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Entrevista Exclusiva na Rádio CBN - 16 de Setembro de 2005

 
   

   
   

[caminho das águas]

CBN -
A canção chama-se 'Caminho das Águas' é a de canção número um, a música de trabalho como se usa dizer no meio, do novo CD... o novo trabalho de Maria Rita.
Aliás, você reconhece essa voz né Maria Rita?!, Porque eu já reconheci....[risos] Aliás, a música já está digamos à algum tempo já pra anunciar o trabalho?!

MR - Já! tá a algumas semanas, acho que tá desde o dia 29 de agosto.

CBN -
Maria Rita boa tarde, primeiramente.Tudo Bem?

MR - Boa Tarde! Bem graças à Deus!

CBN -
Seja Bem Vinda à CBN.

MR - Pois é, uma honra poder estar aqui, neste espaço aberto.Muito obrigada.

CBN
- Uma rádio notícia, onde a gente vai falar agora, porque quando a música é notícia, a gente também abre este espaço imenso. E vamos falar... Aliás, a gente vai falar de um monte de coisas aqui viu porque, dia desses seu Pai veio aqui pra falar conosco, e o César disse aqui que ele quando você estava lá nos EUA, Ele marcava uma pressão ali.Nada do que a filha fizesse, ou deixasse de fazer passava... Não deixava de passar por Ele, tudo! Absolutamente tudo!.

MR -Olha... Isso não deixa de ser verdade, mas não tem essa cobrança toda. Papai é... Papai é muito mais gente boa.É uma relação muito aberta assim...De muita conversar, muito mais do que cobranças.

CBN -
Bom você está com esse... Eu até brinquei, disse que o segundo trabalho agora tem o sugestivo nome de "Segundo" né, então o próximo eu posso pré supor que ser terceiro, não sei se é o nome do CD, mais que é terceiro, é terceiro. Me conta uma coisa: o primeiro trabalho, a repercussão do primeiro trabalho que foi imensa, você esperava tudo aquilo?

MR - Não! Não... Não mesmo, não tinha a menor idéia.

CBN -
E a história das comparações que evidentemente vieram...

MR - Vieram...Claro... Vieram, vem, e... é... Eu acho muito natural. É Minha Mãe teve uma importância muito grande na Música Popular Brasileira, na vida das pessoas e ... E qualquer filho é inevitavelmente e invariavelmente comparado aos pais né!Tanto geneticamente quanto de jeito, de atitude, de profissão, seja o que for né! É natural essa comparação, então essa coisa nunca me incomodou sempre encarei de forma natural. Que é o que é mesmo... É super natural.

CBN -
Bom eu vou usar esse tema, e não quero voltar muito ao tema não, pra fazer a seguinte pergunta: eu tenho a absoluta certeza que não nasci como dom de desenhar. Tenho a absoluta certeza... Eu não consigo fazer mais que um a casinha com uma arvorezinha do lado. E não fica muito bom não.Você acha que nasceu com o dom de cantar ou você, digamos investiu muito nisso de alguma maneira, observando e tudo mais. Isso é natural?

MR - Eu acho que... Até que tem um pouco dos dois no meu caso é...Que eu acho que não pode ser digo no caso do meu Pai que é autodidata. Começou a tocar piano. Meu avô não era pianista, ouvia muita música, mas tinha essa influência de música dentro de casa, mas... Não tinha um piano dentro de casa. Então ele autodidata e com o talento nato. Agora o fato. Eu sou cantora, eu tenho isso em mim também, mas não posso negar que... Que o ambiente musical dentro de casa pode ter acrescentado coisas a essa minha natureza cantora, entende? Até mesmo possibilitado isso de surgir, de nascer num dado momento da minha vida.

CBN -
Mas você cantava quando era criança, assim, naturalmente...

MR - Cara a gente fazia mó zona na sala.A gente sempre cantou, fazia batucada na mesa do almoço, do jantar... Sempre teve música, mesmo informalmente e de brincadeira sempre rolou!.

