda não, mas no Rio você é muito conhecido. No Degrau, no Antonio's, no Final do Leblon. Como é que se deu esta transposição da favela para as colunas sociais e de músicas? Quem é que te deu esta força?

JA - Isso eu devo ao Leonel. Ele é muito ligado ao pessoal do Rio. O Zózimo Barroso do Amaral é como se fosse irmão dele, do Jornal do Brasil. O Carlos Imperial, da revista Amiga. Ele vive me falando dos amigos dele de jornais. Tem muita gente aí que é amigo dele. Bloch, um negócio assim. Então, eles me promovem. O Leonel é um cara cem por cento. Você precisa conhecer ele.

MP - Mas mesmo assim você ainda é uma figura pouco conhecida no Brasil.

JA - Ainda sou, devo confessar isto. Confio em Deus que, com a ajuda Dele e do Leonel eu vou chegar lá.

MP - Você não seria uma criação da imprensa carioca? Como é que você vê isto?

JA - Por algum tempo eu fiquei meio magoado com isto.

MP - Seu pai foi um copydesk no Rio. Você não estaria sendo lançado pela imprensa carioca que tem penetração nacional?

JA - É claro que a imprensa carioca me ajuda muito, mas eu tenho o meu trabalho. Eu vim aqui para mostrar o meu trabalho, entende? Não é só badalação, não. Este negócio de só badalação em jornal não dá camisa a ninguém, já me dizia o Leonel. Tem que se fazer as coisas. Eu vou lançar o meu primeiro compacto duplo que vai ser gravado agora, finalmente. Eu tenho feito uma média de cinco a seis sambas por dia. Com este trabalho eu acho que vou levar um grande empurrão na minha carreira e daí por diante eu acho que todo mundo vai se interessar em gravar música do Julinho da Adelaide.

MP - Quem é que está cantando música sua, hoje, Julinho?

JA - O Chico Buarque cantou num show que ele fez no Rio. Foi muito bom porque deu dinheiro na SBAT, o Jorge Maravilha. Tem também o MPB-4 e a Nara Leão. Eu entreguei umas outras músicas aí, que eu não sei se estão cantando, pra uma porção de gente. Eu tenho vários estilos, sabe? Mandei música para o Tim Maia, para a Angela Maria. Não sei se estão cantando porque eu não tenho muito controle. O Leonel que sabe.

MP - Mas você tem realmente uma produção muito boa ou está se utilizando de nomes como Chico e MPB-4?

JA - Mas, ô cara, escuta. Você vai me desculpar, mas eu já disse que não sou cantor. Eu preciso dos cantores pra lançar meu nome, entende? O Chico Buarque eu não devo nada a ele e nem ele deve nada a mim. Ele tá faturando em cima do meu nome e eu estou faturando em cima do nome dele. Acho que isto é normal. Não acho que seja aético da minha parte, entende? Eu sou é pragmático.

MP - Aético?

JA - Parece que a origem desta palavra é luterana.

MP - Julinho, aqui em São Paulo, o pouco que se sabe de você são histórias mirabolantes. O próprio Chico falou no show dele, não sei se você sabe, que você é uma figura das crônicas policiais que passou para as crônicas sociais. O seu passado...

JA - Vou lhe explicar isto. Eu sou muito tímido, conforme você deve ter percebido, e o Leonel, com esta história dele ser procurador e sendo uma pessoa descontraída, muitas vezes ele faz coisas impensadas. E aí, quando vão perguntar o nome dele, ele diz: Julinho da Adelaide. Só porque tem procuração minha. Então, é justo que eu pague pelas coisas boas e ruins que ele faz. E olha que não acontece muita coisa ruim com ele porque ele tem relações muito boas na polícia.

"Adelaide era amiga íntima do Vinícius, do Jobim e do Oscar Niemeyer"

MP - E você já foi preso?

JA - Algumas vezes. Eu conto isto, inclusive, no samba Chama o ladrão.

MP - Na medida que você mesmo diz que é muito pragmático, este negócio de carregar o nome da mãe não é uma jogada oportunista da sua parte? Pra sensibilizar uma parte do público?

JA - Não, de maneira nenhuma. Eu me chamo Julinho da Adelaide porque todo mundo só me chama assim lá no morro. Acontece que a minha mãe é mais famosa do que eu lá no Rio. Ainda é. Minha mãe é célebre. Eu vou te contar o que ela já fez. Minha mãe estava no primeiro elenco do Orfeu Negro. Foi amiga íntima de Vinícius de Moraes, Antonio Carlos Jobim e Oscar Niemeyer, que fazia o cenário do Orfeu no Municipal. Do Haroldo Costa, também. Ela conheceu mais intimamente o Oscar. Tanto é que há cinco ou seis anos atrás a gente morava ali na Favela da Rocinha quando começaram a erguer o Hotel Nacional. Aquele redondo. Mamãe dizia pra mim: "Tá vendo, filho? Tá vendo, Julinho? Aquilo é homenagem do Oscar para mim." Inclusive agora botaram uma porção de homenagens na Barra. Ela lembra dele muito bem. É claro que ela está mais velha agora e não pode receber muita homenagem. Eu estou sabendo que não é homenagem do Oscar Niemeyer pra ela, mas não vou tirar esta ilusão dela, né? É bonito ela ficar pensando assim. Mamãe tem muita imaginação. Mas continuando, depois ela viajou com a Brasiliana, casou com o luterano, foi presa na fronteira do Tibet por causa de um monge, aprendeu a fazer cassulé e a feijoada branca. O feijão branco dela é conhecido lá no morro. Então todo mundo perguntava assim: qual Julinho? O Julinho da Adelaide.

MP - Mas a própria imprensa carioca está achando que você está usando o nome da sua mãe para se promover. Tanto é que o Leonel não se chama Leonel da Adelaide.

JA - Leonel Kuntis. Mas pode ser que daqui uns tempos a Adelaide passe a ser a Adelaide do Julinho. Não tenho nada contra isto.

MP - Como vai ela?

JA - Mamãe está muito bem. Fazendo aquele feijão cada vez melhor. Ela tem um quiosque. A casa dela, uma vez por semana, enche de gente.

MP - Ela é neta de escravos, não é?

JA - Neta de escravos. A mãe dela foi beneficiada pela Lei do Ventre Livre. A gente tem uma gratidão muito grande pelo José Bonifácio, o Moço.

MP - Como foi o seu primeiro contato com o Chico?

JA - EU trabalhava na Phillips. Na fábrica, lá no Alto da Boa Vista, na Phonogram, na prensagem de disco. Lá eles tinham um time que dia de sábado jogava contra os compositores, contra esta gente assim, e eu estava sempre nesta pelada e fui conhecendo o pessoal. Fiquei conhecendo o Silvio Cesar, fiquei conhecendo o Maestro Erlon Chaves, fiquei conhecendo o Paulo Sérgio Valle.

