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Da "American Cinematographer Magazine", especial para "TV GUIA"  Nº8 - 25/9 a 1/10/1976

COMO FILMAR UMA ROUPA ANDANDO SEM NINGUÉM DENTRO


Os olhos e a  roupa de David MacCallum se destacam quando sua cabeça é coberta por uma maquilagem  azul e fotografada com fundo da mesma cor.

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Na verdade, não foi o raio lazer que fez David McCallum desaparecer na série O Homem Invisível:  foi a cor azul do seu rosto, das suas mãos, do teto, do chão e dos objetos em volta. Enquanto, na tela, o personagem era vítima de um acidente durante uma experiência científica com o raio laser, na prática o ator estava com o rosto pintado, usava malha e movimentava-se num estúdio especial, todo azul.        

O Truque é conhecido por qualquer fotógrafo amador. Pintando um braço até o punho, por exemplo, e fazendo a foto sobre um fundo da mesma cor, a mão vai aparecer flutuando no ar, pois a cor do braço se anula com o fundo. Mas, quando se trata de filme, tudo se complica.                                                           
Os técnicos precisaram fazer muitas inovações para conseguir o efeito desejado. Uma delas foi o uso de dois estúdios exatamente iguais: um normal e outro azul. No primeiro episódio da série, por exemplo, um cirurgião plástico recebe a visita do personagem, o cientista Dave Westin, que quer deixar de ser invisível. McCallum foi filmado no estúdio azul e o médico no outro. Em cada estúdio, havia uma câmera gravando separadamente em vídeo-teipe. Depois, num aparelho especial, os dois teipes foram sincronizados e passados para um mesmo filme.                                 
 Para chegar a essa solução, os técnicos fizeram muitas experiências. E erraram várias vezes, pois isto nunca tinha sido feito em nenhuma produção anterior. Os estúdios gêmeos permitiram tudo, até o uso de câmeras móveis nos episódios seguintes, que tinham cenas panorâmicas, filmadas de cima para baixo e em movimentos circulares (sem eles, anteriormente,  só eram usadas câmeras fixas, presas ao solo). Os efeitos foram considerados sensacionais: todos os objetos não pintados de azul que foram filmados no estúdio especial pareciam flutuar no espaço. Assim, a roupa do Homem Invisível ou o copo e a caneta que ele usava apareciam em contraste com o fundo, que anulava tudo.                                   
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Nesta cena num quarto de hotel, Dave Westin começa a se sentir muito estranho. Ele nota, com horror, que sua carne coméça a ficar translúcida... davidmac6.jpg (10294 bytes)
Enzo Martinelli, diretor de fotografia da série, dá uma explicação mais detalhada sobre o assunto: "No estúdio especial, qualquer coisa que não fosse azul ficava visível. Assim, conseguimos fazer com que os objetivos, rostos ou partes do corpo que não  estivessem pintadas de azul parecessem  reais. Sincronizando e alinhando as posições e as panorâmicas das duas câmeras separadas, poderíamos sincronizar e superar precisamente as cenas.”              
  A perfeita sincronização das cenas foi um dos problemas mais difíceis. No princípio, o pessoal do vídeo não conseguia superpor as imagens de maneira exata, pois não havia nenhum  ponto de referência. Foi preciso alinhar tudo no estúdio azul, a partir do estúdio real: "Pegávamos os cantos do estúdio real, fazíamos grandes boxes de madeira azul e íamos alinhando os móveis nesses boxes", conta Martinelli.
  As cenas  no estúdio normal  eram filmadas com bastante antecedência para tudo ser alinhado nesses boxes azuis. Metade do problema foi resolvido quando os técnicos conseguiram alinhar importantes cantos do estúdio, como as cadeiras usadas pelos personagens: "Chegamos a marcar, no chão, o movimento dos atores. Isso permitiu ensaiar a cena no estúdio real e filmar no azul. Ou então filmar nos dois estúdios, separadamente e depois sincronizar as cenas." O trabalho ficou tão perfeito, que bastava colocar os boxes no lugar certo: as pessoas andavam dentro desses boxes e algumas partes dos seus corpos ficavam encobertos, criando o efeito desejado. O uso de computadores facilitou o trabalho: eles calcularam tudo, até o alcance das lentes, o seu peso e o tamanho.                                                         