CBN -
Aquelas musiquinhas que a gente aprende na escola quando é criança, você cantava aquilo...você gostava de cantar aquilo?.

MR - Adorava!

CBN - Eu sempre tive essa dúvida sobre cantores profissionais, se eles cantavam aquelas músicas que todo mundo canta né!?

MR - 'É HORA DO LANCHE...'. Essas assim?!

CBN -
Isso! Como que é essa? Essa eu não me lembro!

MR - [GARGALHADA]

CBN -
É hora do lanche. É pra quem estuda a tarde né!

MR - É mais ou menos né. 14:05!

CBN -
Como é que é essa?

MR - É hora do... a agora fiquei tímida.

CBN -
Só não pode... Eu fiquei sabendo que não pode mais cantar 'Atirei o pau no gato',porque diz que é politicamente incorreto.

MR - Eu fiquei triste com essa notícia também.

CBN -
Você também cantava 'Atirei o pau no gato'

MR - Atirei o pau no gato-to, mas o gaaato-to não morreu-reu-reu.

CBN -
Pois é, um dia desse a gente tocou nesse assunto. Veio aqui, não, não isso é politicamente incorreto.

MR - É, não deixa de ser politicamente incorreto, mas pô e o que fazer com uma cultura toda que foi... toda uma geração. Várias gerações que cantavam essa música feliz da vida.

CBN -
Agora aquela da barata, pode. Aquela que a barata nhanhanha...Alguma coisa assim que eu não me lembro.

MR - Mesma coisa aquela. 'A BARATA DIZ QUE TEM SETE SAIAS...', que eu nem sei a letra direita, mas já esqueci.É... 'É MENTIRA DA BARATA ELA TEM É UMA SÓ HA-HA-HA HO-HO-HO'... [risos]

CBN -
A da barata pode, porque ninguém gosta da barata.

MR - Ninguém gosta de barata. Os gatinhos Não.

CBN -
Agora profissionalmente assim. Além do primeiro trabalho, você teve algum trabalho anterior?

MR - Bicho! Tanta coisa.

CBN -
A é! Me conta então, vamos falar disso ai então!

MR - Comecei fazendo... Comecei fazendo um estágio na revista Capricho, na época que a Capricho era mensal.

CBN -
Vamos tirar uma dúvida então. Você fez jornalismo?

MR - Não! Eu não estudei jornalismo. Eu sou formada em Comunicações Sociais. Com esse diploma inclusive eu não posso ousar assinar qualquer coisa como jornalista.

CBN -
Mas hoje em dia nem estão pedindo mais diploma.

MR - Ah não?

CBN -
Não!

MR - Então me aguardem! [risos]

CBN -
Pode escrever. Sendo de qualidade. Acho que hoje em dia o que pauta é qualidade. Se tiver qualidade.... Senão vão exigir diploma de tanta coisa.... mas enfim... Evidentemente que é uma discussão muito maior.

MR - Até porque um diploma não necessariamente indica um ... 

CBN -
Uma competência né. Indica uma habilidade né!

MR - Pois... Pois [risos]

CBN -
Uma habilitação na verdade.

MR - Justamente.

CBN -
Bom, você trabalhou na Capricho então... Revista de adolescentes...Pra adolescente.

MR - É fiz estágio. Exatamente. E eu totalmente adolescente. De 15 pra 16 anos. Fiz lá um estagio de um tempão. Foi uma maravilha. Comecei abrindo envelope, com tesoura, abrindo as cartas. Não tinha e-mail na época, não existia isso ainda não. E eu abria as cartas e separava pro departamento de atendimento ao leitor.Depois eu passei a responder as cartas.Depois disso, comecei a ajudar nas pesquisas visuais e de textos pros reportes. Comecei a fazer coisas mais intensas no departamento de variedades. Fazia crítica de livros pra adolescentes. Eles davam pra eu ler. Porque achavam... Afinal de contas, um adolescente fazendo crítica de um livro pra adolescente é maneiro né. Ai culminou em uma matéria. Eu cheguei a fazer uma matéria com uma repórter, e... Assinei outra, como aprendiz, contando como era o estágio, que gerou um concurso, dentro da revista, para as leitoras de passar uma semana como estagiária também como eu, na revista.

