Home Do Fundo do Baú Abrindo o Baú Revirando o Baú Coisinhas do baú Baú no Orkut Contato
     
 

Revista Época de 06 de Maio, 2002

 
   

No Dia das Mães, a dor e os segredos de quem precisa enfrentar uma realidade invencível:a ausência materna...
By Alexandre Mansur, Beatriz Velloso & Paula Pereira

   
   

 

É para sempre a perda, a dor, aquela falta que dia a dia se converte em mais saudade. "Estou preparada. Houve os cinco anos sem Elis, os dez, os 15, os 20, e assim será. Minha mãe não morreu, ela continua", diz Maria Rita Camargo Mariano, enquanto gira as três argolas da aliança Cartier no dedo anular da mão direita, num gesto ansioso. Em uma delas, está inscrito o próprio nome - Maria Rita. Nas outras duas, o nome de seus dois irmãos - João Marcello e Pedro.

O anel, jóia inseparável da cantora Elis Regina, é a perfeita tradução de um vínculo sedimentado na ausência: Elis faleceu na manhã de 19 de janeiro de 1982, no auge da fama, vítima de overdose. Foi-se a cantora, aos 36 anos, mas logo nasceria o mito, pronto para ser eternizado. "A última imagem que guardo comigo é a de vê-la deitada no caixão, cercada de desconhecidos", rememora Maria Rita, que na ocasião estava com 4 anos. Num velório marcado pela comoção nacional, a garotinha passou de colo em colo durante horas, sem nada entender. "Eu só queria que aquelas pessoas deixassem minha mãe dormir", revela
Estudiosos do comportamento humano não se arriscam a definir, com precisão, a idade-limite para uma criança reter memória imagens de quem a gerou. São processos que dependem de fatores pessoais, circunstâncias familiares, herança cultural.
Maria Rita lembra-se da mãe como o epicentro da vida num chalé cercado de árvores, na Serra da Cantareira, na Zona Norte de São Paulo. Recorda-se de Elis depilando a perna. Soube que a mãe costumava fazer ela mesma as unhas, hábito que Maria Rita também tem.

"Eu me apeguei a pequenas lembranças, mas eram insuficientes", diz. "Ao reconstruir minha mãe, descobri que ela era uma mulher organizada, vaidosa e briguenta."

Aos 24 anos, Maria Rita administra com os irmãos o legado materno. É um trabalho sem fim : lidam com direitos de imagem, com utilização de fonogramas, com roteiros para filmes etc. O pianista César Camargo Mariano, seu pai, casou-se com Flávia - a quem Maria Rita chegou a chamar de mãe. Preocupado em proteger a filha das inevitáveis comparações, levou-a para morar nos Estados Unidos, por oito anos. Só que o mito embarcou junto: Maria Rita cresceu tomando gosto pelo canto e, de volta ao Brasil, está decidida a seguir os passos de Elis. O estilo é diferente.

A voz, idem. Um certo cacoete, contudo, é idêntico: como a mãe, fecha os olhos quando canta. "A falta que sinto dela é uma buraco que não tem como ser preenchido", lamenta.

 

 
         
1