
Os olhos e a roupa de David MacCallum se destacam quando sua cabeça
é coberta por uma maquilagem azul e fotografada com fundo da mesma
cor. |
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Na
verdade, não foi o raio lazer que fez David McCallum desaparecer na
série O Homem Invisível: foi a cor azul do seu rosto, das suas mãos, do teto, do chão
e dos objetos em volta. Enquanto, na tela, o personagem era vítima
de um acidente durante uma experiência científica com o raio
laser, na prática o ator estava com o rosto pintado, usava malha e
movimentava-se num estúdio especial, todo azul.
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O
Truque é conhecido por qualquer fotógrafo amador. Pintando um braço
até o punho, por exemplo, e fazendo a foto sobre um fundo da mesma
cor, a mão vai aparecer flutuando no ar, pois a cor do braço se
anula com o fundo. Mas, quando se trata de filme, tudo se complica.
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Os
técnicos precisaram fazer muitas inovações para conseguir o
efeito desejado. Uma delas foi o uso de dois estúdios exatamente
iguais: um normal e outro azul. No primeiro episódio da série, por
exemplo, um cirurgião plástico recebe a visita do personagem, o
cientista Dave Westin, que quer deixar de ser invisível. McCallum
foi filmado no estúdio azul e o médico no outro. Em cada estúdio,
havia uma câmera gravando separadamente em vídeo-teipe. Depois,
num aparelho especial, os dois teipes foram sincronizados e passados
para um mesmo filme.
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Para
chegar a essa solução, os técnicos fizeram muitas experiências.
E erraram várias vezes, pois isto nunca tinha sido feito em nenhuma
produção anterior. Os estúdios gêmeos permitiram tudo, até o
uso de câmeras móveis nos episódios seguintes, que tinham cenas
panorâmicas, filmadas de cima para baixo e em movimentos circulares
(sem eles, anteriormente, só eram usadas câmeras fixas,
presas ao solo). Os efeitos foram considerados sensacionais: todos
os objetos não pintados de azul que foram filmados no estúdio
especial pareciam flutuar no espaço. Assim, a roupa do Homem Invisível
ou o copo e a caneta que ele usava apareciam em contraste com o
fundo, que anulava tudo.
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Nesta
cena num quarto de hotel, Dave Westin começa a se sentir
muito estranho. Ele nota, com horror, que sua carne coméça
a ficar translúcida... |
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Enzo
Martinelli, diretor de fotografia da série, dá uma explicação
mais detalhada sobre o assunto: "No estúdio especial, qualquer
coisa que não fosse azul ficava visível. Assim, conseguimos fazer
com que os objetivos, rostos ou partes do corpo que não
estivessem pintadas de azul parecessem reais. Sincronizando e
alinhando as posições e as panorâmicas das duas câmeras
separadas, poderíamos sincronizar e superar precisamente as
cenas.”
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A
perfeita sincronização das cenas foi um dos problemas mais difíceis.
No princípio, o pessoal do vídeo não conseguia superpor as
imagens de maneira exata, pois não havia nenhum ponto de
referência. Foi preciso alinhar tudo no estúdio azul, a partir do
estúdio real: "Pegávamos os cantos do estúdio real, fazíamos
grandes boxes de madeira azul e íamos alinhando os móveis nesses
boxes", conta Martinelli. |
As
cenas no estúdio normal eram filmadas com bastante
antecedência para tudo ser alinhado nesses boxes azuis. Metade do
problema foi resolvido quando os técnicos conseguiram alinhar
importantes cantos do estúdio, como as cadeiras usadas pelos
personagens: "Chegamos a marcar, no chão, o movimento dos
atores. Isso permitiu ensaiar a cena no estúdio real e filmar no
azul. Ou então filmar nos dois estúdios, separadamente e depois
sincronizar as cenas." O trabalho ficou tão perfeito, que
bastava colocar os boxes no lugar certo: as pessoas andavam dentro
desses boxes e algumas partes dos seus corpos ficavam encobertos,
criando o efeito desejado. O uso de computadores facilitou o
trabalho: eles calcularam tudo, até o alcance das lentes, o seu
peso e o tamanho.
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Uma
cena muito difícil de filmar foi a do Homem Invisível descendo a
rua num dia de chuva. Ele estava descalço e molhado, e a marca de
seus pés no chão ia definindo o caminho por onde passava.
Primeiro, os técnicos tentaram filmar as marcas deixadas por pés
verdadeiros. Mas não dava certo, porque a sombra da pessoa aparecia
no filme. Depois de muitas experiências, resolveu-se pintar
marcas de pés descalços e molhados, na calçada, que foram
cobertas por um pano azul. Conta Martinelli: "Fomos filmado,
enquanto levantávamos o pano. A câmera ia seguindo a marca de um pé,
depois a marca do outro, e o ângulo do pano se curvando deu tanta
aparência de realidade que chegamos a aproveitar este teste no
filme." |
Todos
deram sugestões para resolver os problemas. Até David McCallum,
que sugeriu o uso de lentes de contato para tornar também olhos
invisíveis. Na cena do consultório médico, por exemplo, McCallum
colocou as lentes e abriu devagar um olho, depois o outro, para dar
a impressão de que eles, lentamente, voltavam ao normal. O trabalho
dos maquiladores também foi muito importante para criar efeitos
especiais, principalmente no rosto de McCallum, que foi totalmente
pintado de azul para ficar invisível.
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A
série pedia efeitos especiais muito mais ambiciosos do que os da
produção da Universal em 1933, O Homem Invisível, também baseado
no clássico de H. G. Wells. As primeiras tentativas, na série com
McCallum, seguiram os métodos tradicionais do cinema, que já
eram conhecidos desde aquela época. Mas a prática demonstrou que
eles não serviriam para satisfazer a produção, que exigia efeitos
sensacionais. |
Mesmo
sem os recursos do vídeo-teipe, é possível conseguir efeitos
semelhantes, com outros métodos. É o caso do comercial para a
vodca Smirnoff, feito pela agência Proeme em novembro de 1975,
quatro meses antes do lançamento de O Homem Invisível. O argentino
Casimiro Suárez levou cinco semanas para fazer um homem desaparecer
de um bar de Buenos Aires, onde foi filmado o comercial (o texto
falava de "uma bebida invisível, que não deixa
rastros"). |
"A
minha idéia", conta Suárez, "foi fazer um filme
onde o ator desaparecesse aos poucos, mas o fundo, o cenário do
bar, permanecesse. Usamos uma técnica antiga no cinema para
fazer isso: o split screm, usado pela primeira vez em 1936. É uma técnica
que cobre áreas do negativo do filme para não serem impressos no
positivo. E também cobre áreas já impressas no positivo,
descobrindo-se as outras. Usa-se também a truca, que é uma máquina
utilizada para realizar efeitos visuais. A câmera precisou ser
fixada no chão, para não haver diferença nenhum na filmagem de
fundo." Suárez garante: "O processo é mais demorado que
o de O Homem Invisível, mas é mais perfeito." |
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>>O
Homem Invisível, com David McCallum no papel do dr. Dave
Westin, foi apresentado pela primeira vez no Brasil em 1976
pela Rede Globo. A série foi produzida pela MCA Television: Maio 1975 a Janeiro 1976. |
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