Uma cena muito difícil de filmar foi a do Homem Invisível descendo a rua num dia de chuva. Ele estava descalço e molhado, e a marca de seus pés  no chão ia definindo o caminho por onde passava. Primeiro, os técnicos tentaram filmar as marcas deixadas por pés verdadeiros. Mas não dava certo, porque a sombra da pessoa aparecia no filme. Depois de muitas experiências,  resolveu-se pintar marcas de pés descalços e molhados, na calçada, que foram cobertas por um pano azul. Conta Martinelli: "Fomos filmado, enquanto levantávamos o pano. A câmera ia seguindo a marca de um pé, depois a marca do outro, e o ângulo do pano se curvando deu tanta aparência de realidade que chegamos a aproveitar este teste no filme."
Todos deram sugestões para resolver os problemas. Até David McCallum, que sugeriu o uso de lentes de contato para tornar também olhos invisíveis. Na cena do consultório médico, por exemplo, McCallum colocou as lentes e abriu devagar um olho, depois o outro, para dar a impressão de que eles, lentamente, voltavam ao normal. O trabalho dos maquiladores também foi muito importante para criar efeitos especiais, principalmente no rosto de McCallum, que foi totalmente pintado de azul para ficar invisível.                                                       
A série pedia efeitos especiais muito mais ambiciosos do que os da produção da Universal em 1933, O Homem Invisível, também baseado no clássico de H. G. Wells. As primeiras tentativas, na série com McCallum, seguiram os métodos tradicionais do cinema, que já  eram conhecidos desde aquela época. Mas a prática demonstrou que eles não serviriam para satisfazer a produção, que exigia efeitos sensacionais.
  Mesmo sem os recursos do vídeo-teipe, é possível conseguir efeitos semelhantes, com outros métodos. É o caso do comercial para a vodca Smirnoff, feito pela agência Proeme em novembro de 1975, quatro meses antes do lançamento de O Homem Invisível. O argentino Casimiro Suárez levou cinco semanas para fazer um homem desaparecer de um bar de Buenos Aires, onde foi filmado o comercial (o texto falava de "uma bebida  invisível, que não deixa rastros"). 
"A minha idéia",  conta Suárez, "foi fazer um filme onde o ator desaparecesse aos poucos, mas o fundo, o cenário do bar, permanecesse.  Usamos uma técnica antiga no cinema para fazer isso: o split screm, usado pela primeira vez em 1936. É uma técnica que cobre áreas do negativo do filme para não serem impressos no positivo. E também cobre áreas já impressas no positivo, descobrindo-se as outras. Usa-se também a truca, que é uma máquina utilizada para realizar efeitos visuais. A câmera precisou ser fixada no chão, para não haver diferença nenhum na filmagem de fundo." Suárez garante: "O processo é mais demorado que o de O Homem Invisível, mas é mais perfeito."
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>>O Homem Invisível, com David McCallum no papel do dr. Dave Westin, foi apresentado pela primeira vez no Brasil em 1976 pela Rede Globo. A série foi produzida pela MCA Television: Maio 1975 a Janeiro 1976.

                                                                                                                                                 

                                                                                                               


A máscara azul serve para uniformizar o rosto e tornar a invisibilidade perfeita. O tecido não atrapalha a visão do ator durante as filmagens.

Para dar forma ao rosto do homem invisível foi usado látex liquido.

E as lentes de contato servem para fazer "Desaparecer" os seus olhos.

Só a braçadeira branca torna McCallum visivel no estùdio azul. O único problema é a sua sombra, que pode surgir quando a iluminação não é correta.

 

 

 

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