MP - Mas, como foi? Você chegou para o Chico e mostrou a música, deu uma fita, cantou para ele, como é que foi?

JA - Não, eu não falei direto com ele. Falei antes com um rapaz integrante do conjunto vocal MPB-4. Eu estava entrando na área e aquele mais baixinho, gordinho, chamado Rui, me deu uma pancada por trás e o juiz não deu pênalti. Na hora que eu estava caindo no chão ele foi legal. Me pediu desculpas. Eu aproveitei que ele tinha puxado conversa e falei: eu sou compositor. Ele não deu muita bola e ainda marcou o gol. Mas, como eu tenho amizade e o primeiro contato já estava feito, eu consegui prensar um acetato por camaradagem do pessoal da Phonogram. Este acetato tinha duas músicas, o Jorge Maravilha e Chama o Ladrão. Parece que eles gostaram, mostraram para o Chico e cada um gravou uma.

MP - O Chico tem cantado a sua música e tem dado a entender que a música é dele. Ele se refere a você como se você fosse uma figura mitológica.

JA - Não sei, rapaz. Este pessoal que tem o nome feito, pode fazer muita coisa e não adianta eu ficar aqui reclamando, entende? Como eu já disse, eu sou pragmático. Eu preciso dele e ele de mim. Então eu não vou me colocar contra ele como você está querendo. Talvez o dia que eu for mais conhecido eu faça a mesma coisa. As pessoas têm que tirar proveito do que lhe cai nas mãos, não é? O Leonel que me disse isso.

MP - Eu queria que você se definisse, já que usa tanto a expressão pragmática.

JA - Eu não sei. Pra falar a verdade, o Leonel que mandou eu dizer que eu sou pragmático. Quando perguntassem coisa mais complicada, pra dizer isto. Por exemplo: "O que você acha da Censura?" Sou pragmático. Ele falou ecumênico, também. Disse que quando me perguntassem o que eu acho de Cuba, para eu responder que sou pragmático e ecumênico. Senão eu me meteria em complicações. Mas eu não posso definir exatamente como eu sou. Eu sou pragmático, pô!

 

Correio da Manhã, 14/10/66

Carlos Drummond de Andrade

O jeito, no momento, é ver a banda passar, cantando coisas de amor. Pois de amor andamos todos precisados, em dose tal que nos alegre, nos reumanize, nos corrija, nos dê paciência e esperança, força, capacidade de entender, perdoar, ir para a frente. Amor que seja navio, casa, coisa cintilante, que nos vacine contra o feio, o errado, o triste, o mau, o absurdo e o mais que estamos vivendo ou presenciando.

A ordem, meus manos e desconhecidos meus, é abrir a janela, abrir não, escancará-la, é subir ao terraço como fez o velho que era fraco mas subiu assim mesmo, é correr à rua no rastro da meninada, e ver e ouvir a banda que passa. Viva a música, viva o sopro de amor que a música e banda vem trazendo, Chico Buarque de Hollanda à frente, e que restaura em nós hipotecados palácios em ruínas, jardins pisoteados, cisternas secas, compensando-nos da confiança perdida nos homens e suas promessas, da perda dos sonhos que o desamor puiu e fixou, e que são agora como o paletó roído de traça, a pele escarificada de onde fugiu a beleza, o pó no ar, na falta de ar.

A felicidade geral com que foi recebida essa banda tão simples, tão brasileira e tão antiga na sua tradição lírica, que um rapaz de pouco mais de vinte anos botou na rua, alvoroçando novos e velhos, dá bem a idéia de como andávamos precisando de amor. Pois a banda não vem entoando marchas militares, dobrados de guerra. Não convida a matar o inimigo, ela não tem inimigos, nem a festejar com uma pirâmide de camélias e discursos as conquistas da violência. Esta banda é de amor, prefere rasgar corações, na receita do sábio maestro Anacleto Medeiros, fazendo penetrar neles o fogo que arde sem se ver, o contentamento descontente, a dor que desatina sem doer, abrindo a ferida que dói e não se sente, como explicou um velho e imortal especialista português nessas matérias cordiais.

Meu partido está tomado. Não da ARENA nem do MDB, sou desse partido congregacional e superior às classificações de emergência, que encontra na banda o remédio, a angra, o roteiro, a solução. Ele não obedece a cálculos da conveniência momentânea, não admite cassações nem acomodações para evitá-las, e principalmente não é um partido, mas o desejo, a vontade de compreender pelo amor, e de amar pela compreensão.

Se uma banda sozinha faz a cidade toda se enfeitar e provoca até o aparecimento da lua cheia no céu confuso e soturno, crivado de signos ameaçadores, é porque há uma beleza generosa e solidária na banda, há uma indicação clara para todos os que têm responsabilidade de mandar e os que são mandados, os que estão contando dinheiro e os que não o têm para contar e muito menos para gastar, os espertos e os zangados, os vingadores e os ressentidos, os ambiciosos e todos, mas todos os etcéteras que eu poderia alinhar aqui se dispusesse da página inteira. Coisas de amor são finezas que se oferecem a qualquer um que saiba cultivá-las, distribuí-las, começando por querer que elas floresçam. E não se limitam ao jardinzinho particular de afetos que cobre a área de nossa vida particular: abrange terreno infinito, nas relações humanas, no país como entidade social carente de amor, no universo-mundo onde a voz do Papa soa como uma trompa longínqua, chamando o velho fraco, a mocinha feia, o homem sério, o faroleiro... todos que viram a banda passar, e por uns minutos se sentiram melhores. E se o que era doce acabou, depois que a banda passou, que venha outra banda, Chico, e que nunca uma banda como essa deixe de musicalizar a alma da gente.

