Circulação - Grupo de Acompanhamento Terapêutico e Consultoria Psicológica

Ata de (re)Fundação

Porto Alegre, setembro de 2001.

    O Grupo de Acompanhamento Terapêutico Circulação foi fundado no ano de 1997 com o objetivo de favorecer e oportunizar estudos, debates e pesquisas acerca do Acompanhamento Terapêutico (AT). Um dos motivos principais que justificaram sua criação foi o intuito de poder proporcionar um local de estudos que possibilitasse a convergência de interessados na prática do AT.
    Conscientes das transformações, dos avanços sociais e tecnológicos ocorridos nas últimas décadas - e de suas conseqüências para a área da saúde - entendemos que o Acompanhamento Terapêutico pode ser utilizado como um recurso clínico importante em determinados casos psicopatológicos. Um dos pontos que sempre norteou a prática dos membros efetivos do Grupo de AT Circulação foi o entendimento de que o acompanhante terapêutico pode ter condições técnicas e éticas de assumir um determinado caso e não deve, necessariamente, restringir-se ao papel de um auxiliar terapêutico servindo a um profissional ou a uma equipe clínica somente. Esta proposição, apesar de ainda ser polêmica e problematizadora, era, e é entendida pelo Grupo de AT Circulação como cabível de ser levada a efeito desde que exista uma discussão coerentemente embasada e envolvimento sério por parte daqueles que propugnam esta condicionalidade.
    A participação anunciada no coletivo, conseqüência inevitável para os que se lançam em uma empresa como esta, deve ser tomada com atenção e cuidados especiais uma vez que a inscrição que se pretende aqui é de origem dupla: é, pois, de ordem nominativa e teórico-prática. Nominativa, uma vez que damos não só um nome ao Grupo que fundamos e que tentamos sustentar a partir de nossas práticas e discussões sobre nosso próprio fazer, mas no sentido de que é preciso que estejamos conscientes de nossos traços distintivos que, entre outras coisas, vêm moldar e distinguir a forma de intervenção clínica dentro do contexto social e profissional no qual nos inserimos. A questão da identidade está colocada aqui de maneira que se torna inevitável nosso confronto - e encontro - com ela.     Se por um lado identidade é a qualidade daquilo que é idêntico e por isso mesmo pode provocar confusões indesejáveis, por outro, ela realiza a função essencial de produzir alteridade, marcando e demarcando diferenças entre uns e outros. No que se refere ao item denominado teórico-prático, temos de anunciar que como um Grupo de Acompanhamento Terapêutico, tomamos a Psicanálise como fonte principal e primeira de nossas pesquisas e orientações para referenciar, justamente, nossa prática e fundamentação teórica. Assim, assumimos e reconhecemos a marca radical legada pela letra freudiana e por sua proposição ética perante a questão da psicopatologia.
    Se, por um lado, já fazem mais ou menos cem anos que os textos freudianos desbancaram a sentença cartesiana que imputara ao homem da razão a senhoria de sua existência, de seus atos, de seus desejos, por outro, foi por intermédio da Psicanálise postulada por Freud e também Lacan, entre outros, que aprendemos que se trata justamente do contrário: nós somos porque desejamos aquilo que nos falta. Se somos onde não sabemos e isto que nos falta - e que não conhecemos - é o que também nos estimula para a vida, é porque há nisso uma busca disso que desejamos e que a cada conquista percebemos que algo ainda nos escapa. No plano simbólico, estamos em constante relação de linguagem com os outros, o que, ao travarmos contato com a alteridade provocará, ou não, alterações. A diferença, o estranho, possui a capacidade de perturbar nossa ordem, de desordenar, de nos tirar dos trilhos, pois é certo que há em nós dificuldade em lidar com o novo, com aquilo que está fora dos nossos padrões. Não obstante, é preciso romper alguns laços com o homem-da-moral, pois é esta condição de ser que nos faz criar defesas contra o outro e os seus efeitos de diferenciação, inibindo a capacidade criativa de aprendermos além das formas constituídas e visíveis e, por conseguinte, aterrorizando-nos diante de nossa própria subjetividade. Por conta disso, é importante darmos vida ao homem-da-ética, que nos fará desejosos de uma abertura para o invisível, para a condição de afetar e ser afetado, pois é a partir daí que as turbulências e transformações poderão ser bem-vindas.
    O reconhecimento de que é possível tornar-se um acompanhante terapêutico passa necessariamente pela sua formação enquanto um agente de saúde, no sentido mais amplo que a expressão pode tomar. Para tanto, é indispensável que haja, ao menos:

       - Uma prática clínica, pois sem clínica não existe um        acompanhante terapêutico;
       - Uma teoria que se esforce em sustê-la;
       - Um local onde seja possível tratar de questões pessoais (e        que possam ter a ver com a clínica), qual seja este, um local        possível para a análise pessoal e/ou análise de controle;
       - Um espaço possível de articular, com outros acompanhantes        terapêuticos, discussões e entendimentos feitos sobre sua própria        prática e sobre os posicionamentos éticos e clínicos tomados        perante esta.

