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CHICO BUARQUE
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Terrorismo de Idéias

            

            O regime militar endurecia e esse endurecimento forçava aqueles que participavam do mundo da produção cultural a tomar posições. Em 67, as ruas brasileiras começavam a sentir melhor o estremecimento provocado pelos tanques e pelas botinas dos militares no poder. Por outro lado, a oposição amordaçada se dividia. A esquerda começava a se fragmentar em posições radicais e em posições que ainda acreditavam numa negociação. Assim acontecia também com a música. Caetano Veloso e Gilberto Gil encabeçavam o Tropicalismo, que, segundo o próprio Caetano, queria fazer uma exploração estética também do que é feio. Enquanto Chico preferiu ficar com o que é bonito. Num país que ainda não havia entrado de vez na era da televisão, a música mostrava- se o catalisador do pensamento nacional.

            Por conta desta divisão de idéias, o contato dos dois artistas, que era praticamente diário desde 66, foi escasseando naquele ano de 67. É verdade, também, que Caetano estava com a agenda lotada. Chico, por sua vez, estava tendo aulas de piano, com a supervisão de Tom Jobim, e, enquanto isso, escrevia a peça "Roda Viva".

 

O Brasil delicado do "Homem Cordial" começa a desaparecer

            1968 foi o ano em que "Roda Viva" começou a ser encenada, sob a direção de José Celso Martinez Corrêa. Mas teve vida curta. O recrudescimento do regime e as organizações de direita se encarregariam de tirá- la dos palcos. Em São Paulo, a Universidade Mackenzie, na rua Maria Antônia, em frente à USP, era um dos centros do temido CCC - Comando de Caça aos Comunistas - uma organização que recrutava seus membros entre os jovens menos politizados (e geralmente, mais ricos) e organizava ações ações violentas contra quem eles chamavam de comunistas ou inimigos do regime. Um destes alvos foi a peça de Chico.

            No dia 17 de julho, um dos grupos do CCC invadiu o Teatro Galpão, em São Paulo.Os cenários foram destruídos e os atores espancados. A montagem sobreviveu ainda até a viagem à Porto Alegre. A estréia foi no dia 3 de outubro, e, no dia seguinte, o hotel em que o grupo estava foi cercado e duas pessoas foram seqüestradas e soltas, mais tarde, num matagal distante. Depois, todos foram colocados num ônibus e mandados de volta prá São Paulo. À medida que o regime dos generais endurecia, seus seguidores iam mostrando as garras. Do outro lado, a oposição se curvava e cavava subterrâneos, nos quais muitos se perderiam na clandestinidade imposta pelo AI- 5 (Ato Institucional nº 5).

            Era o início de um longo processo que culminaria, muitos anos depois, num ouvido popular diferente. A música de Chico, de Tom Jobim, de Vinícius e Toquinho, de Edu Lobo, de Carlos Lyra, de Caetano e de Gilberto Gil começava, lentamente, a escapar do popular. A música de Chico continuaria a ter como paisagem o bêbado, o malandro, o pivete, a prostituta, o que se alimenta de luz. Mas os ouvidos desses mesmos personagens começavam, lentamente, a deixar de ouvir. A essas alturas, o Brasil delicado, do final dos anos 50, o Brasil Bossa Nova de João Gilberto, de Sylvinha Telles, Candinho e Lula Freire, de Ronaldo Bôscoli e Nara Leão, começava a deixar de existir.

            Antes mesmo do AI- 5, a música de Chico não conseguia escapar do rótulo de alienada. Em julho de 68, "Bom Tempo" ficou em segundo lugar na Bienal do Samba, que foi vencida por "Lapinha", de Baden Powell. "Bom Tempo" foi vaiada e criticada, pois falava de dias claros quando o horizonte brasileiro se escurecia. Em setembro foi pior. Na final do Festival Internacional da Canção, se enfrentaram "Sabiá", de Chico e Tom, e "Prá Não Dizer Que Não Falei das Flores", de Geraldo Vandré. A música de Chico e Tom recebeu a maior vaia da história dos festivais, mas ainda assim foi escolhida vencedora. Naquele momento, a música de Vandré já se tornara um hino da oposição e "Sabiá" parecia uma música mais de nostalgia, saudosista. O tempo, no entanto, mostrou que Chico e Tom haviam sido premonitórios. Poucos anos mais tarde, a saudade e as imagens da casa de "Sabiá" eram o hino do exílio a que foram obrigados inúmeros brasileiros. O próprio Chico, inclusive.