CBN -
E isso com 16 anos

MR - Isso com 16 anos... Era uma leitora passando uma semana por mês acho... Não lembro muito bem os detalhes. Mas foi uma experiência bacana.

CBN -
Foi quanto tempo nesta atividade jornalística?

MR - Fiquei 10 meses lá.

CBN -
Foi a primeira atividade em tese profissional, assim...?

MR - Foi

CBN -
Tem saudade de escrever assim, profissionalmente?

MR - Tenho. Tenho Por que eu gosto muito de estudar.E o jornalismo, pelo menos este que eu tive a oportunidade de experimentar na Capricho, tinha muito disso, tinha que ler muito.Tinha que fazer muita pesquisa.Os reportes estavam escrevendo uma matéria sobre... Surfistas, então eu ia lá tinha que fazer pesquisa... Fazer pesquisa. Tanto de campo né, conversando com as pessoas, com os surfistas, com quem queria ser surfista, tanto de livro de outras matérias.E essa coisa de estudar de estar sempre correndo atrás, e fazer outro serviço, pra mim era melhor. Então de certa forma. eu sinto falta sim.

CBN -
E o que você gostava de estudar quando estava na escola assim!?Que você que sempre gostou de estudar né?! Matemática você gostava?

MR - Eu gostava até rolar álgebra e geometria ao mesmo tempo. Ai eu me dei bem mal. [risos]. Confundia tudo.

CBN -
Porque jornalistas quando são requeridos pra enumerar colocam: A-B-C-D... É porque tem horror a número, a gente tem uma falta de habilidade com números que é uma coisa impressionante.

MR - [risos..] Não!Eu curto, é que eu sou detalhista e perfeccionista, como uma boa virginiana, então eu tinha esse momento... Eu curtia... Então na oitava série eu comecei a me dar mal.

CBN -
Você segue signos? Lê signos, isso interfere no seu dia. Você lê de manhã?

MR -Não! De manhã não.

CBN -
De noite pra saber se deu certo.

MR - Exatamente![risos] Pra saber quem é bom no negócio ou não! [risos]

CBN -
Porque não é tão fácil assim... Eu fico imaginando: Você separa o mundo inteiro em 12...

MR - Se você pensar que tem aquela teoria dos 6Cº de separação entre as pessoas, se dividirmos o mundo inteiro entre 12 tá ali né. Tem uma... Pode ter uma lógica.

CBN -
Você já começou a falar em número eu já me perdi minhas habilidades. Bom aquele primeiro trabalho, eu me lembro da repercussão do primeiro trabalho e foi uma coisa assim surpreendente, evidentemente vieram lá as comparações, falou-se em Elis.Mas depois aquilo foi reduzido e foi reduzido de uma forma muito tranqüila. Não é que as pessoas queriam: 'ah não vou tocar mais no assunto, porque talvez não seja interessante', não! Não! Não! Porque se tava ouvindo na verdade uma nova voz ali, com suas comparações, com suas similaridades. Você se acha parecida em alguma coisa com algum artista brasileiro, não necessariamente... Alguma coisa que te... Você fala po, mas eu gosto daquilo, eu tento fazer aquilo.

MR - Não! Eu Não... Eu tenho muito mais... Não artisticamente falando, eu tenho muito mais de ética, e comportamento e valor artístico né... Do que de música, Eu quero ser aquilo. Por exemplo, a conduta da Maria Monte de ser a vida pessoal dela totalmente desvinculada com da profissional, e ela não aparece tanto. Eu acho isso eu respeito muito e acho sensacional e Eu trago isso pra minha vida, até porque eu fui criada dessa forma. Meu Pai e tinha essa coisa de trabalho, trabalho, família, família, e tem que ser desvinculada mesmo pra não ter uma... Pra não virar um bolo. Então nesse sentido sim, eu tenho alguns ídolos, éticos por assim dizer.