Carlos Drummond de Andrade

 

5- TRAJETÓRIA

 

O ano era 1978. Num Brasil que aos poucos se reencontrava com a liberdade de expressão, às vésperas da anistia e em clima de abertura, Chico Buarque retornava mais uma vez ao cenário teatral - alguns anos após ter visto sua peça Calabar ser censurada e perseguida pelo governo militar. Após a frustração do musical anterior, Chico triunfou de modo acachapante com sua nova produção, Ópera do Malandro; um marco do teatro musical brasileiro, que gerou vários sucessos radiofônicos, virou filme e consolidou o nome do compositor como legítimo inovador da arte cênica nacional. Duas décadas e meia depois daquela estréia, a Ópera volta aos palcos. O Rio de Janeiro é a cidade a abrigar a malandragem de Chico mais uma vez; o espetáculo, em versão superproduzida com direção de Charles Möeller, estreou ontem no Teatro Carlos Gomes. Uma vez mais, os dramas e alegrias de uma galeria inesquecível de personagens que povoavam a Lapa - bairro boêmio do Rio - nos anos 40, acompanhados por uma trilha sonora ainda mais inesquecível, estão de volta, numa temporada que vai até dezembro. Mais do que por sua trama ou suas interpretações, a Ópera do Malandro original entrou para a história por suas canções. Ilustrando seu painel dos áureos tempos da malandragem, Chico Buarque concebeu números como Folhetim, Pedaço de Mim, Teresinha, O Meu Amor, Homenagem ao Malandro e Geni e o Zepelim. Essas e outras acabaram por extrapolar a repercussão da peça, sendo regravadas por nomes como Gal Costa, Zizi Possi, Moreira da Silva e João Nogueira, ao longo dos anos. "Nenhum musical, nem da Broadway, tem tantos sucessos como este", afirmou o diretor Charles Möeller. Além das canções da montagem original, a nova versão da peça incluiu também algumas outras (como Hino da Repressão ou Palavra de Mulher) que foram feitas posteriomente para o filme homônimo (de 1985).

Assim como na época de sua estréia o score composto por Chico mereceu uma versão em LP, a remontagem 2003 de Ópera do Malandro também virou  CD. O elenco de 20 atores e 12 músicos tem sua direção musical coordenada por André Góes e Liliane Secco (que também assina os arranjos). Alexandre Schumacher, Soraya Ravenle, Alessandra Maestrini, Claudio Tovar, Lucinha Lins e Mauro Mendonça, os protagonistas da peça e que soltam a voz nas canções mais famosas, serão produzidos em disco por Vinicius França (colaborador costumeiro de Chico). O CD, a ser lançado pela Biscoito Fino até setembro, será gravado ao vivo no palco, sem a presença do público. O disco original trazia as vozes dos já citados João Nogueira, Moreira da Silva, Zizi Possi e Gal Costa, além de Francis Hime, Marlene e os grupos A Cor do Som, As Frenéticas e MPB-4. É bom lembrar também que a estréia da peça ajudou a projetar em 1978 uma então iniciante, vinda do Nordeste: Elba Ramalho.

Inspirado em obras de John Gay (A Ópera dos Mendigos, de 1728) e Bertold Brecht (A Ópera dos Três Vinténs, de 1928), Chico Buarque concebeu sua peça como um comentário à situação política e social que o Brasil atravessava no fim dos anos 70. A Ópera de Chico conta a história do malandro Max Overseas (vivido agora por Alexandre Schumacher), rei da boêmia na Lapa dos anos 40. Dividido entre os amores de duas mulheres - Terezinha (Soraya Ravenle) e Lúcia (Alessandra Maestrini) - e vivendo à margem da lei, Max tem como antagonista o velhaco Duran (Mauro Mendonça), dono dos prostíbulos do bairro. Nesse ambiente sórdido e desesperançado, um complexo painel de promiscuidades - entre criminosos e a lei, entre "gente de bem" e degradados da sociedade - se desenha.

A nova montagem da peça esbanja recursos e luxo. Uma orquestra completa acompanha os atores ao longo do musical, que é encenado sobre um triplo palco giratório (que conta ainda com um cenário de três andares). Setenta e cinco figurinos originais foram confeccionados para os personagens. Tudo isso, por incrível que pareça, foi arregimentado sem a cooperação de Chico Buarque. O autor da peça encontra-se em estágio de finalização de seu terceiro romance e, apesar de dado seu OK para a nova versão, não exigiu controle sobre o produto final. E nem mesmo pretende comparecer para ver o resultado no palco - pelo menos tão cedo.

 


 

6- AS LETRAS, A POESIA E O DRIBLE À CENSURA

 

Construção
Chico Buarque, 1971

 


 

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acbou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego
Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público
Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado

Morreu na contramão atrapalhando o sábado


 

 

ANÁLISE ESTILÍSTICAS DE CANÇÕES DA MPB

Renata Melo Leon (UERJ)

Este poema, além de sua extraordinária construção artística, reflete uma face trágica do homem, visualizado num momento de vida (em “construção”). Mas, ao construir, o homem é destruído por todo um sistema desumano, por toda uma concepção egoísta. Passa por um processo de coisificação, desde a primeira estrofe:

Amou daquela vez como se fosse máquina

O que se confirma pelo resultado desse processo:

E acabou no chão feito um pacote flácido

E acabou no chão feito um pacote tímido

E acabou no chão feito um pacote bêbado

E é reafirmado na última estrofe, em que o ser humano é visto, diante da coletividade, de forma irônica, já que o sábado é um dia convencionalmente feito para o lazer. E esse homem, que nem nome tem, tão coisa que é, tão nada, não poderia ficar impune. Sua desgraça foi morrer num sábado, na contramão, atrapalhando a vida, os divertimentos. Contudo, esse anônimo atrapalhou a sociedade, perturbou o sistema, destruiu o instituído, desestabeleceu o estabelecido, desfez o que estava feito, desarmou o armado. Por isso mesmo, Construção “desencanta o encantado, desmitifica o mito, ordena o caótico”.

O poeta questiona insensatez da sociedade, seu desdém pelo próximo, seu desinteresse comunitário. E, ratificando a castração dos valores essenciais do homem, durante essa triste vida (“construção”), o amor é praticamente anulado, enquanto impossibilidade de concretização:

Amou daquela vez como se fosse a última

Amou daquela vez como se fosse o último

Chico atesta a desumanização do homem:

Amou daquela vez como se fosse máquina

O fim demonstra a anulação total. O resultado de tudo é a inutilidade:

Morreu/Morreu/Morreu

Chico Buarque mostra a indiferença, a opressão exercida sobre os mais humildes, redução, cada vez maior, da individualidade humana. Registra o homem esquecido, perdido em seu anonimato.

Por meio de grande intensidade rítmica, com o final dos versos em proparoxítonas e trissílabas (recurso raro em língua portuguesa), numa cadência coerente ao tema (a repetição de palavras e frases reflete a própria repetição rotineira da vida do anônimo), o texto articula os contrários, sem suprimi-los, dado característico da imagem poética.

A tensão entre humano (flácidas, flácido, tímido e bêbado) e não-humano (paredes, pacote) retrata a densidade poética e a visão social do autor.

O uso do pra não é só marca de oralidade mas faz-se necessário o uso do pra no sentido de manter a musicalidade, a rima.

O homem (“bêbado, “tímido” etc.) é coisificado (“paredes”, “pacote” etc.), ratificando a crítica política e social do texto.