    Assim, pensamos que uma das funções sociais necessárias a uma instituição está aqui já cumprida, ou ao menos, cumprida como intenção de que se dê: privilegiar e estimular o estudo, a pesquisa e o desenvolvimento do Acompanhamento Terapêutico como uma intervenção competente, séria e com dispositivos valorosos para o tratamento e direcionamento de cura dos pacientes que a ela se submetem.
    O fato de nos inscrevermos no social também através dos registros legais, evidencia, ao nosso ver, um comprometimento justificado e amparado pelas questões jurídicas que são demandadas às instituições sérias e que se engajam com suas proposições. Este passo, que é da ordem de uma tomada de posição pública perante as práticas e as intenções daqueles que integram a Instituição, denota o firme intento de um registro também no campo da cultura de um Grupo de Acompanhamento Terapêutico que se posiciona e que têm claras as suas diretrizes como uma equipe de trabalho. Este lugar que ocupamos a partir de agora, através da constituição de uma Pessoa Jurídica - que vem para amparar futuras parcerias - só é possível de sê-lo em função do histórico de trabalho que nos marcou, efetiva e indelevelmente. E é sobre este histórico propriamente dito que nos baseamos para refundar esta Instituição que, se renasce com uma nomenclatura outra e maior, mantém os preceitos éticos que guiaram seus fundadores remanescentes. A questão colocada aqui não é outra senão a da ética calcada e comprometida com a questão do     Desejo, do Bem-dizer e da palavra plena de sentido. Para integrar e fazer parte do quadro efetivo desta Instituição que se renova e se fortalece por suas mudanças, será fundamental que aquele que desejar fazê-lo, entenda-se e reconheça-se como acompanhante terapêutico (e que seja reconhecido pelos seus pares), novidade esta implantada em nossos princípios regulamentais para evitar, justamente, que aqueles que não o são, falem em nome de uma prática que não lhes é própria e familiar.
    Novamente está em pauta uma questão ética e que deve ser encarada com seriedade incondicional e irrestrita. Com efeito, se é verdadeiramente neste campo - o da ética - que se monta o terreno sobre o qual incidiremos no trato com a psicopatologia, é então, a partir dele mesmo que balizaremos a extensão das nossas atuações enquanto clínicos e enquanto acompanhantes terapêuticos. É tão somente a partir da prática clínica, neste caso, que se torna possível estabelecer uma ética, pois esta é guiada e referenciada sobre o fazer do clínico que se lança na sua tarefa de escutar. Não mais é possível tolerarmos a incidência danosa e parasita daqueles que sustentam com fundações frágeis seus discursos sobre aquilo que sequer praticam. Nestas condições, o Acompanhamento Terapêutico corre o risco de deixar levar seu nome pelo opróbrio e má fama que lhe conferem aqueles que desconhecem a amplitude de sua atuação e suas implicações de exercício. Se são duras as palavras aqui redigidas, não é menos dura a empresa na qual nos empenhamos e pela qual pugnamos, com a certeza nada ingênua de que este é um caminho que não possui atalhos e tampouco vias de retorno fácil. É na condição de clínicos, de acompanhantes terapêuticos, que tomamos para nós - também - a tarefa de optar por uma causa que está em questão nos dias de hoje. Sabemos bem que as diferenças estão colocadas de tal forma que é bem possível concedermos, inadvertidamente, espaços para críticas incabíveis - e até mesmo injustas - dentro de um processo que, precisamente por ser processo, está em andamento e por isso mesmo demanda cautela. Mas isto não deve inibir a crítica demonstrada em seu juízo, justificada, pois é a partir dela, muitas vezes, que temos condições de reordenar condutas e/ou pensamentos sobre uma determinada situação ou posição.
    Por fim, entendemos que uma refundação implica, por um lado, em uma manutenção daquilo que se compreendia ser elevado de uma Instituição e, por outro, na introdução de novos elementos para a ampliação da mesma, objetivando sempre uma melhor forma de expressão e de ser no campo social. Se hoje denominamo-nos Circulação - Grupo de Acompanhamento Terapêutico e Consultoria Psicológica é porque reinterpretamos nossa condição e posição na cultura na qual nos forjamos e nos ratificamos. Forja esta, encetada em cada um de nós em momentos e conjunturas distintas, mas que, no instante em que compreendemos a natureza dos laços tranferenciais que nos uniam, fez sentido e condição para a reforma que editamos e hoje sustentamos. Portanto, que esta Ata de (re)Fundação também sirva para marcar, balizar e estimular nossas atividades, bem como para servir, entre aqueles que integram e trabalham para e pela Instituição, de referência ética e profissional.
    No dia vinte e cinco de setembro do ano de dois mil e um é refundado em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, o Circulação - Grupo de Acompanhamento Terapêutico e Consultoria Psicológica, pela decisão dos então presentes que no ato de assinatura constituem-se membros (re)fundadores.

 

Eduardo Cavalheiro Pelliccioli
Luciano Vignochi
Nauro Mittmann