CBN -
De comportamento né?! Na condição de artista.


MR - De comportamento é...

CBN -
Mas dá pra desvincular? Você vai pra um parque e alguém te reconhece, e aí?Como é que faz? Tá reconhecendo a artista ali.

MR - Isso tudo bem...

CBN -
Por que fã, convenhamos aqui, tem aquele fã mais tranqüilo, e tem aquele fã mais atrevido, no sentido de insistir, por que daquele jeito: "ah dá pra sorrir agora que eu vou tirar a foto?!". Isso é o tipo de coisa que também pode incomodar, o artista está na vida privada dele.

MR - Mas honestamente! Isto é 30 segundos de um dia. Entendeu! Ai tem dias que eu tô de mal humor e não quero falar com ninguém. Então eu nem saio de casa.Eu tenho uma outra forma de lhe dar com isso. É... Acho que o lance de mixar, a vida pessoal com a profissional é quando o assunto é trabalho, então... "Não eu não vou falar do meu filho em entrevista!", "Não eu não vou falar da minha vida pessoal em entrevista", sabe?. Fotos do meu filho não. De ter um limite.De onde uma coisa começa e termina, ou melhor, de onde uma coisa termina e outra começa, entende?Isso sim, mas se eu tô andando no supermercado e uma pessoa me para pra falar comigo, quão melhor. Eu fico muito honrada, porque eu faço a minha arte, porque eu exerço essa minha profissão, minha arte, eu canto, eu faço minha música pra mim, pra minha verdade, e saber que tem uma pessoa se identificando com aquilo, e ter minha música como trilha sonora na vida de alguém, é muito... é uma coisa humilde é uma posição muito humilde, você estar participando da vida de uma pessoa. Então eu acho isso muito bacana. Exceto quando eu tô comendo, almoçando ou jantando ai o negócio... Com fome o negócio é ruim.

CBN -
Na hora do restaurante 'dá pra parar de comer porque eu quero tirar uma foto com você!' AI TAMBÉM NÃO DÁ NÉ?!

MR - Ai já aconteceu.

CBN -
Mas ai também já é um exagero do fã. Ou seja, lá de quem for.

MR - É. Mas eu fico imaginado a pessoa criando coragem de levantar e ir ali. A num sei. Mas Eu...

CBN -
Tanto que a comida esfria né.

MR -Comida esfria, é ruim demais. Nessas horas eu peço: "Deixa eu terminar ai..."

CBN -
Você disse que na hora da comida nem pensar.Bom então eu posso imaginar que você é um pouco comilona?

MR - Aham. Só um pouquinho. [risos]

CBN -
Mas você não tem cara de comilona.

MR - É?! Engano bem! Eu gosto de comer. Eu tenho essa coisa sensorial, eu gosto de sons, eu gosto de cor, eu gosto de ver filmes. Música. Comer bem. Eu sou... Eu tenho esse lado.

CBN -
Mas tem restrição Alimentar? 'Isso eu não como de jeito nenhum!'. 'Evito tudo que tem açúcar, ou carne não!"?

MR - Não, não, não, eu tenho mais por limitações de trabalho. Então quando eu tô em turnê, quando eu tô na estrada.Comer doce, pra mim não faz bem por que dá um lance na garganta, dá secreção e suja a voz. E eu prefiro não, porque eu tenho que me esforçar muito pra cantar. Então acaba tenho uns limites naturais do organismo. Como o meu organismo funciona...

CBN -
Não é uma restrição psicológica, é física?!"Naquele momento esse tipo de alimento não vai me fazer bem."!

MR - Exatamente! eu não tenho esse tipo de negócio não. Pelo menos por enquanto.Eu me considero uma pessoa vaidosa mais eu não sou neurótica com essa coisa. Eu...Eu... entende? Eu tenho um excessinho aqui, um excessinho ali, mas não sou neurótica não.