A consciência social de Chico Buarque de Holanda em Construção, como em toda a sua obra, é evidente. Sabe o poeta que a poesia é o seu instrumento, o seu veículo de denúncia, de crítica, de representação de uma realidade desumana e injusta, pois é preciso que o homem não seja “máquina” nem “pacote”. Mas que signifique. Que também possa exercer sua liberdade. Assim deve ser visto pela sociedade. Chico aponta para uma estrutura social que não gostaria que existisse para uma coisificação do homem que não deve persistir. Em Construção, o sujeito é generalizado. O homem é visto, em relação à sociedade, de maneira trágica, oprimido, marcado pela inutilidade. Ele constrói, mas é destruído.

 

Poesia da MPB (V) - A alta voltagem do poema Construção de Chico Buarque

Data de Publicação: 28 de fevereiro de 2007

Análise do Poema

Construção, de Chico Buarque de Holanda é um poema surpreendente no aceso da estática moderna, podendo ser apresentado como um dos ícones da criação literária brasileira contemporânea, cuja arquitetura sobressai pelo perfil invulgar.

Obra arquetípica que traduz um feliz e raro parto literário.

Construído em versos dodecassilábicos ou alexandrinos, portanto aparentemente luxuriosos, contém aquele olhar decadentista medusesco do poeta que, de dentro do texto, espia para várias direções.

Sob esse ar solene de pompa e circunstância, de algo formalmente heráldico, extravagante, passeia uma poesia de linguagem exuberante, polissêmica, pleonástica, sinestésica, aliterativa e onomatopaica de primeira grandeza.

A partir desse gancho, percebe-se que o poeta está apenas usando uma forma métrica fixa como pretexto para representar o perfil sinistro e soturno da construção, do espigão, do edifício que, à proporção que sobe reto e igual em sua concretude, penetrando nas nuvens e no “céu”, como verdadeira torre de babel, faz com que o pedreiro, o operário entre em clima de piração, alucinação e insanidade. Só nesse estágio, do mergulho no inferno ao tocar com as mãos o “céu”, que ele se aperceberá de sua morte em vida. Não há saída para ele, pois a catarse é a própria morte, o suicídio.

Ao incorporar o espírito do operário, do pedreiro, o poeta se torna porta-voz do delírio e dos gritos lancinantes de quem constrói a obra, faz de sua obra sua própria prisão ou de alguém que, enquanto constrói a obra para sua própria morte.

Construção é um poema cujo protagonista, o pedreiro, vive em corpo e alma o mito de Sísifo: dia e noite sobe e desce a construção a carregar uma imensa pedra, o bico do abutre a roer-lhe o fígado.

O poema tem, portanto, aquele olhar contraditório e paradoxal próprio do Neodecadentismo, cuja ambigüidade possibilita uma leitura da ferida por vários ângulos ou às avessas – a morte.

Construção se engendra em linguagem de alta voltagem, a partir de elementos sêmicos que formam um encadeamento aliterativo, cuja sonoridade e ressonância podem comparar-se ao barulho do vento no topo da construção. Construído em três planos, cada um dá ênfase àquele sábado na vida do operário, a partir de um jogo paralelístico em que as estrofes 6, 7, 8, 9 e 10 relêem as estrofes 1, 2, 3, 4 e 5, sendo que a estofre de nº. 11 relê as precedentes, contemplando a ciclotese, antítese e síntese.

A releitura se dá por subversão ou desconstrução, ou seja, os versos do 2º. grupo de estrofes (da 6ª. à 10ª.) se constroem a partir da repetição dos mesmos versos das estrofes de 1 a 5, apenas com a substituição da ordem das palavras finais dos versos, para obter um resultado surpreendente. Daí nasce uma situação semântica sui generis em que, a mudança das palavras dos versos do primeiro grupo estrófico nos versos do segundo, gera uma contigüidade/similaridade semântica ou uma situação contraditória.

Também a última estrofe relê os dois grupos estróficos. O resultado é uma obra polifônica: tese/antítese/síntese.

Rimas raras, assonantes, dissonantes, polifônicas, dodecafônicas:

Tímido / príncipe

Sólidas / pródigo / próximo / lógico / máquina / mágico / lágrima / sábado / náufrado / pássaro / flácido / tráfego / máximo / máquina / música / público / último / única / última

Semântica / Polissemia

A significância de cada palavra dentro do texto circular, às vezes apenas mudando de gênero, passa a uma conotação diversamente especial da anterior, para expressar uma situação diferente, oposta ou contígua.

Amou daquela vez como se fosse a última

Amou daquela vez como se fosse o último

Amou daquela vez como se fosse máquina

Emparelhando-se os paralelismos, podemos ter a dimensão dos achados e resultados, decorrentes das repetições ou reiterações propositais, resultado inusitado dos mesmos versos apenas com a substituição de uma palavra ou usando a mesma palavra em situações diferentes como faz com máquina, bêbado, sólido, príncipe, passarão:

 


 

Amou daquela vez como se fosse a última

Amou daquela vez como se fosse o último

Amou daquela vez como se fosse máquina

Beijou sua mulher como se fosse a última

Beijou sua mulher como se fosse a única

Beijou sua mulher como se fosse lógico

E cada filho seu como se fosse o único

E cada filho seu como se fosse o pródigo

E atravessou a rua com seu passo tímido

E atravessou a rua com seu passo bêbado

Subiu a construção como se fosse máquina

Subiu a construção como se fosse sólido

Ergueu no patamar quatro paredes sólidas

Ergueu no patamar quatro paredes mágicas

Ergueu no patamar quatro paredes flácidas

Tijolo com tijolo num desenho mágico

Tijolo com tijolo num desenho lógico

Seus olhos embotados de cimento e lágrimas

Seus olhos embotados de cimento e tráfego

Sentou pra descansar como se fosse sábado

Sentou pra descansar como se fosse um príncipe

Sentou pra descansar como se fosse um pássaro

Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe

Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo

Bebeu e soluçou como se fosse um príncipe

Bebeu e soluçou como se fosse máquina

Dançou e gargalhou como se ouvisse música

Dançou e gargalhou como se fosse o próximo

E tropeçou no céu como se fosse um bêbado

E tropeçou no céu como se ouvisse música

E flutuou no ar como se fosse um pássaro

E flutuou no ar como se fosse sábado

E flutuou no ar como se fosse um príncipe

E se acabou no chão feito um pacote flácido

E se acabou no chão feito um pacote tímido

E se acabou no chão feito um pacote bêbado

Agonizou no meio do passeio público

Agonizou no meio do passeio náufrago

Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Morreu na contramão atrapalhando o público

Morreu na contramão atrapalhando o sábado


 

 

O resultado desse processo de circularidade voltaica ou circunavegação poética, como um redemoinho, cria uma atmosfera simultaneamente existencialista e surrealista, a quase inacreditável saga de um pedreiro ou operário em construção, o que foge ao encadeamento lógico ou racionais e passa à margem do inconsciente, do maquinalmente vivendo e fazendo.

O desvio do significante para o significado.

