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Jornal O Dia - 2003

 
   

Maria Rita Lança CD E Diz Que Já Viu Pessoas Chorarem Ao Ouvi-la Cantar Como A Mãe, Elis Regina...

By Mauro Ferreira

   
   

 

Ao voltar ao Brasil no fim de 2001, depois de uma temporada de quase oito anos nos Estados Unidos, Maria Rita Mariano foi
trabalhar na produção dos shows do irmão, Pedro Mariano. O cantor começava a gravar seu terceiro CD, INTUIÇÃO, e a filha de
Elis Regina sentiu um incômodo ao vê-lo no estúdio. Naquele momento, entendeu definitivamente que queria ser cantora,
seguindo passos do irmão e da mãe. "Eu vi que queria estar no lugar dele, fazendo o que ele estava fazendo", lembra. Menos
de dois anos depois, Maria Rita, que tirou o "Mariano" do nome artístico, já é cantora e lança seu primeiro disco, cercado de
grande expectativa. O CD Maria Rita chegou às lojas ontem, data em que a cantora completou 26 anos. Na segunda-feira, um
show no Canecão oficializa o lançamento do disco. Em outubro, sai um DVD com versões ao vivo de 14 das 15 músicas do CD.


"Entendo a saudade de Elis e a dor da perda dela, mas a dor das pessoas não é tão grande quanto a minha"


"Não sei se sou cantora que todo mundo está esperando, até porque não sei o que todo mundo espera. Sei que sou verdadeira e
que vivo muito honestamente", diz Maria Rita. A postura franca já a levou a ser ríspida com pessoas que choravam quando ela,
então com 16 anos, soltava nas festas a voz que lembra Elis no timbre, na musicalidade e até nas inflexões. foram necessários 10 anos, participações em disco e show de Milton Nascimento (Pietá) e algumas disputadas apresentações solos em pequenas
casas do Rio e São Paulo para Maria Rita compreender e aceitar a reação emocionada das pessoas. "Entendo a saudade de
Elis e a dor da perda dela, mais a dor das pessoas não é tão grande quanto a minha. Eu choro. Eu tenho os meus momentos... E, se eu os tenho, por que outra pessoa não pode tê-los?", indaga Maria Rita. Maria Rita se formou nos Estados Unidos em
Comunicação Social e Estudos Latino-Americanos e recorda que a vontade de ser cantora já vivia com ela. "Faltavam dois
semestres para eu me formar e acordei um dia com a sensação de que tudo o que eu tinha feito na vida tinha sido e vão", lembra.

Na volta ao Brasil, a decisão de se lançar na carreira musical conviveu com a sede de se inteirar sobre a vida nacional, inclusive a
musical, e aí entrou a providencial ajuda do produtor de seu CD, Tom Capone. Maria Rita não conhecia o grupo Los Hermanos,
nunca tinha ouvido Anna Júlia, mas ficou encantada quando ganhou de Capone uma cópia de Bloco do Eu sozinho, o segundo
disco do quarteto carioca. Queria regravar tantas músicas do CD que Capone ligou para Marcelo Camelo e este deu à cantora
algumas inéditas, entre elas o samba Cara Valente e a canção Santa Chuva, destaques do CD de Maria Rita, ao lado da
regravação de Veja Bem Meu Bem. "Fiquei apaixonada pelo trabalho dos Los Hermanos, especialmente pelas músicas do
Camelo. Ele tem uma coisa de letra e música casadinhas que há muito tempo eu não via. Foi uma surpresa agradável", diz.

Desagradável foi Rita chegar ao Brasil e ter roubada sua coleção de CDs. Mas foi por isso que ela ligou o rádio e se encantou
com Pagu (parceria de Rita Lee com Zélia Duncan que entrou no disco) e que redescobriu Wilson Simonal ao comprar uma caixa
com três CDs nos quais estava Menininha do Portão, música gravada pelo cantor em 1969. "Eu tive a preocupação neste disco de me lançar como intérprete. Queria mostrar a cantora", explica Maria Rita. Outra preocupação foi não incluir músicas gravadas por Elis, inclusive para evitar comparações."Tenho uma distância até respeitosa da obra dela, que é definitiva. Não tenho o que
acrescentar ali", sentencia, com razão.

"Pode acontecer tudo ou nada comigo. Mas se não acontecer nada, posso dizer que tenho orgulho do disco"

FESTA - O clipe de "A Festa", inédita de Milton Nascimento que puxa o Cd Maria Rita, estreou na TV no domingo. Foi a
primeira exposição nacional da Cantora. "Segunda-feira ninguém me agarrou na rua", brinca. "Vivo uma coisa de cada vez. Não sei o que vai acontecer comigo. Pode ser tudo ou nada. Mas se não acontecer nada, posso dizer que estou orgulhosa do meu disco", garante.

GENÉTICA - Além da voz, Maria Rita herdou muitos traços de Elis. É baixinha (tem 1,58m) e, fora de cena, usa óculos para hipermetropia e astigmatismo (Elis era estrábica). "Mas não sou míope", brinca a jovem cantora que resolveu cantar descalça depois de quase cair do salto no palco.

TURNÊ - O show que Maria Rita fará no Canecão segunda-feira é diferente do que estreará a turnê nacional, no mesmo Canecão, a partir de 17 de outubro. Já o disco não tem fronteiras. A partir de março, o CD chegará às lojas da Europa e Japão. "Tenho mais interesse em mostrar meu trabalho nesses lugares do que nos Estados Unidos. Não sei se os americanos entenderiam algo que não seja Astrud, Bebel Gilberto, Girl from Ipanema... É esquisito que Tom Jobim tivesse que ter sua música traduzida em inglês para vender lá fora", alfineta Rita


CRÍTICA - Mauro Ferreira

Em que pese a inclusão de três boas músicas do hermano Marcelo Camelo, Maria Rita é um cd sisudo, sério demais para uma
cantora de 26 anos. Até nisso Rita lembra Elis, cantora em geral tensa em estúdio. E o mais curioso é que, no último disco de Elis, em 80, havia músicas de Natan Marques (Sai Dessa) e da dupla Jean e Paulo Garfunkel (Calcanhar de Aquiles) - compositores pouco gravados que, coincidentemente, ressurgem na voz classuda de Maria Rita. Da dupla Garfunkel, Rita canta o dilacerado blues Não vale a Pena. De Natan, com Murilo Antunes, há a politizada Vero, uma das duas faixas disponíveis só na Internet para quem comprar o CD (outra é Estrela, Estrela, de Vítor Ramil). É como se Maria Rita retomasse o fio da meada de Elis. Estruturado no clássico piano-baixo-bateria, com eventual percussão, o disco é ótimo porque Maria Rita é cantora de amplos e naturais recursos, com emissão e afinação perfeitas.

O repertório oferece surpresas como o bolero Dos Gardenias, do filme Buena Vista Social Club. Rita esbanja técnica e
musicalidade nas 15 faixas, mas as versões de estúdio de Pagu e Encontros e Despedidas - de seu primeiro show solo - atestam
que faltou no disco a espontaneidade do palco, apesar da gargalhada no fim de A Festa.

 

 
         
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