CBN -
Bom vamos falar um pouquinho... Você teve uma fase em Nova York. Quantos anos foram em Nova York?

MR - Oito anos.

CBN -
Bom, você saiu do Brasil, você estava na Capricho.Você saiu da Capricho e depois foi pra Nova York?

MR - Eu sai da Capricho direto pra Nova York.

CBN -
Então com 16...

MR - Aham.

CBN -
Depois dos 10 meses de estagiaria de jornalismo é isso?!

MR - Exatamente.

CBN -
Você estava no colégio aqui então com 16 ainda?

MR - Estava. Eu me formei na oitava série. Ai fiz esse estágio na Capricho, e quando estava tudo pronto pra mudança a gente foi.Eu terminei meu estágio e fui embora pra lá. Ai fiz o colegial lá, e a faculdade.

CBN -
Você fez High School então?

MR - Fiz High School! [risos]

CBN -
É porque aqui eles mudam de nome a toda hora. Antes era Cientifico, não era do meu tempo. Depois passou pra ginásio, que também não é do meu tempo. Depois mudaram pra Segundo Grau, esse sim é do meu tempo. Agora é um tal de Ensino Médio.

MR - Como que é assim o Ensino Médio?

CBN -
É... Mais ou menos assim... É muda de nome só pra gente se sentir velho.

MR - Pois é

CBN -
Eu achava graça minha mãe falar que ela tinha feito Cientifica. Pô que coisa velha. Né!

MR - É! [risos]

CBN -
Hoje eu sou obrigado a ouvir: "Ah, você é do Segundo Grau ainda né?", é pois é [risos]

MR - Segundo Grau seria aqueles três últimos anos né?! O colegial né?

CBN -
Exatamente!

MR - Agora isso tudo é o Ensino Médio? E o Superior seria a Faculdade?

CBN -
É! é isso mesmo. Ensino fundamental é até a oitava série.

MR - Ah eu gosto mais daquela coisa do primário, ginásio, colegial, faculdade...

CBN -
É eu concordo com você. Bom, esse seu tempo nos EUA serviram pra... Evidentemente uma cultura nova. Aliás, foi um tempo longo. Você vinha muito ao Brasil nesse tempo ou não?

MR - Não! Eu vinha pouco. Eu tava estudando bastante, trabalhando, e tal. Eu tentava vim pelo menos uma vez por ano. Não era sempre que eu conseguia por causa de escola e tal, mas eu vinha. Acho que acabei vindo uma vez a cada ano e meio. Talvez.

CBN -
O mundo diz que nós brasileiros somos sentimentais. Quando a gente fica longe do país sente saudade de comer arroz com feijão, por exemplo". Aí não agüento mais. Preciso comer pão de queijo!". Bom, mas hoje a gente pode comer essas coisas no mundo inteiro, porque o mundo tá todo globalizado. Você também tinha essa necessidade de voltar pro Brasil?

MR - Tinha! Tinha... Era engraçado. Porque quando eu voltava. Quando eu vinha visitar, e voltava pros EUA.Ainda que eu não dissesse que eu tinha passado 10 dias no Brasil todo mundo sabia que eu tinha acabado de voltar de casa. Do Brasil. Porque eu chegava beijando todo mundo na bochecha, e rindo alto, falando....E toda animadona assim.. Por que é uma diferença cultural muito grande.E eu acho que, de certa forma eu... essa minha saudade do Brasil ainda não passou. Eu acho que é uma coisa que... Eu sempre fui muito apaixonada pela cultura. Muito envolvida da minha maneira internamente na cultura brasileira e tal.Mas depois que eu me mudei. Claro a gente fica com mais saudade, e o patriotismo aflora e ai... daí a minha vontade de fazer a minha segunda faculdade. Que eu fiz Estudos Latino-americanos, que foi uma forma que eu encontrei de estar mais perto do Brasil ainda que através dos livros, da história, da literatura, da língua. Estudei Espanhol, fiz cursos com professores brasileiros sobre literatura brasileira...É história da América Latina. Desenvolvimento político de algum país específico, que não deixa de ser semelhante com o Brasil. Então foi a forma que eu encontrei de estar perto.