Vamos conferir, através de paralelismos, apresentando como exemplos a uma mesma palavra em situações diferentes: Vejamos como a troca ou substituição de uma única palavra num verso pode impor-lhe uma situação semântica sedutora. Vejamos, também, como uma mesma palavra em situação diferente, provoca um desvio do significado convencional para uma conotação especial e deslocamento de uma palavra de um para outro verso, idem:

 


 

Beijou sua mulher como se fosse a última

Beijou  sua mulher como se fosse a única

Beijou sua mulher como se fosse lógico

Seus olhos embotados de cimento e lágrimas

Seus olhos embotados de cimento e tráfego

Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago

Agonizou no meio do passeio náufrago

Sentou pra descansar como se fosse sábado

E flutuou no ar como se fosse sábado

Morreu na contramão atrapalhando o sábado

Dançou e gargalhou como se fosse música

E tropeçou no céu como se fosse um bêbado

E tropeçou no céu como se ouvisse música

Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago

Bebeu e soluçou como se fosse máquina


 

 

Repito, Construção é um dos poucos poemas elaborados com excesso de palavras repetidas, inclusive contrariando a teoria poundiana, que, como na Canção do Exílio, de Gonçalves Dias e no Poema XX, de Pablo Neruda, nem se percebe.

No Poema XX, por exemplo, de apenas 32 versos, Pablo Neruda usa dez vezes a palavra noche. A melodia dos versos, o ritmo impede que se perceba a existência de qualquer repetição. Isto comprova que as palavras, quando usadas em estado mágico, não são percebidas, senão o sentido, a música, o miolo que carregam, engravidadas do que transcende.

 

A BANDA


 

Estava à toa na vida

O meu amor me chamou

pra ver a banda passar

cantando coisas de amor

A minha gente sofrida

Despediu-se da dor

Pra ver a banda passar

Cantando coisas de amor

O homem sério

Que contava dinheiro, parou

O faroleiro

Que contava vantagem, parou

A namorada que contava estrelas

Parou para ver, ouvir

E dar passagem

A moça triste

Que vivia calada, sorriu

A rosa triste

Que vivia fechada se abriu

E a meninada toda se assanhou

Pra ver a banda passar

Cantando coisas de amor

O velho fraco

Se esqueceu do cansaço e pensou

Que ainda era moço

Pra sair no terraço

E cantou

A moça feia debruçou na janela

Pensando que a banda

Tocava pra ela

A marcha alegre

Se espalhou na avenida, insistiu

A lua cheia

Que vivia escondida, surgiu

E a cidade toda se enfeitou

Pra ver a banda passar

Cantando coisas de amor

Mas para meu desencanto

O que era doce acabou

Tudo tomou seu lugar

Depois que a banda passou

E cada qual em seu canto

Em cada canto uma dor

Depois da banda passar

Cantando coisas de amor.


 

 

No poema, A Banda, Chico afirma dois dos caminhos por que tem percorrido a sua poesia: a certeza de que a poesia é uma das soluções para a crise do homem e da sociedade e a consciência de sua função social, como poeta.

A “banda” simboliza a própria poesia como razão maior do homem. Por causa da banda, cessa a ociosidade (“Estava à toa na vida”), levando o homem à participação, afastando-se da alienação. Através da poesia, conduzida pela união (“amor”), o ser humano vive, participa, é. Assim, o poeta, nos quatro primeiros versos, acena para a rejeição da ociosidade e a busca da integração.

A poesia (“banda”) é sinônimo de alegria, de vida. E propõe o amor, querendo a anulação da dor, do sofrimento, da tristeza:

A minha gente sofrida

Despediu-se da dor

Pra ver a banda passar

Cantando coisas de amor

Reafirmando a cada verso a sua consciência poética e social, observa-se que a poesia de Chico se opõe à ganância, ao consumismo, à mentira, à alienação:

O homem sério

que contava dinheiro, parou

O faroleiro

Que contava vantagem, parou

A namorada que contava estrelas

Parou para ver, ouvir

E dar passagem

A poesia é o percurso. Deve ser o caminho de todos, de acordo com seu caráter universalizante. Poesia é satisfação, prazer, alegria, acima de tudo participação vital:

A moça triste

Que vivia calada, sorriu

E a meninada toda se assanhou

A arte, a música, a banda, tudo isso é força, vigor, capaz de transformar o procedimento do homem. Ela é uma forma de despertar, de fazer acordar. E também é beleza:

O velho fraco

Se esqueceu do cansaço e pensou

Que ainda era moço

Pra sair no terraço

E cantou

A moça feia debruçou na janela

Pensando que a banda

Tocava pra ela

A arte está no coletivo ou deve ser feita para o povo. Banda, poeta e povo se associam numa perfeita integração. Nesse sentido, é instrumento da verdade, trazendo consigo a luz, a claridade, o que significa conhecimento, entendimento. Assim, a luz da natureza (“lua cheia”) comunga dos mesmos ideais do poeta e da poesia:

A marcha alegre

Se espalhou na avenida, insistiu

A lua cheia

Que vivia escondida, surgiu

E a cidade toda se enfeitou

Pra ver a banda passar

Cantando coisas de amor

O motivo maior da postura poética e social de Chico é a poesia (“banda”), conduzida por decisiva razão, que é sinônimo de poesia; o amor. Que é união, integração, formando a grande corrente da humanidade. Para um mundo melhor, menos egoísta, opressor e prepotente, é necessário que a “banda” continue a “passar”, com toda a sua força. É preciso que ela prossiga “cantando coisas de amor”.

A “banda” simboliza algo muito mais criativo que uma banda. Ela é poesia, participação, amor, vida. A “banda” une poeta e povo, natureza e poesia. Reúne velhos e moços, coisas e objetos, tudo isso num processo de recriação. Imagens como “A minha gente sofrida / despediu-se da dor” e “A rosa triste / que vivia fechada se abriu” e a renovação e atualização de “o que era doce acabou” confirmam a poeticidade de A Banda, sem deixar de lado a crítica social.

 

Na Europa havia mais de um ano, Chico Buarque voltou ao Rio em março de 70, influenciado por André Midani, diretor de sua gravadora, que lhe assegurava “estar melhorando a situação no Brasil”. Mas descobrindo ao chegar que, ao contrário, a situação piorara, externou seu desapontamento no samba “Apesar de Você” que, entre outras coisas, afirmava: “Você vai pagar / cada lágrima rolada / nesse meu penar / apesar de você / amanhã utro dia / você vai se dar mal / etc. e tal...”

Por incrível que pareça, este desabusado recado à ditadura, propositalmente muito mal disfarçado numa fictícia briga de namorados, passou pela censura e foi lançado por Chico num compacto simples. Resultado: o samba estourou nas rádios e já se aproximava da citra de cem mil discos vendidos, quando o governo entendeu a mensagem e, imediatamente, proibiu a música, recolheu e destruiu os discos e, para completar, puniu o censor incompetente. Apenas se esqueceu de destruir a matriz , o que possibilitou a reedição do original, depois que a tempestade passou.

Daí em diante, e até o final da ditadura, Chico Buarque seria implacavelmente marcado pelos censores, sofrendo suas letras os mais absurdos vetos e rejeições. A situação chegou ao ponto de ele ter que se disfarçar, sob os pseudônimos de Julinho da Adelaide e Leonel Paiva, para aprovar três composições que incluiria no elepê Sinal fechado, em 1974. Descoberta a farsa, porém, a censura criou novas exigências: toda letra apresentada teria que ser acompanhada de cópias da carteira de identidade e do CPF do compositor (A Canção no Tempo – Vol. 2 – Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 34).

Comecemos pelo título: "Apesar de você". Você quem? Não se sabe exatamente, mas alguém que nos causa uma sensação de desagrado.

A letra inicia dizendo "Hoje você é quem manda / Falou, tá falado / Não tem discussão". Por aí temos, logo de cara, uma pista: trata-se de alguém muito poderoso e autoritário. O verso poderia estar espelhando uma relação que envolvesse autoridade e dependência: pai-filho, professor-aluno, patrão-empregado; ou, até mesmo, uma relação amorosa em que, num pólo, houvesse um caráter autocentrado, voluntarioso, e, no outro, uma personalidade sensível, apaixonada.

Em seguida, aparecem os versos que soam como uma lamúria: "A minha gente hoje anda / Falando de lado / E olhando pro chão, viu". E ficamos sabendo que ocorre uma situação opressiva envolvendo mais pessoas. Não se trata, pois, de uma opressão individual, mas de toda uma coletividade oprimida, humilhada. Poderíamos imaginar como espaço a família, a escola, a empresa ou o país.

Surge, então, a acusação: "Você que inventou esse estado / E inventou de inventar / Toda a escuridão". Essa situação é nova. A responsabilidade é de quem "inventou de inventar": "Você que inventou o pecado / Esqueceu-se de inventar / O perdão". E aí pode ser qualquer inventor: no limite, os inventores das bombas atômicas que destruíram Hiroshima e Nagasaki, ou das super-bombas que a aviação americana despejou sobre o Iraque e o Afeganistão, ou simplesmente quem "inventou de inventar" bombardear o país dos outros, chame-se George W. Bush (pai e filho) ou Osama Bin Laden.

O título ecoa no refrão: "Apesar de você / Amanhã há de ser / Outro dia". Isso nos diz que há esperança. Sublinhemos que o tempo é abstrato: "amanhã" tem o sentido de futuramente; "outro dia", de uma situação diferente.

O tom se torna profético: "Eu pergunto a você / Onde vai se esconder / Da enorme euforia". Denuncia a censura: "Como vai proibir / Quando o galo insistir / Em cantar". E anuncia a boa nova: "Água nova brotando / E a gente se amando / Sem parar".

Daí em diante, os versos vão se tornando mais e mais catárticos. Ameaçam: "Quando chegar o momento / Esse meu sofrimento / Vou cobrar com juros, juro". Prometem revanche: "Você vai pagar e é dobrado / Cada lágrima rolada / Nesse meu penar". E concluem: "Você vai se dar mal / Etc. e tal".

"Apesar de você" é de 1970. Vivíamos sob a ação repressora do famigerado DOI-CODI, os direitos humanos eram violados; e as garantias constitucionais, canceladas. Os cárceres estavam repletos de presos políticos. Escritores, artistas e jornalistas sofriam os rigores da censura. O próprio Chico Buarque amargou o exílio, como Caetano, Gil e tantos outros.

Nesse contexto, a canção foi censurada. Mas circulava em fitas cassetes, clandestinamente. Até que, liberada com a abertura política de Geisel, estourou nas paradas de sucesso.

Indagado sobre o que achava das músicas de Chico Buarque, o general-presidente respondeu que não gostava delas. Até aí, sem novidades. O curioso foi que a sua filha, entrevistada pelos mesmos jornalistas, disse que gostava sim. Chico, então, comemorou com um rock que ironizava: "Você não gosta de mim / Mas a sua filha gosta".

Em "Apesar de você", Chico provocara: "Inda pago pra ver / O jardim florescer / Qual você não queria". E, finalmente, realizava-se a vingança premeditada: "Você vai se amargar / Vendo o dia raiar / Sem lhe pedir licença / E eu vou morrer de rir / Que esse dia há de vir / Antes do que você pensa".

"Apesar de você" é catártica, quer dizer, é uma letra que convoca, mobiliza e tem a propriedade de botar para fora "Todo esse amor reprimido / Esse grito contido / Esse samba no escuro".

 

Análise da música "Apesar de Você": Apesar de você foi composta por Chico Buarque em 1970, durante o difícil período do governo Médici. Se tornou uma forma de expressão contra o governo. O disco que continha esta música vendia muito e ela passou a ser cantada em diversas ocasiões. Se tornou a canção contra a repressão mais conhecida da época. A música começa com a demonstração de submissão a alguém, uma pessoa a quem o compositor se refere como você. "Você" tanto para o poeta quanto para as pessoas que captaram o sentido da música naquela época se referia ao presidente Médici. Durante o governo deste, aumentaram a tensão e o medo no país. As perseguições e prisões se tornaram mais freqüentes e o governo com sua censura se tornou mais poderoso. Apesar de você veio como um desabafo de todo esse terror. Há um sentimento pesado e ruim em relação ao tempo presente da música. No trecho: "A minha gente hoje anda falando de lado e olhando pro chão, viu" o compositor demonstra todo o medo e tristeza impressos nas pessoas que viviam dentro do clima de angústia gerado pela ditadura, inclusive ele mesmo.

Em "Você que inventou esse estado e inventou de inventar toda a escuridão" Chico mostra, através do uso do pronome de tratamento você para a pessoa do presidente, que havia uma nova forma de governo instituída e que aquele período de governo estava sendo terrível. Na verdade era um período de trevas. Segue-se a esse trecho: "Você que inventou o pecado esqueceu-se de inventar o perdão". O pecado era inventado pela censura. A censura é que ditava o que era certo e o que era errado. Mas, para quem ia contra ela, ou fazia algo que a censura julgava ser errado (julgava ser pecado) era dado um tratamento de choque. Não havia perdão. As pessoas que faziam algo que poderia ser errado para a censura tinham sempre uma intenção proposital. Eram sempre culpadas. O governo, na forma da censura, jamais via de outra forma.