CBN -
Você está revelando ai, uma formação política imensa. Você acompanhou a história do Brasil recente agora. História que eu quero dizer até ontem, por exemplo. Até agora ao meio-dia. Nesse burburinho todo você estava fazendo o segundo trabalho agora. Estava gravando.

MR - Exatamente. Eu estava trancada em estúdio.

CBN -
E isso interfere por que de alguma forma muda o humor.'Eu tô produzindo um trabalho nesse país. Gosto desse país. E tô vendo coisas que são...".

MR - Pois é. Frustrante né!

CBN -
Absolutamente frustrante. O que te incomoda mais nesse...

MR - Pô... Tanta coisa né. Mais falar nas necessidades de mudanças. Pô tem que mudar. Todo mundo sabe disso. Todo mundo fala disso.Os próprios políticos fazem suas campanhas calcadas nessas mudanças de reforma política, reforma... Todas as reformas possíveis e imagináveis. Isso todo mundo já sabe, mas...

CBN -
Todas, até do puxadinho. Tem que fazer reforma até do puxadinho, todo mundo fala de reforma, mas ela não sai né!

MR - [risos] O lance é... Acho que pra mim o que fica mais gritante é o lado humano da coisa. É a pessoa que sai do seu escritório, fecha a porta, entra no carro, liga o som, ouve a CBN, feliz da vida indo pra casa. Chega em casa abre a porta: "E aí amor, como foi o dia." Beija a mulher. Senta na mesa pra jantar com os filhos: "E aí como foi a escola, como foi o dia" tal, tal ,tal. Entra no quarto e dorme... Depois de ter feito uma caca. Depois de trair tanta gente. A confiança de tanta gente. Os sonhos de tanta gente. A... a consciência coletiva. A alto estima de um povo inteiro. De um povo bonito né, que é o nosso. Guerreiro. Que sobrevive, muito mais do que vive.

CBN -
E que trabalha muito embora que a gente seja levado a acreditar que não né.

MR - Exatamente! Muito pelo contrário. Como consegue dormir.

CBN -
E dormem muitas vezes em hotel 5 estrelas.

MR - Com um monte de gente em volta. É... Essa pra mim é a frustração maior. Eu fico indignada... Indignada e triste.Pelo povo.

CBN -
Aliás, acho que temos uma situação realmente.... Acho que esse depois do caso dos anões do orçamento e do Fernando Collor, talvez seja o momento mais critico da política recentemente. Dos últimos... É nós tivemos uma redemocratização.

MR - Exatamente.

CBN - Bom mas você estudou os Latino-americanos todos aí. Somos uma democracia recente né.

MR - Completamente.

CBN -
Então. Ninguém faz uma democracia perfeita em 20 anos.Alias nem os que têm a mais tempos são perfeitas tem uns problemas enormes. Mas esse tempo de maturação, você concebe bem!? Por que é duro você ser contemporâneo de uma coisa. Porque a gente tem pressa, todo mundo tem pressa. Pra que as coisas aconteçam. Dá pra viver com essa mudança, apesar das frustrações todas?

MR - Eu acho que a gente tem que viver né. Aquela famosa frase mal educada pra dédeu: "Os incomodados que se mudem". E tem aquela coisa. Acho que a gente tem suporte sim. E tá todo mundo muito envolvido, Justamente pelo processo da redemocratização.Como o povo todo ficou muito envolvido nisso tudo. E... Nas ruas, nas faixas, nas músicas, nos teatros, enfim em tudo que é.... em todas as expressões possíveis. E até mesmo com a eleição do Lula.Acho que foi um passo muito importante pra esse processo de amadurecimento. Mostrar que a gente também tem uma... Pessoas que... Até mesmo essa coisa do trabalhador né... De como o povo é trabalhador. Então eu acho que dá pra ter essa consciência. Mesmo que passando pelo olho do furação né!