A segunda estrofe apresenta um clima de esperança em relação ao futuro, relacionado com a palavra amanhã. É onde entra a expressão que dá título à música: Apesar de você. Apesar de você, senhor presidente, tudo vai melhorar, o futuro promete coisas boas, alegria, amor... Também nesta estrofe é que o compositor, em função de toda essa explosão de novidades que talvez venha a acontecer, pergunta: "eu pergunto a você onde vai se esconder da enorme euforia", transmitindo com a isso a derrota de Médici perante essa nova situação, para a qual o povo está torcendo.

Na terceira estrofe, a indignação e a cobrança por todos os momentos perdidos, pelo amor reprimido, pelo sofrimento. Novamente, em "este samba no escuro" Chico emprega o termao samba como uma demonstração da alegria do povo brasileiro, alegria essa que ficou oculta durante esse período. Também nessa expressão o compositor demonstra que tudo que era sentimento ficou escondido durante essa época. Ao encerrar a terceira estrofe ele faz até uma ameaça para aquele você: "Você vai pagar e é dobrado cada lágrima rolada nesse meu penar".

Na estrofe seguinte o compositor continua demonstrando a derrota que será para aquele você se tudo o que se está sugerindo nessa música der certo. Ele quase demonstra uma sensação de êxtase ao mostrar que isso pode se concretizar: "Inda pago pra ver o jardim florescer... e eu vou morrer de rir". É uma luta constante entre o compositor e o poder. Pela letra, que sugere uma mudança nos acontecimentos, no presente ("hoje você é quem manda") o povo (incluindo-se aí o próprio Chico) é que está sendo dominado e submetido, mas no futuro ("Amanhã há de ser outro dia"), se tudo ocorrer de acordo com as esperanças do povo, quem estará por baixo, sofrendo com todas as novidades será o poder. Um quer massacrar o outro. É um desabafo.

Chico mostra também que a vitória do povo nessa luta só trará felicidade. O povo trará o renascimento da manhã (expressão que indica uma volta à luz, tudo se ilumina, contrariamente ao período de trevas demonstrado em: "toda a escuridão" e "samba no escuro"), muita poesia (na verdade poesia também é um termo empregado como sinônimo de beleza), o céu clareando (novamente uma expressão de luz), o coro cantando (cantar em conjunto traz uma sensação de alegria, de união).

A última estrofe é o ponto culminante das ameaças feitas até então: "Você vai se dar mal".

 


 

Apesar de você

Chico Buarque/1970

 Hoje você é quem manda

Falou, tá falado

Não tem discussão

A minha gente hoje anda

Falando de lado

E olhando pro chão, viu

Você que inventou esse estado

E inventou de inventar

Toda a escuridão

Você que inventou o pecado

Esqueceu-se de inventar

O perdão

Apesar de você

Amanhã há de ser

Outro dia

Eu pergunto a você

Onde vai se esconder

Da enorme euforia

Como vai proibir

Quando o galo insistir

Em cantar

Água nova brotando

E a gente se amando

Sem parar

Quando chegar o momento

Esse meu sofrimento

Vou cobrar com juros, juro

Todo esse amor reprimido

Esse grito contido

Este samba no escuro

Você que inventou a tristeza

Ora, tenha a fineza

De desinventar

Você vai pagar e é dobrado

Cada lágrima rolada

Nesse meu penar

Apesar de você

Amanhã há de ser

Outro dia

Inda pago pra ver

O jardim florescer

Qual você não queria

Você vai se amargar

Vendo o dia raiar

Sem lhe pedir licença

E eu vou morrer de rir

Que esse dia há de vir

Antes do que você pensa

Apesar de você

Amanhã há de ser

Outro dia

Você vai ter que ver

A manhã renascer

E esbanjar poesia

Como vai se explicar

Vendo o céu clarear

De repente, impunemente

Como vai abafar

Nosso coro a cantar

Na sua frente

Apesar de você

Amanhã há de ser

Outro diaVocê vai se dar mal

Etc. e tal

Apesar de você

Tanto Mar

Sei que estás em festa, pá

Fico contente

E enquanto estou ausente

Guarda um cravo para mim

 Eu queria estar na festa, pá

Com a tua gente

E colher pessoalmente

Uma flor do teu jardim

Sei que há léguas a nos separar

Tanto mar, tanto mar

Sei também quanto é preciso, pá

Navegar, navegar

Lá faz primavera, pá

Cá estou doente

Manda urgentemente

Algum cheirinho de alecrim

Letra original,vetada pela censura

Tanto Mar

1978 (segunda versão)

Foi bonita a festa, pá

Fiquei contente

E inda guardo, renitente

Um velho cravo para mim

 Já murcharam tua festa, pá

Mas certamente

Esqueceram uma semente

Nalgum canto do jardim

Sei que há léguas a nos separar

Tanto mar, tanto mar

Sei também quanto é preciso, pá

Navegar, navegar

 Canta a primavera, pá

Cá estou carente

Manda novamente

Algum cheirinho de alecrim


 

O meu guri

Chico Buarque/1981

 

Quando, seu moço, nasceu meu rebento

Não era o momento dele rebentar

Já foi nascendo com cara de fome
E eu não tinha nem nome pra lhe dar
Como fui levando, não sei lhe explicar
Fui assim levando ele a me levar
E na sua meninice ele um dia me disse
Que chegava lá
Olha aí
Olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega

Chega suado e veloz do batente
E traz sempre um presente pra me encabular
Tanta corrente de ouro, seu moço
Que haja pescoço pra enfiar
Me trouxe uma bolsa já com tudo dentro
Chave, caderneta, terço e patuá
Um lenço e uma penca de documentos
Pra finalmente eu me identificar, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega

Chega no morro com o carregamento
Pulseira, cimento, relógio, pneu, gravador
Rezo até ele chegar cá no alto
Essa onda de assaltos tá um horror
Eu consolo ele, ele me consola
Boto ele no colo pra ele me ninar
De repente acordo, olho pro lado
E o danado já foi trabalhar, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega

Chega estampado, manchete, retrato
Com venda nos olhos, legenda e as iniciais
Eu não entendo essa gente, seu moço
Fazendo alvoroço demais
O guri no mato, acho que tá rindo
Acho que tá lindo de papo pro ar
Desde o começo, eu não disse, seu moço
Ele disse que chegava lá
Olha aí, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
 

Roda-viva
Chico Buarque/1967
Para a peça Roda-viva de Chico Buarque

 Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega o destino pra lá
Roda mundo, roda-gigante
Roda-moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração

A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a roseira pra lá
Roda mundo (etc.)

A roda da saia, a mulata
Não quer mais rodar, não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou
A gente toma a iniciativa
Viola na rua, a cantar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a viola pra lá
Roda mundo (etc.)

O samba, a viola, a roseira
Um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou
No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a saudade pra lá
Roda mundo (etc.)

CHICO BUARQUE DE HOLLANDA


 

 

 

7- OS DISCOS

 

 

A letra de Rosa dos Ventos seria a maior surpresa do disco de Chico Buarque de Hollanda, porque não lembra em nada o estilo simples e direto do compositor. Começa assim: "Do amor gritou-se o escândalo / Do medo criou-se o trágico / No rosto pintou-se o pálido / E não rolou uma lágrima / Nem uma lágrima / Pra socorrer".

As 12 músicas desse LP, o quarto de Chico Buarque, todas eram inéditas: uma de parceria com Antônio Carlos Jobim (Pois é); outra com Garoto e Vinícius de Moraes (Gente humilde); e uma canção para um trecho do poema Os inconfidentes, de Cecília Meireles; as outras nove são, letra e música, do próprio Chico: Rosa dos ventos, Essa moça tá diferente, Não fala de Maria, Nicanor, Cara a cara, Mulher, vou te dizer quanto te amo, Agora falando sério, Samba e amor e Ilmo. Sr. Ciro Monteiro ou receita para virar casaca de neném.

O disco foi feito parte na Itália e parte no Brasil. Inicialmente Chico gravou suas novas composições, acompanhando-se só com um violão, e mandou as fitas para o Brasil. Manuel Barenbein, da Phillips, depois de receber as primeiras gravações, combinou com Chico — através de telefonemas quase que diários — como seriam feitos os arranjos e as gravações definitivas. Já com tudo combinado foi gravada a "base" de cada canção, isto é: piano, contrabaixo e bateria. Levando todas as bases gravadas, Manuel viajou para a Itália e fez com que Chico gravasse sua voz sobre a parte do ritmo. (A Phillips explica que isso é possível porque este tipo de gravação sempre é feito em quatro canais de som diferentes: no primeiro, grava-se a voz; no segundo, só a parte do violão; no terceiro, a parte rítmica — a "base"; e, no quarto, a orquestra.)

Trazendo as fitas gravadas com a voz de Chico e a "base", Manuel voltou ao Brasil para providenciar as partes do violão e da orquestra. Os arranjos finais foram feitos por Erlon Chaves; Cesar Camargo Mariano e pelo Magro — um dos cantores do conjunto MPB-4.

 

 


 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Chico Buarque de Hollanda é, até hoje, a figura indiscutivelmente mais importante no desenvolvimento da Música Popular Brasileira (MPB) durante os anos 60, 70, e 80.

A produção musical dele é dividida principalmente em duas fases--o sentimentalismo nostálgico (canções de amor) que surgiu no início da sua carreira, e a vontade crítica--do governo, das injustiças da sociedade--enfim, a música de protesto, que começou com "Tem mais samba" e "Olê Olá", e outros, nos primeiros anos da década de sessenta e vigorosamente continuou, apesar do opressivo Ato Institucional No. 5 (1968-78) através dos anos 70 até a Abertura, culminando com o seu famoso "Vai passar" em 1984. Embora o autor deste ensaio não consiga esconder uma predileção pela música popular brasileira, o propósito não consiste em exorcizar o Brasil frente ao resto do mundo numa louvação da sua grandeza musical. De qualquer maneira, porém, vale a pena  avaliar a produção musical de Chico Buarque e o papel e impacto da MPB em geral, junto com tendências de música de protesto de ordem geral e, ao mesmo tempo, isolar o caso do Brasil e o caso do Chico para melhor apreciar a sua contribuição à consciência coletiva brasileira.

Chico emprega o discurso carnavalesco para desconstruir a rigidez da hierarquia da sociedade brasileira, encontrada, no seu nível mais absoluto, na ditadura militar. É uma figura que inspira respeito pela sua capacidade de manipular o sistema com êxito.

No contexto histórico político, não sabemos bem onde foram parar a coragem, a luta e a ousadia que se imprimiram nas músicas como as de Chico para que o retrato político atual brasileiro não fosse algo tão passivamente aceito pelo povo, que parece que não sabe o que fazer com a corrupção e impunidade que se estampam no riso sórdido dos congressistas ou na hipocrisia da distorção da frase   “só sei que nada sei” que foi repetida tantas vezes a cada nova denúncia, a cada novo escândalo envolvendo parlamentares.

Interessante é que muitos daqueles que, como Chico Buarque, foram censurados e expulsos do país fazem parte hoje deste congresso, alguns idealistas daquela época estão  hoje protagonizando tais escândalos  políticos.

O idealismo das canções de Buarque é uma saudade, suas composições admiráveis, relíquia.

Poderíamos encerrar com uma única frase:

“Temos background cultural”

Esta frase serve de alívio para as nossas gerações, quase mutilada musicalmente por composições pobres que estão nas paradas de sucesso cheias de palavrões, onde mulheres são chamadas de cachorra, apelo sexual, incentivo a comportamento vulgar e muitas vezes até apologia ao consumo de drogas, letras que, mascaradas por ritmos dançantes contagiantes e até interessantes (por que não?!) são, via de regra, influências marcantes para a atuais gerações.  Sugere uma revisão de gostos musicais.

Não precisamos mais de censura, mas precisamos apenas do bom uso poder de escolha.


 

Referências Bibliográficas:

 

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·                    DUNN, Christopher. Brutality Garden: Tropicália and the Emergence of a Brazilian Counterculture. Chapel Hill: UNC Press, 2001. ISBN 0807849766

·                    Enciclopédia Nosso Século 1960/1980

·                    PAIANO, Enor. Tropicalismo: Bananas ao Vento no Coração do Brasil. São Paulo: Scipione, 1996. ISBN 8526228579

·                    SANTAELLA, Lucia. Convergências: Poesia Concreta e Tropicalismo. São Paulo: Nobel, . ISBN 8521303807

·                    MACIEL, Luiz Carlos. Geração em Transe: Memórias do Tempo Tropicalismo. São Paulo: Nova Fronteira, . ISBN 8520907636

·                    VELOSO, Caetano. Verdade tropical. São Paulo: Companhia das Letras, . ISBN 8571647127

·                    KIECHALOSKI, Zeca (1984) Elis Regina. Col. Esses Gaúchos. Porto Alegre: Tchê! 101p.

·                    ECHEVERRIA, Regina (1985) Furacão Elis. Inclui cronologia e discografia por Maria Luiza Kfouri. Rio de Janeiro: Nórdica / Círculo do Livro. 363p. 2.ed. rev. ampl. 1994 (São Paulo: Ed. Globo); 3.ed. 2002 (São Paulo: Ed. Globo). 239p. ISBN 8525035149. (*)

·                    Elis Regina Por Ela Mesma. (1995) Org. Osny Arashiro. São Paulo: Martin Claret. 2.ed. rev. 2004. 229p. ISBN 8572320857.

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