CBN -
Você está decepcionada com o momento ou com esse governo? Onde a decepção está maior.

MR - Com o momento. Porque eu acho que vem vindo de muitos e muitos anos, de décadas. Não é uma falha somente desse governo.Não tô pregando à favor nem contra ninguém. Mas acho que é uma realidade. E isso vem vindo de décadas.

CBN -
Eu tô tocando nesse assunto. Confesso que não sabia dessa sua. Do seu estudo Latino-americano, e nós latinos temos uma série de coisas pra discutir sobre nós mesmos.Agora dessa sua coisa de estudar o assunto e se envolver porque é uma cidadã brasileira e vive aqui e tá passivo em relação a tudo isso. Essa situação hoje. Você acha que as coisas... evidentemente tudo resolvido no voto. Ainda bem, ninguém pensa mais em golpe.

MR - Ainda bem! Mesmo que seja obrigatório.

CBN -
A então você é contra o voto obrigatório?

MR - Não, eu acho interessante essa condição do brasileiro, do voto... De sermos uma democracia, e o voto é direto. Né! Eu lembro de um professor uma vez na faculdade. Comentou, sem saber que eu era brasileira, num desses cursos sobre América Latina, falou que o país mais democrático no papel, do mundo era o Brasil. No papel!. Por que o voto era direto. E por uma série de condições. Ai eu levantei a mão e falei: "Mas o senhor está se esquecendo de que o voto no Brasil é obrigatório".E ele ficou derrubado: "É verdade, mas mesmo assim". É só pra lembrar...Então é uma condição interessante que, levantando uma polêmica aqui, até possibilita as fraude né. De um povo que não está preparado pra votar né.

CBN -
E quando o artista, por exemplo, divulga o voto dele. É um cidadão, ele pode fazer isso a qualquer momento, mas também tem o lado artista que influência de alguma maneira. É bom o ruim, quando o artista se manifesta, ou participa de campanhas políticas, o que também é direito dele na condição de cidadão. Não é aquela coisa, não é artista não pode, não dá pra fazer aquela mensuração dessa maneira. Você se sentiria bem num palanque?

MR - Não! Não, Eu acho que eu... É delicado né acho que cada um tem um momento, eu tenho meus envolvimentos até...Página dois. O lance de estar num palanque, de estar assinando em baixo de uma coisa que é muito arriscado você colocar a sua mão no fogo por uma outra pessoa, por outros valores, e outras condições né. Por mais que eu acredite naquela pessoa, eu sei que as condições, envolvendo aquela situação de um presidente, de um prefeito, de um governador, às vezes impossibilitam a realização de progresso, então eu não quero esse peso pra mim, de ter... De apoiar uma coisa que talvez não possa acontecer. Enfim, eu não sei, acho delicado, eu não prefiro. Eu não me envolvo nesse sentido não.

CBN -
Bom vamos falar um pouquinho dessa sua fase em Nova York. Pra lembrar de novo, o César Camargo, veio aqui e disse que te marcava ali.Foi fácil conviver, porque você era a menininha da casa, tinha isso né!Seus dois irmãos ali, marcando pressão, seu pai, que você fez tipo aqui dizendo que ele era mais liberal.

MR - Fiz um charminho. Um charminho...

CBN -
Um charme. Como é que foi ser a única menina da casa.

MR - Eu fui a menina da casa até os 9 anos, ai depois nasceu minha irmã do último casamento do meu pai com a Flávia, minha mãe de criação, hoje tem 19 anos ela, então, eu sempre fui a menininha da casa, ai quando nasceu a minha irmã, tiveram duas menininhas , e eu fiquei amarradona, brincava, e cuidava dela. Continuei sendo a menininha por que quando ela tem 1, eu tenho 10 né! Eu tenho 20, ela 10, então são quase uma década de diferença de idade. Então quando eu sou adolescente ela é muito pequenininha, e os cuidados são outros. Então eu continuei sendo a menininha. Era muito engraçado, muito protegida, sabe?!Eu adorava andar na escola tendo meus dois irmãos me protegendo total dos perigos do mundo, da vida [risos]

CBN -
Guarda-costas sanguíneos ali hein.

MR - Ô, completamente.

CBN -
Não tem como não deixar de proteger a irmã.

MR - É! Até as meninas chegavam queriam se aproximar, querer desenvolver amizade, porque meus irmãos eram gatos né! João e Pedro, epâ! Gatos.

CBN -
Ai o interesse era sempre chegar perto de você pra, poder estar perto deles é isso!

MR - Com certeza. Era horrível. Estressante.

CBN -
Depois do primeiro trabalho. Aliás, você tem uma família onde todo mundo é músico. E você está assinando a produção deste seu novo CD agora?

MR - Exatamente.

CBN -
A participação na produção do primeiro CD foi um pouco menor é isso?

MR - Aham. Exatamente.

CBN -
Eu li em algum lugar que você foi co-produtora, agora você é produtora também. E a família participa de alguma forma, da pitaco, você liga "Ô to em dúvida, não sei se eu escolho essa, ou aquela música". Como é que é essa seleção do repertório todo.

MR - É muito mais próximo do meu pai, e da Flávia que também é envolvida com música já, desde que é muito pequena, não musicista, mas grande admiradora.

CBN -
O aquário é o mesmo né! Não tem como não nadar.

MR - E... Mas não é tanta, a gente tem uma coisa muito nossa que é, primeiro que nós somos família, então quando eu ligo em casa, eu não estou falando com o César Camargo Mariano maestro, produtor, pianista, arranjador... Eu tô falando com meu pai. Então tem aquela coisa: "Tô com um dilema, num sei o que nã nã nã...". Ó é experiência. É muito... Pode ser tanto disso quanto de desilusão amorosa, sabe assim. Então o envolvimento é muito familiar, muito mais que profissional. Papai sempre dá uma opinião ou outra, super valiosa. Eu brinco que meu pai é meio Buda, ele fica quieto, quieto, quieto, ai solta uma pérola, que muda todo o cenário da coisa, sempre sensacional, sempre intuitivo, sempre sensível, direto, é maravilhoso. Então tem um pouco disso, mas não é declaradamente profissional, eu não estou ligando pra falar com o produtor, estou ligando pra falar com meu pai, sabe.

CBN -
A vantagem é que ele é produtor, maestro e tudo mais.

MR - Exatamente. Ai ele se relaciona e entendo um drama, um dilema.

CBN -
Mas ele sempre é tranqüilo contigo. É?

MR - É. Ele é tranqüilão. Aprendeu a ser né. É totalmente tranqüilo.

CBN -
Seu irmão quando esteve aqui, o João, escuta como é que é pra você esse negócio de comparação, da sua irmã com sua Mãe. "Olha as pessoas podem comparar, mas pra mim ela é minha irmãzinha, vocês dizem isso, mas pra mim ela é minha irmãzinha, que eu levava pra escola...". Aliás, ele contou que era seu guarda-costas, com outras palavras, mas contou, isso ai também. Eu perguntei, e como é que é essa relação musical, vocês discutem música também. Ele falou "A gente discute, mas é a resposta é muito semelhante, porque é uma coisa família, uma coisa natural.Do mesmo jeito é 'você vai com que carro hoje?', 'a você vai ao cinema?!'"

MR - "A você ouviu aquele disco..." Não difere de uma conversa que eu possa ter com um amigão meu. "Pow, você viu disco novo de num sei quem. - Vi. - E o que você achou. - Ah meia-boca, achei isso, achei aquilo, pow sensacional hein".É muito natural.

 

Ouça a primeira parte da entrevista exclusiva com a cantora Maria Rita

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